questões de governo

A presidência familiar

Quem é e o que esperar de Cristina Kirchner, uma mulher vaidosa que compartilha com o marido a ambição de acumular um poder excludente, que às vezes beira a paranóia

Tomás Eloy Martínez
Língua solta, Cristina respondeu com vigor a uma pergunta sobre as relações do governo de seu marido com os Estados Unidos: “Kirchner só teve relações carnais comigo”
Língua solta, Cristina respondeu com vigor a uma pergunta sobre as relações do governo de seu marido com os Estados Unidos: “Kirchner só teve relações carnais comigo” FOTO: WWW.CRISTINA.COM.BR_DIVULGAÇAO

Em meados de 1992, no auge da campanha presidencial nos Estados Unidos, o candidato democrata Bill Clinton soltou uma frase ousada que lhe valeu uma tempestade de críticas: “Buy one, get one free” – Compre um, leve outro de graça. Era uma alusão à capacidade de gestão de sua esposa Hillary, cujos conselhos esperava contar para governar. Embora Hillary não tenha exercido funções oficiais até oito anos depois, quando foi eleita senadora pelo estado de Nova York, ninguém duvidou do peso decisivo que teve durante as presidências do marido. Ambos se dão tão bem com o sistema republicano que não têm o menor receio de discutir o que pensam, com quem quer que seja, mesmo que o interlocutor tenha opiniões opostas às suas. “Sinto tanta curiosidade por tudo que jamais paro de aprender”, ouviu-se o ex-presidente dos Estados Unidos dizer em março passado, quando foi a Cartagena de Índias para comemorar os 80 anos de Gabriel García Márquez. Doze anos antes, numa reunião com escritores, confessou que seu único inimigo era o “fundamentalismo religioso de direita”, o que, no seu idioma de bom cristão de Arkansas, queria dizer que não aceitava os que se crêem donos absolutos da verdade e se negam a ouvir as verdades dos outros.

Hillary e Bill Clinton são há muito tempo os modelos políticos de Cristina e Néstor Kirchner, com quem compartilham alguns detalhes biográficos. Tanto Bill como Néstor conheceram as mulheres na universidade – os quatro estudaram direito, em Yale e em La Plata – e se lançaram na política quase ao mesmo tempo que elas. Os dois foram governadores de seus estados natais antes de concorrerem à presidência. As duas mulheres ocuparam posições dominantes no Senado: Cristina, desde 1995, oito anos antes que o marido chegasse ao governo nacional, e Hillary, desde 2000, quando Bill já se retirava.

As diferenças entre os casais, contudo, são mais ilustrativas que as semelhanças. Quando Clinton deixou a Casa Branca, depois de governar por dois mandatos seguidos, o fez sem que lhe passasse pela cabeça a idéia de reeleição. Deixara seu país com um superávit histórico e gozava de uma popularidade que continua intacta. É difícil pensar o mesmo de Kirchner, que foi eleito três vezes governador de Santa Cruz, sua província – em 1991, 1995 e 1999 –, depois de mudar a Constituição em benefício próprio. Ninguém tampouco poderia imaginá-lo repetindo o que Clinton lhe propôs quando se reuniram em Nova York, no dia 26 de setembro: “Se elas forem presidentas, façamos o que nos mandarem”. De brincadeira, Kirchner respondeu que via a si mesmo como futuro chefe do protocolo.

As chances de Cristina Kirchner de chegar à presidência sempre foram maiores do que as de Hillary. Ninguém concorre com ela em seu próprio movimento político, a Frente pela Vitória, um dos nomes de guerra com que o peronismo sobrevive. Seus adversários, na eleição de final de outubro, se apresentaram muito divididos, e não avançaram a passos rápidos na corrida presidencial. Quatro deles também se declararam peronistas.

