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A luta dos voluntários para salvar o que restou da fauna no Pantanal

Roberto Kaz
No barco rumo ao hospital, Sokabe e Csermak monitoram os sinais vitais de uma anta de 200 kg: “Quase todo bicho que tentei resgatar morreu”, diz Csermak, “não por incompetência, mas porque tá todo mundo trabalhando no limite” –
No barco rumo ao hospital, Sokabe e Csermak monitoram os sinais vitais de uma anta de 200 kg: “Quase todo bicho que tentei resgatar morreu”, diz Csermak, “não por incompetência, mas porque tá todo mundo trabalhando no limite” – CREDITO: EDSON VANDEIRA_2020

I – PAULO BARROSO

Foi o vídeo de uma anta que fez o coronel da reserva Paulo Barroso, do Corpo de Bombeiros de Mato Grosso, deixar sua casa, em Cuiabá. “Na verdade eram duas antas”, ele contou. “Uma adulta, morta, a outra filhote, ainda do lado. Um pantaneiro falava: ‘Coitadinha da anta. A mãe morreu queimada, quem é que vai cuidar do filhote?’ Comecei a chorar na hora.” Religioso, o coronel se ajoelhou diante de um pequeno altar montado ao lado da cama, em seu quarto, com imagens de Jesus Cristo e São Francisco de Assis. Em seguida, ligou para Christiano Justino, coordenador de Fauna e Recursos Pesqueiros da Secretaria de Estado de Meio Ambiente, que o ajudou a organizar uma reunião remota com a presença de bombeiros, policiais, engenheiros florestais e veterinários. Ficou acertado que no sábado, 15 de agosto, Barroso seguiria para Poconé, epicentro das queimadas que começavam a devastar o Pantanal, acompanhado de duas veterinárias da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Sandra Ramiro Corrêa e Thais Morgado, especializadas no cuidado de animais silvestres. A ideia era mapear a região, para achar um lugar que abrigasse um hospital de campanha para tratar os animais.

“Visitamos o SESC-Pantanal, que tem uma estrutura de recintos, e depois um posto fiscal localizado na entrada da Rodovia Transpantaneira”, lembrou Barroso, um carioca com sotaque mais puxado que o do ex-prefeito Eduardo Paes, que se mudou para Mato Grosso há 26 anos, quando passou no concurso de bombeiro militar. Ele e as veterinárias gostaram do posto fiscal, mas seguiram caminho pela estrada que corta o Pantanal mato-grossense na esperança de achar um local mais próximo dos focos de incêndio. “Aí, já de noite, quando a gente tinha se instalado numa pousada, ficamos sabendo que uma onça havia entrado na propriedade de alguém, a 20 km de lá.” Combinaram de ir ao local no dia seguinte, acompanhados de uma patrulha da Polícia Militar Ambiental e de um residente de veterinária, que viria da universidade com um kit para sedar o animal.

Chegando à pousada, na tarde de domingo, o grupo encontrou a onça acuada, dentro de uma casinha de madeira usada para guardar sementes e ferramentas. “Não dava para ver se estava machucada. Ligamos o farol do carro, buzinamos, fizemos o que dava, mas ela não saía de lá.” Barroso voltou para a sede com as veterinárias, enquanto os policiais ficaram de plantão, em frente à casa, para monitorar o animal, que acabou saindo durante a madrugada.



Na manhã de segunda-feira, quando tomava café, Barroso recebeu um novo chamado, avisando que uma onça havia aparecido em outra propriedade. “Ela estava de novo dentro de uma casinha de madeira, só que essa casa tinha frestas entre as ripas, o que ajudava a ver um pouco melhor.” As veterinárias não conseguiram observar as patas, mas ainda assim constataram que o animal estava com o bigode chamuscado e o rabo queimado. Decidiram intervir.

A partir daí, Barroso começou a montar uma operação com apoio do tenente-coronel Flávio Gledson Bezerra, que estava no comando do combate ao fogo no Pantanal. “Pedi uma gaiola para transportar o animal, e dois militares com arma de grosso calibre [de uso letal] para alvejar o bicho, se fosse necessário. Pedi também um médico e um helicóptero da Força Aérea Brasileira, que estava cedido para o combate aos incêndios, caso a onça precisasse ser levada para Cuiabá.” Contou que a primeira reação do piloto foi de recusa. “Ele falou que não tinha condição de voo, por causa da fumaça. Aí eu respondi: ‘E guerra não tem fumaça? Voa na cega, porra, vem treinar!’” Combinaram que o helicóptero – um Black Hawk com capacidade para onze pessoas – voaria baixo, até um local a 500 metros da casa, que seria marcado por Barroso por meio de um aparelho de GPS. Uma vez lá, desceria verticalmente, pela fumaça, até encostar no solo.

Quando a aeronave chegou ao local combinado, Barroso reuniu as veterinárias e os militares – um fuzileiro naval e um oficial da Aeronáutica. “Desenhei no chão qual seria o procedimento. Eles subiriam na caçamba de duas caminhonetes, e ficariam com a arma apontada para a onça.” Enquanto isso, a veterinária Sandra Ramiro Corrêa caminharia até a parte de trás da casinha, e usaria uma zarabatana para atirar um dardo anestésico pela fresta da madeira. “Fui com ela até meio metro da onça. Quando ela jogou o dardo, o bicho deu uma tremida, mas nem levantou. Cinco minutos depois, entrou o resto da equipe.” O animal, anestesiado, foi colocado sobre uma tábua de madeira e depois dentro de uma gaiola, para ter os sinais vitais medidos e estabilizados. Recebeu soro enquanto as veterinárias checavam o estado de suas patas – as quatro com queimaduras de terceiro e quarto graus, uma delas tão grave a ponto de expor um dos tendões. A gaiola foi colocada dentro do helicóptero, que seguiu para a UFMT, em Cuiabá, onde fica o Hospital Veterinário.

“Foi uma cena muito louca”, lembrou Barroso. “Lá fora, o Pantanal todo queimando. Dentro, a gente com toda uma equipe especializada, num helicóptero de guerra, tentando salvar um animal.” Na semana seguinte, a onça seria levada de van para o Nex (No Extinction), um criadouro em Corumbá de Goiás, onde permanece até hoje, tratando as feridas com células-tronco. Lá ela ganharia o nome Amanaci – “deusa das chuvas” em tupi-guarani – muito embora já houvesse sido catalogada, anos antes, como Glória.

