Questões da Ciência

Mangas arregaçadas

Os cientistas têm uma relação ambígua com a Wikipédia, a enciclopédia on-line que pode ser editada por qualquer usuário. Embora se trate de uma fonte de informação amplamente consultada – inclusive no meio científico –, ela é vista com reticência na academia. Uma saída para esse impasse talvez esteja num maior envolvimento dos pesquisadores com essa iniciativa. É o que está fazendo uma professora de história da UniRio que criou uma disciplina na qual seus alunos criam e atualizam verbetes sobre o Império Romano.

Bernardo Esteves
14out2011_15h53
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Os cientistas têm uma relação ambígua com a Wikipédia, a enciclopédia on-line que pode ser editada por qualquer usuário. Embora se trate de uma fonte de informação amplamente consultada – inclusive no meio científico –, ela é vista com reticência na academia. Uma saída para esse impasse talvez esteja num maior envolvimento dos pesquisadores com essa iniciativa. É o que está fazendo uma professora de história da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio) que criou uma disciplina na qual seus alunos criam e atualizam verbetes sobre o Império Romano.

A iniciativa é de Juliana Bastos Marques, professora de história antiga da UniRio. A pobreza do conteúdo da Wikipédia em português em sua especialidade foi um dos motivadores dessa experiência. O conteúdo desses verbetes “muitas vezes é primário, inadequado, quando não francamente errado”, escreveu ela num texto em que explica como surgiu a disciplina.

A historiadora – ela própria uma wikipedista, como são chamados os colaboradores da enciclopédia gratuita – percebeu que uma disciplina na qual os alunos aprimorassem os verbetes seria também uma oportunidade para que eles incrementassem sua capacidade de leitura crítica e redação acadêmica. Com o aval da UniRio, ela ofereceu neste semestre a disciplina optativa “A história romana na Wikipédia”.

Marques recorreu também à Wikimedia Foundation, entidade sem fins lucrativos responsável pela manutenção da enciclopédia, e inscreveu sua disciplina no Global Education Program, iniciativa criada para disseminar o envolvimento de professores e estudantes universitários com a Wikipédia. Como ela, outros 84 professores participam de iniciativas parecidas em todo o mundo, com a ajuda dos “embaixadores de campus” – wikipedistas experimentados que orientam os novatos com as tarefas de edição.

Trinta alunos se inscreveram na disciplina criada por Juliana Marques. Parte do trabalho deles já pode ser vista no verbete “Romanização”, que discute o processo de apropriação da cultura romana pelos povos que foram progressivamente incorporados a esse império. “Esse era um verbete muito pequeno, que tinha apenas duas frases, sem qualquer referência ou fonte”, explicou Marques. “Escolhi um tema que sabia que os alunos já tinham visto, que tem gente no Brasil estudando e que é pouco discutido nos trabalhos de escola, de forma que houvesse pouca interferência externa.”

Até o final da disciplina, os alunos vão criar ou editar verbetes sobre vários aspectos do Império Romano, como religião, arquitetura, arte e sexualidade. Os progressos da turma podem ser monitorados no blog criado por Juliana Marques para acompanhar o projeto.

A historiadora considera positivo o balanço parcial da experiência, e não só porque tem permitido melhorar a qualidade do conteúdo dos verbetes. “Os alunos passaram a ler a Wikipédia de maneira crítica e entender que ela pode, sim, ser uma boa ferramenta, desde que bem utilizada”, disse Marques. “Fala-se tanto que a universidade é muito fechada em si mesma, e essa é uma boa oportunidade para mostrar o contrário.”

Wikipédia na academia
Não é de hoje que a necessidade de envolvimento dos pesquisadores com a Wikipédia vem sendo apontada. Há quase seis anos, a revista já destacava num editorial:

Os cientistas podem trazer um olhar crítico para verbetes sobre os assuntos que eles estudam, frequentemente realçando erros e mal-entendidos inseridos de forma não intencional. Eles também podem iniciar artigos sobre os tópicos que outros usuários podem não querer atacar.

Um exemplo mais recente pode ser visto na edição de verão da revista Fungal Conservation, recém-publicada. Nela, o presidente da Sociedade Internacional para a Conservação dos Fungos, David Minter, relata sua experiência pessoal ao editar quase 20 artigos de forma a destacar a importância dos fungos para a vida no planeta e conclama seus colegas a fazer o mesmo.

Uma iniciativa mais incisiva de incentivo ao envolvimento dos pesquisadores com a Wikipédia foi dada pelo periódico RNA Biology no final de 2008. Em suas diretrizes para os autores, os editores decidiram condicionar a publicação de artigos numa das seções da revista à redação de um artigo sobre o tema para a Wikipédia.

Eis uma medida que merece ser copiada no Brasil. Fica a sugestão para que as agências que custeiam a ciência brasileira (Capes, CNPq, Finep e fundações estaduais de amparo à pesquisa) exijam dos beneficiários de financiamentos que redijam verbetes sobre o tema de suas pesquisas. Uma medida como essa certamente teria um impacto palpável sobre a qualidade dos artigos de ciência da Wikipédia lusófona.

Com ou sem incentivo institucional, continua atual como nunca o apelo lançado pela a seus leitores no editorial de dezembro de 2005:

Selecione um tópico próximo de seu campo de trabalho e procure por ele na Wikipédia. Se o verbete contiver erros ou omissões importantes, mergulhe e ajude a repará-lo. Não precisa levar muito tempo. E imagine o resultado: você pode ser uma das pessoas que ajudaram a transformar uma ideia aparentemente estúpida em um recurso global gratuito e de qualidade.

(foto: Secret Pilgrim – CC 2.0 BY – SA)

Bernardo Esteves (siga @besteves no Twitter)

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo é dia de ciência, da Azougue Editorial

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