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Luz no Fim da Quarentena: Variante mortífera

Pesquisa com 110 mil pacientes de Covid-19 demonstra que B1.1.7, a variante inglesa, é 60% mais letal do que a versão original do Sars-CoV-2

19mar2021_17h30

No 63º episódio do podcast Luz no Fim da Quarentena, José Roberto de Toledo e Fernando Reinach falam sobre um estudo realizado no Reino Unido que reuniu dados de mais de 1 milhão de pacientes e demonstrou que aqueles infectados com variante B1.1.7, conhecida como variante inglesa, tem 60% mais risco de morrer do que os infectados pela versão original do vírus. Ouça o episódio completo aqui.    

José Roberto de Toledo: Estudo feito na Inglaterra com mais de 100 mil pacientes de Covid-19 confirmou que a variante B1.1.7 é mais letal do que o Sars-CoV-2 original. Ou seja, quem é contaminado pela chamada variante inglesa tem uma chance relativamente baixa de morrer, 0,4%, mas esse risco é 60% mais alto do que o de quem contraiu a primeira versão do coronavírus. Outra conclusão dos autores é que o excesso de mortes provocado por essa variante não se deveu apenas ao fato de ela ser também mais contagiosa. Fernando Reinach explica como esse estudo foi feito e se é possível extrapolar suas conclusões para outras cepas novas, como a P.1, por exemplo, que se espalha no Brasil.

Doutor Fernando Reinach e eu vamos conversar hoje sobre um paper publicado na revista médica inglesa BMJ (British Medical Journal) que trata do risco de mortalidade em pacientes infectados com a variante B1.1.7, ou variante inglesa, em comparação com o vírus original. Diz aí pra gente o que eles acharam.

Fernando Reinach: O interessante é o seguinte: na Inglaterra, quando surgiu essa variante, chamada inglesa ou de Kent, ou B1.1.7, rapidamente eles descobriram que ela se espalha muito mais rápido e ela se espalhou pelo país muito rápido, igualzinho ao que está acontecendo aqui com a variante de Manaus, e praticamente levou o sistema inglês quase ao colapso. Logo no começo, o pessoal que estava tratando no hospital falou: “Olha, essa variante mata mais do que a variante anterior.” Daí todo mundo falou: “Não, isso pode ser porque o sistema está quase colapsando, nós estamos trabalhando feito uns loucos aqui no hospital, não está dando para tratar do melhor jeito possível as pessoas como a gente tratava sei lá um ou dois meses atrás.” É a mesma coisa que vai acontecer aqui no Brasil. Você tem UTIs cheias, gente no corredor. Mesmo que seja a mesma variante, a mortalidade cresce.

José Roberto de Toledo: Nunca morreu tanta gente por dia quanto está morrendo agora.

Fernando Reinach: Então tá morrendo mais porque você não está conseguindo tratar ou porque a variedade mata mais? Isso ficou em suspenso e eles fizeram um estudo para verificar cientificamente a epidemia se isso for verdade ou não. É muito interessante entender como é feito esse estudo.

José Roberto de Toledo: Até porque a gente deveria replicar aqui, né.

Fernando Reinach: É, pra gente saber se a variedade de Manaus mata mais ou não. A gente vai ter que fazer. Então, o que eles fizeram: pegaram nos hospitais ingleses todas as pessoas que estavam se infectando durante a subida do pico, e daí pegaram cada pessoa dessa e viram se a pessoa tinha a variante nova ou a variante antiga.

José Roberto de Toledo: Eles pegaram de 1º de outubro do ano passado até 28 de janeiro deste ano.

Fernando Reinach: Aí pegaram todas as pessoas que tiveram diagnóstico positivo de Covid, e aí eles fizeram um pareamento.

José Roberto de Toledo: E, quando estamos falando de todas, são quase 2 milhões de pessoas, não é pouca coisa, não.