O peronismo impregna todos os meandros da política argentina. Duas mulheres precederam Cristina Fernández de Kirchner – ou CFK, como passaram a chamá-la – no exercício do poder, e as duas foram peronistas. A última, Isabel Perón, chegou à presidência em 1974, quando morreu o marido, ao lado de quem tinha sido eleita nove meses antes. Só permaneceu um ano e meio num cargo que era grande demais para ela, e com o qual não sabia o que fazer. A outra, Eva, também esposa de Perón, ficou na história e é um dos maiores mitos argentinos. Isabel completou os estudos secundários, mas do brilho dos livros não lhe ficou nem um lampejo. Eva completara a duras penas a 5ª série primária, mas deixou dois livros: um foi ditado aos seus escreventes; o outro é uma explosão de raiva contra os militares e a Igreja, escrito em seu leito de doente. Isabel só se interessava em sobreviver. Eva era uma apaixonada que usou o poder para compensar os infortúnios da juventude: dava de presente as máquinas de costura que sua mãe não possuíra, as dentaduras que sua família não tivera posses para usar, e casava noivos aos milhares porque ela mesma nascera de um casal adúltero.

Cristina, em contrapartida, estudou ao mesmo tempo que o marido, superou-o e nunca teve por ele a devoção reverente que marcou a relação de Eva com Perón. Tanto Isabel como Evita faziam o que o marido mandava. Ou, no caso de Eva, declamavam sua obediência em voz tão alta que acabava parecendo suspeito. Cristina descreve a si mesma como o principal apoio de Kirchner, mas sempre deixou claro que divide com ele um projeto de amor e poder.

Em meio século, a condição feminina mudou, e já não restam sinais da submissão a que se resignavam as esposas do passado. Na primavera de 1992, dei em Harvard uma aula sobre os textos escritos ou ditados por Eva Perón, que culminou numa discussão inflamada entre os estudantes. Alguns deles imaginavam, com razão, que, como as mulheres dos anos 40 só agiam sem censura na esfera privada, a única estratégia possível para serem ouvidas era expor suas idéias como esposas e donas-de-casa. Eva não tinha outro jeito senão falar em nome de Perón, como se fosse uma representante do marido, mas, amparada nessa posição de fraqueza (“tenho pouca eloquência”, “sou uma mulher humilde”), fazia e dizia o que lhe dava na telha. Mostrando-se leal ao marido podia ser fanática, violenta e intolerante.

CFK não precisa fingir uma atitude de representante. Ela e Kirchner se apresentam como uma unidade, um casal de ferro cujos membros agem em separado sem que jamais um desautorize o outro. Acham natural alternar-se no poder: um nunca temeu ser traído ou deixado à margem pelo outro. Quando adoeceu, em 1951, Eva já tinha ao redor um exército de devotos que formavam quase um partido próprio. Não usaria esse exército para competir com Perón, mas para obrigá-lo a ser menos conciliador e mais audacioso em suas políticas sociais. Cristina também tem sua própria legião: os políticos conhecidos como cristinos. A diferença é que sua função não é mudar Kirchner, e sim fortalecê-lo.

Fora da Argentina, muitos analistas se perguntam por que as mulheres têm tanto peso político no país. Antes de CFK, figuras como Graciela Fernández Meijide e Hilda “Chiche” Duhalde foram senadoras pela difícil província de Buenos Aires e aspiraram à presidência. Os eleitores supõem que as mulheres são menos permeáveis à corrupção, e que compensam o medo do machismo ancestral do peronismo e dos sindicatos com uma compreensão sincera dos problemas das pessoas.

O que distingue Cristina de suas contemporâneas poderosas é o extremo zelo com que cuida de sua aparência pessoal. Nisso parece Evita, cujos tailleurs Dior e casacos de pele compensavam a pobreza extrema de sua juventude.

CFK tem estatura mediana, mas caminha tão empertigada e com tanta desenvoltura que parece mais alta do que é. Salientar suas feições com uma maquiagem às vezes excessiva é algo que não a envergonha. Mais de uma vez admitiu que se pinta demais, embora, pelo visto, as últimas viagens à Europa a tenham convencido de que não precisa de tanto. De Letizia, mulher do herdeiro da Coroa espanhola, parece ter aprendido que se pintar com mais moderação acentua a elegância. Nas fotografias de quatro anos atrás, quando seu marido assumiu a presidência, brilhavam os lábios bem delineados de vermelho e choviam dos olhos escamas de rímel. Nas últimas imagens, as faíscas da maquiagem começaram a se apagar. Mas ela continua a trocar de roupa quatro vezes por dia.

