teatro

A emancipação da mulher ou Um outro mundo é possível

Farsa licenciosa integra livro de peças do autor que será lançado no dia 10 de outubro pela editora Cosac Naify

Otavio Frias Filho
“O homem não sabe viver entre iguais, ele só concebe a opressão. Se não puder ser tirano, será de bom grado escravo!”
“O homem não sabe viver entre iguais, ele só concebe a opressão. Se não puder ser tirano, será de bom grado escravo!” FOTO: LENISE PINHEIRO_CENA DA PEÇA REPRESENTADA EM SÃO PAULO, NO CLUBE DOMININA, EM 2004, PELA COMPANHIA MANUFACTURA SUSPEITA

O episódio a seguir é o quinto da peça Breve História de uma Perversão Sexual, estruturada em seis esquetes. Escrita sob encomenda de um clube fetichista de São Paulo ao diretor Maurício Paroni de Castro, essa farsa licenciosa, como a define o autor, foi encenada pela primeira vez em 2004. Inédita em livro, será lançada no mês que vem, ao lado de textos teatrais que têm como objeto a política, a religião, a vida intelectual e a arte, além do sexo. O tema sadomasoquista aparece aqui ambientado na sociedade vienense do século XIX. Seu tom didático tem efeito cômico, acentuado pelas referências eruditas de que o autor lança mão. Os personagens Wanda e Severino, por exemplo, têm os nomes dos protagonistas da novela Vênus das Peles, de Leopold von Sacher-Masoch, escritor que deu origem ao termo masoquismo. A expressão foi cunhada pelo psiquiatra Richard von Krafft-Ebing, um precursor de Freud, a quem a peça faz alusão na personagem do dr. Kraft.

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PERSONAGENS:

WANDA VON HOFFMAN, uma mulher emancipada
FRAULEIN, sua governanta
CARLOSTA VON KRAFT, jovem recém-casada
SEVERINO – DEPOIS GREGÓRIO–, poeta apaixonado por Wanda
DR. JOHANN VON KRAFT, professor de neurologia na Universidade Imperial de Viena, marido de Carlota
HERMANN, servo de Wanda
OUTRAS DAMAS DA SOCIEDADE

 

VIENA, SÉCULO XIX

NARRAÇÃO: O século XIX… Surge a ferrovia, a eletricidade, a indústria. Uma era de progresso, mas também de dramáticos conflitos. Nas ruas, a emancipação do proletariado. Nos lares patriarcais, a emancipação da mulher. Um combate árduo, desigual. Uma luta à qual não faltaram heroínas e pioneiras, idealistas a sonhar que outro mundo seria possível. Um mundo onde a mulher fosse redimida e o homem pagasse, enfim, por seus crimes e iniquidades…

Cena 1

Um vestíbulo. Wanda, em roupas de montaria, botas e culotes, arruma seus cabelos diante do espelho. Entra Fraulein.

FRAULEIN [com uma mesura]: Com licença, madame. O sr. Severino pede para ser anunciado.

WANDA [irritada]: Severino, aqui? Mas que rapaz maçante! Diga que fui à reunião da Liga pelo Sufrágio Feminino.

FRAULEIN: Pois não, madame. [Sai com uma mesura.]

Severino entra abruptamente, seguido de Fraulein.

SEVERINO [transtornado]: Wanda, preciso falar contigo!

WANDA: Mas que atrevimento!

FRAULEIN: Não tive culpa, madame, o cavalheiro forçou a entrada!

WANDA [para Fraulein]: Podes sair, depois me entenderei contigo!

Fraulein sai com uma mesura apressada.

WANDA [para Severino]: Que inconveniência, francamente!

SEVERINO: Vim apelar a tua misericórdia, é impossível que não pulse um coração de mulher por trás de tua dureza!

WANDA [volta-se de novo para o espelho]:Já disse que não deves alimentar ilusões a meu respeito.

SEVERINO: Não posso mais viver sem a esperança de ter-te em meus braços e colar meus lábios aos teus! As lágrimas que verti esta noite fariam transbordar o Danúbio!

WANDA: Teu romantismo está ultrapassado, Severino. Vivemos na época moderna, já estamos em pleno realismo!

