fuzarcas financeiras

A igreja de Warren Buffet

Fé e fundamentos em Omaha

Mattathias Schwartz
No ginásio do Qwest Center, 35 mil fiéis se curvaram diante de Warren Buffett. Quando ele entrou, um mar de braços se ergueu, apontando câmeras digitais. Todas as credenciais diziam “sócio”. Não havia como saber quem era quem
No ginásio do Qwest Center, 35 mil fiéis se curvaram diante de Warren Buffett. Quando ele entrou, um mar de braços se ergueu, apontando câmeras digitais. Todas as credenciais diziam “sócio”. Não havia como saber quem era quem ILUSTRAÇÃO: STEVE BRODNER

O homem está sentado sozinho numa sala, no 14º andar de um prédio pardacento. O terno do homem, o seu cabelo, o céu que se vê pela janela e as colunas de números que deslizam pelo ábaco de sua mente – todos também são em matizes de pardo ou cinza. Contra a parede alinham-se fileiras de arquivos contendo dados acumulados em cinquenta e poucos anos de solidão nessa sala. O homem toma um refrigerante. Lê o jornal. De tempos em tempos o telefone toca e o homem atende. Geralmente a resposta é “não”. Muito tempo atrás, esse homem concluiu que a quietude era ideal para ganhar dinheiro. “A inatividade é um comportamento inteligente”, escreveu ele. Quando diz “inteligente”, quer dizer “lucrativo”.

Ao longo do tempo, a intuição foi confirmada. O homem é o mais rico do mundo, salvo nos anos em que é o segundo. “Se eu quisesse, poderia contratar 10 mil pessoas para não fazerem nada além de pintar um retrato meu a cada dia do resto da minha vida”, é a maneira como certa vez ilustrou o poder de compra do dinheiro que tem, se sua ideia fosse ter dinheiro para gastar. Mas o homem prefere ficar sentado em sua sala, vendo sua pilha de dinheiro crescer. Vai sempre ao mesmo restaurante e pede o mesmo corte de carne. E ao fim de todo dia volta para a mesma casa. Joga bridge pela internet.

A cada duas semanas, o homem – que se chama Warren Buffett – desce pelo elevador até o subsolo do edifício pardo, onde, numa pequena barbearia, submete seus cabelos grisalhos ao mesmo corte. No lugar da sala do 14º andar, hoje vedada a praticamente qualquer visitante, a cadeira de barbeiro onde se instala a cada quinzena transformou-se numa espécie de santuário.

O acesso à cadeira estava particularmente concorrido no primeiro fim de semana de maio passado, quando 35 mil dos sócios-acionistas do homem acorreram a Omaha para a reunião anual da sociedade de capital aberto que armazena sua riqueza, a Berkshire Hathaway. Entre os peregrinos encontrava-se R. J. Meurer Jr., vice-presidente do grupo Morgan Stanley, homem tão ligado à essência capilar de Warren Buffett que emoldurou uma mecha do cabelo dele e pendurou no escritório da sua casa. Era o décimo corte anual de cabelo que R. J. fazia na Berkshire Hathaway. Ele adentrou a barbearia à frente de um séquito de sete colegas, todos imaculados em suas popelinas e cambraias, trazidos para testemunhar sua entronização.

Instalado ali, na almejada cadeira, no entanto, encontrava-se um intruso, um acionista brasileiro. Stan, o barbeiro, raspava a espuma de sua face. E Stan não parecia especialmente apressado. R. J. apontou para o homem instalado na cadeira. “O senhor precisa se retirar”, disse ele, blefando uma suposta autoridade. “A barbearia está reservada para nós.”

Stan ergueu os olhos do rosto do freguês e exibiu um sorriso sem palavras.

“Calma, R. J.”, disse um de seus companheiros, Rudy Kluiber, administrador de um hedge fund. R. J. sentou-se em meio às plantas sintéticas e às madeiras envernizadas. Virou-se para Stanley, que esfregava o rosto do brasileiro com uma toalha úmida. “Quando foi que ele esteve aqui pela última vez?”

“Sexta-feira passada”, respondeu Stan.

“E o que ele estava lendo?”, perguntou R. J.

“Bem… não sei direito”, respondeu Stan. “O Wall Street Journal.”

“Se um dia ele estiver lendo o relatório anual de alguma empresa, você precisa me ligar”, disse R. J. “Aliás, por que você não telefona para ele agora? Ligue e diga que oito dos seus sócios mais fiéis estão aqui. Ele precisa descer e vir nos cumprimentar.”

Dessa vez Stanley não desviou os olhos do freguês.

“Calma, R. J.”, disse Rudy.

Stan desapareceu atrás de uma divisória nos fundos da barbearia e voltou com duas garrafas de vinho. “Alguém sabe abrir uma garrafa dessas?”, perguntou.

“Claro”, eu respondi.

“As taças estão ali”, disse Stan e apontou para uns copos de isopor.

“Ande com isso”, falou R. J. quando comecei a manejar o saca-rolhas. “Vamos começar logo essa festa.”

O brasileiro foi embora e R. J. ascendeu à cadeira de barbeiro. Contribuindo para a atmosfera festiva, Stan pôs um CD de música country para tocar. O vinho circulava à solta, dissolvendo qualquer resquício de tensão. Os colegas da comitiva começaram a trocar cartões de visita e “ideias” de investimentos.

“Onde está Chris?”, murmurou R. J. através da toalha. “Chris está sempre agitado, correndo para comprar e negociar ações. Foram operadores de Wall Street como ele que arruinaram esse país. Os especuladores.”

