anais das redes

Márcio França, o ex-famoso quem

O pouco conhecido governador de São Paulo supera o rival João Doria em buscas no Google e interações no Facebook

Josette Goulart
05jul2018_16h53
ILUSTRAÇÃO: PAULA CARDOSO

Márcio Cuba? França? Márcio quem? O novo governador de São Paulo era um notório desconhecido no Google e nas redes sociais até pouco tempo atrás. Enquanto isso, João Doria, seu rival do PSDB, fazia da ostensiva presença online uma de suas marquetagens. Desde que Márcio França, do PSB, assumiu o lugar de Geraldo Alckmin no comando do governo paulista, passou a usar o cargo para aparecer. E os papéis começaram a se inverter. O tucano vem perdendo popularidade na internet há um ano. Já França, em ascensão, chegou a ultrapassá-lo em volume de buscas no Google e em interações no Facebook nos últimos três meses, como mostram dados das ferramentas Google Trends e CrowdTangle.

A curiosidade por França no Google começou no fim de março, com as primeiras notícias de que Alckmin deixaria o cargo para disputar as eleições presidenciais. Em 6 de abril, dia em que França assumiu a cadeira de governador, os dois rivais provocaram picos de curiosidade na internet. Naquele momento, as buscas pelo tucano foram 80% maiores. Mas isso estava para mudar.

De carona na popularidade do novo cargo, França conseguiu superar Doria em dezesseis ocasiões, ao longo de três meses como governador de São Paulo. Chegou a ultrapassá-lo também em interações no Facebook – mesmo com muito menos seguidores (33 mil na página de França contra 2,7 milhões na de Doria). Foi durante a greve dos caminhoneiros, quando se colocou como mediador entre a categoria e o governo federal.

A primeira vez em que França ultrapassou Doria em interesse no Google – considerando dados do Google Trends delimitados unicamente ao estado de São Paulo – foi em 11 de abril, cinco dias depois de assumir o cargo. Ele apareceu no noticiário por duas razões: ao dizer que o “número de homicídios em São Paulo é sensacional” e ao gravar vídeo com Bruno Covas, que havia assumido a Prefeitura de São Paulo no lugar de Doria. Com isso, França chegou ao dobro das buscas de Doria no Google.

Como reação ao surgimento de um rival, Doria partiu para o ataque. Em 12 de abril, referiu-se ironicamente ao socialista como “Márcio Cuba”, parte da tática de associá-lo à “extrema esquerda”, uma ligação que França rechaça. Disse ainda que o oponente não tem realizações para mostrar e usa a estrutura pública para “fazer política partidária”.

Na internet, os momentos de maior popularidade de França são justamente quando ele usa o cargo. Em 11 de maio, o socialista voltou a superar o tucano quando foi notícia por ter acelerado a liberação de verba a municípios do interior paulista. Outro exemplo foi quando presenteou com flores a policial militar que matou a tiros um assaltante na porta de uma escola em Suzano, na Grande São Paulo. Nessa ocasião, França permaneceu na frente de Doria durante três dias e, novamente, teve o dobro da popularidade do tucano, como mostra o gráfico abaixo.

O maior pico de popularidade de França viria duas semanas depois, em meio à greve dos caminhoneiros: no domingo, 27 de maio, sétimo dia da paralisação. Esse foi o maior pico de curiosidade sobre França no ano, em que ficou à frente de Doria novamente durante três dias, entre 26 e 28 de maio, nas buscas no Google. Depois disso, ao longo de todo o mês de junho e início de julho, os dois têm se alternado, com vantagem para Doria. A diferença entre os picos não voltou, porém, à proporção dos primeiros meses do ano.

A consequência do embate na rede veio em forma de processo judicial. Também no fim de maio, o PSDB paulista entrou na Justiça contra França, acusando-o de promover sua candidatura ao Palácio dos Bandeirantes por meio dos perfis oficiais do governo. A juíza Alessandra Barrea Laranjeiras  concedeu nesta segunda-feira uma liminar definindo multa para cada vez que França fizer discursos visando benefício eleitoral, por ver “fortes indícios de utilização de atos da Administração para promoção pessoal e eleitoral”. França disse que não foi ouvido “em profundidade” e que vai recorrer.

A análise do gráfico do Google Trends considerando os três principais candidatos ao governo paulista mostra também as dificuldades de Paulo Skaf, do MDB, de despertar a curiosidade dos internautas. Em seis meses, esteve atrás de Doria o tempo todo. E ultrapassou França em apenas um dia, 8 de junho, quando Skaf participou de sabatina em que negou conhecer pessoalmente Bolsonaro.

O desempenho de França ecoa o que houve no estado do Tocantins, onde houve um pleito suplementar em junho. E os efeitos na popularidade na internet com a mudança de comando do governo do Estado também ocorreram. O governador eleito foi Mauro Carlesse, do PHS, então presidente da Assembleia Legislativa estadual, que assumiu o governo do Tocantins em março depois que o ex-governador foi cassado por irregularidades na eleição de 2014.

Até a notícia de que haveria um pleito suplementar, Carlesse não tinha relevância nas buscas do Google. Quando assumiu o governo, isso mudou. As eleições suplementares aconteceram em junho, Carlesse venceu os oponentes Marcelo Miranda, do MDB, e Vicentinho Alves, do PR, e assumiu o mandato-tampão até dezembro.