SEVERINO: Aprenderei o realismo, lerei livros audaciosos, farei o que quiseres para te agradar! [Aproxima-se dela, suplicante.] Wanda, minha rainha…

WANDA [com escárnio]: Chamas de rainha uma republicana radical como eu? [Desvencilha-se dele.] És forte, és belo, és educado. Mas algo em ti não me satisfaz. Falta-te algo.

SEVERINO: Diz o que me falta, viverei para te atender.

WANDA [frívola, ajeitando os cabelos no espelho]: Severino, serias capaz de tudo por amor a uma mulher?

SEVERINO: Não a uma mulher qualquer, mas a ti! Sim, tudo!

WANDA [sorrindo]: Serias capaz de desfazer-te daquilo que és apenas para agradar meus caprichos? Já que ser meu amante é algo fora de questão, serias… meu criado?

SEVERINO: Teu criado? Já sou escravo de teu amor! Quando a aurora com seus dedos róseos tinge a manhã –

WANDA: [interrompe, voltando-se para ele]: Basta de tuas falsidades de poeta! Serias meu escravo de corpo e alma? Como esses africanos que são levados nus e acorrentados para labutar nas colônias da América?

SEVERINO [meio desconcertado]: Seria o que quisesses, desde que pudesse passar o resto de meus dias a teu lado…

WANDA: A meus pés?

SEVERINO: Sim, a teus pés! [Cai de joelhos.]

WANDA: Terias de aprender a amar uma mulher como eu… Estás disposto a te abandonares a meu comando? Empenhas tua honra nesse juramento?

SEVERINO [pega suas mãos]: Minha honra é te agradar e te servir, Wanda!

WANDA: Falo a sério, rapaz, compreendes as consequências de teu ato? Vamos, inclina! [Força seu torso em direção ao piso.] Não te escutei dizer “Sim, senhora!”.

SEVERINO [tenta erguer o torso]: Wanda, não me parece conveniente nem apropriado…

Wanda aplica violenta chicotada nas nádegas de Severino.

SEVERINO: O que fazes, estás louca!

WANDA: Nem bem juraste e já faltas com a palavra empenhada? São mesmo uns mentirosos, os poetas! Apanha de novo, então, por mentir! [Outra chicotada.]

SEVERINO: Ai!!

WANDA: Levanta o quadril, Severino! Foi isso o que te ensinaram no internato e na caserna, a gemer feito uma donzela!? Agora apanhas por choramingar! [Outra chicotada.]

SEVERINO: Wanda, por favor!

WANDA [outra chicotada]: Começas a compreender, mocinho!?

SEVERINO: Sim, mas não me batas mais!

WANDA [bate de novo]: Serás castigado sempre que eu julgar necessário, atrevido! Farei de ti um novo homem! Teu nome, aliás, não é mais Severino, aquele pedante presunçoso, mas Gregório, escravo da senhora Wanda! Ouviste bem, Gregório!?

GREGÓRIO: Sim, senhora!

WANDA: E agora apanhas porque imploraste para não apanhar! [Chicotada.]

GREGÓRIO: Pois não, senhora!

Toca Danúbio Azul, Wanda segue aplicando chicotadas, a luz cai até o blecaute.

 

Cena 2

Carlota e Wanda tomam chá das cinco, servido por Fraulein.

CARLOTA: Ah, Wanda, queria tanto ser como tu! Praticas equitação e fotografia, tens em casa um laboratório de eletricidade, discursas na Liga pelo Sufrágio Feminino! Não deves satisfações a ninguém, és uma mulher livre!

WANDA: E o que te impede de ser livre também? Uma bela moça, rica e cheia de possibilidades… Tens o mundo inteiro diante de ti, Carlota!

CARLOTA [lastimosa]: E um marido tirânico entre mim e esse mundo de maravilhosas aventuras que me revelaste!

WANDA: Maridos podem se tornar, de fato, um sério aborrecimento… [Para Fraulein.] Podes ir, Fraulein, chamarei se precisarmos.

Fraulein sai após mesura.