Fernando Reinach: Exatamente 1.911.962 pessoas. E aí eles tentaram fazer pares. Teve vários filtros, e pegaram um grupo de pessoas que tinha a variante nova e a variante velha. E aí, para cada pessoa que tinha a variante nova, ou uma pessoa que tinha a variante velha, eles acharam uma pessoa da mesma idade do mesmo peso da mesma raça tratada no mesmo grupo de hospital na mesma época, porque não é justo se comparar um cara que foi tratado antes do pico com outro que foi tratado durante o pico. E aí eles criam esses parzinhos. O cara que foi diagnosticado no dia 10 é branco tem peso alto, diabetes, e tem variante antiga. Aí eu acho outro cara da mesma idade, tratado na mesma época que é obeso e tem diabetes e foi tratado exatamente na mesma época, mas tem a variante nova. Então eles fizeram 54.906 pares.

José Roberto de Toledo: O que é incrível, né, vamos falar a verdade.

Fernando Reinach: Então, a amostra total são 109.802 pessoas que foram tiradas de 1,9 milhão. Você vai filtrando, vai filtrando. Tem um cara que é tão diferente que você não consegue achar o par, ele é jogado fora. E aí você faz todos esses pares e depois você olha quem morreu. No grupo de 54 mil, 906 pessoas que tiveram a variante nova, 227 morreram. No grupo de 54.906 parzinhos, morreram 141. Ou seja, 227 versus 141.

José Roberto de Toledo: Grosso modo, é 4,13 por mil na variante nova versus 2,57 por mil na variante velha, o que dá uma diferença de quase, mais ou menos, 60%.

Fernando Reinach: Mais ou menos 60%. Então se vê que, na variante antiga, 0,26%, que é o que a gente sabe desde a época da China, que é entre 0,25 e 0,5% que é o que morre. Agora, com a variante nova, esse número é quase o dobro, é 1,6 vezes maior.

José Roberto de Toledo: Sendo que o intervalo de confiança é 30% a 100%

Fernando Reinach: É 1,3 a 2. Então se tem 1,6 vezes maior chance de morrer se pegar nova variante inglesa.

José Roberto de Toledo: Tendo os mesmos cuidados nos mesmos lugares e as mesmas características individuais.

Fernando Reinach: Então a conclusão é que a variante inglesa realmente mata mais. E a gente volta na nossa discussão da semana passada. Isso vale para a variante inglesa, não vale para a variante de Manaus.

José Roberto de Toledo: A gente não sabe nada sobre a mortalidade da variante P.1.

Fernando Reinach: A impressão das pessoas é que mata mais. Mas aqui está a mesma discussão, mas também está tudo superlotado, pode estar morrendo mais. A impressão é que pega mais gente jovem, mas a gente não sabe, porque tem mais gente jovem que não respeita o distanciamento social. A diferença agora é isso que a gente discutiu da outra vez. É um resultado interessante para os ingleses e eles têm que se preocupar com isso. Da mesma maneira que eles mostraram que se espalha mais, e portanto é preciso mais medidas para segurar o espalhamento, agora eles sabem que mata mais também. Agora, aqui no Brasil, não dá para saber, porque pode ser que mate menos aqui no Brasil, pode ser que mate igual e não vai ter jeito, a gente vai ter que fazer.

José Roberto de Toledo: Com uma base de dados tão organizada quanto nós temos, vai ser fácil tirar essa amostra de dois milhões e chegar em 55 mil pares.

Fernando Reinach: E eles também têm uma definição de morte muito rígida. Na Inglaterra é contado como morte por covid uma pessoa que morre nos 28 dias seguintes ao diagnóstico.

José Roberto de Toledo: Se morrer no vigésimo nono não entra.

Fernando Reinach: Qual a razão disso? É porque, se você começa a prolongar esse prazo muito, o cara pode morrer de outras coisas. Então não é porque você teve Covid há seis meses atrás que se você morrer hoje é Covid, então tem que ter um critério, e o critério inglês é de 28 dias. Então ele explica isso, fala: “Bom, mas se as pessoas ficarem internadas mais tempo e depois morrerem, não entram na estatística.” Ele fala: “Isso mesmo, não entra.”

José Roberto de Toledo: Ou seja, pode ser maior a mortalidade. Quando a gente fica comparando as taxas de mortalidade através do mundo, a gente nem sempre lembra que cada país tem a sua definição do que é um morto por Covid. Portanto, de acordo com a definição, muda também a estatística. A Bélgica aplica a definição muito ampla sobre o que é morto por Covid e por isso tem uma taxa por 100 mil habitantes enorme de mortalidade.