Quando o marido era governador de Santa Cruz e ela era vice-presidente da Câmara provincial, há dois anos, eles foram acordados às duas da madrugada e avisados de que uma centena de policiais amotinados ocupara a sede do governo. Kirchner se vestiu às pressas. Ela demorou quarenta minutos para se aprontar. Sua desculpa na época ficou famosa: “Ainda que venham os marines dos Estados Unidos, não saio na rua sem perfume nem maquiagem”.

Preocupa-a o excesso de peso, o envelhecimento precoce que resulta do abuso do cigarro – faz muito tempo que deixou de fumar –, a ameaça do rosto gorducho que, com os anos, a espreita. Já fez 54 anos e fica feliz quando lhe dizem que não aparenta a idade. Todos esses traços de personalidade parecem pertencer a uma mulher frívola, mais preocupada com o que dizem dela do que com aquilo que é capaz de dizer. Nada mais errado. Cristina Kirchner sempre teve uma idéia clara de onde queria chegar e como chegar. Agora seu principal problema é como impor uma personalidade autônoma do marido, com quem divide um mesmo projeto político há um quarto de século. Sabe que sem Néstor Kirchner não seria presidenta da Argentina. Deve a si mesma muito do que é, mas por demasiado tempo foi empurrada pelos ventos da ambição de seu marido. Há uma enorme diferença entre essa forma de abrir caminho e a de outras mulheres como Michelle Bachelet, Angela Merkel e a birmanesa Aung San Suu Kyi, que chegaram aonde chegaram por seu próprio peso.

Com CFK sempre foi claro que ela influi nas decisões do governo, mas que Kirchner tem a última palavra. Quando ele assumiu a presidência, ela declarou às rádios que era uma mulher subordinada mas independente. “Opino sobre tudo”, disse. “Durmo com ele e sou a última pessoa que ele vê antes de dormir. Se a esposa é um manequim que diz sim para tudo, não serve. Discutimos de igual para igual, e ganha quem tem as melhores razões.”

Sua história – e a de seu casamento – não difere muito da que viveram os militantes peronistas dos anos 70. Nasceu e cresceu numa família de classe média da cidade de La Plata, o que poderia ser interpretado – caso se queira – como o retrato de uma provinciana comum, com uma visão convencional do mundo. A primeira parte de sua biografia é quase a de qualquer argentino com ambições. Seu pai, Eduardo Fernández, era proprietário de uma frota de ônibus. Sua mãe, Ofelia Giselle Wilhelm, trabalhava como funcionária pública e foi representante sindical por um tempo. Viveu os primeiros anos num modesto apartamento de três quartos. Depois, quando nasceu a irmã Giselle, a família se mudou para uma casa com jardim em Tolosa, um dos subúrbios de La Plata. Ali continuam vivendo as duas Giselles.

Cristina conheceu Néstor Kirchner em algum momento de 1974, quando ele lhe propôs que estudassem juntos. Ele era três anos mais velho, e também militava no movimento universitário da esquerda peronista, que seria dizimado durante a ditadura. Nada levava a crer que a moça vistosa, cuidadosa e ordeira, e inflamada por uma inteligência sempre alerta, ia se apaixonar pelo rapaz estrábico, desalinhado, cuja língua presa parecia deixá-lo afastado de qualquer carreira política. As amigas íntimas de CFK imaginam que ela foi atraída pela paixão com que ele defendia seus ideais e, sobretudo, pela tristeza com que certa vez lhe contou que a maior frustração de sua vida era que o tivessem rejeitado por causa de seus erros de pronúncia, impedindo que fosse professor.

A biografia de Cristina é destituída de aventura, de romantismo, de tragédia. É uma planície sem sobressaltos, com muito de paixão exorbitante pelo poder e pela política, e muito de boa senhora burguesa no amor. Os grandes passos de sua história são os que deu nos governos, promovendo algumas leis, opondo-se a outras, aconselhando o marido na prefeitura de Río Gallegos, no governo de Santa Cruz e, por fim, na presidência. Nunca se saberá definitivamente se a candidatura que tornou CFK chefe do Estado argentino ocorreu porque assim ela o quis, porque seu marido a empurrou ou porque a epifania do salto para o poder iluminou os dois simultaneamente.

