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A decadência dos sordados

Dono de fábrica enterra a herança num time de futebol

Paula Scarpin
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Faltavam dois minutos para o fim do tempo regulamentar. Desde o começo do segundo tempo, a Associação Desportiva Perilima derrotava o Planalto de Alto Branco por 2 a 1, placar que levaria o mata-mata à disputa por pênaltis. Num lance arrojado, um atacante do Planalto mandou uma bomba em direção ao gol. No meio do caminho, o zagueiro Renan interceptou a bola, mas só a ponto de desviá-la em direção ao outro ângulo, confundindo o goleiro, que não conseguiu evitar o gol. Naquela tarde de setembro, o Perilima acabou eliminado. Era apenas o segundo jogo de um torneio de peladas promovido pela TV Itararé em Campina Grande, na Paraíba.

“Não sei o que aconteceu, mas em certo momento tudo começou a dar errado na minha vida”, desabafou o fundador da equipe, sentado numa cadeira de balanço no quintal de casa, na terça-feira seguinte. O time chegou a frequentar a primeira divisão do Campeonato Paraibano e a medir forças com as potências do estado, Botafogo, Treze e Campinense. Afundado em dívidas, não disputa um jogo oficial há três anos e não tem motivo para comemorar as duas décadas de existência.

Até 2007, o que sustentava o time era a fábrica de sordas – iguaria paraibana parecida com pão de mel, só que feita com o melaço da cana – que seu Pedro herdou do pai em 1976 e batizou com seu próprio nome. “Peguei Pedro Ribeiro de Lima, juntei tudo, deu Perilima”, explicou. “Tem um ritmo bom.” A fabriqueta até hoje fica no mesmo terreno de sua casa no bairro Liberdade, Zona Sul de Campina Grande.

Adepto das peladas dominicais, seu Pedro entusiasmou-se quando soube que o Sesi promovia campeonatos de futebol de salão entre as indústrias da região, e inscreveu seus funcionários. O Perilima não fazia feio, e o dono começou a desenhar planos mais ambiciosos: registrou o time como amador na CBF, de olho na profissionalização.



O patrão determinou que o expediente na Perilima seria de seis horas na fábrica e mais duas de treino à noite. “Quando aparecia alguém bom de bola desempregado, eu colocava na fábrica. Se algum jogador bom desse trabalho na fábrica, eu evitava demitir”, contou, sob o olhar reprovador da mulher. “Ele judiava. Os rapazes trabalhavam em pé o dia todo e depois tinham que fazer bonito na bola”, interrompeu dona Santana Lima. Seu Pedro deu de ombros: “Eles gostavam. E se desgastavam menos do que se estivessem tomando cana por aí.”

O Perilima se profissionalizou em 1997 e, como a segunda divisão paraibana não tinha mais do que dois ou três times, frequentava o grupo de elite. A equipe virou folclore em Campina Grande. Sendo funcionários da fábrica de sordas, os jogadores logo foram apelidados de “sordados”. Na preleção após uma goleada de 5 a 0 para o Nacional de Patos, Pedro Ribeiro Lima se revoltou com o elenco. “Se é para jogar desse jeito, eu vou entrar no time.”

A ameaça se concretizou em 1999, depois que o Perilima quase perdeu por WO uma partida da primeira divisão – como havia uma pelada no bairro marcada para o mesmo horário, vários atletas faltaram ao jogo oficial. A partir da rodada seguinte, o patrão nunca mais deixou de se escalar. A idade não o atrapalhava tanto quanto o sobrepeso – tinha 80 quilos distribuídos por 1,62 metro.

Apesar do comprometimento, o primeiro gol de seu Pedro só saiu oito anos depois, num pênalti batido contra o Campinense. Tinha então 58 anos e era o jogador mais velho a pontuar em uma partida oficial no Brasil. “Até o Esporte Espetacular veio fazer reportagem aqui”, festejou. Dona Santana, contrariada, tinha outra versão para a história. “A verdade é que ele virou a piada da cidade. Um velho querendo jogar bola.”

 

Conforme a empolgação com o time crescia, a fábrica ia ficando para escanteio. Se a torcida dentro de casa já não era das mais entusiasmadas, o jogo virou de vez quando seu Pedro passou a investir cada vez mais dinheiro no time. Interessado em prospectar novos jogadores, um time de Curitiba pediu quatro atletas do Perilima – e enviou um dinheiro para possíveis gastos. “Em vez de guardar, botei mais dinheiro para eles irem de avião. Queria impressionar, valorizar o time”, contou, escondendo o rosto com as mãos.

Vendo a única fonte de renda familiar em risco, os filhos depuseram seu Pedro e tomaram-lhe a administração da fábrica. “A primeira providência da minha filha foi demitir os jogadores. Ainda tem uns dois ou três que podiam jogar, mas eles têm medo dela”, contou. Quando a filha, grávida de quase nove meses, entrou pelo portão, deu um beijo na testa da mãe e lançou um olhar de desprezo para o pai. “Não sei como ainda tenho sonho na vida”, lamentou-se.

O último jogo oficial do Perilima como profissional aconteceu em 27 de junho de 2009, pela segunda divisão paraibana. Naquela partida, conseguiu marcar seu único tento da temporada – mas o Atlético Cajazeirense não perdoou e balançou nove vezes a rede do estádio Amigão. Em todo o certame,
o time tomou 43 gols em seis jogos. “Os jogadores já não eram mais funcionários da fábrica, não tinham a mesma garra”, justificou seu Pedro, desgostoso. “Não teve despedida, nunca passou pela minha cabeça que a gente fosse parar.”

Em 2009, a comunidade do Orkut “Futebol Alternativo” lançou um apelo para salvar o time da extinção. Laércio Ismar, um radialista e designer de João Pessoa, criou um blog e arrecadou 1 500 reais em uma semana. Este ano, o designer tentou organizar uma vaquinha pela internet, mas só conseguiu levantar 50 reais até aqui.

Pensando em atrair publicidade para o time, Ismar teve a ideia de promover um amistoso entre o Perilima e o Íbis, conhecido pela alcunha de “pior time do mundo”. A equipe pernambucana topou a empreitada, mas seu Pedro pulou fora. “Ele tinha medo de levar uma goleada”, explicou Ismar. Pedro Ribeiro Lima comentou o desafio: “Eu queria disputar qual é o melhor time do mundo, não o pior. Mas estou mudando de ideia. Do jeito que estou, qualquer coisa vale.”

Paula Scarpin

Foi repórter da revista por doze anos, e fundou a rádio piauí. É diretora de criação da Rádio Novelo.

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