“Esses gerentes de hedge funds,” disse Rudy piscando o olho, como se ele e R. J. fossem membros de uma minoria injustiçada, cobrando reparação pela calúnia que sofreram. O que, de certa maneira, era verdade. Tanto R. J. como Rudy faziam parte de Wall Street. E sabiam que a ideia de que Wall Street fora responsável pelo recente encolhimento da riqueza nominal do mundo não passava de uma balela, uma injúria inventada pela imprensa marrom para satisfazer os leitores ávidos por um bode expiatório.

Os verdadeiros vilões, acreditava ele, eram os dirigentes dos bancos centrais. Suas políticas monetárias frouxas é que tinham canalizado um excesso de dinheiro para os mercados de crédito. Os males eram o dinheiro fácil e a alavancagem. E a cura era Buffett, a prova viva de que era possível enriquecer sem destruir o sistema. “A maioria das fortunas tem origem duvidosa, e se constrói com dinheiro emprestado”, disse-me R. J. mais tarde. “Buffett não fez nem uma coisa nem outra.”

O que Buffett fez foi sentar-se numa sala e pensar. Como quase toda tarefa penosa e subalterna, pensar é algo que os americanos preferem delegar aos outros. Mas o público vinha tendo dificuldades para encontrar alguém capaz de pensar por ele sobre a crise recente – uma crise grande demais, e inédita demais. Os acontecimentos desconcertaram o consenso, e acabaram forçando os desgarrados a engolir o orgulho e refugiar-se junto aos rebanhos. Um único espírito permanecia independente, avançando sempre a seu ritmo peculiar e usando recursos próprios. “O trabalho de Buffett é pensar o impensável” é uma definição que R. J. gosta de repetir.

 

Faz tempo que a história de Warren Buffett funciona como um verdadeiro canto de sereia para milhões de pessoas que se instalam atrás das respectivas mesas e se convencem de que basta uma inteligência mediana e a leitura regular do Wall Street Journal para se ganhar dinheiro. O que o canto diz é mais ou menos o seguinte: mais vale o senso comum que a informação privilegiada. O melhor retorno em longo prazo vem do investimento em ações. Basta seguir umas poucas regras simples para obter um crescimento anual de 10%, ou até 20%. Dando ouvidos a essa melodia, muita gente arremete contra rochedos, entregando seu dinheiro a uma indústria criada para fazê-lo desaparecer sem culpa. Durante a crise de 2008 e 2009, o dinheiro desses “investidores comuns” encolheu de maneira embaraçosa, como se tivesse sido confiscado. No pior momento, as ações da Berkshire Hathaway sofreram uma queda ainda mais rápida que a do índice Dow Jones, caindo a menos da metade do seu valor de pico.

Ao mesmo tempo em que castigou os papéis de Buffett, no entanto, a crise pouco efeito teve sobre seu prestígio como a estrela-guia populista dos negócios americanos. Pelo contrário, o brilho da sua reputação só fez se intensificar. Ele começou a aparecer regularmente no canal CNBC, onde respondia a perguntas dos telespectadores por várias horas. Nas páginas do New York Times, sugeriu aos leitores que seguissem o seu exemplo e tornassem a despejar seu dinheiro em papéis americanos. O presidente eleito, Barack Obama, procurou-o regularmente durante o período de transição, e por um certo tempo todos achavam que Buffett podia acabar no seu Ministério. É bem provável que a eminência de Buffett no momento da crise tenha algo a ver com o pardo de sua coloração geral, com a banalidade da sua constância. Na hora da calamidade, sempre nos apegamos ao que é mais familiar.

Dois mil e nove me pareceu um ano oportuno para comparecer ao encontro anual da Berkshire em Omaha, um evento que se transformou pouco a pouco na cúpula informal do capitalismo para o Americano Médio, o Main Street American. Eu queria ver de que maneira o expoente mais articulado do sistema iria explicar a crise mais aguda que o país atravessara. E me perguntava se a fé dos seus investidores, depois de ver uma parcela tão grande do seu dinheiro ser tragada pela filosofia de comprar-e-manter, defendida por Buffett, não estaria atravessando uma certa crise. Se a resposta a esta pergunta fosse sim, era sinal de que o capitalismo estava de fato em apuros.

Meu único título da Berkshire Hathaway, uma ação Classe B comprada no inverno anterior por 2 313 dólares, valia menos que uma trigésima parte de cada uma das 350 mil ações Classe A que o próprio Buffett detinha àquela altura. Ainda assim, eu podia reivindicar uma relação direta com Buffett que transcendia a extrema disparidade de nossas respectivas participações. Enquanto sócios, éramos iguais. “Não se vejam como simples proprietários de um título cujo preço varia diariamente, e que é candidato à venda toda vez que algum acontecimento político ou econômico deixá-los inquietos”, ensina Buffett no Manual do Proprietário da Berkshire Hathaway. “Preferimos que se imaginem como proprietários da parte de uma empresa que possam conservar para sempre, como se tivessem comprado, em sociedade com familiares, uma participação numa propriedade agrícola ou num edifício de apartamentos. Da nossa parte, vemos os acionistas da Berkshire não como integrantes sem rosto de uma massa sempre cambiante, mas como coinvestidores que nos confiaram seus recursos, muitas vezes pelo resto das suas vidas.”

