esquina

A pedagogia da fofoca

Vinte mandamentos para o repórter de celebridade

Cristina Tardáguila
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2010

Pouco antes do Carnaval, a carioca Roberta Escansette aproximou-se do balcão de atendimento da Biblioteca Nacional, no centro do Rio de Janeiro, e, equilibrando os óculos de aro fino na ponta do nariz, pediu: “Quero tudo sobre teatro grego.” Em seguida, e para estupefação dos funcionários que a observavam, pediu mais: “Quero também todos os documentos sobre a história do rádio, das rádio novelas, das revistas brasileiras e da televisão.” Passou então dias e dias no edifício neoclássico da Cinelândia. Estudou as origens do mito – de Ésquilo a Aristófanes –, descobriu que o ator Téspis é o mais antigo ancestral de Brad Pitt e saiu de lá com uma certeza inabalável: oitenta horas é tempo mais que suficiente para ensinar um homo sapiens a ser repórter de celebridade.

Com um lápis afiado na ponta dos dedos, a erudição acumulada no cérebro e o conteúdo teórico estalando as sinapses, Escansette se debruçou sobre seus dez anos de jornalismo de fofoca e, em instantes, voilà!, sistematizou os vinte mandamentos da reportagem de celebridade. O documento era um compêndio de tudo, absolutamente tudo que um indivíduo precisa saber para escrever com esmero e rigor sobre temas como o décimo quinto casamento de Bruno Gagliasso ou as vicissitudes da última namorada esbofeteada de Dado Dolabella. Quando chegou ao fim da lista, comemorou. Nascia ali a ementa do primeiro curso de extensão sobre jornalismo de celebridade da história deste país.

Sentada numa lanchonete de um shopping do Rio, a morena de 28 anos que circula pela noite carioca como frila da revista Caras defendeu sua iniciativa como quem defende religião: “Estou cansada desse preconceito com o repórter de celebridade. É uma profissão honrada, que paga as contas. Descobri uma oportunidade, e a Facha resolveu investir num nicho de mercado que merece atenção.” Por Facha, leia-se Faculdades Integradas Hélio Alonso, uma universidade com dois campi no Rio. Como o Supremo Tribunal Federal determinou, em 2009, que diploma não faz falta em redação nenhuma – que dirá, então, certificado de curso de extensão –, Escansette sabe que a briga é ladeira acima. Mas a moça está confiante. No sábado, dia 10 de abril, às 8h30, ela estará a postos, de giz em punho, para receber quem estiver disposto a desembolsar 2.250 reais por 80 horas de expertise em notoriedade.

 

Enquanto esperava uma Coca-Cola que nunca chegaria, ela topou revelar alguns dos tópicos que abordará em sala de aula. Antes, porém, esclareceu que seu currículo é sólido. Se estava ali, era tão-somente porque havia sido setorista – o repórter que cobre um único assunto – de Giovana Antonelli, Vera Fischer, Ronaldo Fenômeno e Roberto Carlos, o cantor. “Eles me ensinaram tudo!”, disse com sentimento.

O mandamento supremo é este: “Na agenda do jornalista de celebridade tem que constar o telefone dos famosos e também dos assessores deles – maquiadores, cabeleireiros, assistentes de produção, figurinistas etc.” Ela explica: “Esse pessoal do segundo escalão é valioso. Eles costumam ser humilhados, maltratados, e aí descontam passando informação sobre as celebrities ou sobre a agenda delas. Importantíssimo cultivar esse vínculo.”

O segundo mandamento é um no, nein, non: “O repórter de celebridade não tem direito à tietagem.” O deslumbramento seria o atalho mais curto para o desmanche da isenção e da objetividade, princípios que Escansette preza muito. “Tirar foto com o famoso que acabou de ser entrevistado acaba com a credibilidade de qualquer pessoa”, adverte. É preciso rigor. “Gente assim deve ficar longe da redação. Melhor se ater aos fã-clubes.”

O terceiro e o quarto mandamentos inserem-se no campo da hermenêutica. Mais especificamente, vinculam-se às reflexões de Escansette sobre o estatuto da negação e do silêncio: “Um famoso nunca-jamais-never admite de cara que está se separando. Melhor abrir a conversa com um papo leve [lição número 3] e mostrar que você fez uma pré-apuração consolidada [lição 4] antes de entrar de sola. Se tiver foto dele[a] beijando outro[a], melhor.” Os futuros repórteres de celebridade também aprenderão que o silêncio e a verborragia agressiva são igualmente eloquentes: “O silêncio mostra onde o jornalista tem de fuçar, e, quando a celebridade fica arisca, é porque ela deve. Aí é só apurar direitinho…”

Ao longo de sua carreira, Roberta Escansette já deu furos que só por puro despeito não entraram para os anais do jornalismo nacional. Foi ela quem descobriu a amante de Marcelo Silva quando ele ainda estava com Susana Vieira. Foi ela quem contou para o Brasil que Giovana Antonelli estava de malas prontas para morar em Nova York, levando consigo o filho Pietro, fruto do casamento com Murilo Benício. E também foi ela – como não? – a primeira a falar sobre a intrigante gravidez de Daniela Cicarelli.

É do alto desse currículo que Escansette tira legitimidade para tratar de assuntos espinhosos. Perseguição de famosos, por exemplo: “1) Não use o mesmo carro todos os dias; 2) não grude um carro no outro porque pode haver um acidente; 3) decore as placas dos famosos quando eles ainda estiverem na festa; 4) ande sempre com vidros recobertos por insulfilm; e 5) só se aproxime com uma pergunta depois de ter feito a foto.”

Com esses saberes, Escansette garante seu ganha-pão desde o segundo semestre da faculdade. Como frila, ela consegue cerca de 200 reais por noite, o que rende uns 5 mil reais por mês. E ela ainda se diverte. Na noite anterior, havia entrevistado Caio Blat, que considerou “uma gracinha”.

Mas e quando o famoso se chateia? “Mande flores!”, responde rápido. “E um cartãozinho de próprio punho dizendo algo como ‘Fulano, entenda a nossa posição. Trabalhamos com a verdade. Agradecemos a compreensão. Desde já contamos com a parceria.'” Quando Escansette publicou que Susana Vieira estava sendo trocada pela proto-célebre Fernanda Cunha, por exemplo, ela enviou um buquê à atriz, acompanhado de um cartãozinho assim: “Nós estamos do seu lado. Queremos a sua felicidade.” (A reportagem não conseguiu falar com a atriz para saber se as flores saíram voando pela janela.)

Até a última semana de março, havia oito inscritos no curso de extensão de jornalismo de celebridade, metade do quórum mínimo para a formação da turma.

Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é diretora da Agência Lupa e autora do livro A arte do descaso (Intrínseca)

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