O posto fiscal na beira da Transpantaneira seria adaptado para a inauguração do Posto de Atendimento Emergencial a Animais Silvestres (Paeas) do Pantanal, onde Barroso passou a trabalhar. “A gente tinha ido lá para montar um local de atendimento. E a Mãe Natureza falou: ‘Ah, é? Então toma isso, vê se dá conta.’ Aquele salvamento deu um gás.”

 

II – EDUARDA FERNANDES

Eduarda Fernandes é uma guia turística de 20 anos, que carrega no antebraço esquerdo a tatuagem de uma onça-pintada. “Só tive noção da gravidade das queimadas quando o fogo chegou aos fundos da pousada”, lembrou Fernandes, que mora no km 110 da Transpantaneira. “A gente achava que o fogo viria rasteiro, como costumava acontecer nos outros anos, mas ele chegou com 25 metros de altura, pegando tudo entre o chão e o topo das árvores. A madeira estalava, era um barulho absurdo.”

A pousada sobreviveu, devido a um aceiro cavado por um trator ao redor da propriedade. “Mas dois dias depois começou a aparecer muito animal machucado”, ela contou. “Era quati, lontra, macaco, até que veio uma anta com um filhote, no dia 18 de agosto, e eu não consegui mais ficar sem fazer nada.” (Apesar da situação idêntica, é provável, pela diferença de uma semana, que fosse outra a anta vista no vídeo pelo coronel Paulo Barroso.) Fernandes diz ter passado sete horas ao lado da fêmea: montou uma lona para protegê-la do sol, hidratou-a com água, afastou os poucos curiosos que se aproximavam. “No início ela bebeu bastante, mas foi ficando ofegante, até que morreu.” Dias depois, o filhote, que havia fugido, apareceria morto, próximo ao corpo da mãe.

Natural de Cuiabá, Eduarda Fernandes frequenta o Pantanal desde 2014, quando começou a namorar João Paulo Falcão, filho do proprietário da pousada. “O meu sogro, o Eduardo, é o melhor guia passarinheiro daqui do Pantanal”, contou, orgulhosa. “Fiquei um ano acompanhando os passeios dele, depois fiz um curso de inglês e abri minha própria empresa de turismo. Quando saí do ensino médio já guiava grupo de vinte pessoas.” Apesar da pouca idade, ela fala com autoridade. “Deve ser porque fui criada só com mãe”, explicou. “A gente sempre teve que ser muito forte.”

Aflita com a situação dos animais, Fernandes ligou para a Secretaria do Estado de Meio Ambiente, na esperança de que enviassem uma equipe de veterinários. “Eles falaram que não seria possível naquele momento, então comecei a acionar outras pessoas que eu conhecia.” Foi assim que ela chegou ao Instituto Homem Pantaneiro, que por sua vez a colocou em contato com Jorge Salomão Junior, um veterinário de Jundiaí, no interior de São Paulo, especializado no manejo de onças. Salomão chegou ao local no final de agosto, antes mesmo que o Paeas fosse inaugurado. “Nós fomos a primeira equipe a trabalhar com resgate de fauna aqui, e mesmo assim eu tenho a impressão de que chegamos tarde”, lamentou.

 

III – JORGE SALOMÃO

Jorge Salomão Junior também tem uma onça tatuada no antebraço, só que da espécie parda. “É a Capi. Ela foi muito importante na minha carreira”, contou, explicando que a onça havia sido capturada ainda filhote, em um canavial no interior de São Paulo. “Eu acredito que a mãe tenha sido caçada.” Capi foi levada para a Universidade Estadual Paulista, campus de Botucatu, e dali para a ONG Ampara Silvestre, na qual Salomão trabalha como responsável técnico pelos animais silvestres. “Ela ia ficar um tempo, num recinto de 30 mil m2, para depois ser reintroduzida na natureza”, disse. “Mas foi impossível reintroduzir, já tinha virado um animal muito manso.”

Salomão estava na Amazônia, no ano passado, quando foi avisado que Capi desaparecera havia dez dias – o que não era de todo raro, dado o tamanho do recinto. “O problema é que ela não estava pegando a comida, e isso era estranho.” Como era o único que entrava no local, foi preciso aguardar que ele voltasse – quando, enfim, se constatou que a onça morrera picada por uma cobra. “Foi um desespero danado. Eu era muito apegado a ela.”

Aos 36 anos, Salomão tem uma barba grande e desgrenhada que faz jus ao sobrenome bíblico. Ele mora em Jundiaí, onde chegou a ser sócio de uma clínica veterinária. Trabalha com animais silvestres desde o primeiro estágio, no segundo período da faculdade de veterinária na Universidade Metodista de São Paulo, em São Bernardo do Campo. “Sempre curti réptil e ave, até que um dia, no quarto ano de veterinária, fui acompanhar o manejo de um tigre. Aí lascou, o bicho era imponente, vi que era isso que eu queria da vida”, disse. Além da Ampara Silvestre, Salomão é responsável técnico em mais quatro mantenedores particulares, em Mato Grosso do Sul e em São Paulo. Tem dez onças sob sua guarda. “São animais que chegam nesses lugares em situação precária e que estão lá para serem recuperados”, explicou.

Salomão já havia trabalhado com onças em Corumbá, Mato Grosso do Sul, onde fica a sede do Instituto Homem Pantaneiro. “Eu estava acompanhando de longe a situação das queimadas, cogitando viajar para lá, para ajudar, mas então eles me falaram dessa necessidade da Eduarda em Porto Jofre”, contou, referindo-se a uma localidade no município de Poconé. Como o trabalho era pesado, convocou um segundo veterinário, Felipe Coutinho, ele mesmo um mantenedor, em Minas Gerais, com 120 animais silvestres sob sua responsabilidade. Dirigiram 1,6 mil km de Jundiaí a Poconé, última cidade antes da Rodovia Transpantaneira. “A gente veio se preparando para uma situação ruim, mas quando chegamos, a realidade era infinitamente pior do que eu havia imaginado”, lembrou. “As chamas formavam um corredor nos dois lados da estrada, o pessoal estava no desespero de apagar fogo de ponte.” Começou a trabalhar no dia seguinte, após pegar uma licença da Secretaria do Estado de Meio Ambiente. “A gente saiu em busca logo depois, mas não achava bicho ferido, só morto.”

Naquela época, final de agosto, o fogo ainda não chegara ao Parque Estadual Encontro das Águas, onde havia a maior concentração de onças-pintadas no país, com estimados duzentos animais. “Vi sete onças no meu primeiro dia lá. Isso me deu um ânimo, porque mostrava como as coisas eram no Pantanal antes da queimada.” Uma semana depois, o coronel Paulo Barroso avisou, durante uma reunião, que apesar de ainda intacto, o parque já estava condenado. “Ele falou assim, de forma bem enfática: ‘O fogo vai chegar, o fogo vai pegar e o fogo vai queimar”, lembrou Salomão. “Eu entendo de fauna, não de fogo. Foi muito difícil escutar um bombeiro dizendo que não tinha nada que ele pudesse fazer.” Mais de 80% da vegetação do parque acabaria queimada.

