anais da sociedade

A amiga do hipotálamo

As escaldantes aventuras da autora de Incesto em Segundo Grau, Laurita Mourão, que aos 82 anos leva uma caixa de uísque para as férias de verão em Punta del Este

Daniela Pinheiro
“Franceses são os melhores amantes do mundo. Na cama acham que as mulheres têm os mesmos direitos. Sarkozy gosta do esporte. Já os americanos são primários, têm complexo de culpa”
“Franceses são os melhores amantes do mundo. Na cama acham que as mulheres têm os mesmos direitos. Sarkozy gosta do esporte. Já os americanos são primários, têm complexo de culpa” FOTO: ADRIANA LINS

O motorista e o cozinheiro partiram do apartamento em Copacabana depois do Natal. Levavam no porta-malas do Honda Civic os cristais, a prataria e uma caixa de uísque escocês doze anos que seria consumida ao longo dos dois meses seguintes. O destino deles, Punta del Este, ficava a 2 200 quilômetros, a serem vencidos em três dias de estrada. Há vinte verões, Laurita Mourão de Irazabal passa férias no balneário uruguaio. Ela foi de avião. “Não tenho mais saúde”, disse, dias antes de embarcar. “Quando chego lá, já está tudo arrumado, só preciso ligar a internet. Não consigo ficar sem e-mail.”

Na biblioteca do apartamento carioca, de frente para o mar, Laurita abriu cada uma das vinte portas do armário. Procurava em seus arquivos, organizados em mais de 100 pastas numeradas e identificadas com uma canetinha vermelha, o rascunho de sua última obra literária, Meu Amigo Hipotálamo, um ensaio com toques de ficção sobre a parte do cérebro que, segundo ela, é o “motor” da sexualidade humana.

“O prazer sexual está todo na mente”, disse. “No dia em que as pessoas entenderem que basta fechar os olhos e fazer um cineminha na cabeça, nunca mais vão perder um orgasmo na vida.”

O livro, o oitavo de sua autoria, não foi publicado. Ela pagou “uns 200 reais” para deixá-lo disponível para a impressão pela internet, mas não tem idéia se alguém se interessou. Laurita Mourão define sua produção literária como “erótica, nada pornográfica” e afirma jamais ter recebido um tostão em direitos autorais.

Também autora de Incesto em Segundo Grau – sobre uma avó que tem uma noite de prazer sexual com o neto de 20 anos – e a coletânea de contos Decamourão, inspirado em Boccaccio, ambos publicados pela editora Record, ela costuma dizer que só há dois assuntos que merecem ser tratados com seriedade: a fé e o sexo.

“Meus livros são todos medíocres, você bem deve saber”, reconheceu. “Mas eu não ligo muito.” Perguntei o que a levou a se candidatar, duas vezes, à Academia Brasileira de Letras. “Eu acho que poderia levar uma coisa diferente para a Academia. Meus amigos perguntavam: ‘O que o Pitanguy escreveu?’, ‘O que o Marco Maciel fez de memorável?’ Pelo menos, os meus livros são animados”, respondeu. “Eu ia levar um pouco de alegria para lá. Aquilo deve ser uma chatice, cheio de velhos. Detesto velho.” Laurita Mourão tem 82 anos. Nas duas tentativas de entrar na Academia, não recebeu sequer um voto.

Ela é cheia de vida. Fala com entusiasmo e sem afetação. Com gestos delicados, costuma interpretar as histórias, mudando o tom de voz, imitando sotaques e fazendo posturas corporais. Quando um interlocutor inconveniente a interrompe, ela simplesmente se cala. Salpica seus relatos com frases e expressões de meia dúzia de idiomas.

 

Funcionária aposentada do Itamaraty, Laurita viveu por meio século no exterior. Passou pelo Uruguai, Argentina, França, Estados Unidos, Espanha e Caribe. Voltou para o Rio no final dos anos 80 e foi morar num apartamento alugado de 450 metros quadrados (hoje com sinais eloquentes da ação do tempo e da maresia), decorado com excesso de móveis, quadros, cortinas, tapeçarias e fotografias desbotadas.

