poesia

A fidelidade das coisas

Ele me conta casos improváveis tateando meu rosto com dedos cegos de chuva

Zbigniew Herbert 
ILUSTRAÇÕES: FABIO CARDOSO

A poesia de Zbigniew Herbert acrescenta à biografia da civilização a sensibilidade de um homem que não foi derrotado pelo século que empreendeu, da forma mais completa e eficiente, a desumanização da espécie humana. A ironia de Herbert, sua discrição austera e sua compaixão, a lucidez de seu lirismo, a intensidade de seu amor pela antiguidade clássica, não são apenas ornamentos exibidos por um poeta moderno, e sim a armadura – no seu caso, de aço bem temperado e reluzente – de que o homem precisa para não ser esmagado pelas investidas da realidade. Como não oferece a seus leitores concessões estéticas nem éticas, esse poeta os salva daquela pobreza que serve tão bem a todas as formas do mal. JOSEPH BRODSKY

POR QUE OS CLÁSSICOS
1

no quarto livro da Guerra do Peloponeso
Tucídides nos conta entre outras coisas
a história de sua expedição fracassada

entre longos discursos de comandantes
pragas invasões batalhas
densas intrigas diplomáticas
o episódio é quase insignificante

a colônia grega Amfipolis
caiu nas mãos de Brasidos
porque Tucídides não chegou a tempo

por isso ele ofereceu à sua cidade natal
o autoexílio eterno

exilados de todos os tempos
conhecem esse preço

2
generais de guerras mais recentes
se algo parecido lhes acontece
imploram de joelhos diante da posteridade
exaltam a si próprios, juram inocência

acusam subordinados
colegas invejosos
ventos traiçoeiros

Tucídides diz apenas
que tinha sete navios
era inverno
e navegou depressa

3
se a arte, por seu objeto,
tiver um vaso quebrado
uma alma pequena despedaçada
com pena de si própria

o que restará depois de nós
será como o choro de amantes
num hotel vagabundo
quando as paredes amanhecem

 

17 DE SETEMBRO¹
Meu país indefeso te receberá invasor
e o caminho de João e Maria
não se abrirá num abismo

Nossos rios sonolentos não são dados a enchentes
nas montanhas os guerreiros adormecidos seguirão dormindo
e você entrará sem problema hóspede indesejado

Mas à noite os filhos da terra se reúnem
tolos carbonários conspiradores da liberdade
vão limpar suas armas de museu
e jurar diante de um pássaro e duas cores²

Depois como sempre o fogo e explosões
jovens camuflados e comandantes insones
macas encharcadas de derrota campos rubros de glória
o alento de saber que estamos sós

Meu país indefeso te receberá invasor
te dará um pedaço de terra sob um salgueiro – e paz
para ensinar mais uma vez àqueles que virão
o dom mais difícil – perdoar os pecados

 

PEDRA
A pedra
é uma criatura perfeita

igual a si mesma
percebe seus limites

é perfeitamente preenchida
por seu sentido de pedra

seu cheiro não lembra nada
não assusta não excita

seu ardor e frieza
são justos e dignos

sinto um grande remorso
quando a pego na mão
e seu corpo nobre
é envolvido pelo meu falso calor

-Pedras não podem ser domadas
até o fim nos olharão
com olhos calmos e transparentes

__________________________________________________
¹ Em decorrência do pacto entre Hitler e Stálin, o Exército Vermelho invadiu a Polônia em 17 de setembro de 1939 e anexou suas províncias do leste. Em 1º de setembro, tropas nazistas haviam ocupado o oeste do país.
² Figura da bandeira polonesa.
__________________________________________________

 