Sem possibilidade de entrar na área, Salomão, Coutinho e Fernandes passaram a procurar os animais de barco, ao longo do Rio São Lourenço, que banha o parque. “Foi horrível, a gente no rio, tentando ajudar os bichos, e tendo que ver o entorno pegar fogo, de camarote.” Numa ida, localizou um cervo-do-pantanal ilhado numa pequena praia à beira do rio, sem poder voltar para o mato, que queimava logo atrás. Cogitou acertá-lo com um dardo tranquilizante que o sedasse, para que o bicho pudesse ser realocado para algum lugar mais seguro, ainda no parque. “Mas era só a gente chegar perto, com o barco, e ele já começava a andar para trás, em direção ao fogo.” Salomão contou que dias antes, outra equipe de voluntários havia enfrentado o mesmo problema com uma lontra que, assustada, correra de volta para as chamas. “Se eu me aproximasse ou desse um tiro com tranquilizante, era 100% de chance de o bicho correr para o fogo. Se eu saísse, ele poderia ao menos nadar para o outro lado.” Acabou deixando o cervo sozinho. “Foi muito difícil fazer isso.”

No dia 12 de setembro, deu-se uma cena parecida. Salomão foi informado, por um barqueiro, de que uma onça estava deitada de maneira estranha, também numa pequena praia, na entrada de um canal, que os pantaneiros chamam de corixo. “Ela de fato parecia sentir dor”, contou, lembrando o momento em que a viu. “Tinha as orelhas arqueadas, evitava caminhar, mesmo quando a gente se aproximava com o barco.” Salomão e Coutinho tentaram anestesiá-la com um tiro de dardo, que chegou a acertá-la de forma superficial, sem liberar o sedativo no sangue. Resolveram então descer a alguns metros do bicho. Coutinho ficou no campo de visão da onça, para distraí-la, enquanto Salomão se aproximou por trás para acertá-la com a zarabatana. Conseguiram e logo constataram que o animal tinha as quatro patas bastante queimadas. Colocaram-no numa gaiola de ferro, que foi levada ao barco.

Salomão, Coutinho e Fernandes navegaram por uma hora até a Fazenda Jofre Velho, da ONG Panthera Brasil, referência local no mapeamento de onças-pintadas. Limparam as feridas e envolveram as patas com ataduras, para tentar diminuir a dor do animal. Souberam que a estrada para Poconé estava interditada, em razão de uma ponte que pegava fogo. Embarcaram então num helicóptero da Marinha, que havia sido solicitado por outra veterinária, Carla Sássi, do Grupo de Resgate de Animais em Desastres (Grad). Desceram no aeroporto de Cuiabá e de lá seguiram, escoltados por batedores da Polícia Militar, para o Hospital Veterinário da UFMT.

Dias depois, os veterinários descobririam que a onça se chamava Ousado, nome dado por Ailton de Lara, um guia e dono de pousada que já catalogou dezenas de onças na região de Porto Jofre. Ousado também seria levado ao Nex, em Corumbá de Goiás, para ter as feridas tratadas. Num raríssimo caso de sucesso, voltou ao Pantanal 37 dias depois, curado. Foi solto no final de outubro, com um colar de GPS, que está sendo usado para mapear sua movimentação pela área.

 

IV – AILTON DE LARA

Ailton Alves de Lara sobrevoou a região de Porto Jofre no dia 8 de setembro, quando as queimadas já devastavam o Parque Estadual Encontro das Águas. Na viagem, a bordo de um helicóptero do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Lara percebeu que o fogo se aproximava de uma ilha de mais ou menos 20 mil m2, chamada Ilha do Arrombado (o nome, não de todo elegante, foi dado em função de um corixo que cortava a ilha de ponta a ponta, “arrombando-a” em duas metades). Lara sabia que em épocas de cheia o corixo era banhado pelo rio mais importante da região, o São Lourenço, responsável por separar Mato Grosso de Mato Grosso do Sul. Suspeitava, no entanto, que a estiagem teria secado o canal, expondo uma vegetação rasteira, que poderia ser usada em uma ação de contrafogo (uma queimada controlada, em que o brigadista sacrifica parte da vegetação, como quem explode uma ponte para impedir que um incêndio atinja uma área ainda intacta).

Lara se lembra de ter sobrevoado o local exatamente às 14h43. “Sei porque foi a hora em que tirei esta foto”, contou, mostrando uma imagem aérea da ilhota ainda verde, mas com uma parede de fumaça se avizinhando. De volta a Porto Jofre, conseguiu que o ICMBio cedesse um brigadista para acompanhá-lo uma vez mais ao local, agora a bordo de um pequeno barco da sua pousada. Levaram um “pinga-fogo” – uma espécie de maçarico utilizado para queimar a mata de forma controlada – e uma bomba para puxar água do rio, caso fosse necessário apagar o incêndio que eles mesmos causariam. Quando chegaram, às seis da tarde, a queimada estava a cerca de 200 metros. Lara e o brigadista colocaram fogo de um lado a outro do corixo, aproveitando o vento que soprava na direção contrária à da ilha. Ficaram no local até nove da noite, quando tiveram certeza de que a área fora salva da queimada. “É importante aquela ilha ter sobrevivido, por menor que seja”, ele explicou. “Lá tem muito inseto que pode transportar semente para o entorno que foi queimado.”

Natural do município de Chapada dos Guimarães, também em Mato Grosso, Ailton de Lara frequenta o Pantanal desde 1999, quando começou a trabalhar como motorista e, logo depois, como guia em agências de turismo de Cuiabá. Fazia então pouco mais de duas décadas que a Rodovia Transpantaneira havia sido inaugurada. “A ideia da estrada era unir Poconé e Corumbá, em Mato Grosso do Sul”, explicou. “Mas a obra parou na metade.” O que seria uma rodovia interestadual, na esteira do projeto de “Brasil grande” vendido pelo regime militar, acabou resultando em um caminho de terra de 147 km rumo à margem do Rio São Lourenço, onde não havia absolutamente nada e onde mais tarde acabaria surgindo o povoado de Porto Jofre. A estrada passou a ser usada por pescadores, de quem vinham relatos cada vez mais recorrentes de onças. O turismo veio a reboque.

