despedida

A primeira escalada os outros não esquecem

Como transformar uma montanha em parque de diversões

Marcos Sá Corrêa
FOTOMONTAGEM BETO NEJME_ALFRED GREGORY © ROYAL GEOGRAPHICAL SOCIETY

Nos obituários, os 88 anos de Sir Edmund Percival Hillary pareceram duas vidas. Na primeira, Hillary subiu aos 33 anos o Everest, numa excruciante arrancada final de cinco horas que, na manhã de 29 de maio de 1953, levou-o a 8 848 metros de altitude. Eram 90 metros a mais do que o último ponto alcançado na montanha por escaladores, dois dias antes. Encordoados, ele e o sherpa nepalês Tenzing Norgay não poderiam estar a mais de 10 metros um do outro. Mas Hillary entrou na história como o primeiro.

Na segunda vida, a mais longa, ele conquistou os nepaleses, que o atazanaram na volta do Everest como usurpador de um triunfo que, para os moradores do Himalaia, caberia a Tenzing. Mas, 58 anos depois, os templos do Nepal queimaram incenso pela memória de Burra Sahib, o “grande homem”, que usou a celebridade instantânea da escalada para construir no Himalaia 26 escolas, dois hospitais, doze enfermarias, dois campos de pouso e o parque nacional de Sagarmatha, sem contar a restauração do mosteiro de Thyangboche, arrasado por um incêndio.

Se Tenzing perdeu alguma coisa na parceria, seu povo saiu lucrando. Hillary também. Como herói humanitário, sobreviveu à banalização do Everest, transformado em supremo playground dos esportes radicais. Já a montanha ganhou pouco com a conquista. No máximo, uma interminável coleção de primeiras vezes. De Jim Whittaker, o primeiro americano, Junko Tabei, a primeira mulher, e Reinhold Messner, o primeiro a subir sem máscara de oxigênio, a Erik Weihenmayer, o primeiro cego, Takao Arayama, o primeiro septuagenário, ou Mark Joseph Inglis, o primeiro a chegar no cume com duas pernas mecânicas. Houve primeiras vezes com esquis, snowboard e parapente. Ao todo, cerca de 3 500 pessoas pisaram no cume depois de Hillary, que inventou sem querer o montanhismo como espetáculo. Hoje, expedições comerciais prometem botar qualquer um lá no alto por meros 60 mil dólares. Mais de 200 pessoas morreram nesse meio século de corrida ao Everest. E 120 corpos permanecem nas encostas, congelados.

Nem a família Hillary escapou de emplacar novo recorde. Edmund e seu filho Peter formaram a primeira dupla de pai e filho no topo do mundo. Pior. Seis anos atrás, já octogenário, o explorador se viu no papel de receber um telefonema de Peter seguido de um patético “Papai, estou aqui”, dito a uma câmera que filmava o cinqüentenário da conquista. Sinal dos tempos, Peter transformou o montanhismo em negócio rentável. Desenha equipamentos de montanha. Dá palestras “motivacionais”, do tipo “sejam seus próprios Everests”. E, não faz muito tempo, queixou-se dos turistas que agora zanzam com seus celulares pela cordilheira. Nem parece o Everest de onde o repórter James Morris precisou correr trilha abaixo, de um acampamento a 6 mil metros de altitude, para transmitir ao Times de Londres a notícia de que Hillary chegara ao pico. A reportagem levou quatro dias para chegar à Inglaterra, em tempo para a coroação de Elizabeth II. A Inglaterra acabara de perder a Índia. Mas, pelo fôlego do neozelandês, que foi nomeado imediatamente pela rainha Cavaleiro da Ordem do Império Britânico, uma expedição inglesa deixava a marca definitiva da era das explorações na montanha que tem o nome de George Everest, o primeiro europeu a se espantar com seu tamanho, quando governador do Raj, em 1865.