No hall de entrada, há um conjunto de pias de banheiro em mármore Carrara com louça pintada à mão, importado do apartamento que pertencia ao jazzista Duke Ellington. A sala principal abriga o piano de cauda Steinway comprado em trinta prestações nos Estados Unidos. Estão à mostra a coleção de broches da filha, cartazes de cinema, cachos de uva feitos em pedra, candelabros, almofadas de crochê e muitos, muitos livros.

Ela me recebeu com blusa e calça de seda azul, um lenço estampado com motivos navais, sombra verde que realçava seus olhos cor turquesa e colares dourados. Equilibrava-se em uma sandália plataforma branca e tinha as unhas pintadas de rosa-escuro. Emanava um suave perfume de talco e tinha os cabelos fartos e loiros armados a laquê.

Laurita vive com uma neta e cinco empregados. “Assino cinco carteiras de trabalho, mas faço isso para ajudar cinco brasileiros, não porque sou dondoca”, disse. Na sala de jogos, onde há uma televisão de 50 polegadas, vêem-se vários quadros de fotos com famosos e anônimos. “Sou eu, os amigos, a família e muitos dos meus amantes”, ela apontou.

E começou: “Esse aqui é o Marcelo, era íntimo do Israel Klabin. Ah, esse é um uruguaio, Jorge Sierra, muito bom de cama. Aqui é o meu amante brasileiro metido a cineasta, o Regis Furtado. Olha o Pelé. Mas nunca tive nada com ele, viu? Ele foi amante de uma pessoa da minha família. Ah, o Arnaldo Jabor também. Esse é o Billy Blanco, meu amigo. Olha aqui, eu com o Gilberto Braga novinho. Aqui, eu e o Jamelão; a cunhada dele era minha empregada. E aqui, montado nesse cavalo, lindo-maravilhoso, o Daniel, o meu sobrinho amante, o único amor da minha vida.”

 

No final dos anos 70, ela provocou mal-estar no Itamaraty ao publicar À Mesa do Jantar, um livro de memórias no qual relatou algumas de suas aventuras sexuais com embaixadores, cônsules e diplomatas estrangeiros. Por ter elencado os casados, os separados, os solteiros e os muito jovens, ela estima ter vendido 10 mil exemplares. Tentou disfarçar os nomes, mas nem tanto. Um embaixador de sobrenome Carnaúba, por exemplo, virou “Babaçu”, mas com grafia árabe: Bab-Hassuh. O diplomata Egberto Mafra, de quem ela chegou a engravidar, foi tratado como Gilberto Marques. Outro embaixador, conhecido no governo Fernando Henrique Cardoso por um apelido de criança, teve que se explicar em casa.

“Na época foi uma baita confusão”, lembrou o embaixador José Botafogo Gonçalves, que a conhece há trinta anos (e não é personagem do livro). “As mulheres dos envolvidos ficaram uma fera, os protagonistas em choque e os fofoqueiros em polvorosa. O Itamaraty tem um histórico de escândalos, mas eram histórias intramuros. Foi a primeira vez que foram para o prelo.”

À Mesa do Jantar tinha novidades inclusive para a família de Laurita. Ela conta no livro que o verdadeiro pai de sua filha mais nova era o sobrinho de seu marido. “Fiquei semanas na lista dos livros mais vendidos. Era convidada para programas de debates na televisão e até reconhecida na rua”, disse. “Para mim, foi importante aquela catarse. Mas fiquei com fama de escandalosa. Aliás, sempre tive má fama. Hoje, o livro poderia ser dado para meninas que estão fazendo primeira comunhão.”

Há sete anos, ela mantém um “relacionamento” que já foi estável, mas agora, segundo ela, “está mais para virtual”. O namorado, casado, 49 anos mais moço, mora num estado do Sul que Laurita prefere não divulgar. Ela levantou da poltrona para buscar a foto do rapaz. Queria me provar que ele era parecidíssimo com o presidente francês Nicolas Sarkozy. A semelhança, digamos, é tênue.