Em 2011, Lara começou a construir sua pousada, a terceira a surgir em Porto Jofre. “Naquela época caminhão não chegava aqui. Eu trazia tijolo, madeira e cascalho na Kombi, que vinha baixa, atolava. Às vezes eu dormia na estrada, acordava no dia seguinte e tinha pegada de onça do lado do carro.” Instalado, passou a catalogar cada uma das onças, primeiro numa apostila e depois numa planilha de Excel, onde coloca dados como local, condições físicas e comportamento sempre que avista um animal. “Conheço todas só de olhar”, contou, com orgulho. Ele registrou Ousado, pela primeira vez, no dia 9 de julho, pouco antes do início das queimadas na região. “Dei esse nome porque ele estava copulando com uma fêmea, sem dar bola para a presença dos turistas”, explicou. “Só soube que era ele o resgatado bem depois.”

Com o agravamento do fogo, em agosto, a pousada de Lara virou uma base de veterinários em Porto Jofre. Lá se instalaram os voluntários do Grad, liderados por Carla Sássi, e do Reprocon, o Reproduction 4 Conservation, do qual faz parte o veterinário Antonio Carlos Csermak Junior. Na terça, 22 de setembro, Lara e Csermak saíram cedo, pelo Rio São Lourenço, para procurar animais machucados. Às 9h15 viram uma onça chamada Fênix, que parecia mancar de uma das patas. “Acho que foi briga com o Aju”, disse Lara, referindo-se a outra onça que costumava aparecer naquele mesmo local. “Aí é a lei da natureza agindo, a gente não interfere.” Csermak sugeriu que continuassem adiante. Meia hora depois, viram uma onça chamada Ibaca. “Que bom que ela sobreviveu”, comemorou Lara, explicando que a avistara pela última vez dois meses atrás – antes, portanto, que o fogo devastasse o Parque Estadual Encontro das Águas.

Por volta de meio-dia, Lara ouviu o canto de um passarinho. “É um chororó”, explicou. “Ele se alimenta de inseto, está sempre no chão, canta quando tem onça por perto. É uma forma de avisar os outros, para não serem predados.” Minutos depois surgiu uma onça com dois filhotes. “É a Suzana, com o Constantino e a Constantina.” Tirou um notebook da mochila, para colocar os dados dos animais na planilha.

Às duas da tarde, no trajeto de volta à pousada, Lara e Csermak avistaram um búfalo, deitado inerte e sozinho, na beira do rio (ele já havia sido visto na mesma posição, horas antes, no caminho de ida). “Ê boi! Ê boi”, gritou Csermark de pé, na proa, balançando os braços enquanto o barco se aproximava. O animal, normalmente agressivo, ficou parado. “A pata não tá normal”, ele avaliou. “Tô vendo que tá cheia de insetos.” Aproveitou a presença de um fotógrafo para pedir uma imagem em close da pata. “Tá bem inchada mesmo, pode estar quebrada”, continuou, acrescentando que a parte acima do casco estava sem pelos, com o couro avermelhado. “É queimadura.”

Csermak explicou que só tinha consigo o anestésico cetamina, que não seria suficiente para sedar um búfalo. A bombeira civil Bell Silva, do Grad, jogou uma cenoura na frente do animal, para ver se assim ele se levantava. O bicho deu alguns passos. “Boa, vamos voltar e pegar mais comida, para dar um conforto a ele”, sugeriu Csermak. “Assim a gente também liga para o coronel Barroso, para explicar a situação.” O búfalo voltou a se deitar, num movimento brusco, como se não aguentasse apoiar o peso nas patas. “Vambora pedir ajuda, ele não tá bem, não.” Lara ligou o motor para retornar à pousada.

 

V – CARLOS CSERMAK

Antonio Carlos Csermak Junior, o Carlão, é alto e parrudo, tem  41 anos e está sempre com um chapéu de vaqueiro na cabeça e um cigarro na boca, o que lhe dá um certo ar de galã de comercial de Marlboro. “Normalmente eu fumo pouco, mas aqui tá tenso demais. Trouxe logo duas caixas”, disse. Ele mora com os pais num sítio em Pouso Alegre, no interior de Minas Gerais, onde nasceu e foi criado até cursar agronomia na Universidade Federal de Viçosa, a partir de 1998. O período de graduação coincidiu com um aumento desordenado da população de capivaras no campus da universidade. “Elas tinham virado um problema de saúde pública. Fui ajudar um professor que estava trabalhando com isso, e acabei pegando gosto por mexer com animal.” Fez o mestrado em zootecnia e o doutorado em veterinária, também em Viçosa. “No primeiro período do doutorado, caiu a ficha de que eu também precisaria me graduar em veterinária, para ter número de registro e fazer as coisas mais básicas, como anestesiar os bichos.” Concluiu a segunda graduação numa faculdade particular.

Csermak começou a trabalhar com felinos selvagens em 2007, durante o doutorado, quando integrou um projeto de conservação de onças-pardas no Parque Estadual do Rio Doce, em Minas Gerais. “Sempre tive interesse em felino por ser um bicho do topo da cadeia alimentar”, explicou. “Se ele está bem, acaba servindo como um indicador de que as coisas abaixo dele também estão funcionando.” Nos anos seguintes trabalhou com jaguatirica e gato-mourisco, também em Minas.

Em 2011, passou a lidar com onça-pintada. Viajou para São Paulo, Bahia, Santa Catarina, Piauí e Mato Grosso para acompanhar diferentes projetos de manejo do animal (a onça-pintada está presente em todos os biomas do país, salvo no Pampa, o que não a impede de constar na lista do ICMBio como uma espécie ameaçada). Em 2019, virou veterinário do Projeto Onças do Rio Negro, que monitora onças-pintadas no Pantanal de Mato Grosso do Sul. No mesmo ano, passou a integrar a equipe da Reprocon, que produz embriões in vitro a partir do sêmen de animais silvestres ameaçados. Foi por indicação de um membro do Reprocon, o veterinário Gediendson Ribeiro de Araújo, que Csermak chegou a Porto Jofre, no início de setembro, para ajudar no resgate dos animais.

Na quarta-feira, 23 de setembro, Csermak e Ailton de Lara voltaram ao local onde o búfalo havia sido encontrado. Estavam acompanhados de outros três veterinários, entre eles, Fernando Siqueira, contratado pela Secretaria do Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso durante o período da queimada. Na noite anterior, o grupo havia passado duas horas debatendo regras dos conselhos regional e federal de veterinária, para decidir que anestésicos dar ao bicho, para sedá-lo. Cogitaram levar um policial armado com um rifle, caso não houvesse solução que não a eutanásia. Acabaram desistindo, esperançosos de que o animal pudesse ser medicado.