CARLOTA: Meus pais impuseram a mais severa educação em nossa casa. Quando apareceu o primeiro pretendente, agarrei-me a ele como se fosse meu libertador…

WANDA [com irônica solenidade]: O célebre dr. Johann von Kraft, professor de neurologia da Universidade Imperial de Viena!

CARLOTA: Sim, na época eu sonhava em ser uma das pacientes histéricas de sua clínica, somente para ser examinada por ele… Chegava a fingir sintomas… As mãos de Johann pareciam tão fortes, sua voz grave e profunda era tão penetrante…

WANDA: Conheço mulheres que frequentam o consultório de teu marido, querida, e francamente… Sua psiquiatria é tão antiquada que chega a ser aviltante!

CARLOTA: Pois não sabes como ele é em casa! Comporta-se como déspota, põe-se a esbravejar se o menor detalhe está fora de ordem, chega a me bater com a palmatória que usa em sala de aula com seus alunos!

WANDA: Mas que atrocidade! Devias ter-me feito essas confidências antes! Escreverei uma moção, vamos denunciar esse facínora ao Comitê pela Integridade Física de Esposas e Filhas –

CARLOTA [interrompe]: Nem penses nisso, não sei do que ele seria capaz se soubesse que revelei os horrores que me faz passar! [Confidencia em voz baixa.] Obriga-me a usar cinto de castidade!

WANDA: Que monstro! [Acaricia os cabelos de Carlota.] Pobre menina, forçada a tais indignidades por um ogro desprezível, um verdadeiro vilão!

CARLOTA: Se eu soubesse que das primícias do matrimônio brotariam os espinhos deste calvário, querida Wanda…

WANDA: Basta, tomarei teu caso como uma ofensa pessoal! Não descansarei enquanto não estiveres livre de grilhões, com esse bruto a teus pés!

CARLOTA: Não conheces meu marido, é um homem terrível!

WANDA: Haveremos de pregar-lhe uma lição de que não se esquecerá tão cedo, minha amiga… Tenho um plano.

CARLOTA [animada]: Farei o que disseres, confio em ti plenamente! [Bate palmas.] E adoro planos!

WANDA: Amanhã, em minha casa, verás uma demonstração instrutiva sobre como um homem deve ser tratado. [Levantando-se.] Agora vamos a meu gabinete de revelação química, Carlota. Há certas chapas de magnésio que precisas ver…

Saem, blecaute.

Cena 3

Dia seguinte, na alcova de Wanda. Carlota e outras damas vienenses ouvem sentadas uma preleção de Wanda, enquanto Fraulein está em pé, perfilada. As mulheres vestem roupas sumárias, cintas-ligas, lingerie preta. Ao fundo, a figura frankensteiniana de Hermann, servo de Wanda. Dentro de uma jaula, o vulto irrequieto de Gregório, nu.

WANDA [chicote em mãos]: Em suma, minhas amigas, o homem sempre foi a fonte de todas as desgraças. Quem faz a guerra? O homem. Quem estupra? O homem. Crime, injustiça, brutalidade? Quem mais, se não o homem! Mas a Divina Providência enviou o remédio capaz de corrigir o homem. Esse remédio é a mulher!

Palmas, bravos.

WANDA [interrompendo os aplausos]: Experimentos recentes indicam que o homem pode ser amestrado de forma a se tornar um animal dócil! Não apenas inofensivo, mas até mesmo útil à comunidade!

Palmas etc.

WANDA [para Fraulein]: Traz o espécime, Fraulein!

FRAULEIN [mesura]: Pois não, madame.

Fraulein retira Gregório da jaula. Ela tem um chicote em mãos e o conduz por uma guia presa à coleira em seu pescoço. Insinua-se de novo o tema do Zarathustra, de R. Strauss.

WANDA [profética]: EIS O HOMEM!

Enquanto Wanda ministra suas explicações e esclarece Carlota a seguir, Fraulein compele Gregório, sempre de quatro no chão e sob golpes de chicote, a praticar uma série de números circenses. Ele sobe num tamborete, salta obstáculos em forma de arcos, apanha objeto lançado à distância e o traz na boca para Fraulein, rebola como um cão satisfeito, fica de joelhos sobre as “patas traseiras” etc.