Hillary sequer foi receber o título pessoalmente. Quanto mais as coisas mudavam ao seu redor, mais ele fazia força para provar ao mundo que continuava o mesmo. O repórter James Morris, que uma cirurgia de mudança de sexo transformaria duas décadas mais tarde na escritora Jan Morris, escreveu sobre sua morte no jornal The Guardian, lembrando a entrevista que Hillary lhe deu, no acampamento, horas depois de vencer o Everest: “Ele me relatou a história como se tivesse subido uma montanha qualquer”.

Começava ali a se esboçar, na própria estréia do explorador como figura pública, sua encarnação favorita como “Ed, o Apicultor”, um exemplo estudado de modéstia citado obsequiosamente nos elogios póstumos que rodaram o mundo. Era um criador de abelhas arredio a honrarias, temperado pelo trabalho na fazendola do pai, no interior da Nova Zelândia, às voltas com 1 600 caixas de 40 quilos carregadas de mel. Sua efígie está em uma nota comemorativa de 5 dólares neozelandeses, cotada desde janeiro a 555 dólares americanos. Inspirado pelo Everest, escreveu 16 livros, todos mais ou menos autobiográficos. Gastou parte de sua notoriedade com lendas como a do Abominável Homem das Neves, alvo de uma expedição de busca que comandou no Himalaia em 1960. Foi ao Pólo Sul montado num trator de esteira, ultrapassando sem aviso prévio a equipe que integrava. Subiu o rio Ganges sob o patrocínio da Sears Roebuck, como consultor para artigos esportivos da loja de departamentos.

 

O decoro genuíno veio com o tempo. Maduro, nos anos 90, foi buscar no Castelo de Windsor a Ordem da Jarreteira, esperando na fila com a ministra Margaret Thatcher. Passou a bater cada vez mais forte na vulgarização do Everest, onde a safra 2006 de expedições comerciais entrou nos anais da patologia esportiva, com 16 mortes na temporada – inclusive a do paulista Vitor Negrete. Hillary tachou de “horripilante” o comportamento dos guias que naquele ano passaram sem parar por um alpinista agonizante. Acabou denunciando “o colapso moral do alpinismo”.

Desde 1953, Hillary voltou ao Nepal pelo menos 120 vezes. A última visita foi em 2007. Não parou nem ao perder em 1975 sua primeira mulher, Louise, e uma filha, Belinda, que viajaram a seu encontro em um avião que se espatifou no Himalaia. Levava para a região, a cada visita, em média 200 mil dólares, arrecadados de doadores nas palestras que fazia pela Sir Edmund Hillary Himalayan Foundation. Reflorestou os sopés da montanha. E fez campanha para remover as toneladas de lixo deixadas nas vertentes da cordilheira. Tornou-se um amador estrito, alérgico aos negócios que a seu ver tornavam a aventura “uma coisa chata”.

Metido em polêmicas mais importantes, foi deixando para trás a pergunta que não o largava no início da carreira: quem chegou lá em cima antes, ele ou Tenzing? A foto da conquista mostra o sherpa sozinho no topo. “Ele não sabia usar a câmera, e ali não era o lugar certo para lhe ensinar fotografia”, explicava Hillary. Ele esperou pela morte do amigo, em 1986, para publicar sua versão num livro de memórias: “Eu vinha na frente, cavando os degraus ladeira acima. De repente, me vi numa área de neve sem nada, a não ser espaço por todos os lados”. Não há dúvida de que alguma coisa um devia ao outro. Dias antes, Tenzing salvara-o de mergulhar numa greta no gelo, ancorando com o piquete a corda que os mantinha atados. E Hillary, no ataque decisivo à montanha, achou a passagem entre a rocha e o gelo, nos 12 metros de parede abrupta que os separavam do cume. A conta só fecha quando, juntos, eles abriram alas para que os sherpas deixassem de ser apenas carregadores de tralha alheia. Foi seguindo seus passos que, no ano passado, Apa Sherpa esteve no alto do Everest pela 17ª vez.

Marcos Sá Corrêa

Marcos Sá Corrêa é jornalista. Foi editor de piauí entre 2006 e 2011.

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