memórias pouco diplomáticas

A morte sem os mortos

Onde quer que esteja, descanse em paz Alfredo Carlos Alcoforado

Marcos de Azambuja
Com as palavras finais, foram desaparecendo as máscaras mortuárias, a oratória na beira da cova, as capelas ardentes e tudo o mais que serviria de lembrança daquele que havia partido, e de consolo para os que ficavam
Com as palavras finais, foram desaparecendo as máscaras mortuárias, a oratória na beira da cova, as capelas ardentes e tudo o mais que serviria de lembrança daquele que havia partido, e de consolo para os que ficavam ILUSTRAÇÃO: CAIO BORGES_ESTÚDIO ONZE

Houve tempo em que, já no apagar das luzes, um homem eminente deixava uma frase ou pensamento que, de alguma forma, resumia sua trajetória, ou então indicava as suas esperanças ou dúvidas sobre o além. Cruzei, faz pouco, com um livro que pretende ser – e provavelmente é – a última palavra em matéria de últimas palavras. O seu autor é William Brahms, que organizou uma verdadeira enciclopédia de frases terminais. Juntou nada menos do que 3 500 delas.

Como sou amigo de listas, catálogos e de quaisquer enumerações longas e minuciosas, me interessei pela obra. E lamentei que a tradição das famous last words pareça estar chegando ao fim. Antes, mesmo em situações inesperadas e traumáticas, Júlio César, ao ser apunhalado no Senado, em Roma, pelo que acreditava ser sua base aliada, encontrou coisa memorável a dizer.

Houve ainda o caso daquele almirante holandês que afundava com seu barco ao largo da costa brasileira, no século XVII. Ele não só conseguiu articular palavras, que pretendia duradouras, como, para atender a dúvidas gramaticais, teria voltado à superfície para oferecer alternativa à pronúncia controvertida de uma delas.

Durante a guerra contra os holandeses, o navio do impávido almirante holandês Adrien Pater foi afundado pelos brasileiros na chamada Batalha dos Abrolhos. Conta a lenda que Pater, vendo a belonave ir a pique, atirou-se no mar, bradando: “O oceano é o único túmulo digno de um almirante batavo!” Teria, em seguida, voltado à tona e esclarecido: “Ou bátavo, como dizem alguns”, antes de afundar de vez. A frase soa apócrifa. Sempre me foi relatada como tendo sido dita em português, língua que aquele bravo lobo do mar por certo não dominava, e muito menos saberia das divergências – quanto mais in extremis – entre “bátavo” e “batavo”.

 

Um amigo me disse que o fim das frases terminais seria o resultado de que gente importante agora morre entubada, em centros de tratamento intensivo. Ele acha que pouca gente morre cedo, e mesmo os velhos morrem muito mais velhos do que antes e menos suscetíveis a sucumbir às tentações da retórica. O amigo também pensa que, ao pé de um leito derradeiro, não se reúnem mais, como outrora, companheiros e admiradores. Ele considera, por fim, que não se encontra com naturalidade um anotador de palavras memoráveis de despedida.

Com as palavras finais, foram desaparecendo – ou já desapareceram – as máscaras mortuárias, a oratória na beira da cova, as capelas ardentes, as fotografias no leito fúnebre, as mechas de cabelo, os lenços bordados, as joias oferecidas como mementos e tudo o mais que serviria de lembrança daquele que havia partido, e de consolo para os que ficavam.

Acho que também aqui, na nossa terra, um ciclo se esgotou: a morte, irremediavelmente, tem perdido prestígio. Costuma vir desacompanhada das manifestações mais visíveis e perduráveis de pesar e saudade. Não vejo mais grandes jazigos serem construídos. Faz tempo que não assisto a enterros multitudinários, como era comum. Findou a tradição do luto no vestuário, que se estendia por muitos meses, e mesmo anos, ao longo dos quais se transitava do luto fechado ao luto aliviado, com cada etapa do trajeto definida por um código cromático preciso. O consolo pela partida chega mais depressa para os que ficam.

