questões de cultura & política

A lata de lixo da história

Prefácio inédito a uma chanchada de 1968

Roberto Schwarz
ILUSTRAÇÃO: ZUCA SARDAN

No final da década de 60, a “lata de lixo da história” era uma expressão difundida, levemente fanfarrona. Designava o depósito de velharias ao qual, com sorte, seriam jogados os políticos, as práticas e as teorias responsáveis por formas caducas de opressão. Capitalismo e stalinismo iriam embora de braço dado, no mundo e no Brasil, varridos pelo progresso da história e pelos estudantes libertários. Entretanto, como se verificou em seguida, o curso das coisas não foi o esperado, até pelo contrário. E como o sistema dos opressores se reciclou e venceu em toda linha, a expressão – tão simpática – saiu de moda. Ainda assim, se consultarmos a nossa experiência e nosso íntimo, talvez convenhamos que ela, a lata, não perdeu a razão de ser, nem deixou de falar à imaginação. Por expressar o que devia ter sido e não foi, achei que era um bom título para uma chanchada política.

A ideia de transformar O Alienista de Machado de Assis numa sátira à ditadura de 1964 estava no ar. Havia um paralelo óbvio entre o terror espalhado por Simão Bacamarte – o cientista maluco e sinistro que infelicitava a pacata Itaguahy – e o regime antipopular dos militares, com seus ministros da Fazenda que metiam medo e disciplinavam o país para o capital. Nelson Pereira dos Santos percebeu as possibilidades artísticas da comparação, da qual tirou um filme agoniado e interessante, o Azyllo Muito Louco. Em espírito parecido, houve tentativas também de adaptação para o teatro, entre as quais a minha. O que todos procurávamos era o respaldo de um clássico nacional acima de qualquer suspeita, além de remoto no tempo, que deixasse desarmada a censura e possibilitasse a crítica ao Estado policial.

O paralelo funcionava como uma via de duas mãos e tinha efeitos retroativos. Não era só o velho Machado que emprestava personagens e situações para falar da repressão em nosso presente. O caminho inverso também valia, sugerindo uma leitura menos convencional do mestre e, por meio dele, do passado brasileiro. O festival de desfaçatez armado por nossas elites logo em seguida ao golpe, com sua salada de modernização, truculência e provincianismo, ensinava a reconhecer aspectos até então recalcados da ironia machadiana. Esta aparecia a uma luz nova, muito mais ferina e política, de incrível atualidade. Noutras palavras, as revelações sociais trazidas pelo golpe de 64 desempoeiravam o maior de nossos clássicos.

Comecei a escrever A Lata de Lixo em dezembro de 1968, pouco antes da decretação do AI-5, que afundou o país em anos de terror. Estava escondido em casa de amigos, cuja biblioteca era boa, e resolvi aproveitar o tempo. Além do Alienista, tirei da estante Príncipe de Maquiavel, e sentei para trabalhar. A gravidade do momento era brutal, mas ainda assim a grossura dos generais arrancava riso, uma risada algo histérica, em que se misturavam o medo e a angústia. O clima era de pastelão macabro. Para exemplificar, quando o general-presidente foi à tevê para explicar a necessidade de seu horroroso e histórico AI-5, parecia não ter familiaridade com o texto à sua frente, pelo qual ia tropeçando como podia. Enquanto isso, nas grandes capitais do mundo, e também entre nós – o ano era 68 –, a irreverência e o espírito libertário estavam em alta. Por contraste, as figuras caricatas que passavam a mandar e desmandar no Brasil ficavam ainda mais deprimentes e exasperantes. Para completar a liquidação, a oposição liberal à ditadura vacilava entre a prudência apavorada e a adesão oportunista, sem abrir mão das belas palavras. Mal ou bem, procurei dar forma teatral a essa cacofonia, casando decoro e pancadaria, grã-finismo e cretinice, cálculo e primarismo etc.



Por forte que fosse, a pressão das circunstâncias não determinava as soluções artísticas diretamente. A escolha e a discussão estética estavam na ordem do dia. Entre 1964 e 1968, a resistência cultural havia respondido com agilidade ao retrocesso político, inventando espetáculos incisivos, de grande repercussão, e produzindo algumas obras-primas. Teatro, canção, cinema e artes plásticas desenvolviam atitudes e formas sob medida, inconformistas em toda linha, valorizadas pela alusão inteligente ao presente nacional, o que não excluía a atualização cosmopolita. Como o momento era coletivo, a referência mútua fazia parte do jogo. Quando partia para o trabalho seguinte, o artista encontrava pela frente um leque intensamente debatido de obras recém-saídas da oficina, de um colega ou de um rival, a retomar, a contestar, a superar. As questões de arte dividiam e agrupavam, e tinham pé no risco político, que lhes emprestava a chispa especial. Englobando tudo, em linha reta ou quebrada, prosseguia o impulso do pré-64, com sua combinação de luta contra o subdesenvolvimento e busca do socialismo.

 

O desacato à convenção artística dava a tônica febril ao período. Era um insulto deliberado ao gosto dos conservadores, que tinham saído às ruas em 64, marchando por “Deus, pátria e família”, e agora estavam no poder. Como as artes cênicas – o teatro, o cinema e a canção – estavam defasadas em relação à literatura, ou melhor, não tinham passado pela revolução modernista de 22, o escândalo que provocavam tinha a estridência das vanguardas em seu primeiro dia. Atrás da experimentação formal naturalmente estava o ânimo de revolucionar a sociedade ela mesma, como aliás apontavam os adversários de direita.