Casaram-se no dia 9 de maio de 1975, depois de um namoro fulminante de seis meses. A Argentina era governada então pelos delírios ocultistas de José López Rega, à sombra de quem a inepta viúva Isabel Perón esvoaçava com sua respiração de passarinho. A Triple A, Aliança Anticomunista Argentina, força de terror parapolicial organizada por López Rega para varrer os esquerdistas do país, deixava todo dia cadáveres espalhados pelas ruas. “Uma geração inteira estava sendo eliminada de minha cidade”, diria a Cristina da maturidade. “Eu amava essa cidade, mas só via tragédias. Tudo para mim era insuportável. Havia muita umidade, e até a umidade matava.”

O casal foi viver em outro subúrbio de La Plata, City Bell. Embora a realidade se movesse num ritmo vertiginoso, eles deram um jeito de se manter numa bolha de calma. A mãe de Cristina, funcionária pública, conseguiu um emprego para Néstor no ministério de Economia da província. Depois do feroz golpe militar de 1976, foi Cristina que insistiu para se afastarem. Falou com o marido. Disse-lhe que o melhor destino para os dois era Río Gallegos, na Patagônia, onde ele havia nascido e onde estavam seus amigos. Mas ainda não tinham se formado em direito e Néstor resistia em partir sem o diploma. “Vou precisar dele quando for governador de Santa Cruz”, disse. Esperaram até julho de 1976. O país que deixavam para trás já estava em chamas.

Seguiram-se anos de calma, que os Kirchner encarariam como anos de preparação para o comando. Em fevereiro de 1977 nasceu Máximo, o filho mais velho. A repressão militar – que fez estragos em quase todas as latitudes da Argentina – mal foi notada em Santa Cruz. Na cidade, os vizinhos que falam de “Lupín” como se ele ainda estivesse na adolescência (Néstor é chamado de “Lupín” por causa de um personagem de história em quadrinhos que tem esse nome: um aviador estrábico e de nariz aquilino) lembram que quase não se viam militares pelas ruas e que pouquíssimas pessoas foram presas. Kirchner começou a fazer fortuna quando o empresário mais poderoso da cidade o encarregou de cobrar dívidas difíceis. Ele abriu um escritório de advocacia e conseguiu clientes de relevo. Cristina se ocupava da casa, da cozinha, da limpeza e da ordem. Sabia que devia esperar. Em 1978, o casal estava tão bem que comprou 22 das 24 propriedades que Kirchner declararia quando assumiu a presidência.

Com o retorno da democracia, Néstor foi nomeado presidente da Caixa de Previdência Social, um cargo parecido com o que dera fama política a Juan Domingo Perón, quatro décadas antes. E, como Perón, Kirchner usou o cargo para construir o poder. Abriu filiais da Caixa em toda a província e pôs à frente delas correligionários que ajudavam aposentados e doentes. Quando o governador se deu conta de que estava nascendo um monstro, pediu que Kirchner renunciasse. Ele permanecera sete meses no cargo, tempo suficiente para criar uma estrutura que lhe permitiria, em 1987, ser prefeito de Río Gallegos.

Não foi uma vitória fácil. Ele a conseguiu convencendo os eleitores um a um, visitando casa por casa. O ponto de partida político de Cristina encontra-se aí, nessa campanha de província, iniciada quase sem esperanças. Seguia o marido por todo lado, falava nas reuniões do peronismo e, certa vez, diante dos gritos destemperados de mulheres que não lhe reconheciam papel algum, ficou em pé em cima de uma mesa e continuou falando, desesperada. Tiraram-na dali puxando-a pelos cabelos. Ela e Néstor se amavam, mas amavam ainda mais a idéia de, juntos, irem longe. Em 1989, o marido a forçou – ou quase isso – a se apresentar como candidata a deputada provincial, pouco antes que ele mesmo postulasse o cargo de governador.