“Olha ele aí”, disse Csermak, às 9h20, quando avistou o búfalo deitado no mesmo lugar. “Vamos botar um pouco de alimento, e o Fernando, que é do Estado, vai avaliar.” O veterinário Pedro Nacib Jorge Neto, que trabalha com reprodução de gado, disse que o animal era da raça Murrah, originária da Índia. “Provavelmente a manada escapou e ele ficou no fogo”, complementou Ailton de Lara. Jogaram repolho, chuchu e cenoura na frente do bicho, que não se levantou. Fernando Siqueira, da Secretaria do Meio Ambiente, sugeriu voltar uma vez mais à pousada, para requisitar um funcionário do Instituto de Defesa Agropecuária do Estado de Mato Grosso (Indea). Assim como o boi, o búfalo é um animal domesticado, que chegou ao Pantanal por obra humana, e por isso está sob a guarda jurídica da agropecuária. No caminho da pousada, voltaram a ver a onça Ibaca. “A pata dela tá inchada”, comentou Lara, observando-a com um binóculo.

O grupo permaneceu na pousada até as cinco da tarde, quando chegaram a veterinária Flávia Metello de Figueiredo, do Indea, e mais dois policiais militares ambientais. Embarcaram na lancha com o objetivo de sedar o búfalo, fazer um atendimento inicial e, na melhor das hipóteses, prepará-lo para ser removido por um helicóptero da Marinha no dia seguinte. Encontraram-no já de noite, por volta das 19 horas, com metade do corpo mergulhado no corixo. Parecia não ter comido quase nada dos legumes deixados nos dias anteriores.

Ailton de Lara ancorou no meio do rio, de forma a deixar a equipe distante do búfalo, caso ele reagisse. Desceu do barco acompanhado de Csermak, os dois com a água na altura do joelho. Aproximaram–se do animal pelas costas, para forçá-lo a sair do corixo, pois se corre o risco de que um bicho desse porte, ao ser sedado dentro da água, morra afogado. Quando estavam a cerca de 3 metros, o búfalo se levantou. “Ele bufou, ameaçou dar uma investida contra a gente, mas depois andou até o banco de areia, que era o que a gente queria”, contou mais tarde o veterinário.

Csermak tentou acertar o animal com um dardo anestésico de xilazina – mas o rifle de pressão não funcionou, por falha na válvula. Amarrou então um segundo dardo num galho longo, que Ailton de Lara estendeu na tentativa de injetar a substância diretamente na coxa do búfalo. A grossura do couro entortou a agulha. Voltaram para o barco, onde havia mais seis veterinários. Decidiram, de forma unânime, que o bicho deveria ser eutanasiado – e que a forma menos nociva seria com tiros de fuzil dados pelos policiais.

O veterinário Pedro Nacib Jorge Neto mostrou uma ilustração com quatro pontos – um na cabeça e três na altura do peito – onde o animal deveria ser acertado, para que morresse da maneira mais rápida. Em seguida, o barco atracou, para que descessem ele, Csermak, Fernando Siqueira, da Secretaria do Meio Ambiente, e os dois policiais ambientais. Ficaram a 15 metros do animal, que precisou de três tiros de fuzil 5,56 mm – o calibre mais pesado da Polícia Militar de Mato Grosso – para ser abatido.

Csermak, Jorge Neto e Siqueira caminharam até o animal, levantando uma poeira de fumaça a cada passo sobre as cinzas. Constataram que ele tinha queimaduras na barriga, nas pernas e nas virilhas. Os quatro cascos estavam comprometidos, um deles com exposição óssea. “Devia ser uma dor absurda”, disse-me Csermak, mais tarde. “Eu botei a mão na cabeça dele por respeito, por ele ter chegado até ali. Foi um alívio e uma tristeza do caralho.” Explicou: “A gente não estuda para eutanasiar. A gente estuda para salvar. Mas todo veterinário faz um juramento de não deixar animal nenhum sofrer. Se ele ficasse ali ia morrer de fome, sede e insolação, tudo junto. Seria covarde não fazer nada por ele.”

A viagem de volta foi em completo silêncio.

 

VI – JENIFER LARREA

No dia 19 de setembro, um sábado – quatro dias antes da eutanásia do búfalo –, o fogo já havia destruído todo o entorno da Transpantaneira, prosseguindo em direção a outras cidades de Mato Grosso, como Barão de Melgaço, e de Mato Grosso do Sul, como Corumbá, onde fica a Serra do Amolar. O horizonte estava tomado por um filtro de fumaça, como se fosse uma neblina, mas, ainda assim, não era nada que se comparasse à opacidade das semanas anteriores. “Ninguém via além de 300 metros de distância”, contou o coronel Paulo Barroso.

Naquela manhã, a ativista Jenifer Gonçalves Larrea, de 30 anos, se dirigia a um grupo de vinte voluntários, em um estacionamento na beira da estrada que liga Cuiabá a Poconé. “Estamos indo ao Pantanal para alimentar animais selvagens famintos”, avisou, em tom sério. “Não podemos em hipótese alguma nos aproximar, chamar pelo nome, entregar alimento na mão. É deixar a comida no local e ir embora. O ideal é que eles nem saibam que estivemos lá.” Entrou em um dos carros estacionados e seguiu, em comboio, até o Posto de Atendimento Emergencial a Animais Silvestres, na entrada da Transpantaneira.

Larrea é servidora da Secretaria de Fazenda de Cuiabá, cidade onde vive há oito anos, desde que deixou Bauru, no interior de São Paulo. “Pela nota de corte do Enem, tanto eu quanto a Lilian passamos para faculdades aqui”, explicou, referindo-se à sua mulher, Lilian Natiele da Silva, hoje bombeira militar. Meses depois de instaladas, Larrea deparou com a foto, no Facebook, de um gato extremamente machucado. “Era o Fred. Ele estava numa clínica, tinha sido resgatado depois de perder a pele do pescoço numa armadilha”, contou. “Eu já tinha resgatado animal de rua antes, mas nunca numa situação tão precária.” Adotou o bicho, que passou por três cirurgias e viveu mais seis anos. “Dali em diante não virei mais as costas para animal na rua achando que alguma pessoa iria resgatar. Entendi que eu era essa pessoa.” Hoje ela e Lilian dividem a casa com oito gatos. “E participo de um grupo, o É o Bicho, que cuida de outros duzentos animais.”