ABANDONADO
1

Cheguei tarde demais
para a última condução

fiquei na cidade
que não é uma cidade

sem matutinos
sem vespertinos

não há
prisão
relógio
nem água

aproveito
um tempo
fora do tempo

faço longas caminhadas
por avenidas de prédios queimados

avenidas de açúcar
de vidros quebrados
de arroz

poderia escrever um tratado
sobre a transformação abrupta
da vida em arqueologia

2
há um silêncio terrível

a artilharia nos subúrbios
se perdeu na própria coragem

às vezes
não se escuta nada
além do eco das paredes que restam

e o trovão leve
das lages ao vento

há um silêncio terrível
que precede a noite do predador

às vezes
um avião absurdo
surge no céu

joga folhetos
demandando rendição

eu adoraria me render
mas não tenho a quem

3
no momento estou
no melhor hotel

um porteiro morto
se mantém no posto

saio de uma pilha de entulho
e ando direto até o primeiro andar
para dentro do quarto
da ex-amante
do ex-delegado

durmo numa cama de jornal
me cubro com um pôster
que promete a grande vitória

no bar ainda há
remédio para solidão

garrafas de liquido dourado
e um rótulo simbólico
– Johnnie
com um aceno da cartola
se manda para o oeste

não culpo ninguém
por estar abandonado

minha sorte acabou
a mão certa não vem

no teto
a lâmpada lembra
uma caveira de ponta-cabeça

aguardo os vencedores

brindo aos derrotados
brindo aos desertores

me livrei
das idéias macabras

até o pressentimento da morte
me abandonou

20_poesia3

BANQUINHO
No fim das contas é impossível esconder esse amor
pequeno objeto de quatro pés de carvalho
pele de aspereza e frescura inexprimíveis
objeto cotidiano sem olhos mas com rosto
onde rugas e marcas revelam um juízo maduro

pequena mula cinzenta a mais paciente das mulas
seu pêlo caiu de tanto fazer jejum
e de manhã quando lhe faço carinho
sinto um único tufo da sua madeira

-Você sabe querido eles eram impostores
diziam: a mão mente para os olhos
mente quando toca em formas vazias-

eram pessoas más invejosas das coisas
queriam enganar o mundo com a isca do recomeço

como expressar minha gratidão meu espanto
você sempre aqui ao meu alcance
praticamente imóvel explicando com sinais silenciosos
a um pobre intelecto: somos verdadeiros-
Enfim a fidelidade das coisas nos abre os olhos

 

CINCO HOMENS
1

Eles os levam para fora de manhã
para o pátio de pedra
e os botam contra a parede

cinco homens
dois muito jovens
os outros de meia-idade

nada mais
pode se dizer sobre eles

2
quando o pelotão
ergue as armas
tudo se revela de repente
na luz invasiva
do óbvio

a parede amarela
o azul gelado
o fio preto na parede
em vez de um horizonte

esse é o momento
em que os cinco sentidos se rebelam
fugiriam felizes
como ratos de um naufrágio

antes da bala chegar
o olho percebe o vôo do projétil
o ouvido capta um rumor metálico
as narinas se enchem de fumaça amarga
uma pétala de sangue roça o céu da boca
o tato se encolhe e depois afrouxa

agora eles estão caídos na pedra
cobertos até os olhos com sombra
o pelotão vai embora
seus botões correias
e capacetes de aço
mais vivos
do que os homens caídos
ao pé da parede

3
Não aprendi isso hoje
já sabia faz tempo

então por que tenho escrito
poemas sem importância sobre flores

o quê os cinco conversavam
na noite antes da execução

sobre sonhos proféticos
sobre a ida a um bordel
sobre peças de carro
sobre uma viagem no mar
sobre quando ele tinha copas
e apostou errado
sobre como vodka é melhor
vinho dá dor de cabeça
sobre garotas
sobre frutas
sobre a vida

assim pode se usar na poesia
nomes de pastores gregos
pode-se tentar a cor do céu da manhã
escrever sobre amor
e também
uma vez mais
com toda sinceridade
oferecer ao mundo traído
uma rosa

 

