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#Verificamos: É falso que 400 mil pessoas morreram por causa das vacinas nos Estados Unidos

Repórter (especial para a Lupa) | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
27.jan.2022 | 15h05 |

Circula pelas redes sociais um vídeo no qual uma mulher alega que pelo menos 400 mil pessoas que tomaram a vacina contra a Covid-19 morreram nos Estados Unidos. Ela atribui o dado a um suposto estudo da Universidade da Columbia. Segundo essa pesquisa, diz a mulher, o número de mortes registrados até 3 de dezembro de 2021 no Sistema de Notificação de Eventos Adversos (Vaers, na sigla em inglês) era de 19.886 e esse dado estaria subnotificado. O número real seria, supostamente, 20 vezes maior, ou seja, cerca de 400 mil mortes provocadas pelos imunizantes. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa​:

“Tem um estudo da Universidade da Columbia sobre o número de mortes atribuídas à vacina de Covid-19 que pode chegar a 400 mil pessoas (…)”

Conteúdo de vídeo publicado no Instagram que, até as 15h50 do dia 26 de janeiro de 2022, tinha sido visualizado mais de 3,4 mil vezes

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Não existe nenhum estudo da universidade norte-americana de Columbia que sugira que o número de mortes associadas à vacina contra a Covid-19 pode chegar a 400 mil nos Estados Unidos. De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês), entre 14 de dezembro de 2020 e 24 de janeiro de 2022, foram aplicadas 537 milhões de doses de vacina no país. Nesse período, dentre as 210,9 milhões de pessoas com esquema vacinal completo, foram confirmadas nove mortes — e não 400 mil — por síndrome de trombose com trombocitopenia (TTS), condição causada ou atribuída à vacina da Janssen. Até o momento, mais de 870 mil pessoas morreram de Covid-19 nos Estados Unidos.

O artigo citado no vídeo foi escrito por um professor assistente do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Columbia e por um pesquisador que não é ligado a essa instituição. Trata-se de uma pré-impressão, ou seja, um projeto de artigo que ainda não submetido a uma publicação científica nem revisado por pares. Não é, portanto, um estudo oficial e chancelado pela Universidade de Columbia. Na lista de pesquisas da instituição sobre Covid-19 (incluindo tratamento e vacinas), não consta nenhum estudo com esse teor. 

No texto, os autores analisaram dados sobre vacinação, mortalidade e tamanho da população dividida por idade nos Estados Unidos, em 22 países da Europa e em Israel para calcular uma suposta relação entre mortes registradas num intervalo de seis a 20 semanas após a aplicação das vacinas. O período estudado foi entre fevereiro e agosto de 2021. Os dados norte-americanos foram extraídos do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) e do Departamento do Censo dos Estados Unidos (Census Bureau). 

Os autores também compararam esses números com os dados de mortalidade do mesmo período em 2020, quando as vacinas ainda não estavam disponíveis, e compararam, ainda, as notificações de mortes feitas ao Sistema de Notificação de Eventos Adversos de Vacina (Vaers) — sistema esse que é autodeclaratório e não deve ser usado para fins de contagem.

A partir dessa análise e comparação de dados, eles estimaram uma possível taxa de mortalidade induzida por vacinas (VFR, na sigla em inglês), que poderia ser entre 130 a 180 mil mortes atribuídas à vacinação. Esse número, segundo os autores, supostamente sugere que os registros de mortes do Vaers estariam subnotificados por “um fator de 20”. Os próprios autores, no entanto, afirmam que se trata de uma estimativa e que outros estudos são necessários.

Vale pontuar que muitos fatores podem influenciar na análise desses dados, como a própria disponibilidade e atualização de dados do CDC e do Census Bureau. Além disso, entre as fontes citadas na pré-impressão estão autores que já foram desmentidas por basear estimativas de mortes por vacinas apenas nas notificações do Vaers. Os dados desse sistema não podem ser usados como fonte confiável porque qualquer pessoa pode reportar reações e os problemas relatados não são necessariamente confirmados.


“O Sistema de Notificação de Eventos Adversos de Vacina registra 19.886 mortes. 102.857 internações e um total de 946.461 eventos adversos devido às vacinas de Covid-19 até 3 de dezembro de 2021. Se o fator de subnotificação do estudo da Universidade de Columbia estiver correto, significa que as quase 400 mil mortes por vacina de Covid só nos Estados Unidos (…)”

Conteúdo de vídeo publicado no Instagram que, até as 15h50 do dia 26 de janeiro de 2022, tinha sido visualizado mais de 3,4 mil vezes

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Até 24 de janeiro de 2022, data da última atualização, o CDC informou ter recebido 11.657 notificações de mortes de pessoas que receberam a vacina contra a Covid-19 nos Estados Unidos por meio do Vaers. Esse número é 41,3% inferior ao citado no vídeo, que ainda usa como referência a data até dezembro de 2021. Vale ressaltar, no entanto, que esse número não significa que os óbitos notificados foram, de fato, causados pelos imunizantes. Qualquer pessoa pode reportar reações a vacinas e os problemas relatados não são necessariamente confirmados.

O próprio site avisa que os números não podem ser usados para concluir que todos os efeitos informados foram causados pelos imunizantes. Portanto, qualquer cálculo feito a partir da base de dados do sistema não leva a conclusões corretas. 

Além disso, como explicado acima, o estudo citado é, na verdade, uma pré-impressão que apenas estima uma suposta taxa de mortalidade associada às vacinas. Esses dados não foram revisados por pares, não têm a chancela da Universidade de Columbia e diferem das informações oficiais do CDC: dentre a 210,9 milhões de pessoas totalmente imunizadas nos Estados Unidos, foram confirmadas nove mortes associadas à vacina — e não 400 mil.  

A autora do vídeo é Luciana Monteiro, ex-candidata a vereadora na cidade de Natal nas eleições de 2016, pelo PSDB, e de 2020, pelo PP. Não é a primeira vez que a Lupa verifica conteúdos relacionados à Covid publicados pela ex-candidata, que costuma fazer postagens de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (PL).Em julho, ela publicou uma peça de desinformação sobre um suposto estudo da Oxford comprovando a eficácia da ivermectina, o que não é verdade. Procurada pela Lupa, ela não respondeu até a publicação desta reportagem.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Editado por: Chico Marés

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A informação está comprovadamente incorreta
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