Fernando Reinach: Até o fim do ano passado, tudo isso complicava, mas o vírus era o mesmo. Agora tem tudo isso, complica mais, o vírus diferente tem mais um fator de complicação, e você tem que levar isso em conta. No passado você falava: “Ah, o Brasil tem uma taxa de mortalidade diferente da Bélgica por isso, porque a população brasileira é assim, porque o clima é tal, porque eu não sei o quê, é a cultura… Ninguém falava que poderia ser o vírus. Agora que continua sendo tudo isso e tem mais um problema: o vírus também é diferente agora. 

José Roberto de Toledo: É exagerado a gente dizer que a gente está entrando numa fase em que são várias epidemias simultâneas e concomitantes em lugares diferentes ou no mesmo lugar?

Fernando Reinach: O “diferentes” aí tem que ser cuidadoso, porque os vírus são diferentes mas não são muito diferentes. Não é que o vírus da Bélgica faz cair a tua unha e o outro te mata de pneumonia, os dois te matam de pneumonia. Um é variante do outro. Então, a biologia geral do vírus não deve ter mudado radicalmente, mas algumas características mudam. Nesse aspecto, usar a palavra com cuidado está correto. São coisas diferentes acontecendo em diferentes lugares do mundo.

José Roberto de Toledo: Agora isso significa, mais uma vez, que precisamos fazer o sequenciamento dos vírus em larga escala, coisa que a gente continua sem fazer, justamente para deter uma base de dados como essa inglesa para poder fazer o estudo, não?

Fernando Reinach: A diferença é que lá eles têm uma cultura científica centenária. Darwin nasceu lá, Newton nasceu lá, e os caras há meses atrás já estavam sabendo que mais cedo ou mais tarde iam precisar conhecer esse vírus. Entendeu? Não esperaram aparecer. Eles sabiam que precisavam do banco de dados para organizar os bancos de dados, eles têm uma tradição nesse tipo de coisa. Aqui a gente não consegue nem saber o que está acontecendo. Se você pegar os boletins da Secretaria de Saúde da cidade de São Paulo que compõem o boletim de hoje, você vai ver lá que tem aumento de casos porque os dados que eles puseram hoje devem ser de testes de não sei quanto tempo atrás. Então o dado epidemiológico que a gente controla, ele tem um atraso. 

José Roberto de Toledo: Portanto não é um alerta. 

Fernando Reinach: O alerta hoje é enchimento de UTI. Ah, encheu a UTI. Puxa, então os dados da prefeitura daqui duas semanas devem começar a subir, quando devia ser o contrário. Os dados estão começando a subir, precisamos organizar as UTIs.

José Roberto de Toledo: A gente acaba recorrendo a estatísticas meio capengas, como por exemplo o percentual de testes positivos sobre o total de testes, que em Araraquara chegou a dar 50%, ou seja,  a cada dois testes feitos, um dava positivo lá, quando a cidade foi fechada e ninguém nem podia andar na rua, e agora caiu para 20%. Mas tem que ficar improvisando, continuamos no improviso.

Fernando Reinach: Você pega na Inglaterra. Eles estavam fazendo mais de 1 milhão de testes por dia, e está dando 25 mil positivos. Quando se testa tanto e a porcentagem de positivos é baixa, apesar de estar no pico, esses 25 mil são praticamente todo mundo que ficou doente, porque você testou mais 1 milhão e tantos que não estavam doentes. Se você falar: qualquer pessoa com qualquer coisa vem aqui testar, aqueles 25 mil positivos provavelmente representam todo mundo infectado. Em Araraquara, você testa 10 e 5 dão positivo, você fala: pô, mas e se eu testasse mil. Então todos esses problemas que a gente tem, uma parte a gente conseguia resolver se apoiando nos dados internacionais. Agora tem muito que se apoiar, se você for lá na Inglaterra eles te ensinam como é que faz um estudo desses com maior prazer, só você pedir um zoom com o cara lá e ele te ensina. Aí você tem que sentar no banco de dados aqui e ver se dá pra fazer. Você vai descobrir que não dá.