Até o início de setembro, quando carregou um caminhão com 5 toneladas de comida, Larrea nunca tinha ido ao Pantanal mato-grossense. “Levamos maçã, banana, milho, batata-doce, mandioca, ração para ave, ovo, peixe, carne bovina, o que você puder imaginar”, contou, orgulhosa. A força-tarefa para arrecadar comida fora instaurada por sugestão da bióloga Simone Raquel Caldeira, parceira de Larrea no grupo É o Bicho. “A Simone recebeu um apelo, no Whats-App, enviado por uma senhora chamada Domingas, que é proprietária de uma pousada na Transpantaneira”, explicou Larrea. “Ela dizia que os bichos que haviam sobrevivido estavam desidratados, morrendo de fome, porque não havia nem água e nem vegetação.”

Naquele momento já existia arrecadação de comida, mas em iniciativas pontuais, feitas por ONGs ou por algum voluntário isolado. “Liguei para uma voluntária em Cuiabá, a Aline, que estava recebendo alimentos em casa, e disse: ‘Se quiser a gente entra na causa’”, disse Larrea. Em paralelo, Simone Raquel Caldeira entrou em contato com a Central de Abastecimento do Estado de Mato Grosso (Ceasa/MT), perguntando se poderia recolher as frutas e legumes que seriam descartados. “Começamos a campanha no dia 2 de setembro. Três dias depois já tínhamos as 5 toneladas”, continuou Larrea. Com o passar das semanas, a seleção de frutas e legumes foi sendo lapidada. “A Karen [Ramos], veterinária do Paeas, foi avisando: ‘Corta fora a laranja, que eles não comem. Tira a alface, que é tóxica.’ É tudo muito novo, nunca ninguém precisou alimentar animal selvagem assim.”

Às dez da manhã, o comboio chegou ao Paeas. Jenifer Larrea reuniu a equipe, que estava dividida em seis carros, cada qual com seu respectivo carregamento de frutas e legumes. Explicou que a comida tinha que ser deixada sob parte das pontes – são 120 ao longo da Transpantaneira, atravessando vãos onde antes havia riachos e lagos. “O instinto do animal é procurar água. Ele vai chegar nesses locais, e vai achar a comida.” Alertou que estavam todos proibidos de dar um passo para além da estrada. “Parece que está tudo cheio de folha, mas ainda há fogo por baixo. Um brigadista morreu assim no começo do mês.” (Referia-se a um fenômeno conhecido como fogo subterrâneo, que ocorre no solo do Pantanal devido à profusão de massa orgânica: por vezes o fogo queima uma camada de folhas que está sob a terra, e emerge quando encontra uma fissura.)

“No primeiro carro vai a Elisangela”, continuou Larrea. “Elisangela, você sabe como funciona, dá as orientações.” Virou-se para outras duas voluntárias: “Andrea, você vai do km 50 ao 60. Pode se mandar. Neri, você do 40 ao 50. É onde tem aquela área grande, com o piso todo rachado, lembra? Não parece, mas no fundo tem água. Deixa comida lá.” Explicou que um caminhão, que acompanhara o comboio desde Cuiabá, deixaria um carregamento de comida na pousada de Ailton de Lara – e que essa comida seria distribuída do km 60 em diante pelo Grad. Ao entrar de novo no carro, desabafou: “O que a gente está fazendo é uma gotinha, é muito pouco. É só na Transpantaneira. E no resto todo do Pantanal, para dentro, o que é que faz?”

 

VII – CARLA SÁSSI

Na manhã de sexta-feira, 25 de setembro, a veterinária Carla Sássi embarcou num helicóptero da Marinha. Estava acompanhada de Ailton de Lara e de seis brigadistas do Grad, que ela coordena. Sobrevoaram o Parque Estadual Encontro das Águas e um perímetro de 20 km para cada lado da Transpantaneira. A ideia era mapear as poucas áreas com água que haviam restado, em lugares inacessíveis, na esperança de que pudessem receber comida por via aérea. “A gente só conseguiu pousar uma vez”, contou Sássi. “Em um local, subiu uma nuvem preta de fuligem, e a aterrissagem teve que ser abortada. Em outro, era tanta folha queimada no solo que o pé afundava e começava a queimar. Também desistimos.” Entregaram 50 dos 200 kg de frutas e legumes que haviam levado. “É muito complicada a logística no Pantanal.”

Carla Sássi é uma mulher magra de 40 anos, que em 2016 foi a vereadora mais votada do município mineiro de Conselheiro Lafaiete, com uma plataforma voltada aos direitos dos animais. “Foi o primeiro e último mandato”, disse ela, que é filiada ao PSDB. Sássi tem o cabelo platinado e liso, sempre preso por um rabo de cavalo – que, acrescido dos óculos Ray-Ban, onipresentes, a tornam algo parecida com a heroína Sarah Connor, do filme O Exterminador do Futuro. Costuma usar um macacão azul-marinho, de bombeiro civil, com o símbolo do estado de Minas Gerais num braço, do Grad no outro e com uma tarja escrita “Carla Sássi O+, veterinária” na altura do peito. Mora num sítio com 36 cães, 2 cavalos, 1 cabrito, 1 porca, 16 galinhas, 3 galos e 9 gatos. É casada e tem uma filha.

Assim como Csermak, Sássi também cursou veterinária em Viçosa. Ela trabalhava com resgate de animais marinhos no litoral fluminense, quando uma tempestade destruiu diversas cidades, matando 905 pessoas na região serrana do Rio de Janeiro. “Dia 12 de janeiro de 2011” – disse ela como quem faz uma palestra – “foi quando eu vi aquele vídeo de uma senhora sendo puxada por uma corda, no meio da enchente, com o cachorro debaixo do braço. A mulher foi salva, mas o cachorro foi levado pelo rio.” Decidiu ir para Nova Friburgo no dia seguinte. “Chamei dois amigos veterinários, peguei o material que tinha numa clínica da qual eu era sócia, em Minas Gerais, enchi um caminhão-baú com ração e parti.” Montou um consultório dentro do caminhão, até conseguir que a prefeitura lhe cedesse um galpão vazio de escola de samba. “Aí foram chegando mais veterinários, voluntários, escoteiros.” Como os bombeiros não davam conta de toda a demanda, o grupo passou a auxiliar no resgate dos animais. “A gente ia na raça mesmo. Salvei cachorro, gato, porco, cavalo, coelho, chinchila.”

