questões cinematográficas

Martírio – militância e arte (IV)

Três sequências de Martírio demonstram o potencial de registros feitos sob tensão ou gravados de modo oculto

Eduardo Escorel
19dez2016_16h20

Após a passagem da palavra “pressionar” para o plano geral da Praça dos Três Poderes, em Brasília (ver final do post anterior), segue-se reunião da Comissão de Agricultura e Reforma Agrária, gravada pela TV Senado. O governador de Mato Grosso do Sul (André Puccinelli, do PMDB), não nomeado no filme, acusa o CIMI (Conselho Indigenista Missionário) de ser “um braço fascista da Igreja Católica que incita, lá no meu estado, invasões”; chama a FUNAI de “Funerária Nacional dos Índios”; vaticina que haverá uma “chacina, guerra civil entre irmãos, brasileiros, não índios e índios”; declara que vai “começar a dar o direito de se defender com armas, como provavelmente os produtores rurais terão na defesa da sua propriedade, […]”, e se declarando “chocado” pelo fato do “índio que filmou” ter vendido o vídeo, exibe no telão um homem, policial aposentado e pequeno proprietário de terra, em close, caído no chão em uma poça de sangue, ferido na cabeça, com as mãos amarradas atrás das costas, implorando aos índios para ser solto.

A inclusão desse registro amador, aos cerca de 65 minutos de Martírio, é controversa. Afinal, além do seu cunho sensacionalista, invasivo dos direitos da vítima, está disponível há três anos no YouTube, onde já teve mais de dez mil acessos. Pesa a favor da inserção da cena, porém, o fato de agregar uma nuance significativa à imagem de inofensivos dada dos guarani-kaiowá, por vezes, no filme. Aceita a premissa de que eles sofrem toda sorte de brutalidade por parte dos proprietários rurais, não há como desconhecer que cometem atos de violência. Do contrário, resultaria uma percepção idealizada das condições em que vivem e atuam.

O próprio Carelli admite ter ficado chocado com o vídeo do homem gravemente ferido. Chocado também com o fato dos índios serem chamados de assassinos “já que 50 lideranças foram assassinadas nos últimos 30 anos, enquanto 3 policiais foram mortos no mesmo período”. Chocante, segundo Carelli, “é a desigualdade de forças envolvidas nesse conflito”.

As imagens do homem ferido de morte têm ainda o mérito de motivarem Carelli a investigar as circunstâncias em que foram realizadas. O vídeo suscita a ida de ele ao acampamento de retomada onde os acontecimentos ocorreram para reconstituir os momentos anteriores à cena e investigar o que está “além” das evidências.

De acordo com um dos relatos colhidos por Carelli, “quando eu vi que ele tava atirando, me escondi atrás da casa. Elana estava atrás de mim. Quando ele se aproximou, eu pulei em cima. Quando eu pulei, ele atirou em mim, mas consegui agarrá-lo pela cintura. Derrubei ele no chão.” “- Ele atirou em você?” “- Sim, mas eu consegui derrubá-lo. Fiquei segurando ele no chão e falei pros companheiros pegarem a arma. Eu não tava sentindo nada, mas, de repente, vi meu sangue escorrendo pelo corpo.” “- Ele tinha acertado a tua cabeça…”. “- Sim. Aí disseram que ele tinha um facão na cintura. E tinha mesmo. Revoltado, acertei o facão na cabeça dele. Aí me disseram pra parar. Disseram pra eu parar de feri-lo.”

Seguem-se outros dois relatos antes de Carelli perguntar, diante da câmera, “o que aconteceu” e ficar sabendo que teria sido uma índia “assim com os produtores”, “muito ambiciosa, louca por dinheiro” quem “filmou” a cena com o celular e vendeu as imagens à polícia.

Martírio 6

Três sequências de Martírio demonstram o potencial de registros feitos sob tensão ou gravados de modo oculto: a reintegração de posse em favor dos índios da pequena área de 400 hectares, no Jaguari (MS), supervisionada pela Polícia Federal, na presença do procurador-geral da República, Aristides Junqueira; a fachada da Gaspem, empresa de segurança privada, em Dourados (MS); e o leilão de gado, chamado de Leilão da Resistência, cujo propósito inicial, afinal embargado pela justiça, era “arrecadar fundos para contratar segurança privada para enfrentar os índios.”

Na reintegração de posse, Carelli aproveita a presença da Polícia Federal para entrevistar, em estilo de reportagem televisiva, o dono da fazenda e seu advogado. O advogado cita o decreto imperial de 1882, segundo o qual as terras em disputa eram “devolutas” sem mencionar serem “área indígena”. O proprietário, por sua vez, dizendo-se nascido e criado na fazenda, afirma que “não tinha índio naquele tempo […] os antropólogos fizeram aí um negócio aí, falaram que aqui diz que era aldeia, mas aqui nunca foi aldeia, nunca foi.[…] Não tem cemitério de índio. O negócio é esse, que eles inventam as coisas, um fala que moravam aqui, que tem cemitério e tanta coisa, mas não tem nada.”

Diante da sede da Gaspem, interditada por seis meses pelo Ministério Público, gravada em um só plano geral fixo, sem a presença aparente de Carelli, um funcionário da empresa vem ao encontro da câmera, andando do fundo do prédio. Ele sai pelo portão da garagem, atravessa a rua, posta-se fora de quadro e interpela timidamente a equipe (“O que é isso aí? Só por curiosidade.”). Quem responde (não parecendo ser a voz de Carelli), sempre em off, dissimula o verdadeiro motivo da gravação (“Estamos fazendo uma matéria sobre estabelecimentos comerciais em Dourados, enfim, várias questões.”). E o funcionário acaba revelando a inocuidade da interdição: “Pode reabrir com outra razão social, outro nome, essas coisas…É aquele negócio, fecharam só a Gaspem, né? Aí troca a razão social, passa pra outra empresa o mesmo serviço, né? O negócio continua. […] Então só muda a camisa, tira o Gaspem. Tira a fachada. Só que não pode exercer aqui o escritório, por exemplo… Aí passa pra outro lugar ou pra outra empresa. O serviço continua pegando… Passa pra outra empresa e continua o trabalho.”

A caracterização do “inimigo” feita em Martírio é prejudicada pela escassez de gravações de fazendeiros e políticos feitas pelo próprio Carelli e sua equipe. Ao manter distância dos proprietários rurais ganham destaque as imagens de arquivo impessoais das TVs Senado e Câmara que, nem de longe, têm a mesma significação. (continua)

 

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Parte I

Parte II

Parte III



Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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