“Eu só penso na Carla Bruni”, disse, manuseando a fotografia. “Aquele Sarkozy tem cara de quem gosta do meu esporte. Aliás, os franceses, te digo com experiência, são os melhores amantes do mundo. Na cama, eles acham que as mulheres são iguais a eles, que têm os mesmos direitos.” Já os americanos são péssimos. “Na hora dos prolegômenos, eles são primários. E têm um complexo de culpa que… haja saco!”, comentou. Pedi que explicasse melhor e ela disse: “O americano se deita com você, tem orgasmo e depois fica repetindo: ‘Oh, Jesus, eu estou traindo minha mulher… Oh, que horror, oh, que pecado, como sou um son of a bitch.”

Ela conheceu o namorado durante uma viagem entre o Rio e Punta del Este, quando ele lhe serviu de motorista. Laurita o havia contratado para o serviço por indicação de uma amiga. Ele tinha 25 anos; ela, 74. Nos hotéis em que paravam, tomavam champanhe, que ele nunca havia provado. Ao final de um mês, ela conta, estavam enamorados.

Laurita resolveu custear seus estudos. Durante cinco anos, pagou a faculdade de direito, a festa de formatura e, havia dois meses, o rapaz conseguira a carteira da Ordem dos Advogados do Brasil. “Mais um brasileiro que ajudei”, disse, rindo.

Amigos lhe disseram que ela estava sendo explorada. “Coitados”, falou, dirigindo-me uma piscadela. “Você acha que realmente estou me importando se vou ter amor verdadeiro ou não a essa altura do campeonato? Infelizmente, só não faço mais sexo por falta de mão-de-obra!”

 

A desenvoltura em lidar com a própria sexualidade, ela diz, deve-se muito à criação que recebeu do pai, o general Olympio Mourão Filho, que entrou para a história em duas quarteladas. Foi ele o autor de um documento falso, o Plano Cohen, que serviu de pretexto para Getúlio Vargas reprimir o avanço comunista e instalar em 1937 a ditadura do Estado Novo. Também foi ele quem, na tarde de 31 de março de 1964, antecipando-se ao que havia sido acertado pelos militares de maior patente que a sua, fez marchar tropas de Juiz de Fora rumo ao Rio, para derrubar o presidente João Goulart. O general Mourão também é lembrado por uma frase que deu identidade aos golpistas. Ao ser indagado sobre o teor de uma reunião que tivera no Palácio do Planalto, respondeu: “Meu filho, em matéria de lei, sou uma vaca fardada.”

A primogênita se lembra das aulas que, ainda na primeira infância, recebia do pai. Mourão desenhava em um quadro-negro trompas de Falópio, útero, ovários e explicava qual a função de cada órgão, as diferenças anatômicas entre os sexos, como se lavar e evitar a gravidez. “Ele era muito liberal, dizia que poderíamos fumar, se quiséssemos”, lembrou. “Mas explicava detalhadamente os males do cigarro, as doenças, desenhando tudo. Muito didático.”

Entre 1955 e 1964, o general escreveu um diário, que o historiador Helio Silva transformou em um livro intitulado Memórias: a Verdade de um Revolucionário. Em 1978, Laurita conseguiu embargar a publicação do livro, alegando que se tratava de um diário íntimo de seu pai. Helio Silva divulgou então um bilhete, escrito à mão por Mourão e entregue a ele junto com os cadernos, afirmando que o acadêmico “era o único a ter coragem de publicar” o que havia escrito. Também anexou ao processo uma declaração da última mulher do general confirmando a doação. Seis meses depois, a ação foi revogada e o livro foi publicado.

Dois anos depois, ela tentou novamente impedir Helio Silva de divulgar os originais da defesa que Mourão apresentou a um “tribunal de honra” do Exército esclarecendo sua participação no Plano Cohen, organizada no livro A Ameaça Vermelha: o Plano Cohen. “Sou a única filha dele e acho que tenho o direito de ter a gerência e os direitos autorais sobre os escritos do meu pai”, ela justificou. “Mas dessa vez, meus advogados queriam me cobrar 5 mil dólares pela ação e tive que desistir”, contou.

Em 2002, Laurita resolveu abandonar os textos de cunho erótico para escrever a sua versão dos episódios protagonizados pelo pai. Em quatro meses, ela produziu as 423 páginas de Mourão, o General do Pijama Vermelho. O título faz alusão ao robe de seda usado pelo militar quando disparava os telefonemas de articulação do golpe.