Certo dia, Sássi foi abordada, na entrada do galpão, por um senhor chamado Pedro, vigia noturno que sobrevivera ao desastre por estar fora de casa na hora da tempestade. “Ele tinha perdido a esposa e os dois filhos. Chegou lá, me pegou pelo braço e falou assim: ‘Minha casa desabou, a Pretinha é a única pessoa que pode ter sobrado da minha família.’” Sássi caminhou com ele pelo galpão, já então com mais de cem cachorros resgatados. “A gente foi de baia em baia, chamando a Pretinha pelo nome, e nada. No finalzinho, tinha uma baia aberta, com uma cachorra sendo levada para passear por uma voluntária. O Seu Pedro falou ‘Pretinha’, e ela saiu correndo. Os dois rolaram no chão, abraçados. Aí vi que eu ia trabalhar com isso dali para a frente. Ia muito além do animal.”

Sássi entrou em cursos de brigadista, de bombeira civil e de primeiros socorros. Começou também a montar um grupo fixo com o qual pudesse contar no futuro, em outros desastres. “Aí teve [o desastre de] Mariana em 5 de novembro de 2015”, continuou. “Lá a gente desenvolveu muita técnica. Aprendeu, por exemplo, a desatolar bovino, que é supercomplexo, porque a lama fica seca em cima, úmida no meio e seca de novo na parte de baixo, como se fosse um cimento.” Nesse ponto sua equipe já contava com 25 pessoas, que trabalhavam lado a lado com os bombeiros. Resgataram setecentos animais – muito porco, cavalo e galinha, já que a barragem de resíduos de minério havia rompido em uma zona rural. Os bichos foram levados para uma fazenda da Samarco, a empresa responsável pelo desastre.

Em janeiro do ano passado, Sássi formalizou a criação do Grad, o grupo de resgate de bichos em situações de desastre (até então, sua equipe era um grupo de trabalho dentro do Conselho Regional de Medicina Veterinária de Minas Gerais). Uma semana depois, ocorreu o rompimento e deslizamento de uma barragem da Vale em Brumadinho. “Eu tinha acabado de ter uma conversa com o coronel do Corpo de Bombeiros e com um responsável da Defesa Civil, para trabalhar em conjunto. Então já estava no posto de comando desde o primeiro dia do desastre.” Seu grupo içou três bois com helicóptero, depois de passar dias alimentando-os a distância, à espera de que o solo ficasse seco o suficiente para que os bombeiros dessem o aval para ser escavado. A aeronave também foi usada para eutanasiar, com tiros de fuzil, outros bois em situação de sofrimento, que não podiam ser salvos.

Sássi chegou ao Pantanal no início de setembro, a pedido do Conselho Federal de Medicina Veterinária, acompanhada de mais onze voluntários do Grad (ninguém é remunerado; as despesas são bancadas por pequenas doações de ONGs, empresas e da sociedade civil). Passaram a cuidar da distribuição diária dos alimentos transportados pelo grupo de Jenifer Larrea e da água, trazida por caminhões-pipa e depois depositada em cochos de 150 litros espalhados em 72 pontos ao longo da Transpantaneira. “É uma ação de guerra para amenizar 1% do problema ocorrido aqui”, desabafou, realista. “Se isso tivesse sido causado de forma natural, jamais faríamos essa intervenção. Mas foi causado pelo homem, então é nossa obrigação dar subsistência. Sei que é pouco, mas pode ser que esses animais que estamos ajudando hoje se reproduzam e ajudem a espécie a sobreviver.”

No sábado, 26 de setembro, Sássi tinha um segundo voo agendado no helicóptero da Marinha. Imaginava chegar ao Paeas por volta de dez da manhã, mas atrasou duas horas devido a um pneu furado, que a obrigou a voltar à pousada de Ailton de Lara para pegar um segundo carro. Ainda parou para tentar resgatar um quati, que estava morto na beira da estrada.

“Cadê minhas bananas?”, perguntou Sássi, assim que chegou ao Paeas, para um grupo de pessoas que cortavam as frutas entregues naquela manhã. “Hoje vou fazer a limpa!” Conseguiu que um bombeiro cedesse um furgão, onde colocou seis cochos com melancia, manga, melão, banana, aipim e laranja. Pouco depois recebeu uma ligação de um militar avisando que a missão havia sido cancelada. “Surgiu uma emergência de fogo. O helicóptero da Marinha vai ser empenhado”, comentou, sem aparentar decepção. Ainda assim, seguiu com o furgão até um aeródromo, a uma hora dali, na esperança de que no dia seguinte a Marinha voasse, por conta própria, para colocar a comida nos locais já mapeados. “Tá vendo como é difícil planejar algo aqui? A logística é complicada demais”, disse, enquanto comia uma banana dos animais. Era o seu almoço.

(No dia seguinte o helicóptero teve que passar por uma revisão. A comida acabou estragando.)

 

VIII – ANDRÉ NICOLAI

Os veterinários André Nicolai e Thais Morgado atendiam uma harpia, no Hospital Veterinário da UFMT, quando tocou um telefone celular. “Oi, Jorge, qual é a dúvida? Ela tá bem?”, perguntou Morgado, apoiando o telefone no ombro. “Eu estou com uma harpia aqui na emergência, mas traz.” Desligou o telefone e avisou que o veterinário Jorge Salomão estava trazendo uma anta, que havia sido resgatada na região de Porto Jofre naquela tarde. “Vai chegar de madrugada”, disse, para dois residentes que a auxiliavam. “Vamos ficar direto.” Voltou a dar oxigênio para a ave.

Eram oito da noite de segunda-feira, 28 de setembro. Além da harpia – vítima de um traumatismo craniano, possivelmente por chocar-se com um fio elétrico e cair desacordada –, havia um papagaio, uma iguana e um tamanduá na emergência do Hospital Veterinário, os três por queimaduras, as do tamanduá, extremamente graves. Havia também um filhote de veado, esse já em estado mais avançado de recuperação, que vinha sendo cuidado pela veterinária Sandra Ramiro Corrêa.

Morgado e Corrêa são as veterinárias à frente do tratamento de animais silvestres na UFMT. Foram elas, também, que acompanharam o coronel Paulo Barroso pela Transpantaneira, em agosto, quando escolheram onde seria instalado um posto avançado de atendimento. Cuidaram das duas onças, Amanaci e Ousado, antes que elas fossem enviadas para tratamento em Corumbá de Goiás. Em setembro, passaram a contar com a ajuda de um terceiro veterinário, André Nicolai, professor do Centro Universitário Central Paulista, de São Carlos. Ele é careca, tem 40 anos e os braços tatuados com um leão, uma abelha, um tigre, um jacaré e um elefante. “E ainda tenho uma coruja, um jabuti e um tatu nas pernas”, completou. “Alguns desses bichos foram meus pacientes.” Sua viagem foi bancada pela ONG Ampara Silvestre, que conseguiu 2 milhões de reais em doações com a divulgação do trabalho feito no Pantanal.