Coinvestidor! Pelo resto da minha vida! Nenhum outro bilionário jamais se dirigira a mim em termos comparáveis. Buffett garante que me cobrará menos e me dará mais informações que qualquer uma das grandes empresas com que concorre, e que só espera em retribuição minha fidelidade constante, o que configura bem mais que uma simples troca de dinheiro por títulos: estabelecemos uma aliança sagrada.

 

Nos meses que antecederam ao encontro, dediquei-me a conhecer alguns dos meus novos irmãos da Berkshire Hathaway. Comecei com o grupo que se define como “a vanguarda do fã-clube de Warren Buffett”, os Yellow BRKers (BRK é a sigla da Berkshire nos placares do pregão da Bolsa), famosos pelas animadíssimas festas que organizam na véspera de cada reunião e pelas cartolas gigantescas que usam, feitas de espuma de borracha amarelo-canário. Um desses chapéus, quando não está em uso, reside com a veterana BRKer Sherrie Gregory em seu chalé à beira de um lago artificial em Lincoln, Nebraska. Chegando à sua casa num final de tarde, encontrei-a conferindo o valor das ações em seu laptop enquanto o canal Fox Business trovejava na televisão do tamanho de um sofá.

“As ações Classe A subiram 5 mil só hoje!”, anunciou ela alegremente. “Ganhei dinheiro! Todo o mercado está em alta!”

Aposentada, avó de nove netos, Sherrie exibe a animação contida de alguém cujo otimismo já precisou enfrentar várias provações. Comprou seus papéis da Berkshire em meados da década de 90, poucos anos depois de finalmente livrar-se de um marido rico e às vezes violento. “Resolvi levantar voo por conta própria e tentar ganhar um dinheiro aqui e ali”, contou-me ela com uma franqueza quase excessiva. Esse modo de falar – que eu começara a associar à Berkshire e, de maneira mais geral, ao estado de Nebraska – fora útil para Sherrie operar como corretora de terras, imóveis e obras de arte americana contemporânea. O último item da sua lista ela definia como “um monte de pó”: 20 hectares de terra nua.

A exemplo do próprio Buffett, Sherrie tende a não ostentar seu sucesso. “Ele prefere não complicar a vida com coisas e tralhas”, disse-me ela, sentada no escritório da sua casa ao lado de uma agenda do tipo giratório e de vários retratos dos netos. “Sou um pouco como ele. Vivo com o mínimo. Não preciso atulhar a minha vida.”

Na filosofia pessoal de Buffett – resumida na frase “Cada dia é uma aventura, por isso vou sempre sapateando para o trabalho!” – Sherrie encontrou um modelo de como pretende envelhecer. A devoção que sente por suas quotas da Berkshire é inabalável. Em vez de se desesperar na hora da queda abrupta, ela só lamentava não ter dinheiro para comprar mais. “Está mais barato do que nunca, é um bom momento para lucrar quando as coisas se acertarem”, revelou-me em tom confidencial, ao saber que eu também era acionista.

Instalada diante dos olhos cegos de seus três bonecos de cabeça de mola representando Warren Buffett, Sherrie me contou a história da visita que fizera, muito tempo atrás, ao 14º andar. “É um lugar tão modesto!”, lembrou ela. “Você nem iria acreditar como é simples. Ele tem um computador, mas só usa para jogar bridge. A porta do escritório, por exemplo, podia ser a porta de um depósito! E é uma porta simples, sem nenhuma placa ou enfeite. A sala de reuniões tem uma mesa comum e algumas cadeiras. Está cheia de caixas. E nunca foi usada. Warren diz que nunca esteve numa reunião. Não acredita em reuniões. É um sujeito que nunca se reúne.”

Fomos de carro até uma churrascaria. Sherrie pediu um contrafilé e desfiou suas reminiscências sobre o quanto os encontros anuais da Berkshire tinham mudado desde os primeiros tempos, quando os acionistas se reuniam num bar e o próprio Buffett às vezes aparecia. Hoje em dia ele está muito mais ocupado, e a segurança, bem mais estrita. Fazia alguns anos que não falava com ele pessoalmente.

“E você acha que ele mudou muito com o tempo?”, perguntei.

“Tenho certeza de que não mudou absolutamente nada”, ela respondeu.

 

Entre as muitas tentativas de reproduzir a sala do 14º andar está um espaço exíguo no prédio em cima da Penn Station, com uma janela estreita aberta para a área central de Manhattan. Presas à parede com fita adesiva, há algumas frases para servir de inspiração, uma delas de Warren Buffett (“Ninguém precisa ser mais esperto do que os outros. Precisamos é ser mais disciplinados”) e outra do inseparável braço direito de Buffett, Charles T. Munger (“Honestidade e trabalho duro: persistindo neles, você pode alcançar quase tudo”). A sala é o quartel-general de uma firma de investimentos chamada Dardashti Capital. O fundador e único empregado da empresa é Shai Dardashti, de 26 anos, que comprou sua primeira ação Classe B da Berkshire dez anos atrás, com alguns milhares de dólares que ganhara de presente em seu Bar Mitzvá.

Não há nenhuma animação especial na maneira como Shai fala do seu fundo, nenhum sinal da excitação nervosa que a proximidade do capital costuma despertar. Em vez disso, Shai parece exibir uma certa reverência, mostrando-se quase oprimido pelo tamanho da responsabilidade que assumiu.

“Esta sala é a minha bolha, meu santuário”, disse ele. “A resposta é eliminar o ruído. Fico sentado sozinho na sala, esperando pelo óbvio, lendo balanços. Ninguém grita nem fala alto. Fico sentado aqui, estudo as coisas com calma, absorvo as informações e procuro ter três ou quatro boas ideias por ano.”