José Roberto de Toledo: Especialmente porque você não vai conseguir separar quem é variante P.1 de quem é quem é variante B1.1.7, de quem é o vírus original, porque não tem sequenciamento em massa.

Fernando Reinach: Aí uma parte das pessoas não tem o peso, você não consegue fazer o Match por peso, daí outra ficha não tem idade, que mesmo na Inglaterra eles jogaram um monte de dados fora por falta de completude na ficha. Mas, mesmo assim, começaram com 1 milhão e tanto, eles conseguiram esses 110 mil.

José Roberto de Toledo: Bom, é só pra não deixar passar, Fernando, a gente teve várias notícias essa semana desde que a gente gravou o penúltimo da quarentena sobre a variante brasileira, e aquele estudo que você trouxe pra gente mostrando que a eficácia dos anticorpos de quem tinha já tido Covid e quem tinha sido vacinado pela CoronaVac davam resultados diferentes, e tudo de quase meia centena de pesquisadores brasileiros de várias universidades. E daí vieram notícias de que tanto a AstraZeneca quanto a CoronaVac supostamente conseguiriam dar conta da variante P.1, chamada variante de Manaus. Mas é uma notícia em off, não tem dado.

Fernando Reinach: O que está acontecendo agora é que as pessoas estão dizendo que aquele estudo talvez esteja errado. Eu acho que a gente tem que admitir que um estudo de poucas pessoas talvez esteja errado, mas é um estudo que mostra os números. Estão lá os números, o nome de quem fez está lá. Então quem assinou aquilo mandou para a Lancet, e a Lancet achou que precisava colocar nos pré-prints, todo mundo achou que tem um mínimo de credibilidade. Não dá para comparar isso com uma fonte anônima ou com o diretor do Butantan dizendo: “Olha nós repetimos, não é assim.” Então perfeito, eu também adoraria que ele tivesse errado, mas então me mostre os dados que provam que aquele cara tá errado. Ciência é assim, não tem jeito! Você tem que mostrar os dados, o que vale é o dado. Quando a gente chega aqui, discute aquele resultado, a gente fala: “Olha, tá aí, são essas pessoas que fizeram esses experimentos, tá aqui os problemas, são só oito pessoas mas mostra que não funciona.” Aí o outro lado tem que falar: “Tá errado.” Mas não basta falar que tá errado, tem que falar: “porque eu fiz eu repeti com, sei lá, 600 pessoas, tá aqui os meus resultados e por isso que eu acho que está errado.” Debate científico ocorre dessa maneira, não ocorre através de vazamentos, Twitter, informações em off para agências de notícias. Essa é a maneira que a política opera, mas a ciência não é assim.

José Roberto de Toledo: Ou não deveria ser. 

Fernando Reinach: É igual eficácia da CoronaVac. Ah, não tem dado, ah, é um pouco menos de 90, ah, é 70 mas não vou mostrar os dados. Chegou uma hora que teve que mostrar os dados para a Anvisa, é 50. Ah, tá bom, a gente sabe que são 50, mas nem esses dados de 50 ainda foram publicados, mas a gente acredita porque a Anvisa olhou, ela fez uma apresentação, tem um powerpoint da Anvisa mostrando e tal. Mas não foi publicado ainda. Então essa cultura de você difundir ciência na base do Twitter é muito ruim.

José Roberto de Toledo: Queremos os dados, não é uma questão de picuinha, é uma questão de necessidade.

Fernando Reinach: Todo mundo adoraria não ter mais nenhum problema com a CoronaVac, mas a gente precisa dos dados. Porque se esses dados confirmam aqueles estudos, precisamos ter um plano B no Brasil, e quanto mais cedo a gente souber se precisa de um plano B ou não, melhor. Então é uma questão de deveres, não só do cientista, mas um dever perante a população, porque é a estratégia que nós adotamos, nós adotamos essas duas vacinas. Então a gente precisa ter certeza que elas funcionam muito bem.

José Roberto de Toledo: Dr. Fernando Reinach, mais uma vez, muito obrigado.

Fernando Reinach: Alô Toledo, um abraço, tchau. 



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