“Eu não queria ser candidata”, ela disse anos depois. “Levaram-me aos empurrões. Não gostava que pensassem que aspirava ao cargo porque meu marido era prefeito. Os amigos me diziam que essa idéia não passaria pela cabeça de ninguém, pois eu sempre havia militado muito, junto com ele. E tinham razão. Sempre me distingui, e todo mundo sabe que ocupo os lugares que ocupo por mim mesma e não por ser a esposa de.” O que se seguiu foi uma série de triunfos difíceis. Os assessores de Néstor – e ele mesmo – queriam atribuir-lhe candidaturas ou funções que não a convenciam, e ela jamais cedeu. Sempre esteve onde quis estar.

Foi deputada da província de Santa Cruz, em 1989, dois anos antes de Kirchner eleger-se governador. Fez campanha indo de um lado a outro do imenso território, que tem quase duas vezes a superfície da Alemanha e é 400 vezes menos povoado. Na Câmara provincial, seus discursos brilhantes e seu carisma – tão mais luminosos que os de Néstor – ajudaram o marido a ir se livrando dos adversários regionais. Cinco anos antes, em 1984, ela sofrera uma dor terrível, talvez a maior de sua vida. Estava grávida de seis meses e perdeu o bebê. Saiu dilacerada de sua curta internação – dois dias –, com uma tristeza que não desejaria nem para o pior inimigo. Seis anos depois, teve um parto feliz. Sua filha Florencia nasceu sem problemas. Agora ela vive com os pais, na residência presidencial de Olivos, enquanto Máximo, depois de abandonar os estudos, de jornalismo primeiro e de direito mais tarde, ficou em Río Gallegos, administrando os negócios familiares. Cristina gostaria de um destino mais ambicioso para ele, mas aprendeu que nem tudo na vida corresponde aos seus desejos.

Suas convicções se deslocaram no compasso de suas necessidades políticas. Há apenas umas poucas idéias das quais nunca abjurou. Acredita firmemente, por exemplo, que as mulheres são igualmente ou mais bem dotadas que os homens para governar; tem convicção de que as matanças e os tormentos da ditadura militar não merecem perdão, e que a defesa dos direitos humanos é uma política legítima do Estado. Mas, inversamente, sua defesa das instituições republicanas não se move em linha reta. Opôs-se com toda a força de sua dialética às tentativas feitas pelo ex-presidente Carlos Menem de ser eleito para um terceiro mandato por meio de decretos de necessidade e urgência – não vigiados pelo Congresso – com os quais ele impôs sua vontade durante os dez anos corruptos de seu mandato. Reagiu da mesma forma à ampliação da Suprema Corte de Justiça de cinco para nove membros que lhe permitiram contar com uma maioria submissa.

Com a mesma firmeza, porém, defendeu que o Superior Tribunal de Justiça de Santa Cruz passasse de três a cinco membros, e que seu marido fosse eleito governador três vezes, depois de modificar a Constituição da província em benefício próprio. Se, em 2003, não tivesse sido eleito presidente, é bem provável que Kirchner ainda estivesse no cargo, porque já havia conseguido que se aprovasse uma cláusula de reeleição indefinida. Isso explica, em parte, a ardorosa defesa que Cristina faz do governo de Hugo Chávez. Supõe, de boa-fé, que o caudilho venezuelano está calando todas as vozes da oposição porque, do contrário, não poderia aprofundar uma revolução – ou que nome tenha – que quer melhores condições de saúde e educação para todos. Também não gosta do jornalismo dissidente. Aceitava entrevistas sem reticências quando precisava criar uma imagem pública de mulher corajosa e enérgica. Agora, que já a tem, só as aceita quando viaja e quando os jornalistas não são argentinos.

Desde que chegou ao Senado como representante de Santa Cruz, em 1995, sua vida foi um turbilhão. Em 1997, de comum acordo com o marido, conformou-se com uma cadeira na Câmara dos Deputados. Mas, quando Néstor Kirchner precisou dela para esmagar de vez a estrutura de poder tecida na província de Buenos Aires pelo ex-presidente Eduardo Duhalde, Cristina facilitou o seu caminho. Em 2005, apresentou de novo sua candidatura ao Senado, enfrentou e liquidou “Chiche” González, esposa de Duhalde.