Anos antes de adquirir o controle da Berkshire Hathaway (na época uma empresa têxtil), Buffett, como Shai, investia o dinheiro de amigos e parentes em sociedades fechadas que seguiam os moldes do value investing desenvolvido pelo primeiro guia espiritual de Buffett, Benjamin Graham. Rejeitando a noção da eficiência perfeita do mercado, o “investimento segundo o valor” parte do princípio de que os preços das ações são determinados pelos sentimentos volúveis de um rebanho cuja imensa maioria é ignorante. Cabe a quem pratica o value investing ignorar as oscilações mais tempestuosas do preço dos papéis e concentrar-se em seu “valor intrínseco”, o valor presente de todos os lucros futuros. O adepto do value investing, assim, é um transcendentalista fiel. Acredita que o verdadeiro valor de uma coisa é definido, invisível, e só pode ser conhecido por meio da reflexão individual.

Quando conversamos ao telefone pela primeira vez, Shai insistiu em que eu não tentasse apresentá-lo como um Warren Buffett em miniatura. “Não fica bem, nem é muito correto. Olho para o trabalho de Buffett em busca de inspiração, mas não há como me comparar a ele.” O fenômeno Buffett, explicou, não tem precedentes nem sucessores. É absolutamente único. “Warren Buffett não irá acontecer de novo. A combinação da hora certa com o lugar certo, o desempenho inacreditável, a firmeza ética, a generosidade intelectual. Nunca mais haverá outro Aristóteles, outro Einstein, outro Buffett. São coisas que só acontecem uma vez na história.”

Menos de uma hora depois do nosso primeiro telefonema, Shai me enviou três mensagens de e-mail compostas de frases soltas, introduzidas cada uma por um traço, com cópias para indivíduos ilustres. Uma delas era uma apresentação para Guy Spier, um investidor que pagara 650 100 dólares por um almoço com Buffett num leilão de caridade, em 2008. Naquela ocasião, o fundo de Spier acumulava mais de 100 milhões de dólares em recursos, mas sofreu muito no ano seguinte. Spier mostrou-se mais que disposto a me ajudar, e me ligou alguns dias mais tarde sugerindo algumas formas de obter acesso ao 14º andar.

“Caro sr. Buffett”, começava a argumentação sugerida por Spier, “vim para o encontro da Berkshire com a impressão de que existe um caminho melhor para o capitalismo. Depois de conhecer dúzias, se não centenas, de seus discípulos-embaixadores, hoje estou convencido de que esse caminho melhor existe, e foi criado pelo senhor e o sr. Munger. Quero usar este artigo para poder apresentá-lo ao povo americano. Poderei fazer isso com muito mais energia se o senhor me conceder cinco minutos do seu tempo.” Uma carta nesses termos, disse ele, aumentaria muito minhas chances de obter uma audiência: de 2% para 5%.

 

No Salão Midlands, no hotel Omaha Doubletree, pouco antes do começo da recepção dos Yellow BRKers, Sherrie Gregory decorava cada uma das mesas com moedas de chocolate e bonequinhos de personagens de O Mágico de Oz. “Esta aqui é Marsha”, disse ela, apresentando-me a uma mulher cujo sorriso cintilante já chamara minha atenção nos DVDs de reuniões anteriores dos Yellow BRKers. Transformada para sempre, como ocorreu com o jovem Buffett, pela descoberta ainda na infância do livro Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, de Dale Carnegie, Marsha esguicha um charme capaz de vencer cordões de isolamento, timidez ou qualquer outro obstáculo que possa barrar a intimidade universal entre desconhecidos.

“Ah, quer dizer que você é virgem”, disse Marsha em tom quase cantado quando Sherrie lhe contou que aquela era a minha primeira reunião da Berkshire. “Estive com mais dois virgens no avião. E nos divertimos muito“, completou. Comecei a imaginar que a reunião daquele ano seria a mais animada de todos os tempos. Os DVDs que Sherrie me emprestara mostravam festas que eram verdadeiras bacanais, em que acionistas embriagados e envergando fantasias contrastavam escandalosamente com o cenário comedido, entoando musiquinhas safadas com temas ligados à Berkshire.

Mas à medida que os presentes começaram a se reunir, recebendo as etiquetas com seus nomes e circulando em meio às imensas tigelas contendo morangos e a mistura de petiscos salgados conhecida como Chex Mix, ficou evidente que as recepções dos Yellow BRKers também haviam sido vitimadas pela própria reputação. A dionisíaca “Woodstock do Capitalismo” se abrandara, transformando-se numa morna reunião de ex-alunos. Os acionistas veteranos se mantinham à parte, reafirmando os velhos laços que os uniam, enquanto os mais jovens circulavam com o máximo vigor, promovendo seus blogs, livros e fundos, ou então procurando um novo emprego. “A normalidade” foi a resposta que obtive de Sheldon Wasserman quando lhe perguntei o que tornava aquela comunidade tão especial.

O nome “Omaha” sempre me evoca uma visão fantasiosa do Meio-Oeste em meados do século passado, um lugar dominado por locomotivas e pátios de manobra. Mas a verdadeira Omaha lembra vários outros lugares dos Estados Unidos. Afastando-se do centro um tanto dilapidado, o motorista atravessa um vasto quadriculado de shoppings horizontais, terrenos baldios, estacionamentos e placas orientando o tráfego para vários pontos do imenso lugar nenhum.