Só sobrou o hábito muito nosso de publicar na imprensa grandes anúncios funerários, que refletem por seu número e extensão o prestígio do morto. Neles, ocasionalmente, pode a viúva (alegres ou tristes, as viúvas ainda são, estatisticamente, bem mais frequentes que os viúvos) incluir mensagens de adeus e saudades eternas, de cuja sinceridade não tenho por que duvidar, mas que me parecem de gosto duvidoso, pois tornam públicos sentimentos que melhor se expressam em privado. Mesmo isso começa a escassear, na medida em que os anúncios de missas de um mês e de um ano vão se tornando infrequentes. O sétimo dia parece ser hoje o limite da nossa memória.

Faço uma pausa botânica: mesmo uma flor, o cravo, associado a enterros e defuntos, saiu inteiramente de moda; faz anos não vejo um deles sequer em buquê, coroa ou lapela.

 

Mais do que os grandes símbolos do pesar, o que desaparece em primeiro lugar é o próprio morto, logo incinerado. Essa prática, recente entre nós, desempregaria, se ainda existissem, os guardiães (religiosos e laicos) de relíquias, atividade que já foi extensa, controvertida e, sobretudo, rentável. Os coveiros ficarão, também eles, amplamente desempregados. Foi o que ocorreu com os estivadores, declarados obsoletos pela chegada dos contêineres.

Cada vez mais, les morts vont vite, como se a aceleração das coisas entre os vivos acelerasse igualmente o despacho dos mortos. Ainda mais nos trópicos, onde as circunstâncias do clima não permitem uma espera salubre até o sepultamento ou a cremação.

Tais reflexões se me ocorrem sempre nas vésperas do Dia de Finados, que, na minha infância e mocidade, era uma data majestática. Não existiam – e mesmo que já existissem, não tinham a repercussão e visibilidade de hoje – o Dia das Mães, nem o dos Pais, nem o dos Namorados, nem o da Criança, nem o do Amigo, nem o do Índio, nem alguns outros que o comércio inventou. Promotor oculto de tantas de nossas emoções, ao se dar conta de que os defuntos eram homenageados com umas poucas e murchas flores, e que Finados não mobilizava lançamentos ou impulsionava vendas, o comércio criou outros Dias.

Só no México a presença dos mortos continua tão viva como antes. O Dia dos Mortos é talvez a festa maior do calendário de lá. Nos cemitérios, vivos e mortos se reúnem e há comes e bebes, embalados por música contagiante. Essa atitude vem de outra tradição que não a judaico-cristã, e continua vigorosa e intacta. Quando ali servi, aderi à festa. Dei e recebi pequenas caveiras de açúcar. Levavam meu nome quando eram para mim, e colocava o nome daquele ou daquela a quem eu presenteava.

No Itamaraty, para os diplomatas chefes de missão que morriam em posto, fora do Brasil, havia uma segunda cerimônia, com grande pompa, quando os despojos voltavam ao solo pátrio. Eram-lhe prestadas honras militares, equivalentes às que havia recebido antes, no país em que estava acreditado. Um embaixador, nesses casos, tinha o direito a duas mortes, lá e cá, como aquele boêmio baiano que Jorge Amado inventou e cujo berro ainda ecoa.

A glória póstuma era subtraída, em alguma medida, pela classificação que o corpo recebia para que, embalsamado, pudesse entrar no Brasil devidamente rotulado. Na nossa nomenclatura alfandegária, era chamado de “exemplar de história natural”, o que correspondia aos fatos, mas nada acrescentava à reputação.

A pompa e a circunstância que acompanhavam os enterros de personalidades públicas encontram um momento absurdamente majestoso no sepultamento, em 1838, da perna de um presidente do México, o general Antonio de Santa Anna. Em confrontos sucessivos com os Estados Unidos, ele perdeu a metade do território mexicano. E que metade! Perdeu o Texas, o Novo México, a Califórnia, o Arizona, Nevada, o Colorado e alguma coisa mais. Perdeu ele, enfim, em Vera Cruz, a sua perna (nesse caso, em luta com os franceses), que ali mesmo foi enterrada com as honras devidas a um chefe de Estado.

