chegada

A plenos pulmões

Ao completar 100 anos, o Hino Nacional Brasileiro sacode as escolas municipais do Rio

Dorrit Harazim
IMAGEM: ANTÔNIO FREIRE ZANGRANDI

São 1 062 as escolas municipais do Rio de Janeiro. Multiplique-se esse número por uma média de 600 alunos por escola, e tem-se o universo de jovens que desde a primeira segunda-feira de junho começam o dia tentando entoar – sem atropelar nenhum deles – os 50* versos do nosso Hino Nacional. Segundo a resolução municipal nº 1026, a cantoria é uma providência para atender à “necessidade de resgatar e despertar no aluno valores cívicos que, certamente, contribuirão na formação de sua cidadania”. Toda segunda-feira será dia de cantar o hino, portanto.

E por que não? Antes de cair em desuso, ser varrido para a pilha dos hábitos ideologicamente caretas ou não encontrar eco no vale-tudo em que se transformou o ambiente escolar nacional, hino e bandeira formavam uma dupla invencível. Para quem era estudante nas priscas eras em que colégios desfilavam na parada do 7 de Setembro, como não se lembrar da ansiedade de véspera? Adormecia-se com o uniforme mil vezes repassado e tinindo no cabide. No dia da parada, desfilar cantando a plenos pulmões e ardor juvenil era uma gostosura. A um passo do heróico.

Pena que, por causa do excesso de rebusques nos vocábulos e tortuosas construções gramaticais, a letra do nosso grande canto nacional não facilite o arroubo patriótico. Embora o autor dos versos, o poeta Joaquim Osório Duque Estrada (1870-1927**), tenha feito onze alterações mesmo depois de considerar a obra  pronta, em 1909, o hino não se tornou menos barroco.  Daí o entusiasmo, para não dizer alívio, quando em estádios, ginásios, passeatas e demais eventos nos quais ele faz sua aparição chega o momento do refrão: Terra adorada/Entre outras mil/És tu, Brasil/ Ó pátria amada. Ufa.

No colégio municipal Camilo Castelo Branco, situado na Zona Sul carioca, poucos torcem o nariz. “Os alunos amam. Sou do tempo em que escola formava todos os dias. Cantar o hino não é coisa de ditadura. Puro preconceito”, explica o diretor, Ricardo Quintana. “Só não acho bom que o dia obrigatório para a execução seja segunda-feira, que é um dia tumultuado – os alunos estão mais sonolentos e os problemas de trânsito são maiores. Tinha que ser na quarta, quando tem mais professores na escola.”

O fato é que, toda segunda, no inglório horário de sete e dez da manhã, parte dos 606 alunos de 10 a 14 anos forma fila para assistir ao hasteamento do nosso lábaro. E então se ouve o hino ecoar pelo Horto, nas adjacências do colégio. “Usamos a gravação do Ministério do Exército, disponível no site do MEC, mas há também uma gravação da Orquestra Sinfônica de São Paulo, regida pelo John Neshling. É uma maravilha de música”, empolga-se o diretor. (Há divergências quanto a esse quesito.)

Contudo, mesmo o entusiasmado Quintana acha o hino longo demais. “Deviam fazer uma lei federal juntando as duas partes numa só. O hino perde a força quando é dobrado, fica repetitivo.” Acciele Bueno de Andrade, a coordenadora pedagógica da escola, faz um diagnóstico mais clínico. “Tirando o Kaká, nem os jogadores de futebol sabem a letra toda. Muito menos o que ela quer dizer. Aqui no colégio trabalhamos o texto nas aulas de português e no Centro de Estudos do Aluno, pois ninguém sabe onde fica o Ipiranga nem o que significa plácidas.” Que dirá fúlgidas, garrida e lábaro, usado sem piedade no parágrafo anterior.