 

Na manhã do encontro anual, eu já tivera conversas com dúzias de acionistas. Quase todos tinham perdido quantias substanciais, mas invariavelmente aceitavam seus reveses com altiva serenidade. Tinham certeza de que seu dinheiro voltaria a crescer, e essa segurança lhes trazia o devido conforto durante a duração indefinida da espera por uma reação. Só dois dos acionistas mencionaram a possibilidade de uma segunda Grande Depressão, e ambos eram suficientemente velhos para terem enfrentado a primeira. Um deles, um senhor de 93 anos, estava sentado sozinho no saguão do Marriott. “Vou lhe contar o segredo da sobrevivência”, disse ele. “É só esperar que todo mundo faça a coisa errada.”

Os fiéis comuns começaram a se reunir do lado de fora do ginásio do Qwest Center antes ainda do sol raiar, trazendo suas cadeiras de jardim e garrafas térmicas com café. Tanto os da Classe A quanto da B usavam as mesmas credenciais e o mesmo uniforme matinal de calças cáqui, camisa engomada e sapatos de couro sem cadarço. As portas se abriram e os acionistas correram para se acomodar na quadra do ginásio, onde as leis que normalmente governam as classes não se aplicavam. Por quase uma hora os ricos caminharam livremente em meio ao povo, ostentando a camaradagem de agricultores que discutem as cotações dos grãos na feira do condado. Olhavam a todos nos olhos e perguntavam: “De onde você é?”, com uma leve sugestão de sotaque interiorano. Todas as nossas credenciais – mesmo as que a própria Berkshire vendera on-line, para desestimular o sobrepreço – diziam “sócio”. Não havia meio de distinguir quem era quem.

“De onde você é?”, perguntou Mario Gabelli, um homem de cabelos brancos e camisa xadrez azul. Uma das listas de bilionários do mundo o incluía entre os primeiros 900.

“Dakota do Sul”, respondeu outro homem.

“Eu já tive uma fábrica em Dakota do Sul”, disse Gabelli forçando o sotaque sulino. “Você sabia que Tom Brokaw é de Dakota do Sul?”

“O mundo é mesmo muito pequeno”, comentou o segundo homem, cercado agora por quatro candidatos que disputavam o seu lugar.

O nome “Warren” cortou o ar com o guincho agudo de uma fã exagerada. Um mar de braços se ergueu, todos exibindo na ponta a tela fosforescente de uma câmera digital. Buffett e Munger atravessavam a área VIP distribuindo apertos de mão e cumprimentos. Depois de um breve vídeo de introdução, subiram ao palco e sentaram-se a uma mesa entre duas palmeiras de plástico, cada movimento seu espelhado por três duplas gigantescas de Buffett-Munger em três telas enormes armadas acima de suas cabeças. Seria fácil ler alguma intenção totalitária naquele monstro de muitas cabeças que, dali a pouco, começaria a difundir as opiniões desses dois homens muito ricos por todos os meios de comunicação do mundo. Mas como os dois eram obrigados a enfrentar perguntas ao vivo diante de 35 mil pessoas, a cena armada era até uma solução relativamente democrática.

Obedecendo à ordem dos trabalhos registrada no meu Guia do Visitante, decorado com ilustrações ligadas à vida de caubóis, as perguntas do dia iriam alternar-se entre os acionistas presentes ao vivo e três jornalistas sentados a uma mesa menor, à direita do palco. Buffett os instruíra a recolher perguntas de seus leitores, e que “escolhessem as mais duras”. O que ampliava ao público a possibilidade de apresentar suas questões, produzindo a impressão de que Buffett era um humilde servidor não só da Berkshire, mas de todo o mundo financeiro.

E assim começou a sabatina. Entre uma resposta e outra (e parafraseio algumas delas abaixo), os dois homens se refrescavam com goles de Coca-Cola e consumiam bocados dourados de doce de amendoim da marca See’s.

– Por que a Berkshire não fez nada para ajudar a Moody’s, a agência que errara ao superestimar a qualidade de tantos instrumentos exóticos de crédito, uma vez que era proprietária de mais de um oitavo de suas ações?

BUFFET: Porque a Moody’s ganha dinheiro, e a Berkshire nunca interfere na administração independente de cada negócio.

– Por que a Berkshire compra derivativos?

MUNGER: Às vezes eles são jogo sujo, é verdade.

BUFFET: Mas ganham dinheiro.

– Como a Berkshire irá sobreviver quando Buffett não estiver mais aqui?

BUFFET: A cultura vai continuar.

– Em que um menino de 11 anos deveria investir?

MUNGER: Coca-Cola e estudos de medicina.

– Qual é o segredo do value investing?

BUFFET: Pensamento independente e paz interior.

 

No salão de exposições adjacente, os acionistas já faziam fila para adquirir seus “Kits de Berkshire” contendo pé de moleque See’s, roupas de baixo da marca Fruit of the Loom, apólices de seguro da Geico, botas de caubói Justin, sorvetes e outras guloseimas da Dairy Queen, facas Ginsu e muitos outros artigos que florescem nos inúmeros ramos das subsidiárias da Berkshire. Os compradores do pé-de-moleque passariam o fim de semana carregando suas sacolas quadriculadas como se a marca See’s fosse uma prova manifesta de sua imunidade aos ciclos da economia. No dia seguinte, Buffett anunciaria que as vendas da See’s tinham aumentado 12% naquele fim de semana, atingindo 180 mil dólares.