LAMENTO 

EM MEMÓRIA DE MINHA MÃE

E agora saobre ela nuvens de chão e raízes
um lírio delgado de sal nas têmporas um rosário de areia
ela navega no fundo de um barco pela névoa espessa

uma légua daqui onde o rio dobra
-visível-invisível-como a luz numa onda
ela não é diferente-adandonada como todos nós

NOSSO MEDO
Nosso medo
não usa pijama
não tem olhos de coruja
não levanta a tampa do caixão
não apaga velas

tampouco tem o rosto de um morto

nosso medo
é um pedaço de papel
encontrado num bolso
“avisa Wójcik
que o ponto na Rua Dluga caiu”

nosso medo
não se ergue nas asas da tempestade
não assoma numa torre de igreja
ele é terrestre

tem a forma
de uma sacola feita às pressas
com agasalhos
mantimentos
e armas

nosso medo
não tem o rosto de um morto
os mortos são gentis conosco
nós os carregamos nos ombros
dormimos sob o mesmo cobertor
fechamos seus olhos
ajeitamos seus lábios

escolhemos um canto seco
para enterrá-los

não muito fundo
não muito raso

 

DESPERTANDO
Quando o terror deu trégua os holofotes se apagaram
nos vimos num lixo-lodo em poses estranhíssimas
alguns com o pescoço esticado

outros com a boca aberta
da qual ainda escorria
um pouco da minha terra

alguns tapavam os olhos com os punhos cerrados
enfaticamente espremidos pateticamente tensos
em nossas mãos pedaços de folha de aço e ossos
(os holofotes os haviam transformado em símbolos)
mas agora eram apenas folha de aço e osso

Não tínhamos onde ir ficamos no lixo-lodo
fizemos uma faxina
arquivamos os ossos e a folha de aço

Escutamos o gorjeio dos carros o pio
das fábricas
uma vida nova se estendendo sob nossos pés

 

A CHUVA
Quando meu irmão mais velho
voltou da guerra
trouxe na testa uma pequena estrela de prata
e sob a estrela
um abismo

um estilhaço de granada
o acertou em Verdun
ou talvez em Grünwald
(ele esqueceu os detalhes)

antes ele falava muito
em várias línguas
mas o que ele gostava mais
era o idioma da história

até perder o fôlego
mandou seus companheiros mortos correr
Roland Kowalski Aníbal

ele gritou
que essa era sua última missão
que Cartago logo cairia
e depois chorando confessou
que Napoleão não gostava dele

olhávamos para ele
cada vez mais pálido
abandonado pelos sentidos
virou lentamente um monumento

pelas conchas musicais dos ouvidos
entrou numa floresta de pedra
a pele de seu rosto sustentada
pelos botões cegos e secos
dos olhos

nada dele restou
senão o tato

e que histórias
ele contou com as mãos
na direita os romances
na esquerda a vida de soldado

pegaram meu irmão
e o levaram embora da cidade
ele volta todo outono
magro e quase mudo
ele não quer entrar em casa
ele bate na janela para que eu saia

andamos juntos na rua
e ele me conta
casos improváveis
tateando meu rosto
com dedos cegos de chuva

 

CUBO DE MADEIRA
Um dado de madeira só pode ser descrito por fora. Estamos assim condenados à eterna ignorância de sua essência. Mesmo quando de um golpe é cortado em dois, instantaneamente em seu interior se forma uma parede e de súbito ocorre a transformação vertiginosa de um mistério em uma pele. Por essa razão é impossível estabelecer os fundamentos para a psicologia de uma esfera de pedra, de uma barra de ferro, de um cubo de madeira.

 

BÊBADOS
Bêbados são seres que bebem até a borra de um gole só. Mas então estremecem porque na borra vêem a si próprios outra vez. Através do vidro da garrafa observam mundos longínquos. Se tivessem mais miolo e bom gosto, seriam astrônomos.