Para Márcio França, o cargo de governador de São Paulo tem rendido audiência também no Facebook. As interações em sua página vêm crescendo desde maio, segundo dados do CrowdTangle, e chegaram a superar as de Doria na primeira semana de junho, também um efeito da atuação de França na greve dos caminhoneiros. Naquela semana, chegou a 43 mil interações, mais do que o dobro das 19 mil de Doria no período. Depois, o tucano voltou a ficar à frente, mas, também nessa métrica, não atingiu mais a diferença do começo do mês.

Os dados mostram também a baixa audiência de Skaf nessa rede social. Candidato nas últimas duas eleições ao governo paulista e presidente da Fiesp desde 2004 (exceto quando disputa eleições), ele ficou sempre atrás de França em volume de interações nos últimos seis meses, mesmo com um número de seguidores sete vezes maior no Facebook – 232 mil para Skaf, contra os 33 mil de França.

Para Carlos Melo, cientista político do Insper, mais do que tempo de tevê ou as redes sociais, o apoio dos prefeitos ainda é um fator que vai pesar em uma disputa para o governo do Estado. Enquanto foi vice-governador, França se aproximou dos prefeitos e tentou liberar verbas para as prefeituras, como ele aponta em seus próprios posts no Facebook, que relatam convênios e visitas. Também nessa estratégia, os dois rivais estão juntos nesta pré-campanha, já que Doria intensificou as visitas ao interior do Estado nas últimas semanas.

Josette Goulart (siga @JosetteGoulart no Twitter)

Repórter investigativa e documentarista. Trabalhou no Valor Econômico, O Estado de S.Paulo, entre outros

Leia também

Relacionadas Últimas

Ciro Sincero morde, Ciro Ternura assopra

Presidenciável do PDT usa o Facebook para agradar dois tipos de eleitores, o genérico e o militante; tem que amaciar sem perder a dureza jamais

Lula supera Bolsonaro no Facebook após prisão

Petista soma 7,8 milhões de interações desde 7 de abril e se torna o presidenciável mais popular na mídia social, mesmo preso em Curitiba

Nascimento, vida e morte de um factoide

A entrevista de Gleisi Hoffmann à Al Jazeera: de “ameaça terrorista” ao fim de investigação por falta de o quê investigar

Fraturas no antipetismo

Bolsonaro não consegue unificar eleitorado que é contra Lula

Marina Silva, sem voto e sem dinheiro

Doações de pessoas físicas e crowdfunding para candidatura da Rede fracassam e campanha corta custos na reta final da disputa

Hungria, França e Brasil

Por que são críveis os acenos de Haddad ao centro

“São particulares”, diz Exército sobre caminhões usados em campanha

Veículos flagrados com propaganda de Bolsonaro e que viralizaram nas redes foram vendidos pela União, mas continuam com aparência militar

Plata o plomo

Bolsonaro depende de fisiologismo ou de autogolpe para governar

Maria vai com as outras #9: Sexo como ganha-pão

A prostituta de luxo Livia Rodrigues, a dona de uma sex shop para lésbicas e bissexuais Marcia Soares e a atriz pornô Monique Lopes falam sobre os prazeres e agruras que envolvem suas profissões

E se Bolsonaro ganhar?

A violência como plataforma de governo

Os mascates do Rio

A periferia sem crédito mantém a tradição do vendedor de porta em porta

EUA devolvem fortuna à família Hawilla

Com a morte do delator do escândalo Fifa, Justiça restitui à viúva e aos filhos patrimônio de R$ 59 milhões em dinheiro e apartamento em condomínio em ilha de Miami

Merval e a democracinha*

A polarização política, os cidadãos de bem e os inimigos da vida civilizada no país

Mais textos
1

Não foi você

Uma interpretação do bolsonarismo

2

Merval e a democracinha*

A polarização política, os cidadãos de bem e os inimigos da vida civilizada no país

3

A janela de Haddad

A vulnerabilidade de Bolsonaro e a chance do candidato do PT

4

Marcos Lisboa: “Me comparar a Paulo Guedes é demais”

Cotado como ministro da Fazenda em um governo do PT, economista responde a Ciro Gomes, que o chamou de “ultrarreacionário”

5

O fiador

A trajetória e as polêmicas do economista Paulo Guedes, o ultraliberal que se casou por conveniência com Jair Bolsonaro

6

Paulo Guedes contra o liberalismo

A história mostra que uma onda de ódio só chega ao poder quando normalizada

7

Sem a elite, sem (quase) nada

Em doze anos, Alckmin sai de 45% para 6% das intenções de voto no eleitorado que cursou universidade; eleitores migram principalmente para Bolsonaro

8

Bolsonaro não queria sair da Santa Casa

A história de como a família do presidenciável dispensou o Sírio-Libanês, contrariou a vontade do candidato de ficar em Juiz de Fora e aceitou a proposta do tesoureiro do PSL de levá-lo para o Einstein

9

Antipetismo e democracia

O candidato do PT e o candidato do PSL não são dois lados da mesma moeda

10

Ciro, a vela e o dane-se

Só ele impede segundo turno antecipado entre Bolsonaro e Haddad