Eu começara a ficar preocupado com a possibilidade de Buffett furtar-se ao dever de, perante os meios de comunicação, fazer um balanço abrangente da saúde do capitalismo global. Mas, finalmente, ao cabo de horas de perguntas lisonjeiras ou restritas demais, um investidor alemão perguntou: “Se os negócios da Berkshire vão bem, mas a economia em geral está em dificuldades, aonde iremos depois daqui? Que dúvidas o senhor tem sobre a economia mundial?”

Buffett aproveitou a oportunidade para manifestar sua confiança inabalável nos fundamentos do sistema. Os problemas foram graves, mas não sistêmicos. Com o tempo, o capital haveria de retomar sua inevitável espiral de crescimento. E ele não se limitava a manifestar da boca para fora sua confiança nesse prognóstico animador: apostara nele 37,1 bilhões de dólares da Berkshire, por meio de uma série de contratos de derivativos com vencimentos entre 2019 e 2028.

“Há sempre muita coisa errada no mundo”, começou Buffett, com o destemor de um homem que já enfrentou muitos desses contratempos. “Infelizmente, é o único mundo que temos. E precisamos viver com ele. Lidar com ele. Mas o melhor é que o sistema funciona muito bem. Não tenho a menor ideia do que vai ocorrer com as empresas ou os mercados no ano que vem, ou nos próximos dois anos. Mas o que eu sei é que, com o passar do tempo, as pessoas viverão cada vez melhor neste país. Temos um sistema que funciona. Que estimula o potencial humano. Somos 35 mil pessoas reunidas hoje aqui. O que equivale a quase um por cento da população dos Estados Unidos na época do primeiro censo, em 1790. Cem grupos como este, e estamos falando do país inteiro!”

“Basta ver o modo como vivemos, em comparação com as pessoas de séculos atrás. O sistema estimula o potencial humano. A China passou muito tempo sem um sistema assim, mas agora ele está instalado. Ainda falta muito para chegarmos perto do fim do caminho. Ainda teremos muitos anos ruins no capitalismo. Volta e meia ele erra o alvo, é prejudicado pelo medo, a cobiça e esse tipo de coisa. Mas basta olhar para o século XIX…”

E Buffett percorreu sua longa lista das superações americanas: uma guerra civil, duas guerras mundiais, seis pânicos, duas recessões, uma depressão – a mesma lista que ele tinha enumerado no artigo do New York Times e em sua carta anual aos acionistas. O sistema funciona muito bem, dizia a cabeça gigante, flutuando em meio à escuridão enlevada. Basta fazer os cálculos que vocês verão que tudo vai dar certo. Ou, se quiserem, podem deixar os cálculos a meu cargo. Ser um oráculo pós-iluminista, compreendi então, requer alguma prestidigitação. É preciso aliviar os peregrinos do peso de pensarem por si mesmos, sem, entretanto, afetar a crença em sua própria capacidade.

E Buffett encerrou sua longa resposta com uma série de dísticos afirmativos, articulados cada um deles pela conjunção “mas”:

“… vivemos essas interrupções no progresso da nossa sociedade. Mas – no geral caminhamos para a frente e a uma velocidade bem elevada. Só no século XX nossa qualidade de vida aumentou sete vezes, Mas – a escravidão existiu por muito tempo. O que nos fez desperdiçar muito potencial humano.”

“Que ainda desperdiçamos. Mas – o desperdício era muito maior nos séculos anteriores. Mas – continuamos seguindo em frente… num ritmo irregular, aos arrancos. No momento, nosso motor está falhando. Mas – não tenho a menor dúvida de que o potencial humano é gigantesco”.

“Cada período histórico, cada ano que vivemos, sempre traz vários problemas. Mas – no final as oportunidades acabam triunfando. Seus filhos vivem melhor do que vocês viveram, seus netos vão viver melhor ainda, e havemos de encontrar mais e mais maneiras, melhores e mais fáceis, de fazer coisas que ainda nem sonhamos.”

Quem mais poderia contrapor todos os problemas futuros a todas as oportunidades futuras, e ter credibilidade para declarar que as oportunidades sempre haveriam de sobrepujar os obstáculos (por pouco, mas perpetuamente)? E desde quando essa crença num crescimento interminável e sempre positivo, outrora um axioma implícito do capitalismo americano, precisava ser proclamada em público? Era como se o papa emergisse em seu balcão para anunciar que, a despeito de dados recentes demonstrando o contrário, os Evangelhos permaneciam verdadeiros.

Às três da tarde, Buffett falara tanto que estava rouco. Munger cochilava em sua cadeira. Estávamos a caminho da fase “empresarial” que marcaria o fim da reunião. Um trabalhador hondurenho da Fruit of the Loom, convidado para a reunião por um acionista, levantou-se e queixou-se de dor nas costas, má ventilação, sujeira da água e ameaças de morte. As afirmações foram logo em seguida rebatidas uma a uma, com eloquência equivalente, pelo CEO da Fruit of the Loom.