“Ele mudou a história do país por duas vezes, e em ambas foi mal interpretado”, disse. Laurita defende que o pai serviu de bode expiatório e foi enganado no Plano Cohen. Segundo ela, o rascunho escrito por Mourão foi “desviado” para outros fins, sem sua anuência. Em 1964, houve outro equívoco. “Meu pai nunca foi a favor do fechamento do Congresso”, disse. “Inclusive mandou tropas à Brasília para impedir isso no momento da instauração do Ato Institucional nº 5. Ele era um homem das instituições.”

Ela se casou “virgem e inocente”, como contou, com um fazendeiro uruguaio muito rico. Namoraram à distância quando cursou direito na Faculdade Nacional do Rio de Janeiro. Eram apenas oito mulheres numa turma de 100 homens.

Mudou-se para o interior do Uruguai, onde tinha uma rotina de dona-de-casa. Teve quatro filhos, sendo que um deles morreu ainda criança. O casamento não ia bem e, por indicação do pai, ela entrou no Itamaraty como assessora de comunicação, função que desempenhou por 35 anos. Foi transferida para Madri, quando o marido a abandonou com as crianças. De lá, foram para Paris.

No Brasil, a ditadura se tornava mais violenta e Laurita diz que acompanhava o endurecimento à distância. “A gente não sabia o que estava acontecendo. Eu soube o que houve em detalhes só muitos anos depois”, afirmou. “Tenho a impressão de que há um exagero nos relatos. As ditaduras na Argentina e no Chile foram bem piores. Lá teve rapto de bebês, essas coisas.”

 

Pouco tempo depois de chegar à França, Laurita recebeu a notícia de que sua única irmã, que era viúva, havia morrido em um acidente automobilístico. Da noite para o dia, ela se viu responsável pela tutela de oito sobrinhos. “De repente, era eu sozinha e onze filhos”, disse. O jornalista Roberto D’Ávila, amigo de décadas, se lembra dessa época. “Mesmo com aquele tanto de filhos, a casa dela era uma festa”, contou. “O apartamento era uma referência para os brasileiros que chegavam a Paris. Estava sempre lotado de artistas e gente interessante. E ela sempre muito gentil, muito alegre e debochada. As pessoas estranhavam aquela pessoa tão aberta ser filha do general Mourão.”

Certa vez, Laurita recebeu a visita de uma amiga carioca, acompanhada do sobrinho de 20 anos, Paulinho Araripe. O rapaz, magro e cabeludo, hippie e músico, logo atraiu a atenção da dona da casa. “Paris, anos 60, uma mulher livre como eu, de 40 e poucos anos, corpo bem-feito ainda, onde você acha que os rapazotes interessantes iam parar? Na minha cama, pô!”, disse Laurita às gargalhadas.

Passaram-se as décadas e ela se esqueceu do caso. No final dos anos 80, numa festa na casa do editor Paulo Rocco em homenagem ao intelectual americano Francis Fukuyama, Laurita foi apresentada a vários autores, entre eles Paulo Coelho, que acabara de lançar O Alquimista, livro que ela havia adorado. Ela estranhou quando ele a chamou pelo nome. Na primeira oportunidade, Coelho se aproximou para conversar. “Laurita, você não se lembra do Paulinho Araripe, que passou um tempo com você em Paris?”, ele teria dito. “Claro, ele era muito agradável”, respondeu ela. “Laurita, o Paulinho Araripe sou eu!”, teria respondido Coelho.

“Eu falei que o havia reconhecido, mas não queria falar nada em respeito à senhora dele, que estava por lá”, disse-me Laurita. “Isso o Itamaraty me ensinou: tem que ter sempre uma desculpa boa na ponta da língua. Mas, olha que vexame: uma foda que eu esqueci!” Paulo Coelho diz que “Laurita era adorável”. Mas esclarece, no entanto, que Paulinho Araripe não era ele. “Era um primo meu, que nem estava em Paris naquela época.”