Meses antes das eleições, ela já exibia a certeza de que conquistaria a presidência. As sondagens – que lhe atribuíam 40% dos votos, mais que a soma de seus três rivais imediatos – lhe davam razão. Parou de percorrer a Argentina e se mostrou pelo mundo com uma exuberância tal que até o The New York Times considerou excessiva. Por que vai tão longe e tantas vezes?, inquietavam-se os opositores, que mais de uma vez desencavaram as contas de suas viagens e o que custavam ao país. A resposta é simples. Ela quer ter a imagem de estadista que seu marido só teve pela metade. Compelida a ampliar o horizonte de seu poder, supõe que as lições do mundo possam lhe ensinar a cultura e as habilidades diplomáticas que não conseguiu ter em vinte anos.

Seus rivais na disputa eleitoral eram fracos e estavam divididos. Os mais temíveis não quiseram se mostrar. Preferiram continuar nas sombras até a vitória de Cristina. Assim que se passarem os primeiros seis meses de seu governo – meses de tolerância e trégua, sendo que a metade deles o verão levará –, investirão contra ela. Liderando esse xadrez de destruições está o casal Eduardo Duhalde e “Chiche” González. Ela ainda sangra por causa da ferida da eleição que perdeu em 2005. Cristina conquistou a vaga de senadora por uma província que “Chiche” considera seu feudo pessoal, e vê sua inimiga como uma oportunista. Duhalde, por sua vez, continua acreditando que Kirchner lhe deve a presidência – o que em 2003 era verdade, porque foi Kirchner que lhe solicitou – e não fez nada para pagá-la. Duhalde já disse que seu compromisso de não se intrometer na política expira este ano. É quase uma declaração de guerra.

Os outros inimigos potenciais são os instáveis, voláteis caudilhos das cidades que se abrem em torno de Buenos Aires – o que se conhece como o conurbano. A conveniência e os benefícios do poder central os levaram a abandonar Menem primeiro, Duhalde depois, e a cerrar fileiras atrás de Kirchner. A maioria, contudo, tem uma antipatia visceral por Cristina. Não a perdoam por seus arroubos de intolerância, sua tendência à confrontação, sua independência política, seu desdém pelas liturgias do peronismo tradicional. Um desses caudilhos contou, indignado, que nunca tinha visto nenhuma foto de Eva Perón pendurada nos gabinetes dela, nem nos de Santa Cruz nem nos do Senado. Com Kirchner, em contrapartida, se sentiam à vontade discutindo situações de poder, lugares nas chapas eleitorais, fatias do orçamento. CFK os deixa nervosos. Parece que ela não entende as sinuosidades das negociações e que prefere mandar, em vez de negociar.

O que a Argentina pode esperar da presidenta Cristina Kirchner? Também cabe perguntar o que se pode esperar de Néstor Kirchner, dando por certo que não aceitará um retiro apagado. Um de seus amigos imagina que poderia se dedicar a fortalecer a Frente pela Vitória, tornando-a independente do velho tronco peronista e angariando adeptos de outros partidos. Para ele, vai ser difícil ficar à margem do poder. Exerce-o há vinte anos. Sabe-se que o ex-presidente não gostou do lema de campanha de sua esposa: “A mudança recém-iniciada”. Aceitou-o quando lhe explicaram que, se lido corretamente, sugeria que CFK ia continuar a transformação iniciada por ele. Seus assessores sabem que, a partir do quarto ano, se acentua o desgaste dos que mandam, e que sua esposa tem uma imagem positiva que lhe permitirá enfrentar os riscos dos erros passados.

Kirchner deixou atrás de si inúmeros problemas sem solução. Os dois maiores são quase endêmicos: as deficiências nas áreas de saúde e educação. Ambas são filhas da pobreza que atinge pelo menos metade dos argentinos – embora as estimativas oficiais digam outra coisa – e, ao mesmo tempo, são caldo de cultura para uma pobreza maior. Os salários dos médicos e professores continuam a ser vergonhosos, e nas províncias há professores que ganham mais se dedicando a trabalhos domésticos. A corrupção e as décadas de autoritarismo geram estragos que levam tempo para serem percebidos.