O raciocínio era perfeito. Se o presidente, como um todo, merecia essas honras, uma parte sua não podia receber menos. Assim foi feito. A história não acaba aí. Exumada, a perna seguiu para a Cidade do México, onde mais uma vez foi enterrada, com honras ainda superiores. Há, ainda, uma perna sobressalente do general Santa Anna, feita de cortiça, que está no Museu Militar de Illinois, nos Estados Unidos. O membro foi capturado depois de uma batalha – o chefe mexicano, previdente e escaldado, não queria depender de uma só prótese em meio a tantas derrotas e subtrações.

 

A morte não tem sido garantia de um pouso final para o corpo de um notável defunto. Visitei, por dever de ofício, e em andanças diplomáticas, dois túmulos de Cristóvão Colombo, que carregava o título singular de Almirante Maior do Mar Oceano. Um na República Dominicana e outro na Catedral de Sevilha. Deram-me garantias enfáticas, em cada caso, que estava visitando a sepultura certa. Em uma delas hão de estar, espero, seus despojos. Ou, quem sabe, estejam escondidos num terceiro jazigo.

Os soldados brasileiros mortos na Segunda Guerra Mundial foram retirados daquele comovedor cemitério em Pistoia, na vizinhança de Luca e Pisa, e trazidos para o Brasil. O motivo: o comandante da nossa Força Expedicionária, marechal Mascarenhas de Morais, havia prometido às mães dos pracinhas trazê-los de volta. O nosso único cemitério militar na Europa foi assim desfeito. Enquanto os americanos podem reverenciar seus mortos nas costas da Normandia, e os franceses em Verdun, entre tantos cemitérios de países combatentes, vencedores ou vencidos, o Brasil perdeu o único campo a mostrar que, num grande conflito mundial, combatemos com grande sacrifício do lado certo.

A morte também não trouxe paz nem sossego para o corpo de Eva Perón, que viajou pelo mundo e após vários incidentes terminou, finalmente, em Buenos Aires. Há um fascinante ensaio de V. S. Naipaul, Prêmio Nobel de Literatura, intitulado The Return of Eva Peron [A Volta de Eva Perón], que deve ser leitura obrigatória para quem, como eu, gosta de peripécias e, sem fazer distinções, se interessa tanto pelas que acontecem aos vivos quanto aos mortos.

Evita jaz hoje no Cemitério da Recoleta, que é pequeno e fica na parte mais elegante da cidade. Para ter a visibilidade de um enterro na Recoleta, a família recorre, às vezes, a uma fraude interessante: aceita que mais tarde o corpo seja trasladado para o grande Cemitério da Chacarita, onde há espaço, mas que não confere ao defunto o prestígio do primeiro endereço.

Servindo em Buenos Aires como primeiro-secretário, no começo da década de 70, quando Juan Domingo Perón retornou à Argentina casado com Isabelita (que havia conhecido como dançarina no Panamá, e que se chamava, de fato, María Estela), vivi anos de não pouco sobressalto. Foi turbulenta a travessia entre a etapa que encerrava um período militar e o novo ciclo de ascendência peronista, que então começava. Não estive lá para assistir à volta do corpo de Evita, que se deu poucos anos depois. Estava lá, sim, para acompanhar o retorno de Perón, recebido com uma verdadeira batalha campal entre facções de seus aliados no trajeto do aeroporto de Ezeiza ao centro de Buenos Aires.

Esses enfrentamentos, conhecidos como a Batalha de Ezeiza, envolviam os peronistas de esquerda (Montoneros e outros) e os peronistas de direita, que se reuniriam mais tarde na Aliança Anticomunista Argentina (a Triple A), capitaneada por José López Rega, um Rasputin portenho que tinha o apelido merecido de El Brujo.