WANDA: Da mesma forma que os símios, o homem é capaz de aprender por imitação. O próprio Darwin, um homem, reconhece que eles descendem do macaco…

CARLOTA [com ares de aluna aplicada]: Permites uma pergunta, minha cara Wanda?

WANDA: Mas é claro, Carlota… a exibição desta noite é para deleite geral, mas se destina sobretudo à instrução das novatas…

CARLOTA: Qualquer homem deveria ser submetido a esse tratamento ou somente aqueles que tenham tendência natural a servir mulheres?

WANDA: Todos têm essa tendência, querida, basta que alguma mulher a tenha despertado… O homem não sabe viver entre iguais, ele só concebe a opressão. Se não puder ser tirano, será de bom grado escravo!

Ilumina-se o vestíbulo, à direita da cena. Aparece Von Kraft, de fraque e cartola. Ele consulta metodicamente seu relógio de bolso.

CARLOTA [acaricia Gregório, que lambe seus pés]: Vejo que este rapaz se mostra perfeitamente dócil. Mas são todos assim? Não existem os incorrigíveis, aqueles que nenhuma disciplina pode salvar?

WANDA: Nos casos em que o chicote falhou, medidas mais drásticas devem ser cogitadas. Métodos invasivos, que garantam uma domesticação segura.

No vestíbulo, Von Kraft aciona a campainha da casa. Na alcova, sobressalto entre as senhoras presentes.

WANDA [contrariada]: Fraulein, vai ver quem é!

FRAULEIN: Pois não, madame.

Fraulein veste um roupão às pressas e sai.

FRAULEIN [no vestíbulo]: O que deseja?

KRAFT: Recebi denúncias de que minha mulher é mantida em cativeiro nesta casa! Diga que o dr. Von Kraft exige sua presença!

FRAULEIN: Madame Wanda está entretendo suas amigas, tenho ordens expressas de não incomodá-la…

KRAFT: Pelos trajes de messalina que a senhorita enverga calculo que passatempos possam ser esses! Saia da frente!

Kraft afasta Fraulein e entra na alcova. Gritos, corre-corre. Wanda, Gregório e Hermann permanecem como estão.

FRAULEIN [atrás dele]: Não tive culpa, madame, o cavalheiro forçou a entrada!

KRAFT: É pior do que eu pensava! Que antro de devassidão! Que Gomorra! E tu, Carlota, que fazes num covil abjeto como este!?

WANDA: O que faz o senhor em minha casa sem ter sido convidado?!

KRAFT: [Para Wanda]: És tu a sacerdotisa infame desta bacanal! Não perdes por esperar, corruptora de senhoras casadas! Mandarei minha carruagem buscar a polícia!

CARLOTA: Johann, este não é um lugar para ti. Deves voltar para casa.

KRAFT [estupefato]: Como te atreves a falar assim ao marido a que juraste obedecer, Carlota!?

WANDA: Carlota já sabe as torpezas que praticas com tuas pacientes hipnotizadas, doutor Kraft…

Pega chapas de magnésio sobre a mesa e as joga contra Kraft.

WANDA: Estas chapas de magnésio provam tudo! Medonhas violações do juramento de Hipócrates! Mais do que o suficiente para cassar tua licença!

KRAFT: [confuso, vendo as chapas]: São falsificações… imposturas grosseiras…

WANDA: Nem te davas ao trabalho de fechar as janelas, pervertido!

KRAFT: Não podem arruinar minha carreira assim! Sou catedrático da faculdade!

CARLOTA: És um canalha, Johann!

WANDA: Bravo, querida! [Bate palmas, imperiosa.] Hermann!

KRAFT [perdido]: Carlota!

Hermann traz uma camisa de força e amarra Kraft, que está aturdido, de modo que seus braços fiquem colados ao corpo.

WANDA [para as mulheres]: Hermann foi o resultado de meus primeiros experimentos em eletricidade aplicada à disciplina masculina…

KRAFT [para Wanda]: Não admito! Isto é um ultraje! Quanto queres, desgraçada? Pagarei pelas chapas!

WANDA: Vais pagar, disso não tenhas dúvida, doutor Kraft…

Hermann e Fraulein colocam Kraft de costas, amarrado e de joelhos, e abaixam suas calças.

