questões pós-comunistas

A nova história de Svetlana Aleksiévitch

Um quadro sombrio da Rússia contemporânea

Orlando Figes
Para a geração da autora, os anos 90 foram uma catástrofe. Elas perderam tudo: um modo de vida, um sistema econômico que garantia segurança, uma ideologia que lhes dava certezas morais, um império gigantesco que sobrepujava divisões étnicas
Para a geração da autora, os anos 90 foram uma catástrofe. Elas perderam tudo: um modo de vida, um sistema econômico que garantia segurança, uma ideologia que lhes dava certezas morais, um império gigantesco que sobrepujava divisões étnicas FOTO: MARGARITA KABAKOVA

Quando ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 2015, Svetlana Aleksiévitch era pouco conhecida fora de seu país, a Bielorrússia, e da ex-União Soviética, onde suas obras eram publicadas em russo. Os jornais correram para se informar sobre aquela escritora e reunir opiniões abalizadas sobre seus “escritos polifônicos, um monumento ao sofrimento e à coragem em nosso tempo”, segundo as palavras de Sara Danius, secretária permanente da Academia Sueca, ao anunciar o prêmio. Em sua justificativa, a academia creditou a Aleksiévitch a invenção de um novo gênero literário, “uma história das emoções” – uma “colagem de vozes humanas de cuidadosa composição”, as quais foram registradas em entrevistas. As histórias orais da autora (porque é isso que são) apresentam-se sob a forma de monólogos e estão menos preocupadas com o registro dos acontecimentos do que com os sentimentos dos entrevistados, isto é, a maneira pela qual a vida interior das pessoas foi moldada por esses eventos históricos.

Não há quem não se comova com os testemunhos de Vozes de Tchernóbil (1997), ou com as entrevistas com soldados soviéticos, suas mães e viúvas em Garotos de Zinco (1989), dedicado à Guerra no Afeganistão de 1979 a 1989. São livros importantes, originais e poderosos, que recontam a história por intermédio de narrativas pessoais e desmancham mitos soviéticos imbuídos da força de verdades humanas. Destilam a voz da memória para transformá-la numa forma de literatura. Como história oral, no entanto, eles não são tão inventivos quanto pensou o júri do Nobel.

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Orlando Figes

Orlando Figes é professor no Departamento de História da faculdade Birbeck, Universidade de Londres

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