 

OBJETOS
Os objetos inanimados são sempre corretos e, infelizmente, não se pode censurá-los por nada. Jamais vi uma cadeira deslocar o peso de um pé para outro, nem uma cama empinar-se sobre as patas traseiras. E as mesas, mesmo quando cansadas, não ousam dobrar os joelhos. Desconfio que os objetos ajam assim com intenção pedagógica, a fim de nos reprovar constantemente por nossa instabilidade.

 

TUDO, MENOS UM ANJO
Se depois de nossa morte quiserem nos transformar numa chama pequenina e murcha a vagar pelos caminhos dos ventos – temos de nos rebelar. De que adianta o lazer eterno no seio do ar, à sombra de uma auréola amarela, entre murmúrios de coros bidimensionais?

Devíamos penetrar na rocha, na madeira, na água, nas rachaduras de um portão. Antes ser o ranger de um assoalho que uma perfeição estrídula e transparente.

20_poesia4

TENTATIVA DE DISSOLVER A MITOLOGIA
Os deuses reuniram-se num acampamento nos arredores da cidade. Zeus fez um de seus costumeiros discursos arrastados e tediosos. Em suma: era necessário dissolver a organização; já bastava de conspirações ridículas; era tempo de entrar na sociedade racional e de alguma maneira se ajeitar. Atena choramingava num canto.

É importante destacar que os últimos rendimentos foram divididos de forma equânime. Poseidon estava otimista. Bramiu, afoito, que para ele estava tudo muito bem. A pior situação era a dos guardiões dos rios regulados e florestas derrubadas por madeireiras. Em segredo, todos contavam com os sonhos, mas ninguém queria tocar no assunto.

Nenhuma conclusão foi tirada. Hermes se absteve na votação.

Atena choramingava num canto.

Noite alta, voltaram para a cidade, com documentos falsos nos bolsos e um punhado de moedas de cobre. Quando atravessavam uma ponte, Hermes jogou-se dentro do rio. Os outros o viram se afogando, mas ninguém tentou salvá-lo.

As opiniões se dividiram quanto à questão de saber se aquilo era um mau agouro ou, pelo contrário, um bom sinal. Fosse como fosse, era o ponto de partida para alguma coisa nova, ainda não definida.

 

NO ARMÁRIO
Sempre desconfiei que a cidade fosse uma falsificação. Mas foi só numa tarde nevoenta no início da primavera, quando o ar cheira a amido, que descobri a natureza da fraude. Vivemos dentro de um armário, nas mais abissais profundezas do olvido, em meio a varas quebradas e caixas fechadas. Seis paredes pardas, as nuvens-pernas de calças acima de nossas cabeças, e o que até ainda há pouco julgávamos ser uma catedral mas na verdade é apenas um sombrio frasco de perfume evaporado.

Ó pobres noites, em que rezamos à passagem de uma mariposa-cometa.

 

SUICÍDIO
Ele era muito teatral. Colocou-se diante do espelho com um terno preto e uma flor na lapela. Levou a arma até a boca, esperou até que o tambor esquentasse e, olhando para seu reflexo com um sorriso alheado, puxou o gatilho.

Caiu como um paletó lançado dos ombros, mas a alma continuou em pé por algum tempo, sacudindo a cabeça, cada vez mais leve. Então, com relutância, ela penetrou no corpo, sangrento na extremidade superior, no momento em que sua temperatura estava caindo para o nível térmico de um objeto, o qual – como sabemos –
é sinal de longevidade.

 

LÍNGUA
Sem querer, ultrapassei a fronteira dos dentes dela e engoli sua língua ágil. Agora a língua vive dentro de mim, como um peixe japonês. Roça no meu coração e no meu diafragma como se eles fossem as paredes de um aquário. Levanta sedimentos do fundo.

A mulher que privei de voz fixa os olhos grandes em mim e aguarda uma palavra.

Porém não sei que língua usar ao dirigir-me a ela – se a que roubei ou a que derrete em minha boca por excesso de bondade pesada.

Zbigniew Herbert 

Zbigniew Herbert é poeta e escritor

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