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A economia do pãozinho

Um clã de padeiros frequenta há quarenta anos as páginas dos jornais

Pedro Schprejer
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

No dia 7 de setembro, a primeira página da seção Economia do jornal O Globo exibia fotografias de três empresários brasileiros. No alto da página destacavam-se Eike Batista e Abilio Diniz. O primeiro agravava os rumores de sua bancarrota ao anunciar que não colocaria mais dinheiro na petrolífera OGX. O outro, retratado com expressão melancólica, estava se afastando a contragosto da cúpula do Grupo Pão de Açúcar. Já o terceiro empresário parecia conter um sorriso. Atrás de uma fileira de pães franceses dispostos no balcão de sua padaria, Adelino Barata advertia: “Não terei como segurar o preço do pãozinho.”

Barata ilustrava uma reportagem sobre o efeito do aumento do dólar nos preços de eletrodomésticos e alimentos, entre eles o trigo. Não foi a primeira vez que seu negócio serviu para exemplificar mudanças na economia do país. Em 2000, ele já aparecia numa matéria do jornal Extra, “O dólar na mesa do jantar”, falando da relação entre as oscilações da moeda americana, do trigo e do pão. “Lembro que também vieram aqui nos entrevistar em 2001. Foi quando a alta do dólar e a crise argentina provocaram um aumento de mais de 100% na farinha, uma loucura”, conta Barata, 45.

Ele e o irmão José, de 48 anos, são sócios na Panificação Divino Trigo, que funciona há 44 anos na rua de Santana, no Centro do Rio. O estabelecimento fica a poucos passos do complexo que abriga as redações dos jornais das Organizações Globo. Jornalistas frequentam seu balcão há gerações. Entre um cafezinho, um cortado e um pão na chapa, aproveitam para colocar um pouco de vida real nos números da economia. Uma rápida busca pelo nome da padaria no acervo digital de O Globo revela nada menos do que 44 ocorrências.

A primeira aparição data de 5 de janeiro de 1972 e tem como título “Churrasqueiros e padeiros sofrem com o aperto do calor”. A matéria de verão citava o padeiro Manoel Batista, da Divino Trigo, que chegava a trabalhar sob uma temperatura de 80 graus. “Era forno a lenha naquela época, muito mais barato. Depois, em 1986, o Brizola proibiu e nós tivemos que comprar um forno a gás”, recorda José Barata, um tipo corpulento, alto, com rosto e sorriso largos como os do irmão.

Relidas hoje, algumas das reportagens contam parte da história econômica recente do país. A matéria “Pão continua mais caro, sem autorização da Sunab”, de 2 de julho de 1980, evoca uma época em que os preços eram tabelados e fiscalizados pela finada Superintendência Nacional do Abastecimento. “Comecei a trabalhar aqui aos 12 anos, para ajudar o nosso pai”, rememora Adelino. “A tabela dos preços saía todo dia, em duas páginas no jornal. Minha primeira função foi atualizar os preços.”

 

O pai, Adelino César Barata, nasceu em Trás-os-Montes e chegou ao Brasil em 1952. Trabalhou em bares e restaurantes até abrir o próprio negócio, em 1969. Os irmãos guardam até hoje o retrato do avô materno, também proprietário de padarias no Rio, cortando a faixa de inauguração da loja. Na vizinhança ainda havia mercearias, açougues e aviários. No fim dos anos 70, um supermercado da rede Casas da Banha ocupou um terreno baldio na frente da padaria – hoje funciona no lugar outro supermercado, o Extra, da antiga rede de Abilio Diniz, também filho de pai português. “Meu pai não se preocupou muito porque os supermercados ainda não fabricavam pão. Ele não via como um concorrente”, lembra José Barata.

Na década seguinte, um dos eventos marcantes foi a falta do leite durante o Plano Cruzado. Uma reportagem de 2 de dezembro de 1986 anunciava: “Locaute acaba. Amanhã o carioca terá leite.” Em meio ao congelamento de preços, os distribuidores se negavam a entregar o produto caso a tabela não fosse revista pelo governo Sarney. “Quando tinha leite, o pessoal corria para comprar. Uma vez que faltou, um policial chegou a entrar lá atrás para ver se estávamos estocando ilegalmente.”

Em 1990, a inflação voltou a explodir. O preço do biscoito da Divino Trigo, registrou O Globo, em maio passou de 200 para 250 cruzeiros – o nome da moeda anterior ao cruzado havia sido ressuscitado pelo Plano Collor. “Houve época em que tínhamos que remarcar o preço três vezes por dia. Corríamos no supermercado para comparar, ligávamos para os fornecedores. Isso aqui parecia uma Bolsa de Valores”, conta Adelino Barata. Em 1993, no governo de Itamar Franco, ele desenvolveu uma alopecia, doença de fundo nervoso que provoca a queda dos cabelos. Ficou curado no ano seguinte, coincidentemente com o lançamento do Plano Real.

José Barata se lembra do pai segurando uma nota de 1 real pela primeira vez e avisando: “Filho, agora nós temos um dinheiro forte.” Inexplicavelmente, os efeitos do Plano Real no empreendimento dos Barata não foram noticiados, mas Adelino, o filho, falou ao jornal em maio de 2001 sobre o racionamento de energia, no segundo mandato de Fernando Henrique. “Tínhamos acabado de trocar o fogão a gás pelo elétrico, que ficava mais em conta. Aí veio o racionamento e pegou a gente de surpresa.”

Os irmãos Barata assumiram a frente da Divino Trigo há cinco anos, com a aposentadoria do pai. Adelino chega à padaria às três e meia da madrugada e sai meia hora depois com o carro cheio de pãezinhos, que distribui em bares e restaurantes. Ele acredita que as padarias que não se tornarem minimercados ou delicatessens terão cada vez mais dificuldades de sobreviver. Diz que está num impasse sobre os rumos do negócio. Convocado pela primeira vez a expressar tudo o que tem a dizer não somente sobre pãezinhos, mas sobre o estado da economia nacional, Adelino Barata diagnostica uma “inflação maquiada” e critica os impostos. E contemporiza, com a experiência de décadas de sobressaltos: “O Brasil já esteve pior, mas poderia estar melhor.”



Pedro Schprejer

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