despedida

À francesa

François Hollande e os lambris do Elysée

Rosa Freire d’Aguiar
Na campanha à Presidência, Hollande conversa com Valérie, agora sua ex, perto da primeira mulher, Ségolène (E), e da nova namorada, Julie (D)
Na campanha à Presidência, Hollande conversa com Valérie, agora sua ex, perto da primeira mulher, Ségolène (E), e da nova namorada, Julie (D) FOTO: CHRISTOPHE PETIT TESSON_MAXPPP

Quatro e meia da tarde, 14 de janeiro, Palácio do Elysée. Tudo pronto para a primeira coletiva do ano de François Hollande. Na Salle des Fêtes, a mais luxuosa dessa construção do século XVIII, sobressaem as tapeçarias, as pinturas alegóricas, o vermelho-sangue dos tapetes e cortinas, e o dourado flamejante dos lambris. Ali os presidentes tomam posse, outorgam condecorações, oferecem banquetes e organizam as conferénces de presse, vistas como um exercício da rotina republicana.Os 38 ministros do governo – 20 homens e 18 mulheres– e os 600 jornalistas esperam pelo presidente sentados em cadeirinhas tão bonitas como incômodas. Sentados, sim: algum repórter da velha guarda talvez se lembre de que nas primeiras coletivas de De Gaulle ninguém ousava tomar assento diante do gigante de quase 2 metros que simbolizava a resistência à ocupação nazista dos anos 40.

Desde então, aqueles lambris presenciaram estilos diversos e ouviram frases que entraram, senão para a história, ao menos para o folclore. Como a de De Gaulle ao impertinente jornalista que o achava, aos 77 anos, meio velhote para continuar no cargo: “Fique tranquilo, dia desses não vou esquecer de morrer.” François Mitterrand preferia os lambris do Jardin d’Hiver, mas foi entre os brancos e dourados de seu gabinete que, em janeiro de 1991, declarou guerra ao Iraque com o anúncio lacônico: “As armas vão falar.” E Nicolas Sarkozy, que apelou para os marqueteiros como nenhum presidente antes dele, selou seu destino com a ex-top model Carla Bruni sob os lambris da Salle des Fêtes, durante uma coletiva: “Carla e eu, é coisa séria.” Não blefava: pouco depois o Elysée foi palco, pela primeira vez, de um casamento presidencial e do nascimento de uma herdeira.

Ah, se naquela tarde François Hollande pudesse fazer juras de amor à namorada Julie Gayet… A coletiva estava preparada para ser uma pesada contraofensiva em que ele apresentaria urbi et orbi o novo programa previsto para repor o país nos trilhos do crescimento. Todo mundo já se deliciara com a intriga de seus amores secretos, revelada pela revista Closer. Meia dúzia de jornalistas perguntaram sobre a love story, mas Hollande estava afiado: “Passamos por momentos dolorosos… Assuntos privados são resolvidos em esfera privada.” Quanto ao papel da primeira-dama Valérie Trierweiler, que baixara ao hospital, ele só se pronunciou onze dias depois, com raro espírito de síntese: uma frase de dezessete palavras encerrou os sete anos de relacionamento com Valérie e lhe restituiu a vida de solteiro. (A legislação francesa sobre a vida privada é severa, e quem a violar, ainda que revelando fatos verdadeiros, arrisca-se a perder a causa: não mentiu, mas devassou a vida alheia.)

Hollande chegou ao Elysée em 2012 posando de presidente “normal”. Aliviou o truculento esquema de segurança de Sarkozy; em viagens curtas trocou o avião pelo trem. Não fosse a desvairada libido, hoje quem poderia ser presidente era o socialista Dominique Strauss-Kahn. O rocambolesco episódio com a camareira no Sofitel de Nova York pôs tudo a perder. DSK era hors-concours, mas não se imaginava que Hollande, depois de prometer na campanha um comportamento “a cada instante exemplar”, se envolveria nessa trapalhada de adolescente que sai de moto à noite para encontrar a namorada.



 

A história dos presidentes da República na França está salpicada de escândalos de alcova. Já antes de 1848, quando se torna a residência oficial da Presidência, o Elysée acumulava peripécias de amor e poder. Madame de Pompadour e, mais tarde, Joséphine de Beauharnais lá curtiram a dor de cotovelo ao serem abandonadas, a primeira pelo amante Luís XV, a segunda pelo marido Napoleão, o qual, derrotado em Waterloo em 1815, ali assinou a abdicação sob os lambris folheados a ouro branco do Salon d’Argent.

O mesmo salão foi cenário de uma cena de vaudeville em 1899, quando num fim de tarde lá morreu o presidente Félix Faure, deitado no sofá, seminu, nos braços de Marguerite Steinheil. Ela estava, digamos, com a boca na botija, ao perceber que os dedos do amante em seus cabelos se crisparam, apopléticos. Tocou a campainha e os domésticos acorreram: precisaram cortar suas melenas para que a demi-mondaine saísse da pose constrangedora e escapulisse.

Episódio insólito envolveu, em 1974, um leiteiro e Giscard d’Estaing. Lá pelas quatro da manhã, polícia, bombeiro e ambulância foram acudir um acidente perto do Elysée. Encontraram o presidente, visivelmente bêbado e em bela companhia, que nunca se soube quem fosse. O carro que dirigia entrara na traseira da caminhonete do leiteiro, que deu um tabefe em Giscard, que por sua vez tentou suborná-lo com uma nota de 500 francos. Só o satírico Le Canard Enchaîné revelou o caso, mas nem essa nem outras escapadas noturnas do presidente, na provável companhia de Marlène Jobert, Mireille Darc ou Sylvia Kristel, a eterna Emmanuelle, mereceram investigação da imprensa.

Seu sucessor, Jacques Chirac, chegou ao Elysée com fama de fogoso e rápido no lance, donde a alcunha “Cinco minutos, contando a ducha”. Nos doze anos em que foi inquilino do palácio, corria à boca pequena que seu chofer o levava aos apartamentos das eleitas, entre elas, dizia-se, Claudia Cardinale.

Quem melhor cultivou o gosto da sedução e do segredo da vida dupla foi François Mitterrand. Ele manteve em sigilo, por treze dos catorze anos em que presidiu o país, a existência de uma segunda família. Só em 1994 os franceses conheceram Mazarine, sua filha com Anne Pingeot, quando o fotógrafo Sébastien Valiela – o mesmo que flagrou Hollande entrando no prédio da namorada – clicou pai e filha saindo de um restaurante. A concepção algo monárquica que Mitterrand tinha da Presidência o fez instalar Anne e a menina num apartamento oficial às margens do Sena, onde, graças aos contribuintes, elas viveram por catorze anos.

Se por muito tempo prevaleceu na França a certeza de que as aventuras extraconjugais dos presidentes deviam ser abafadas, foi em parte porque a imprensa parecia ter um pacto tácito para não investigar os potins que circulavam por tout Paris. Essa ambivalência entre curiosidade pela vida íntima e respeito à privacidade persiste, tanto assim que o love affair não abalou a opinião que os franceses têm de Hollande. Se sua vida sexual e sentimental não interferir com as razões de Estado, tout va bien.Não é de hoje que os gauleses são tolerantes, senão simpáticos, com as estripulias mais ou menos indecorosas dos príncipes que os governam. Tal como os lambris dourados do Elysée.

Rosa Freire d’Aguiar

Rosa Freire d’Aguiar é jornalista e tradutora de francês, espanhol e italiano. Foi correspondente das revistas Manchete e IstoÉ em Paris.

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