 

Poucas filas à minha frente encontrava-se um jovem de camiseta, mocassins e calças de algodão com as bainhas enroladas. Era Matt Kelley, de 32 anos, professor do ensino público em Chicago. Em Buffett, disse-me ele, enxergava um virtuoso caminho do meio entre suas duas aspirações mais profundas – o desejo de mudar o mundo para melhor e o desejo de ficar muito rico. À diferença do jovem Buffett e de Dardashti, Kelley estava com pressa. Ele procurava atingir a metade filantrópica do seu sonho por meio do trabalho de professor; a riqueza, esperava ganhar especulando com dinheiro emprestado. Nisso também, foi inspirado por Buffett. Embora Kelley tenha ignorado até onde pôde as advertências de Buffett contra operações alavancadas de compra e venda no mesmo dia, colhera no mesmo Buffett uma fé profunda na superioridade de seu próprio senso comum. E explicou-me a sua estratégia: “Se eu vejo alguma coisa e sei que o preço vai subir, compro a opção na mesma hora.”

Kelley comprou sua ação Classe B da Berkshire por 5 mil dólares, vendeu por 3 mil, conseguiu se conter quando caiu a 2 200, mas acabou recomprando a 2 800 dólares. Perguntei-lhe como tinha se saído durante a crise. “Vi alguns crescimentos grandes e comprei muito na margem”, disse ele. “E aí tudo caiu a zero. De um dia para o outro, caí de um patrimônio líquido de 150 mil dólares para uma dívida de 50 mil.” Mas seguiu em frente, debitando suas dívidas em ações do Citigroup num cartão de crédito do Citibank. “Eu só tinha 15 mil dólares na minha conta”, lembra ele. “Cada vez que a ação chegava a quinze, eu vendia alguma coisa e tornava a comprar a doze. E ganhei 17 mil dessa maneira, em apenas três semanas!”

Kelley, percebi, era tanto vítima como perpetrador da crise financeira. Endividara-se demais, apostava com risco exagerado e só levava em conta o que queria, conduzido por uma confiança que se redobrava em face das perdas. “Concordo com a filosofia de Buffett”, disse ele quando apontei a contradição. “Acho que é assim que eu deveria agir. Mas como vim de muito baixo na vida, sempre tive de correr um risco maior para chegar ao mesmo lugar que os outros.”

Kelley e sua mãe passaram a maior parte da sua infância morando em abrigos. Ele cursou uma escola secundária particular graças a um doador que pagou os 20 mil dólares dos custos. Kelley parecia convencido de que o mercado de ações haveria de devolver-lhe o que a Providência lhe negara. Um dia, disse Kelley, ele ainda haveria de comprar uma ação Classe A. “O problema de uma ação A é que ela não pode ser vendida”, disse, endossando a doutrina do coinvestidor por tempo indefinido. “De maneira que você não ganha dinheiro nenhum.”

Marsha, mais tarde fiquei sabendo, tinha uma história parecida com a de Kelley. Também ela crescera na pobreza e perdera centenas de milhares de dólares no mercado de opções, mas tinha abjurado da especulação numa carta que enviara a Buffett num dos momentos difíceis que atravessou. Ele lhe concedera a admissão à reunião da Berkshire, que ela via como um lugar onde o dinheiro se transmite como um resfriado. “Quando você cresce na pobreza”, disse-me ela, “só pensa em juntar dinheiro suficiente para parar de se preocupar. Dinheiro é liberdade. Se alguém te ajuda, você precisa passar a ajuda adiante.” Um dia ela ainda haveria de ser rica, afirmou, e usaria seu dinheiro para ajudar os que não tinham a mesma sorte. “Eu adoro dar dinheiro aos outros”, disse ela. “Só estou esperando essa bênção. Eu sei que ela está chegando. Eu sei, eu sei, eu sei.”

Ao testemunhar a fé infinita das massas da Berkshire, eu começara a pensar que o pessimismo era um luxo supremo, um narcótico poderoso raramente visto fora das salas dos poucos que podem se permitir o fausto da sua prática. Nos primeiros momentos da crise, Buffett especulara em voz alta quanto à natureza contagiosa do medo, e à maneira como costuma gerar suas próprias justificativas. Deu ao fenômeno o nome de “ciclo do feedback negativo”, e agora, ao que tudo indicava, resolvera empenhar-se em rompê-lo.

Do lado de fora da Qwest, em meio a uma coleção de esculturas de bronze com temas circenses, deparei-me com Donald Keough, ex-presidente da Coca-Cola e membro do conselho da Berkshire, repetindo a nova linha partidária para dois jovens e bronzeados executivos do Google. “Vocês têm muita sorte”, disse ele, envolvendo os ombros dos dois com os braços. “Hoje em dia, só quero conhecer jovens como vocês, reinventando o mundo. E vocês ainda vão ver tudo mudar muitas vezes.” Parecia impossivelmente sincero, como um avô que proferisse a sua bênção ao final de uma refeição em família.

 

Na hora do almoço do dia seguinte, Buffett chegou ao Regency Court Mall para jogar bridge. Hordas de acionistas, com suas câmeras erguidas bem alto, espremiam-se contra barreiras revestidas de cortinas, transbordando para dentro da joalheria Borsheim’s, também de propriedade da Berkshire – cuja equipe de vendas oferecia descontos de até 30% aos acionistas. Alice Schroeder, a mais recente biógrafa de Buffett, mantinha-se alguns passos atrás da área protegida. “Veja só isto”, disse ela. “Centenas de pessoas. Olhe como elas ficam emocionadas só de ver o homem se sentar para jogar bridge. A maioria delas nunca vai chegar fisicamente mais perto dele do que isso.”