 

Na porta de todo grande prédio de Buenos Aires desse tempo, ao se comemorar qualquer data, havia tanto guardas e parafernália de segurança quanto convidados. Um assunto habitual de conversa era saber quem tinha sido sequestrado, como tinha sido o resgate e especulava-se sobre quais haviam sido as condições negociadas.

O palácio que abriga nossa embaixada em Buenos Aires se havia transformado numa espécie de fortaleza. Tínhamos uma lotação com mais agentes da nossa Polícia Federal do que diplomatas – além de importante reforço de seguranças locais – e dispúnhamos, literalmente, de um arsenal com armas e munições. Chegamos mesmo a fazer, nós diplomatas e adidos, alguns exercícios de tiro nos estandes da Polícia Federal argentina. Tivemos resultados bastante modestos.

Obras foram feitas para aumentar a segurança das nossas propriedades. Várias delas desfiguravam a esplêndida arquitetura daquela mansão. As portas da embaixada não eram mais abertas de par em par e sem hesitação, como é o padrão de hospitalidade da função diplomática, mas lenta e cuidadosamente, para diminuir os riscos de uma agressão ou de um sequestro.

Vistas com os olhos de hoje, as precauções parecem excessivas. Um único disparo nos atingiu em todo esse período. E foi causado pelo homem extraordinário que foi Expedito de Freitas Rezende, ministro conselheiro e número dois da nossa representação. Por não ser absolutamente do ramo, ele fez com que sua arma disparasse, de forma involuntária, provocando grande barulho e tropel. Conheci o buraco deixado pela bala de Expedito no teto do quarto onde estava temporariamente hospedado. Como nós, no Itamaraty, gostamos de conservar testemunhos do passado, é possível que o orifício continue lá.

Trago Expedito de Freitas Rezende à tona, em primeiro lugar, porque era do Piauí. Mais precisamente, era de Piripiri, e ouso afirmar – sem medo de contestação – que é o mais ilustre filho da cidade. Foi ele autor de um feito diplomático de quase impossível duplicação: levou até seu estado natal o papa João Paulo II, que fazia a primeira visita de um pontífice máximo ao Brasil.

Além de grande sagacidade diplomática e um sólido conhecimento da história, sobretudo a da Bacia do Prata, tinha duas características físicas inesquecíveis. Sua cabeça era enorme, abaulada e precedida de uma extensa testa. O conjunto surpreendia pela monumentalidade. E levava os inexperientes a imaginar que fosse anomalia ou doença.

Uma vez, ao desembarcar num aeroporto escandinavo, Expedito foi separado pelo médico de plantão, que, com tato, lhe perguntou sobre a portentosa cabeça. O diplomata, com ânimo de tranquilizar, declarou que na sua terra muitas cabeças eram assim. Por isso, ficou retido até que tudo se esclarecesse. À luz da informação, o serviço médico escandinavo temia que pudesse se tratar de fenômeno não só grave como contagioso.

Sua outra peculiaridade eram os olhos – um deles apontava acentuadamente para um lado. Quando se dava um papel para que Expedito lesse, em vez de colocá-lo de frente, ele colocava as folhas resolutamente ao lado da cabeça. O gesto, imprevisível, causava alarme.

 

Certa noite, saímos do Colón – então como hoje uma das principais casas de ópera do mundo – e andamos pela calle Libertad para cumprir o que era um agradável costume de Buenos Aires: ir comer alguma coisa no vizinho Zum Edelweiss, restaurante que ainda existe, mas vive muito mais da tradição do que de seu acanhado presente.

Não formávamos um grupo compacto, sequer nos conhecíamos todos. Éramos duas dúzias de pessoas de idades salteadas, que iam desde confirmadas senectudes até gente moça, meu caso. Em direção a nós, em sentido contrário, vinha uma manifestação peronista. Ela era fácil de reconhecer, devido à invariável cadência dos bumbos que abrem seu caminho, e pelas palavras de ordem rimadas que servem de fundo sonoro. Mais que isso, o hino do “justicialismo” era o canto dos argentinos dentro ou fora dos estádios, em momentos de vitória ou esperança dela.

