anais da posse

“Maçãs envenenadas” assombram a posse de Bolsonaro

Repórteres foram obrigados por seguranças a morder frutas que levaram como lanche para provar que não tinham veneno ou ocultavam algum objeto

Josette Goulart
01jan2019_15h35
ILUSTRAÇÃO: ISABELA DA SILVEIRA

Maçãs e bananas não passaram incólumes nas revistas de segurança feitas para a entrada da imprensa na cobertura da posse presidencial. Quem se arriscou a levar uma fruta como lanche teve que dar uma mordida na frente do segurança ou cortá-la em pedaços. O objetivo era saber se havia veneno ou algum objeto dentro das frutas, que poderia representar alguma ameaça ao presidente Jair Bolsonaro.

Agentes do Planalto dizem que este é um procedimento padrão para qualquer evento presidencial, mas admitem que neste novo governo os padrões de segurança serão alterados. O discurso é quase sempre o mesmo: este é um presidente que já sofreu um atentado, o que justificaria os cuidados redobrados. No caso das frutas, a preocupação é de que alimentos bons sejam trocados por outros que façam mal à saúde, dentro do próprio Planalto.

Um coronel do Gabinete de Segurança Institucional, o GSI, que conversou com a reportagem mas não quis se identificar, estranhou o procedimento. Ele diz que é possível identificar elementos contagiantes pelos scanners do raio X. Mas reforçou que a segurança no governo Bolsonaro será muito diferente do que foi feito até agora. “Somos um país do Carnaval, as pessoas gostam da festa e estranham quando existe uma segurança mais rigorosa. Mas precisamos reforçar a segurança como acontece em outros países, e mostrar a todos que estamos preparados para evitar atentados”, disse o coronel.

Era preciso levar os lanches porque os jornalistas tiveram de se apresentar cedo, a partir das 7 horas, no Centro Cultural Banco do Brasil, o CCBB, onde seguiriam de ônibus para a posse no Congresso, Palácio do Planalto e no Itamaraty. E ficariam nesses lugares, em cercadinhos demarcados para a imprensa, até as 17 horas, quando seriam levados de volta ao CCBB pelos mesmos ônibus.

No Congresso Nacional, a polícia do Senado foi além. Repórteres fotográficos credenciados para as galerias disseram que foram informados que só poderiam consumir alimentos dentro dos banheiros, por ordens expressas da polícia. A segurança do Congresso é de responsabilidade da polícia do Senado e não tem relação com o GSI ou a segurança da Presidência.

O Palácio do Itamaraty é o único local onde os jornalistas não tiveram maiores restrições para comer. Um bufê foi montado no local, além de uma sala de imprensa. No Palácio do Planalto, jornalistas tiveram de sentar no chão, sem comida e sem água desde as 7 horas, horário de chegada exigido para quem fosse cobrir a posse.

Mais de 1 mil jornalistas estão cobrindo o evento nesta terça-feira em Brasília, entre eles 155 estrangeiros de 28 países diferentes. Desde a semana passada, os profissionais da imprensa foram informados que deveriam levar seu próprio alimento para consumo. Foi especificado que garrafas não seriam permitidas. Mesmo assim alguns repórteres passaram pela segurança com garrafinhas de suco sem terem que provar a bebida na frente dos policiais. Já as maçãs tiveram de chegar ao Planalto mordidas.

* Com a colaboração da repórter Consuelo Dieguez.

Josette Goulart (siga @JosetteGoulart no Twitter)

Repórter investigativa e documentarista. Trabalhou no Valor Econômico, O Estado de S. Paulo, entre outros

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