Naquela noite, Buffett deu mais uma demonstração pública da sua regularidade, consumindo um bife preparado pela Gorat’s Steak House. A Gorat’s tinha separado mais de 2 toneladas e meia de carne para a ocasião, em sua maioria na forma de T-bone steaks de meio quilo, vendidos a 29,95 dólares cada, e descritos nos cardápios do Domingo do Acionista (que também podiam ser guardados como suvenires) como “o favorito de Warren Buffett”. Na capa, Buffett aparecia com uma postura de conquistador diante de um monstro de um olho só rotulado de RECESSÃO. Acima da figura, a legenda dizia JUNTOS TRIUNFAREMOS.

Buffett foi embora um pouco antes das nove. O restaurante esvaziou-se em pouco tempo. Em uma extremidade do bar, duas mulheres tentavam desesperadamente protagonizar uma cena. Eram a filha e a namorada de Robert Eisenberg, um herdeiro da Berkshire, filho de um dos primeiros investidores de Buffett em Omaha. A filha, Talia, com 20 e poucos anos, usava uma camiseta olímpica de homem; a namorada, Tanya, de 40 e tantos, envergava um vestido de noite preto. As duas estavam alcoolizadas. O herdeiro propriamente dito preferira ir jantar em algum outro local.

“Bee Gees!”, gritou Talia. “Estão tocando Bee Gees, caralho! Dá para acreditar? É mesmo a cara da merda desse lugar, Omaha, Nebraska”, onde ela fora criada antes de se mudar para Nova York.

Tanya gargalhava como uma delinquente.

“Se não gosta da música, sinta-se à vontade para se retirar”, disse a gerente do restaurante, que vinha monitorando a situação de um cubículo adjacente.

“Você tem alguma ideia de quem somos nós?”, perguntou Talia. Enfiou a mão na bolsa. E puxou para fora um punhado de credenciais de acionistas.

“Não sei e nem quero saber”, respondeu a gerente. “Vocês vão embora deste restaurante. Já.”

As duas mulheres caminharam oscilando até um Mercedes-Benz. Talia, que assumiu o volante, começou a enumerar algumas das suas frustrações do momento. Detestava a cafonice impessoal de Omaha. Detestava os acionistas de boca aberta, achando que eram donos da cidade por um fim de semana. E acima de tudo, detestava o restaurante que as tinha expulsado injustamente de suas dependências. “Devem ter achado que eu era uma puta, só porque sou bonita e rica!”, exclamou. “O que eu posso fazer?”

“Eles nunca veem pessoas como nós duas aqui por Omaha”, respondeu Tanya.

“Temos mais ações que qualquer um desses filhos da puta”, disse Talia.

“Não diga isso”, aconselhou Tanya.

“Pois vou é botar fogo naquela merda”, resmungou Talia. “Vou mandar os meus capangas.”

“Volte para a outra pista!”, berrou Tanya. “E cuidado: olhe a seta! Olhe a seta, sua besta!” O carro deu uma guinada rápida.

“Onde é que você estava na hora dos coquetéis?”, perguntou-me Talia. “Nós duas ficamos lá dentro com os cachorros grandes. O pessoal graúdo. Você não foi à Borsheim’s, foi? É para onde vão os otários, os que só compraram uma açãozinha Classe B. As festas boas são nas casas da cidade.”

 

Acho que Talia pode ter razão. Apesar do que dizia minha credencial, deixei Omaha com a sensação de que nós, os proprietários das ações B da Berkshire, só podemos nos considerar “sócios” da empresa na mesma medida em que o empacotador das compras no supermercado também pode ser chamado de “associado”. Sim, uma vez por ano podemos comer um filé igual, sentar na mesma cadeira, até fazer uma pergunta ao cara. Sim, Buffett diz que devemos nos considerar membros de uma única família. Os que antes obedeceram suas palavras viram seus milhares transformarem-se em milhões; nós, que obedecemos agora, elevamos nosso capital acima dos trilhões vulgares que vivem correndo de papel para papel. E eu fui mais um a obedecer, aferrando-me à minha única ação B na companhia da maioria dos outros otários como eu.

Neste ano de 2010, a reunião dessa família incomum pode chegar a dimensões ingovernáveis. Em novembro do ano passado, a Berkshire Hathaway anunciou que suas ações B dariam filhotes, sendo divididas cada uma por cinquenta, o que baixava o preço do cacife inicial, da casa de milhares de dólares, a menos de 100 – tornando o encontro anual de Omaha ainda mais dependente da benevolência paterna.

“Falemos francamente”, escreve -Buffett no Manual do Proprietário. “A linha mestra da nossa atuação é comunicar-lhe os fatos que também gostaríamos de conhecer caso estivéssemos na posição inversa. É o mínimo que lhe devemos.” Mas esse compartilhamento mútuo de informações não é a maneira como funciona o capitalismo. É a visão quixotesca de um homem – visão encarnada nos ritos de Omaha.

As ações da Berkshire Hathaway, afinal, são mais que simples fragmentos de uma empresa. São fragmentos do próprio homem – agora ainda menores, à medida que ele envelhece, de modo a permitir que mais gente possa compartilhá-lo. As novas ações Classe B, essas minúsculas hóstias de Buffett, serão distribuídas entre as mãos estendidas dos fiéis, transubstanciando-se em suas contas de aplicação on-line e em seus planos de aposentadoria privada.

E quando o homem morrer, essa sua essência tão amplamente espalhada terá como subsistir? A resposta, desconfio, será decidida não no ginásio Qwest, mas nas casas de Omaha, pelos cachorros grandes.

Tradução de Sergio Flaksman

Mattathias Schwartz

Mattathias Schwartz, é jornalista americano.

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