Não tínhamos como dela escapar nem como nos esconder. Procuramos nos fazer invisíveis nas sombras e colados às paredes. Mas o contraste era imenso entre o punhado de senhoras de vestidos longos e peles, ladeadas por senhores de black tie, e o grupo muito mais numeroso, vigoroso e barulhento que se aproximava. Era a velha Argentina intimidada e acuada pela emergência de novos, herdeiros dos “descamisados” originais.

Como se fossem mantras, os manifestantes repetiam sem cessar dois estribilhos. O de efeito mais mágico era a invocação, já então ritualizada, ao espírito tutelar de Evita: Se siente, se siente, Evita está presente. O canto, reiterado como um lamento, acabava por ter um efeito alarmante: levava a crer que, repetida tantas vezes e por tantas vozes, a convocação acabaria se materializando. O outro era um refrão de apoio a Salvador Allende, naquele momento ameaçado pelas forças opostas ao seu projeto político. Nas duas invocações havia um fervor que costumo associar com o espírito mesmo de Buenos Aires.

Enviamos uma delegação prestigiosa para a posse de Héctor Cámpora como presidente da Argentina. Era ele apenas um preposto de Perón, escolhido por sua fidelidade ao general, e o próprio lema de sua campanha já prenunciava a fragilidade e a brevidade de seu mandato: Cámpora al gobierno; Perón al poder.

Foram só dois meses de permanência de Cámpora na Casa Rosada. Terminado o intervalo, Perón voltaria ao governo como cabeça da chapa Perón–Perón, já que Isabelita tinha sido eleita vice-presidente – prenunciando o esquema que seria recriado pelo casal Kirchner mais de trinta anos depois.

O dia da posse foi caótico. Nossa delegação enfarpelada preparou-se para um dia de eventos encadeados, que começaria com uma cerimônia religiosa na Catedral de Buenos Aires (a religião católica era a religião do Estado e, como acontecia com muitos dos nossos vizinhos, a chancelaria era, oficialmente, el Ministério de Relaciones Exteriores y Culto) e se fecharia com uma grande recepção.

Só três presidentes estrangeiros estiveram presentes: Osvaldo Dorticós, de Cuba, Juan Bordaberry, do Uruguai, e Salvador Allende, do Chile. A título de ilustração de como os tempos eram perigosos, vale lembrar que Allende e Dorticós terminaram se suicidando (embora em condições e datas bem diferentes) e Bordaberry morreu em prisão domiciliar.

A ferocidade das clivagens sociais e ideológicas na sociedade argentina era acentuada. O enfrentamento entre o peronismo e as oposições era profundo e rancoroso. Diante dos distúrbios, nossa delegação foi aconselhada pelas autoridades locais a regressar à embaixada, e ficou acompanhando pelo rádio e pela televisão o que acontecia lá fora.

O Perón que voltou em 1973 era uma sombra do que tinha partido dezoito anos antes. Restava o gesto largo, a astúcia e a ambiguidade no emprego das palavras. Tinha também uma verdadeira sabedoria em falar aos grupos e setores desencontrados que davam forma ao peronismo e que tinham, no culto a ele, um dos poucos senão o único sentimento compartilhado. Perón estava cansado. Talvez intuísse que voltara para morrer. Não tinha nada de novo a dizer e cansava-se ao repetir o que dissera.

Mais do que antes, era críptico. Suas palavras eram mais oraculares do que cartesianas. Tudo o que dizia se prestava a uma ciranda de leituras e interpretações bizantinas. Não procurava mais governar ou dirigir. Bastava-lhe ser o símbolo do movimento que levava seu nome. Queria-se como referência na vida política argentina.