Néstor Kirchner foi favorecido por uma taxa de crescimento sustentada, mas os recursos para aumentar a capacidade produtiva estão se esgotando, e os investidores estrangeiros olham para outros lados. CFK poderá enfrentar problemas sérios. A inflação, o déficit de energia, os distúrbios de rua: tudo o que até agora foi encoberto pelos discursos ameaça sair dos trilhos na vida real. Os sindicatos apoiaram Kirchner, mas podem se sublevar contra sua esposa. Vivem atrás de maior participação no exercício do poder, e isso é a única coisa que Cristina não pode lhes dar. Se desse, se transformaria numa prisioneira de apetites insaciáveis.

Assim como o marido, Cristina não tolera o dissenso, foge dele, e isso pode deixá-la desconfiada com os que, em vez de obedecer às cegas ou repetir ordens, não pensam igual a ela. Os governantes argentinos mantêm há mais de meio século uma relação de rejeição mútua com os intelectuais. O poder desconfia da liberdade e da desenvoltura para pensar e informar, que é a razão de ser dos intelectuais, e os intelectuais desconfiam das exigências autoritárias do poder, que raramente tolera a crítica ou a denúncia.

Kirchner nunca aceitou uma coletiva de imprensa em seus quatro anos de governo. Cristina poderá prosseguir com esse costume. No Senado, desqualificava os opositores, incomodando-os com frases em voz baixa enquanto falavam e dando-lhes as costas, desafiadora. “Isto que ele diz é uma vergonha, é inacreditável, uma barbaridade”, ouvia-se Cristina murmurar diante dos argumentos de seus rivais. Se alguém exigia que a mandassem se calar, respondia com gestos e expressões de desprezo. É difícil imaginá-la aceitando observações de jornalistas que ela só concebe como recebendo ordens. Suas duas últimas escorregadelas aconteceram em Nova York, no dia 26 de setembro, durante a última etapa de seu giro internacional. Naquela manhã, o solícito consulado organizou para ela um encontro com cientistas argentinos residentes nos Estados Unidos. Convidou meia centena deles, que vieram da Califórnia, de Chicago, Boston, do Meio-Oeste. Quando os jornalistas que acompanhavam a viajante quiseram assistir ao encontro, as portas do consulado foram fechadas. Só entraram o representante da agência oficial de notícias e os fotógrafos. A dificuldade de CFK para ouvir opiniões discordantes tornou-se mais notável no dia seguinte, quando almoçou no Council of the Americas com empresários que pagaram 400 dólares pela refeição. Na hora das perguntas, soube-se que decidira responder só a quatro, escolhidas por ela.

Cristina tem a língua solta e teme desfazer com uma frase o perfil de mulher segura que levou anos para construir. Como a pergunta mais freqüente – e para ela a mais intolerável – diz respeito à sua vida íntima com o marido, às vezes deixa escapar respostas que não quer. Certa vez, quando um jornalista gozador quis saber se o ex-presidente continuaria as relações carnais com os Estados Unidos, das quais tinha se vangloriado o chanceler de Carlos Menem, ela respondeu com ousadia: “Kirchner só teve e terá relações carnais comigo”.

Nenhum dos dois duvida de que, tanto quanto o amor, une-os um projeto comum e uma vontade também comum de acumular um poder excludente, que por vezes beira a paranóia. A paranóia leva-os a ver inimigos que não há e a se defender contra conspirações que não existem. Confiam cegamente apenas um no outro, e a Argentina treme diante do risco de uma sucessão conjugal infinita.

Há poucos meses, um funcionário bastante próximo de CFK opinou, em privado, que a única pessoa a quem Kirchner poderia delegar o poder era a sua esposa de tantos anos. “Depois que ela cumprir quatro anos de bom governo”, disse ele, “o presidente voltará para outros quatro, muito mais forte que agora. Cristina, então, se retiraria. Voltaria ao Senado e entraria na história.” Esse é um cálculo fácil demais, retruquei. E se o governo da esposa fosse tão bom que houvesse consenso para reelegê-la? Quer dizer, então, que Kirchner ficaria desempregado? “Isso é algo em que não se pensa”, respondeu. “Os dois já decidiram como serão as coisas. Nada os fará mudar.”

Tomás Eloy Martínez

Tomás Eloy Martínez, escritor e jornalista argentino, escreveu Santa Evita (Companhia das Letras) e O Vôo da Rainha (Objetiva).

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