Quem a conheceu na juventude e na meia-idade garante que o charme de Laurita vinha exatamente da postura despudorada e liberada. “Nunca fui bonita. Beleza, imagine!”, ela falou. “Eu era engraçadinha, e tinha esse meu jeito expansivo, provocador; isso atraía os homens”, disse. “Só 15% das mulheres realmente gostam de sexo. O resto é motivado por hormônio, idade ou cartão de crédito. Gostar de sexo como eu gosto, são pouquíssimas.”

O cineasta Carlos Diegues, que a conheceu em Nova York, disse que Laurita era uma mulher “batalhadora, desoprimida, muito à frente de seu tempo”, a quem os amigos admiravam pelo fato de ela criar as onze crianças sozinha sem jamais reclamar da responsabilidade.

Laurita leva uma vida de rica, mas não tem propriedades ou herança. Sua maior extravagância são as férias em Punta, durante as quais ela desembolsa 12 mil dólares de aluguel pela temporada. O ex-marido rico faliu e o general Mourão, segundo disse, “morreu pobre como as ratas: deixou sua dentadura, um relógio carrilhão e a aposentadoria”.

Como filha de general, Laurita recebe uma pensão mensal de 24 mil reais. Por ter trabalhado no Itamaraty, ganha uma aposentadoria de 2 700 reais, quantia que ela considera injusta. Com um filho e um genro diplomatas, ela evita polemizar. “O Itamaraty mudou muito”, disse. “A figura do embaixador plenipotenciário acabou. Hoje, o que existe é o embaixador light, que não decide mais nada, nem a cor da toalha do lavabo.”

 

Nos anos 80, ela pediu para ser transferida para o serviço consular em Nova York. Conseguiu um apartamento em frente ao Central Park, com um aluguel razoável. Para complementar a renda, ela fazia bicos como motorista, pianista de restaurante francês, professora de português e tradutora.

Foi quando escreveu Alice do Quinto Diedro, ambientado na cidade. Laurita conta a vida da “mulher revolucionária, a mulher do ano 2000”, liberada sexualmente, viajada e bem-sucedida. “Era a história da mulher que eu queria ser”, disse. No livro, a protagonista vive uma “orgia cósmica” no 45º andar do World Trade Center. O sexo havia se tornado “algo sagrado: nunca adiado ou omitido” e o governo do planeta Terra, que havia sepultado guerras e conflitos há anos, estava nas mãos de um “computador cósmico central”.

Nessa época, Laurita também se aventurou na política. O ministro Delfim Netto, líder do então PDS, veio com a proposta de lançar uma candidata à deputada federal pelo Rio de Janeiro nas primeiras eleições diretas proporcionais. “Ele foi bem sincero: disse que poderia ser qualquer uma, que não precisava ter nada de especial, mas que havia pensado em mim”, lembrou.

Laurita, que havia trabalhado com Delfim quando ele era embaixador em Paris, viu no convite a oportunidade de passar quatro meses no Brasil (fazendo campanha) e ainda manter seu salário diplomático. “A minha vontade de largar Nova York era zero, mas tinha essa lei que eu podia me afastar e eu sabia que não ia ganhar nunca”, contou.

Seu slogan eleitoral era: “Com ou sem razão, vote em Laurita Mourão.” Ela disse não se lembrar bem das promessas de candidata, e resumiu assim sua plataforma: “O mote era liberar o homem. A minha teoria é que enquanto a mulher pedir pensão, casar-se por interesse ou ficar dependente, o homem nunca vai ser liberado. Até hoje, o homem paga o ex-coito. Se ele não for liberado, jamais liberará a mulher.”

Confusa, pedi mais explicações. “Veja bem”, ela me disse. “Por que a humanidade cria tanto problema com o sexo? Porque o homem acha que a mulher é propriedade dele. Porque se ela tem o controle da própria sexualidade, ela é um ser livre. É a mesma coisa da patroa que não põe a empregada para estudar ou do chefe que não deixa o melhor funcionário fazer um curso no estrangeiro. É o lado egoístico da humanidade de negar o know-how. Porque o know-how, sobretudo na cama, liberta.” Com 6 200 votos, Laurita não foi eleita.

Daniela Pinheiro

Daniela Pinheiro foi jornalista da piauí entre 2007 e 2017

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