 

Tenho uma pequena história de Perón que gosto de contar e que me parece retratar o temperamento e estilo dos nossos dois países. Deu-se quando ele e o nosso presidente Eurico Gaspar Dutra se encontraram na Ponte da Amizade, que unia Uruguaiana a Paso de los Libres. Perón veio flanqueado de ajudantes de ordens. Vestia o primeiro uniforme do Exército argentino, de túnica branca. Dutra vinha à paisana e com passos miúdos. Os dois se encontrariam no meio da ponte. Ao se aproximarem, e a uma distância suficiente para trocarem palavras, Perón ergueu os braços e saudou teatralmente o “hermano Dutra”, que, chegando mais perto, disse em voz mais baixa: “Hermano não. Eurico.”

 

Uma coisa que sempre me impressionou na Argentina foi a diferença de alma entre a cidade e o campo. Nas cidades, os desentendimentos entre grupos e ideias são numerosos, e muitas vezes violentos. No campo – sobretudo no grande pampa – parece haver uma verdadeira harmonia entre patrões e peões, e uma ampla tradição de trabalho compartilhado.

Como a escravidão acabou cedo, e também nunca foi significativa nos pampas, o convívio se deu sempre entre pessoas livres, e muito mais homogêneas em termos de cultura e etnia. Os números eram também pequenos, o que facilitava um espírito de aproximação e solidariedade naqueles imensos espaços.

Em momento de grande tumulto urbano e de acentuada radicalização política, uma grande senhora argentina teria dito, de forma memorável: Si viene el comunismo yo me voy a la estancia. A frase é citada como uma versão gaúcha do comentário atribuído a Maria Antonieta de que, na falta de pão, o populacho deveria se alimentar de brioches. Não creio ter sido exatamente essa a intenção da senhora, embora a ideia de que, num regime comunista, ela pudesse conservar suas terras e seu gado não lhe parecesse inverossímil.

Cheguei a conhecer bastante a suposta autora da frase, Stella de Cárcano. Com o marido, eram donos de uma maravilhosa propriedade na serra de Córdoba, a Estáncia San Miguel. Os Cárcano são amigos históricos do Brasil. O primeiro da linhagem foi dom Ramon Cárcano, governador de Córdoba e embaixador argentino no Rio de Janeiro, entre 1933 e 1938. O filho, o igualmente eminente Miguel Angel, foi embaixador em Londres, signatário da Carta das Nações Unidas e ministro da Agricultura. O neto, também Miguel, casado com Teresa, era meu amigo, e através dele conheci esses lugares e essas pessoas.

O que acho que estava por trás do comentário atribuído a ela era a improbabilidade de que, naquelas vastidões, pudesse haver um transtorno que abalasse relações tão estáveis e tão tradicionais entre os que cuidavam, como patrões ou como empregados, da terra e da criação do gado.

Bem próxima à Estáncia San Miguel ficava Las Barrancas, propriedade rural de Eduardo Martínez de Hoz e de sua mulher, a lendária Dulce Liberal, uma brasileira. Dulce – eu quis tratá-la de “senhora” pela distância de nossas idades e ela insistiu no tratamento informal, que a remoçava – fora uma das mulheres mais elegantes de seu tempo. Uma vez, levei vestidos seus, tão clássicos eram, para que integrassem a coleção permanente de moda do Metropolitan Museum de Nova York, organizada por Diana Vreeland, mulher também extraordinária, editora da Vogue, e que foi, talvez, a versão original de uma sucessora sua a quem o diabo vestiu de Prada.

A sede da propriedade dos Martínez de Hoz havia sido projetada por um respeitado arquiteto brasileiro – Wladimir Alves de Souza – e era, com as naturais adaptações, um edifício que se inspirava nas tradições da arquitetura luso-brasileira. Era surpreendente encontrar naquelas latitudes uma propriedade de caráter tão claramente brasileiro. A construção havia sido o resultado da determinação de Dulce de continuar fiel a suas raízes, que conciliava com um real cosmopolitismo. Foi ela, durante anos e anos, uma das estrelas de Paris e Deauville.

