esquina

A falta que faz um Y

Sânscrito fajuto compromete a Satiagraha

Marcos Sá Corrêa
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2008

Com as honrosas exceções do delegado Protógenes Queiroz e do banqueiro Daniel Dantas, ninguém no Brasil parecia preparado para acordar no dia 8 de julho com a Operação Satiagraha solta na rua. Mas um uruguaio, Pedro Kupfer, estava pronto quando sua mulher, Angela Sundari, correu a vista pelas manchetes do dia seguinte e lhe perguntou: “Isso não é sânscrito?”

Mais ou menos. Foi só bater o olho na página para ver que, sim, sânscrito era, mas não do legítimo. A língua litúrgica do hinduísmo chegara aos jornais meio estropiada pelo Sistema de Transliteração da Polícia Federal. “Pensei que fosse alguma piada”, diz Kupfer.

Aos que não escrevem o sânscrito no alfabeto devanágari — que, entre outras peculiaridades, pendura as letras na linha como num varal —, informe-se que satyagraha se grafa com y. “É uma palavra bonita para quem tem apreço pela verdade”, explica Pedro Kupfer. Significa “firmeza na verdade”. Tirar-lhe o y, sem mais nem menos, só podia ser mau presságio.

Lá da sua casa na praia de Mariscal, em Santa Catarina, onde ensina Yoga, assim mesmo, com Y maiúsculo, ele enxergou de longe, no mesmo instante, o que as mais altas autoridades da República levariam pelo menos uma semana para vislumbrar. Alguma coisa naquela operação estava torta desde o início. A uma instituição que zela pela ordem pública, não caía bem iniciar um trabalho com uma infração às convenções ortográficas internacionais e à nova reforma da língua portuguesa, que anistiará, a partir de janeiro, o k, o w e, como não?, ele, o y. “Estranhei o nome aportuguesado”, diz Kupfer, à vontade no seu sotaque intercontinental.



Pedro Kupfer passa os invernos no litoral catarinense. Em agosto, viaja para Portugal, onde tem discípulos. Em dezembro, vai surfar em Bali. Depois, leva pequenos grupos em excursões pela Índia, desdobrando a viagem em cursos de aperfeiçoamento. Só em maio, quando a praia se esvazia novamente, está de volta ao seu refúgio de Mariscal, o Espaço Shanti, uma construção de madeira que se debruça sobre a espuma da arrebentação e que recebe dele o nome de lar.

Cumprindo religiosamente essa rotina há vinte anos, Kupfer parece a satyagraha em pessoa, um modelo vivo de “firmeza na verdade”: faz o que acha certo. Foi com essa bandeira verbal que Mahatma Gandhi derrubou, sem um tiro, o governo colonial inglês, seguindo o exemplo do pensador americano Henry David Thoreau, que em 1846 preferiu ser preso a pagar impostos para bancar a guerra que tirou do México o Texas e meia Califórnia.

 

Thoreau, por sinal, acabou convencido de que o único lugar digno dos justos era a cadeia, o que talvez sirva de consolo às vítimas da Satiagraha com i, se um dia o habeas corpus vier a lhes faltar. Kupfer lembra, algo espantado, que a Satiagraha bolada pela PF é quase apropriação indébita. De um lado, porque a palavra foi senha de uma rebelião contra o governo, idéia que não pode ter passado pela cabeça de um funcionário como Protógenes. De outro, porque os preceitos da resistência pacífica são estritos. Se o delegado levasse a palavra ao pé da letra, “teria que se sentar ao lado do banqueiro e dizer que não é certo o que ele está fazendo”. Resta saber qual seria a eficácia dessa metodologia.

Kupfer sempre morou “no mato ou na praia”, entre outros motivos por considerar que, no combate ao estresse, é indispensável impor-se a disciplina de rachar lenha com regularidade. Funciona melhor, sem dúvida, onde haja madeira para catar e lareira para acender. “Não são coisas fáceis de achar em cidades”, adverte num artigo que publicou recentemente num site especializado nessas coisas.

Uma das fontes de sustento de Kupfer são os cursos de imersão, dirigidos às pessoas que querem mais do que o trivial variado das academias new age. Ele não sabe quantos alunos tem. “Não coleciono alunos”, diz. Suas turmas vêm e vão, como as ondas. Ficam quatro semanas hospedadas numa pousada ao lado de sua casa, a Vida Boa, vivendo de Yoga da manhã à noite. Quando termina a temporada de seminários, chega “o pessoal da praia”, para práticas avulsas. Até que a sala envidraçada se feche e o casal arrume as malas.

Segundo a propaganda que o Espaço Shanti faz de seus cursos, o que está verdadeiramente no centro do (sim, a palavra é masculina) Yoga “é a liberdade”. Deixa a turma da Satiagraha saber disso.

Marcos Sá Corrêa

Marcos Sá Corrêa é jornalista. Foi editor de piauí entre 2006 e 2011.

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