 

Oito anos atrás, Olga Bongiovanni, apresentadora de um programa matinal da TV Bandeirantes, lançou um concurso de rua para premiar quem conseguisse cantar, sem erros, o Hino Nacional do começo ao fim. O prêmio era de 500 reais. Foi só quando a montanha de dinheiro que se acumulava de semana em semana chegou aos 19 mil reais que a equipe encontrou uma alma cívica capaz de recitar as duas partes, oito estrofes e 50* versos da obra. Sem hesitar entre Brasil, um sonho intenso, um raio vívido… e Brasil, de amor eterno seja símbolo… Como se sabe, e ao contrário do que sustentou o matemático italiano Giuseppe Peano, neste caso a ordem dos fatores não apenas altera o produto como costuma gerar insegurança nacional.

Ponto para os gregos, que acharam prudente desbastar as 158 versos*** originais (repetindo, cento e cinquenta e oito versos sem estribilhos***) do seu Hino à Liberdade. Na versão final, cantada pelos pimpolhos de lá, restam apenas duas, num total economicamente correto de 36 palavras.

A encrenca se dá quando uma nação passa por convulsões de vulto histórico que tornam seus hinos incomodamente obsoletos. A Alemanha, por exemplo, que tem o privilégio de ostentar um hino com música de Joseph Haydn, mudou de marcha três vezes. A primeira letra tecia loas à Prússia de Bismarck e durou até o final da Primeira Guerra Mundial. Em 1922, foi introduzida uma letra em quatro estrofes que energizou as massas durante os doze anos de regime nazista: “Deutschland, Deutschland über alles.”  Com o final da Segunda Guerra, restou  uma única estrofe politicamente correta, a terceira. Ninguém mais diz Alemanha, Alemanha acima de tudo.

Tem pior. Falar com um russo a respeito de hino nacional é quase falta de educação. No mínimo ele haverá de perguntar: “Qual deles?” Isso porque, em menos de dois séculos, a nação está a cantarolar a oitava versão oficial. O que começou em 1815 como uma ode à Rússia imperial, durou duas décadas até sofrer uma primeira cirurgia a pedido de Nicolau I. Passou a se chamar God Save the Tsar. Com a Revolução de 1917 e a monarquia czarista despachada para o Além, o governo provisório improvisou um novo hino adotando uma versão da Marseillaise francesa. Mas foi apenas um sopro no tempo, assim como o próprio Governo Provisório. Com a tomada do poder pelos bolcheviques, a Internacional tornou-se o hino oficial soviético durante os 22 anos seguintes.

Quase no final da Segunda Guerra, Joseph Stálin achou necessário criar algo mais adequado a sua imagem, e encomendou hino novo, sem descuidar da edição do texto. Era a sexta metamorfose da coisa. Durou uma década e conseguiu sobreviver à morte do ditador, ocorrida em 1953, mas apenas na parte musical – a letra stalinista foi radicalmente eliminada, e não foi substituída. E mudo permaneceu o hino até 1977, quando uma nova Constituição soviética aprovou um texto tinindo de novo, sem qualquer referência a Stálin.

Mas o que fazer quando é o próprio país que se desintegra? Em 1991, com a pulverização da União Soviética em quinze nações-estado, o presidente Boris Yeltsin adotou algo chamado “Canção Patriótica”, sem letra. Seu sucessor, Vladimir Putin, ficou tão constrangido com a mudez dos atletas russos por não terem o que cantar no pódio olímpico de Sydney, que interveio.  “Isso afeta a moral e o desempenho deles”, sentenciou. Lançou um concurso nacional com seis mil participantes e dali nasceu o “Hino Patriótico” da Federação Russa. Tem três estrofes e um refrão. Está em situação melhor do que a Espanha, cujo hino permanece sem letra desde a morte do ditador Francisco Franco, 34 anos atrás.

Diante de tantos acidentes patrióticos mundo afora, o nosso impávido colosso que ergue da justiça a clava forte merece ser louvado. E cantado a plenos pulmões, mesmo que não se saiba o que significa clava.
___________________

Correções: 14 de julho de 2009.

* são 50, e não 49 os versos do Hino Nacional.
** Joaquim Osório Duque Estrada morreu em 1927, e não 1827.
*** o hino grego tinha 158 versos sem estribilho, e não estrofes.

Dorrit Harazim

Dorrit Harazim é jornalista. Foi editora de piauí de 2006 a 2012

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