Em todos os grandes postos em que servi, contei com o prestígio dessa legião estrangeira de patrícias que eram, em muitos sentidos, as verdadeiras embaixadoras do Brasil. Já que falei em Dulce Liberal, a justiça e a lembrança me obrigam também a evocar Aimée de Heeren, Silvia Amélia de Waldner e, last but not least, dona Isabel de Orleans e Bragança, condessa de Paris, e também princesa nossa e neta de outra Isabel, a regente do Império e filha de Pedro II.

Penso nelas como armas secretas, aliadas confiáveis, boas conselheiras. Aimée, em particular, imperava em Palm Beach, em Nova York, em Biarritz e em Paris. Nesses vários palcos, pude contar com ela, com sua amizade e – por que não usar logo a palavra certa? – com seu patriotismo.

Vários de nossos autores queriam escrever sua biografia. Mas ela sabia que o interesse maior deles residia em obter as confidências de seus amores com Getúlio Vargas e com Assis Chateaubriand. Sobre esses dois affaires, e sobre qualquer outro que se insinuasse, ela tinha uma política invariável: nem confirmar nem desmentir nada. E assim foi se consolidando a sua legenda.

Viveu, entendo, até os 103 anos. Com ela já entrada nos 90, eu quis lhe oferecer, em Paris, no final do século passado, um jantar de homenagem. Pedi que escolhesse os nomes dos convidados e chegamos a uma lista com 24 pessoas. Mas, à medida que os dias passavam, um ou dois se desculparam por uma variedade de achaques, e outro veio a falecer. Como todos rondavam ou haviam ultrapassado a casa dos 90, tínhamos dificuldade, ela e eu, em escalar um time completo, e mesmo em encontrar reservas. Acabamos com um número menor do que o inicialmente planejado, mas isso foi o melhor que foi possível fazer, dadas as circunstâncias.

 

Todas essas lembranças me levam, finalmente, a Alfredo Carlos Alcoforado, diplomata nosso, nos idos de 1918, que faleceu como titular da então legação do Brasil em Havana.

Algum tempo depois de seu falecimento, uma grande casa importadora em Hamburgo abriu uma caixa revestida de chumbo, usada para transporte dos charutos que importava de Cuba. Dentro da caixa – agora ataúde – estava, com espada e condecorações, o corpo de um ilustre desconhecido.

Feitas as averiguações, identificou-se Alfredo Carlos Alcoforado, falecido em 9 de agosto de 1918, na cidade de Havana. Até esse ponto, o que ouvi de meus maiores, e que já é parte da tradição oral do Itamaraty, coincide. A partir daqui as narrativas se bifurcam.

Há os que garantem que uma caixa de charutos foi enterrada, com honras, no Cemitério São João Batista, imaginando-se que continha os despojos de Alcoforado. Lá continua ela. Uma variante sugere que os charutos foram retirados da cova, e Alcoforado foi finalmente enterrado no túmulo que era seu. Dos charutos, recuperados, não há notícia. Outra versão sugere que, para evitar múltiplos constrangimentos, Alcoforado jaz em algum cemitério alemão, e que a guerra e a gripe espanhola e seus imensos estragos foram responsabilizados por tudo.

De certo o que há é que o Brasil e sua diplomacia perderam Alcoforado em 1918, e que estávamos então em guerra com a Alemanha, o que só terminaria com o armistício assinado em 11 de novembro. Foi um ano fatal: a influenza matou entre 20 e 40 milhões de pessoas em todo o mundo, fatalidades bem mais numerosas do que todas as causadas pela Primeira Guerra Mundial.

No meio desses imensos desastres, o destino de Alcoforado perde estatura e significado. Creio que hoje só eu, que não tenho com ele relação de parentesco ou qualquer outro tipo de vínculo, ainda me interesso por episódio tão remoto e, com o passar de tanto tempo, insuscetível de ser esclarecido. E penso: onde quer que esteja, descanse em paz Alfredo Carlos Alcoforado.

Marcos de Azambuja

Diplomata, foi secretário-geral do Itamaraty e embaixador do Brasil em Buenos Aires e Paris. É coautor de História da Paz, da Contexto

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