A saga da anta havia começado às duas da tarde, quando Csermak e Salomão ancoraram, cada um em um barco, numa curva do Rio Piquiri. “Fazia dias que a gente estava procurando aquele bicho. Muito barqueiro já tinha visto, a gente não achava”, contou Csermak. Assim como o búfalo, o animal estava deitado sozinho, num banco de areia, com metade do corpo dentro da água. Estava com uma queimadura enorme, na altura da coxa.

Os dois veterinários passaram a discutir o procedimento. Ficou acertado que Csermak se aproximaria, de barco, para dardear a anta com uma zarabatana. “Quando ela começou a bambear por causa da anestesia, pulamos eu e mais umas três pessoas na água para segurar a cabeça dela com um cambão”, contou Csermak. “Depois a puxamos para uma área mais seca.” Em paralelo, Jorge Neto seguiu em um dos barcos para a pousada mais próxima, na tentativa de usar a rede de wi-fi para requisitar um helicóptero. Diante da negativa, a equipe colocou o bicho de 200 kg na proa de um dos barcos e seguiu para Porto Jofre. Csermak ficou monitorando o soro e os batimentos cardíacos durante a viagem, com a ajuda da veterinária Amanda Sokabe.

A chegada em Porto Jofre foi seguida de um hiato de quatro horas, com discussões entre os veterinários, a Secretaria do Estado de Meio Ambiente, o Corpo de Bombeiros, a Força Nacional e o Ibama para saber como e quando o animal seria levado a Cuiabá. (Quatro dias antes, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles havia enfim visitado a região, que já quase não tinha mais focos de incêndio, dado que praticamente tudo havia queimado; sua visita foi seguida da chegada de pelotões do Ibama e da Força Nacional. “A gente fez muita pressão para vir, por vários dias, mas a ordem lá de cima não chegava”, disse um funcionário do Ibama, em tom de desabafo. “Mandaram a gente aqui para tirar foto.”)

No fim das contas, a anta deixou Porto Jofre depois de dez da noite, numa caminhonete da Força Nacional. Salomão e mais duas veterinárias de sua equipe escoltaram o bicho até o Paeas, parando de quando em quando para medir seus sinais. Dali a Cuiabá, o Ibama assumiu a guarda.

Sandra Corrêa e André Nicolai aguardaram a chegada da anta no Hospital Veterinário da UFMT até 2h40, quando resolveram ir embora, para descansar algumas horas. Thais Morgado dormiu no quarto dos residentes e não conseguiu acordar. Quando o animal finalmente chegou, às 5h15, não havia quem pudesse recebê-lo.

Eram 6h30 quando Nicolai e Corrêa voltaram ao hospital. A anta estava deitada na caixa de madeira, sobre a caçamba da caminhonete. Nicolai perguntou a que horas ela havia tomado o último repique da anestesia. “Eu não estava lá quando anestesiaram”, respondeu a veterinária do Ibama. Ele colocou então uma máscara de oxigênio na boca do bicho, e aplicou-lhe uma nova dose de anestésico. Segurou sua cabeça com as duas mãos, balançando-a de um lado ao outro, para ver se a sedação funcionara. Confirmado o efeito, um analista ambiental do Ibama entrou na caixa de madeira para empurrar a anta. Outras cinco pessoas se encarregaram de puxá-la do lado de fora. Um agente da Força Nacional se recusou a ajudar. “Tenho que documentar para Brasília”, justificou, enquanto fotografava a cena com o telefone celular.

Às 7h40, a anta finalmente foi colocada em uma baia vazia e limpa, no estábulo contíguo ao Hospital Veterinário. Nicolai fez um travesseiro de feno, para amparar-lhe a cabeça. Voltou a colocar a máscara de oxigênio na boca do bicho, furou-lhe a orelha para inserir o cateter de soro e se agachou para auscultar o batimento cardíaco. Pediu que um residente medisse a temperatura: 39,9ºC (o normal gira em torno de 36ºC). Tirou um pouco de sangue para medir a glicose. Estava em 116, dentro dos parâmetros normais. “Tá melhor que eu esperava”, comentou. “Glicose boa, lactato bom. O quadro das outras que vieram era bem pior, pelo que me relataram.” (Outras três antas já haviam sido resgatadas e enviadas ao Hospital Veterinário desde o começo das queimadas; as três morreram.)

Sandra Corrêa também se agachou, atrás do animal, e começou a limpar com soro a maior das queimaduras, que ia da coxa até as costas. A anta mexeu as orelhas e abriu os olhos. “Vamos ter que dar um repique na anestesia”, comentou Nicolai, antes de pôr uma gaze sobre os olhos do bicho – procedimento-padrão com qualquer animal selvagem, para acalmá-lo. Colocou também sacos de gelo em cima do corpo para abaixar a temperatura e trocou a bolsa de soro, que já havia acabado.

Às 8h30, Corrêa pegou uma tesoura para cortar as luvas de atadura e gaze que as equipes de Salomão e Csermak haviam feito ao redor das quatro patas. A anta colocou a língua para fora e puxou uma das patas, por reflexo. Nicolai aplicou mais uma dose de anestésico. “Com esse repique que eu fiz dá pra tirar o curativo dos pés, vamos aproveitar.” Ele e Corrêa limparam as quatro patas – uma delas com exposição óssea – e voltaram a envolvê-las com gaze, atadura e, sobretudo, com uma película cicatrizante, feita de prata, que Nicolai pressionava diretamente sobre as queimaduras. Às 9h45 terminaram a última pata.

Nicolai perguntou a uma residente qual era a temperatura do animal. Havia caído pouco, para 39,7ºC. Ele apoiou o corpo contra a parede, ainda agachado ao lado do bicho, e jogou a cabeça para trás. Deu um suspiro e ficou parado, olhando para o nada, sem pronunciar uma palavra. Sua máscara estava encharcada de suor.

Três semanas depois, a anta morreu.

“Ela comia muito pouco, o que nos obrigava a anestesiá-la para passar as sondas de alimentação”, explicou Nicolai, por mensagem de texto. “Essas queimaduras de terceiro ou quarto graus apresentam um prognóstico muito complicado, com toda uma cascata de alterações fisiológicas.” Carlos Csermak ficou desolado: “Quase todo bicho que eu tentei resgatar morreu, não por incompetência, mas porque tá todo mundo trabalhando no limite. Nosso trabalho aqui é tapar o sol com a peneira.”

Roberto Kaz

Roberto Kaz

Repórter da piauí, é autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras

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