Dito isso, as novidades não eram só de linguagem, mas também de assunto, o que foi menos comentado. A temática do subdesenvolvimento marcava época e modificava a fundo a autocompreensão do país. O desemprego e a fome de Zé da Silva, o analfabetismo de 40% da população, o beletrismo dos doutores, a falta de vaga nas faculdades, a indústria precária, a extensão do latifúndio, a força do imperialismo americano etc. já não eram questões isoladas. As dificuldades ligavam-se por dentro, ou melhor, compunham um problema avançado, que cabia aos progressistas encarar em seu conjunto. Cheio de desdobramentos políticos e estéticos, o significado do atraso nacional se transformava, adquirindo uma relevância nova, muito mais ampla que a anterior. Com perdão da brevidade, ele, o atraso, deixava de ser visto inocentemente, como um resquício de tempos remotos, que dizia respeito só aos brasileiros. Tornava-se parte funcional – além de significativa – da ordem mundial moderna, que progredia e se reproduzia através dele, e não levava à sua superação. Em vez de se extinguir, a distância entre atrasados e adiantados se reafirmava em novos patamares, ensinando uma visão menos crédula, ou mais sarcástica e aguerrida do progresso. Segundo uma fórmula corrente na época, tratava-se do desenvolvimento do subdesenvolvimento, que tinha o futuro pela frente e não seria coisa do passado. Um desenvolvimento que, salvo viravolta de fundo, era e continuaria sendo sub. O argumento era contraintuitivo, mas fulminante.

Assim, as figuras pitorescas ou vexaminosas que alimentavam o nosso complexo de ex-colônia, tais como a miséria popular, o zé-ninguém sem eira nem beira, desprovido de quaisquer garantias civis, o político populista malandro, a dominação pessoal direta, o mau gosto calamitoso das classes dominantes, o general-ditador de óculos escuros etc., trocavam de contexto para ganhar novo alcance. Saltavam fora de seu confinamento provinciano e se inseriam no presente problemático do mundo, de cujos desequilíbrios internacionais e de classe passavam a ser indícios polêmicos, esteticamente valiosos. Muito dialeticamente, as matérias do atraso terceiro-mundista, chavões inclusive, facultavam uma transfiguração de ponta, na qual se reconhecia a atualidade em sentido pleno, planetário, gerando um tipo particular de vanguardismo. De diferentes maneiras, com margem para antagonismos inconciliáveis, a arte de Glauber Rocha, Augusto Boal, Zé Celso, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Joaquim Pedro de Andrade e outros – sem esquecer as antecipações de Oswald de Andrade – se alimentou dessa redefinição vertiginosa, que fez a ponte entre a nossa realidade segregada, ou exótica, e o movimento geral da sociedade contemporânea, num lance forte de desalienação. A seu modo e com alguma supervisão de Brecht, A Lata de Lixo da História ligava-se a esse quadro.

De lá para cá, muita coisa mudou, mas nem tudo.

Roberto Schwarz

Roberto Schwarz é crítico literário. Publicou Martinha versus Lucrécia, pela Companhia das Letras, entre outros. O texto foi lido no debate de lançamento do livro de Sérgio Ferro, Artes Plásticas e Trabalho Livre, no Centro Universitário Maria Antonia, São Paulo, em março de 2015.

Leia também

Últimas Mais Lidas

Estupro não é sobre desejo, é sobre poder

Em 70% das ocorrências de violência sexual no Brasil em 2019, vítimas eram crianças ou pessoas incapazes de consentir ou resistir - como na acusação contra Robinho na Itália

“Meu pai foi agente da ditadura. Quero uma história diferente pra mim”

Jovem cria projeto para reunir parentes de militares que atuaram na repressão

Engarrafamento de candidatos

Partidos lançam 35% mais candidaturas a prefeito nas cidades médias sem segundo turno para tentar sobreviver

Bons de meme, ruins de voto

Nomes bizarros viralizam, mas têm fraco desempenho nas urnas

Perigo à vista! – razões de sobra para nos preocuparmos

Ancine atravessa a crise como se navegasse em águas tranquilas, com medidas insuficientes sobre os efeitos da pandemia

Retrato Narrado #4: A construção do mito

De atacante dos militares a goleiro dos conservadores: Bolsonaro constrói sua história política

A renda básica, o teto de gastos e o silêncio das elites

Desafio é fazer caber no orçamento de 2021 um programa mais robusto que o Bolsa Família e mais viável em termos fiscais que o auxílio emergencial

A culpa é de Saturno e Capricórnio, tá ok?

Como Maricy Vogel se tornou a astróloga preferida dos bolsonaristas 

Mais textos
4

A metástase

O assassinato de Marielle Franco e o avanço das milícias no Rio

6

Do Einstein para o SUS: a rota letal da covid-19

Epidemia se espalha para a periferia de São Paulo justamente quando paulistanos começam a abandonar isolamento social

8

Assista a um trecho da mesa com Nikil Saval no Festival Piauí de Jornalismo

Nikil Saval é editor e membro da mesa diretora da revista literária n+1, revista de literatura, cultura e política, publicada em versão impressa três vezes ao ano.
Saval esteve em novembro no Festival Piauí de Jornalismo e conversou com os jornalistas Fernando de Barros e Silva e Flávio Pinheiro. 

9

Histórias da Rússia

Uma viagem pelo país da revolução bolchevique, cem anos depois

10

Em duas estratégias, um êxito e uma ópera trágica

Como a China barrou a transmissão do coronavírus enquanto a Itália tem mais mortes em metade do tempo de epidemia