esquina

A pátria em batinas

Não batemos Jesus, mas nos vingamos de Zidane

Paolo Argentini
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

O tamanho do campo é oficial. O uniforme, fornecido pela marca esportiva Lotto, vem com o número e o nome do atleta nas costas. A partida se divide em dois tempos. Onze jogadores para cada lado, cinco substituições, dois bandeirinhas, um juiz. Em caso de empate, decisão por pênaltis. Trata-se, à primeira vista, de um campeonato de futebol como outro qualquer, mas há diferenças. Aqui ninguém xinga. Blasfemar, então, nem se o demônio em pessoa entrar em campo. Não há violência, não há tumulto, não há discórdia. Quando a falta por acaso é grave, o juiz enfia a mão no bolso e saca um cartão azul, que suspende o jogador por cinco minutos. Não é que não tenha peito. Nesse campeonato, todo juiz é leigo e obedece sem um pio às normas dos cartolas carolas: para expulsar padre, só se for bispo.

A Clericus Cup, a primeira Copa do Mundo de padres e seminaristas, é disputada na única cidade da terra com credenciais impecáveis para eventos do gênero: Roma. Objetivos do piedoso certame? As evidências autorizam apostar em três: proporcionar ao clero a oportunidade de uma benfazeja e necessária exercitação física; sugerir ao mundo que a identidade corporativa da Igreja Católica possui uma faceta atlética e jovial; e lembrar ao mundo que a Igreja Católica não conhece fronteiras, como se deduz da escolha de um nome que sela o matrimônio do latim com o inglês, as duas línguas internacionais dos últimos milênios. A iniciativa conta com o apoio do papa Bento XVI. O artífice do torneio é o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano, o número dois da Igreja. Seus compromissos de diplomata-mor da Santa Sé não o impediram de dar vazão à paixão esportiva e de se entregar com fervor à sua obra de sumo-cartola.

A Clericus teve início em fevereiro, com dezesseis equipes divididas em dois grupos. Termina em junho. A maioria das partidas se realiza no campo do Pontifício Oratório de São Pedro, um convento a menos de 1 quilômetro do Vaticano. Esticando o pescoço, vê-se a cúpula da Basílica de São Pedro. Na arquibancada, onde palavrões são substituídos pela invocação de santos (nem sempre com a mesma eficácia do calão), misturam-se padres, bispos e outros torcedores de variada confissão futebolística, além de uma penca de curiosos. De olheiros confessos, não se tem notícia. (Espionar é pecado.) Um terço dos jogadores é de origem italiana. O resto se distribui por 36 nacionalidades.

Do Brasil, dezoito padres e um amigo católico se congregaram para defender uma instituição fundada por santo Inácio de Loyola não muito depois que se avistou a Terra de Santa Cruz. Formaram a esquadra da Pontificia Università Gregoriana, onde a maior parte deles estuda. É a pátria em batinas.



Ouniforme oficial é preto e vermelho. Os treinos acontecem na sexta-feira, das 4 às 6 da tarde, quando começa a missa. Os jogos são no sábado. Domingo, jamais. O comando da legião cabe ao padre João Evangelista, de 44 anos, que tentou o milagre de em poucas semanas transformar um ajuntamento de estudantes de teologia numa equipe de futebol. Não conseguiu. Dos seis jogos disputados, a Gregoriana perdeu quatro. O primeiro, de goleada: 6 a 0 para o líder Mater Ecclesiae, cuja estratégia pouco criativa e algo covarde põe toda a fé no goleiro, chamado Jesus. A situação na tabela é crítica. Nem mesmo a ajuda do Misericordioso poderia levá-los às quartas-de-final. Ainda mais depois que um estiramento na coxa deixou de fora do campeonato o capitão Reginei José Modolo, o Zico, apelido que reflete timidamente seus atributos em campo. No âmbito das devoções boleiras, Zico externa um espírito ecumênico um pouco em desacordo com a severidade teológica de Bento XVI. Ao responder sobre seu jogador predileto, não hesita em nomear Kaká, “ainda que ele não seja católico”.

Mesmo desfalcada, a Gregoriana experimentou há algumas semanas o apogeu de sua história futebolística. Sem o mínimo vestígio de caridade cristã, trucidou por 8 a 1 o Pontificio Seminario Gallico. O lanterninha do campeonato, certo, com cinco jogos, cinco derrotas e saldo negativo de 24 gols, mas com um defeito de deixar o patriotismo brasílico à flor da pele: eram franceses.

Naquele dia, os jogadores entraram em campo e, como sempre, se ajoelharam para rezar o pai-nosso (em português).

Levantaram-se confiantes e olharam para o juiz. Apito inicial. Em segundos, o padre Evangelista já se afobava de um lado para o outro, agitando os braços e dando ordens à sua legião: “No meio, no meio!”, “Olha a direita!”, “Solta a bola!”. O piauiense Julio César, 36 anos, estudioso de santo Agostinho, driblou dois e deu um chapéu no goleiro. Pontificia Università Gregoriana 1, Pontificio Seminario Gallico 0. Logo depois, a bola já estava com Alexandre Borges, 31 anos, da Pastoral de Criciúma, em Santa Catarina. É um dos mais habilidosos do time. Evangelista grita: “Vai, Borges!”. Padre Borges vai. Arranca pela esquerda e chuta cruzado para marcar 2 a 0. O centroavante Antonio Aílson, 38 anos, palmeirense da Arquidiocese de Cascavel, no Paraná, aproveita uma embolação na área para marcar o terceiro. O quarto também sai de seus pés, com um chute a distância. Os dois gols seguintes são marcados pelo meio-campista Divo Couto, 33 anos, estudante de teologia moral. Num deles, dribla três jogadores e o goleiro. O placar é encerrado com um chute de Rineu Quinalia Filho, 27 anos, o único do time que não é padre. Causando certo espanto entre os fiéis circunstantes, Quinalia traz o símbolo do ying e do yang tatuado no braço. Pouco importa. O que conta é sua contribuição cristã para o resultado: 8 a 1.

Os jogadores se abraçam e dão graças a Deus. As câmeras das TVs italianas se aproximam. Padre Divo Couto, camisa 5, responde como jogador profissional: “Foi graças ao esforço de todos que ganhamos”. Dali por diante, como se sabe, nenhum esforço bastou, mas pelo menos naquela partida, e ainda que no Brasil ninguém tenha visto, as amargas derrotas nas Copas de 86, 98 e 2006 foram parcialmente compensadas. Não é o juízo final, mas nos vingamos. Aqueles filhos-de-uma-pagã.

Paolo Argentini

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