Igualdades

Mais contagioso que o coronavírus

Amanda Rossi e Renata Buono
10fev2020_09h33

O Brasil teve 16 mil casos de sarampo em 2019, o maior número em 22 anos. Apenas três anos antes, o país recebera da Organização Mundial de Saúde o certificado de eliminação do vírus. Entre 2016 e 2017, nenhum novo caso foi registrado. Já em 2018, o sarampo voltou, e o Brasil teve 10 mil casos confirmados – 99% na região Norte, vizinha da Venezuela, que vivia um surto da doença. Em 2019, a crise migrou para o Sudeste. Entre as doenças infecciosas graves, o sarampo é a mais contagiosa – cerca de quatro vezes mais que o novo coronavírus. Para conter seu avanço, é preciso que 95% da população esteja vacinada. Mas, a partir de 2017, as taxas brasileiras caíram abaixo desse patamar. Outra virose conhecida dos brasileiros, a dengue, matou 782 pessoas em 2019 no país. O =igualdades desta semana explica o aumento de casos de sarampo no Brasil.

Ao longo de dezesseis anos, entre 2002 e 2017, o Brasil teve 1,5 mil casos de sarampo. Em 2018, o número de casos chegou a 10 mil. Em 2019, a 16 mil. Para cada caso de sarampo entre 2002 e 2016, o Brasil registrou outros sete em 2018 e onze em 2019.

A volta do sarampo ocorreu primeiro na região Norte. Em 2018, de cada 100 casos, 95 foram no Amazonas, 3 em Roraima, 1 no Pará. Em seguida, o sarampo migrou para o Sudeste. Em 2019, de cada 100 casos, 89 foram no estado de São Paulo, 4 no Paraná, 2 no Rio de Janeiro, 1 em Santa Catarina, 1 em Pernambuco, 1 em Minas Gerais.

Em uma população não vacinada, uma pessoa com sarampo é capaz de transmitir a doença para outras 13 pessoas. É um dos vírus mais contagiosos de que temos conhecimento. No caso do novo coronavírus, uma pessoa infectada pode transmitir a doença para outras duas ou três pessoas.

Para conter uma doença com o nível de contágio do sarampo, é preciso que cerca de 95% da população esteja vacinada. Entre 2002 e 2016, a cobertura da primeira dose da vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, ficou acima desse percentual. Mas caiu para 91%, em 2017. Após a campanha de vacinação de 2019, voltou a superar 95%, segundo o Ministério da Saúde.

A primeira dose da tríplice viral só é dada a partir de 1 ano de idade. Por isso, bebês com menos de doze meses são o grupo mais vulnerável em momentos de surto de sarampo. Entre julho e dezembro de 2019, 15 de cada 100 pessoas contaminadas com sarampo tinham menos de 1 ano, de acordo com o Ministério da Saúde – apesar de serem apenas 1 de cada 100 brasileiros.

O sarampo está longe de ser a única doença infecciosa que preocupa o Brasil. Em 2019, o país teve 8 casos de sarampo para cada 100 mil pessoas; 63 casos de chikungunha para cada 100 mil pessoas; 735 casos de dengue por 100 mil pessoas. Para cada 1 pessoa com sarampo, 8 tiveram chikungunya e 92 contraíram dengue.

O sarampo é mais grave do que a chikungunya e a dengue. Proporcionalmente, mata mais. Em 2019, 15 pessoas morreram por sarampo no Brasil, o maior número em três décadas. Isso corresponde a 9 mortes a cada 10 mil casos. Já a chikungunya provocou outras 92 mortes, 7 para cada 10 mil casos. A dengue matou 782 pessoas, 5 a cada 10 mil casos.

Fontes: Johns Hopkins University; Organização Mundial da Saúde, Ministério da Saúde; professor Marc Lipsitch, da Universidade de Harvard; National Center for Biotechnology Information; Johns Hopkins School of Public Health; Center for Communicable Disease Dynamics.

Amanda Rossi

Jornalista, trabalhou na BBC, TV Globo e Estadão, e é autora do livro Moçambique, o Brasil é aqui

Renata Buono (siga @revistapiaui no Twitter)

Renata Buono é designer e diretora do estúdio BuonoDisegno

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