WANDA: Revirem os bolsos, procurem uma chave…

Fraulein encontra a chave e a põe na boca de Gregório, que a leva, de quatro, a Wanda. Hermann segura Kraft.

WANDA [pega a chave e vira-se para Carlota]: Querida, a partir de agora serás uma mulher livre!

Wanda retira o cinto de castidade que recobre a calcinha de Carlota, sob aplausos gerais, e o lança longe.

WANDA: Fora com esses grilhões! E agora faremos uma demonstração do sufrágio feminino! [Vai exibindo três consolos, cada um maior do que o anterior.] Qual destes objetos será utilizado no marido bisbilhoteiro a fim de ensinar-lhe boas maneiras? Número 1, número 2 ou número 3? Fraulein recolherá os sufrágios.

Fraulein percorre o grupo com uma urna e recolhe os votos das mulheres presentes, levando-os a Wanda.

KRAFT [agora chorando, aos soluços]: Carlota, pelo amor de Deus, és minha esposa adorada!

WANDA [apurando os votos]: Vês como seu comportamento já melhora antes mesmo de começarmos, Carlota? [Risos das mulheres.]

CARLOTA: Sim, mas ainda falta corrigir os maus hábitos de menino chorão…

WANDA: Venceu por unanimidade o objeto número 3! É a democracia! [Estende o consolo maior a Fraulein.] Fraulein, executa o mandato das urnas!

CARLOTA:  Wanda, permitirias… que fosse eu mesma a aplicar a lição?

WANDA: Excelente ideia! Ensinarás teu marido enquanto aprendes, proporcionando um belo quadro de idílio conjugal! [Mulheres riem.]

CARLOTA [consolo numa mão, chicote na outra]: Chega de cenas, Johann! Assim me envergonhas na presença de minhas amigas… [Persuasiva.] Anda, empina o traseiro, querido…

Toca Danúbio Azul, Von Kraft grita, blecaute.

Cena 4

Wanda, Carlota e Fraulein sentadas, vestidas à século XIX. Nus, mas com aventais de arrumadeiras, Gregório, Von Kraft e Hermann estão atarefados arrumando malas. Clima festivo.

WANDA: Graças à doação que teu marido fez à causa feminina poderemos dar início a nosso sonho, Carlota!

CARLOTA: Expliquei a Johann que alguns milhões de libras esterlinas não fariam falta em sua conta bancária… Desde que segui teus conselhos, Wanda, nosso casamento mudou da água para o vinho! Não é mesmo, Johann? [Kraft vem até ela, de quatro, beija seus pés etc.] Bom menino… [Despacha-o com uma palmada.]

WANDA [bate palmas para os homens]: Depressa com isso, vagabundos! Temos de partir! [Para as mulheres.] De trem até Hamburgo e de lá em vapor para Nova York!

CARLOTA: O novo mundo!

WANDA: Um novo mundo para todo o gênero feminino! Telegrafei a mulheres emancipadas de toda a Europa. Elas se juntarão a nós na viagem!

FRAULEIN [trazendo copos e champanhe]: Devo servir, madame?

WANDA [levanta-se]: Um brinde à sociedade do porvir!

Fraulein serve. Wanda e Carlota trocam olhares e carícias de amantes.

CARLOTA: Ao êxito de nossa utopia, minhas amigas!

WANDA: À América! E depois, rumo ao coração do continente virgem, onde ergueremos Femínia, capital, Clitória! Uma república governada por mulheres!

CARLOTA: Onde a mulher se dedicará à filosofia, aos prazeres da vida e ao adestramento do homem!

WANDA: E onde o homem será escravo da mulher de dia e seu brinquedo à noite!

TODAS [num brinde]: VIVA! VIVA A FEMÍNIA! E A UM OUTRO MUNDO POSSÍVEL!

[Toca a Internacional.]

Otavio Frias Filho

Otavio Frias Filho, jornalista, diretor de redação da Folha de S.Paulo, é autor dos livros de ensaios Queda Livre (Companhia das Letras) e Seleção Natural (Publifolha) e da coletânea teatral Cinco Peças e Uma Farsa (CosacNaify).

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