depoimento

“A máscara já não faz parte do meu dia a dia”

Brasileira descreve sua rotina em Xangai, onde a vida voltou quase ao normal, enquanto a pandemia avança por outras partes do mundo e da própria China

Fernanda Sung
14jan2021_11h55
FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Atemida segunda onda de infecções da Covid-19 chegou com tudo no fim de 2020 e atingiu muitos países. Especialistas preveem um agravamento da situação neste mês, em consequência das festas de Natal e Ano-Novo. Mesmo a China, que demonstrava ter controlado a situação, viu o número de casos voltar ao patamar de seis meses atrás e precisou adotar novamente ações mais restritivas para diminuir a circulação do Sars-CoV-2. Algumas partes do país chegaram a entrar outra vez em lockdown, embora a média de ocorrências diárias da enfermidade esteja bem longe da registrada no Brasil. Em Xangai, porém, Fernanda Sung, de 34 anos, afirma viver ainda com poucas restrições de locomoção e sem usar máscara. 

Morando no país asiático desde 2012, a paulistana sai diariamente de bicicleta para trabalhar, ir ao supermercado ou visitar amigos. Apesar de conseguir viajar a qualquer parte da China, se quiser, e de tocar praticamente todas as tarefas rotineiras, Sung diz que muita coisa mudou do ano passado para cá e que ainda se sente um pouco presa, já que não pode rever os familiares no Brasil. Ela avalia que a quarentena rígida imposta pelo governo no início da pandemia, o uso massivo da tecnologia e a grande adesão da população às medidas de distanciamento social foram fundamentais para que hoje a situação local se mostre mais segura do que em outros lugares do planeta. 

Em depoimento a Marcos Amorozo

 

No começo de 2020, todo mundo levou um susto. Eu estava no Brasil quando ouvi as primeiras notícias sobre o avanço da pandemia na China. Costumo passar o Ano-Novo chinês em São Paulo, já que a data coincide com minhas férias. Aproveito para rever meus parentes e amigos, além, claro, de curtir o Carnaval. Eu imaginava permanecer uns dois meses na cidade, mas, em março, a companhia aérea cancelou minha volta. Fiquei alguns dias sem saber o que fazer até que consegui remarcar a passagem. Voltei para Xangai no meio de março, antes do fechamento das fronteiras. 

Assim que cheguei, enfrentei uma quarentena de duas semanas em casa. Aqui a quarentena é coisa séria. Não coloquei o pé na rua durante todo o isolamento, obrigatório para quem viesse do exterior. Eu conferia minha temperatura duas vezes por dia e informava os dados a um agente de saúde. Um voluntário aqui do bairro ficava a postos, caso eu precisasse de algo além do que podia resolver pelo celular. Usei esse tempo para organizar as vendas online dos meus produtos. Sou designer de joias e tenho uma marca há seis anos. Desenho as peças num estúdio que divido com algumas empresas independentes. A produção acontece numa fabriquinha. Eu costumava vender muito em bazares e outros tipos de eventos. Com a eclosão da Covid-19, um grupo de designers se organizou para realizar as vendas no WeChat — aplicativo de conversas em que se pode fazer um monte de coisas, inclusive transações comerciais ou bancárias. Foi bem legal! No começo da pandemia, os chineses estavam muito conscientes do impacto econômico que o país sofreria e buscavam comprar de pequenos produtores. Senti que, no fundo, certas pessoas queriam comprar alegria, sabe? Consumir fazia com que se sentissem melhores, e isso ajudou o comércio. 

Quando me falaram que eu ficaria em quarentena por duas semanas, tinha certeza de que iria poder circular normalmente depois desse período. A maneira como tudo se organizou por aqui e a intensa colaboração da sociedade me encheram de ânimo. Já no Brasil, quando implantaram o distanciamento social, disseram que duraria duas semanas, depois virou um mês e… Muitos brasileiros não colaboraram. Na China, não havia essa opção. Até porque era um prazer colaborar. Você sabia que, agindo dessa maneira, garantiria a segurança de todo mundo. O senso de cidadania e de comunidade entre os chineses é imenso. Existe um compromisso com o bem-estar geral. Pelo menos em Xangai, o esforço da população valeu a pena.

Desde que saí do isolamento, em abril, a vida segue quase normalmente. Tudo funciona como antes. Lojas, bares, restaurantes, museus, nada está fechado. O uso de máscara só é obrigatório no transporte coletivo ou em lugares públicos fechados, como shoppings. Eu, na maioria das vezes, saio de bicicleta, seja para dar uma voltinha, seja para ir a mercados ao ar livre. Por isso, dificilmente levo a máscara. Não faz parte da minha rotina. Encontro as pessoas numa boa porque não existe nenhuma restrição nesse sentido. A transmissão local do vírus já não ocorre há um tempo. 

Viagens internas também estão liberadas. No mês passado, voltei de um passeio pelo interior da China. Em compensação, não posso visitar o Brasil. Quer dizer, até poderia, só que não conseguiria retornar. O governo proibiu a entrada de estrangeiros na China, mesmo aqueles que possuem visto ou autorização de residência, como eu. Antes de viajar pelo interior, fiz um teste de Covid-19. Como o exame deu negativo, pude circular tranquilamente. Se alguma autoridade me abordasse, eu tinha o código do exame para comprovar que estava bem.

No Brasil, segundo contam minhas amigas, a sensação de insegurança é muito maior. Recentemente, uma estudante de 23 anos que chegou do Reino Unido foi diagnosticada com o vírus em Xangai, mas isso não mudou em nada a minha rotina. O governo logo controlou a situação. Na época, uma amiga de Xangai estava viajando dentro do país, e os hotéis pararam de recebê-la por causa do alerta disparado pelas autoridades.

Os celulares daqui têm um QR Code que dá acesso às informações sobre nossa saúde. Quando vou para a rua, preciso levar o telefone. Se desejo entrar num lugar público, devo mostrar o QR Code para que liberem o meu acesso. Se houver pessoas infectadas perto de mim, o celular me avisa.

 

Curiosamente, mesmo que a maioria das coisas tenha voltado ao normal, todo mundo anda meio pra baixo em Xangai. A quarentena rígida no início de 2020 e os cuidados que ainda precisamos tomar nos afetaram psicologicamente. Meus hábitos de consumo e o jeito como me relaciono com as pessoas mudaram. Passo muito mais tempo em casa do que antes. Deixei de ver meu namorado que estava fora da China e acabei terminando a relação. 

Várias pessoas em torno de mim têm histórias parecidas. Por meses, uma cliente ficou retida com a filha no exterior enquanto o marido dela continuava no país. O fechamento das fronteiras nos impede de planejar as viagens. Parece um luxo reclamar disso, né? Mas é uma situação que me deixa aflita. Estou a milhares de quilômetros da minha cidade natal. É desagradável saber que não posso voltar quando quiser. Sem contar que as notícias do Brasil me deixam apreensiva. Penso muito em meus familiares e amigos…

O que acontece no mundo acaba impactando a gente aqui. Ok, já não me preocupo tanto com o risco de me contaminar na rua, só que sinto todos os outros impactos trazidos pela pandemia dentro e fora da China. Há uma porção de incertezas no ar. Vejo as pessoas esperançosas com a vacina, mas ainda vai demorar para que o imunizante modifique algo em termos mais amplos. A Covid-19 não vai acabar rapidamente, e o que nos cabe fazer é manter toda a rotina de cuidado, de prevenção. Eu, pelo menos, estou tentando me comportar assim.



Fernanda Sung

Fernanda Sung é designer de joias. Paulistana, vive na China desde 2012.

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