chegada

À procura de pedras perdidas

Bagé é um pouco mais perto que a Lua

Dorrit Harazim
Amostras recolhidas na Lua pelos astronautas da Apolo 11 e Apollo 17 foram presenteadas mundo afora. Hoje valem um bom dinheirinho, o que explica o paradeiro incerto de muitas delas
Amostras recolhidas na Lua pelos astronautas da Apolo 11 e Apollo 17 foram presenteadas mundo afora. Hoje valem um bom dinheirinho, o que explica o paradeiro incerto de muitas delas FOTO CEDIDA PELA NASA_1969

A célebre frase viria a calhar ainda hoje, passados 41 anos: “Houston, we’ve had a problem” Só que hoje o problema não está no espaço, nem é defeito mecânico ou elétrico, como o alerta dado pelo astronauta John Swigert de dentro da Apollo 13. O defeito é em terra mesmo e não tem conserto – está na vigarice humana.

Um abnegado ex-agente especial da Nasa chamado Joseph Gutheinz, hoje professor de técnicas de investigação na Universidade de Phoenix, Arizona, há décadas vem denunciando o sumiço de mais da metade das pedras trazidas da Lua por astronautas dos Estados Unidos e presenteadas a governadores americanos ou a chefes de Estado estrangeiros.

A partir de 2002, ele arregimentou dezenas de alunos para investigar o paradeiro dos recuerdos trazidos pelas naves Apollo 11 (a primeira missão tripulada à Lua, de 1969) e Apollo 17 (a última, de 1972).  Em nove anos, a tropa de caçadores de pedras lunares já localizou 77 das que estavam desaparecidas mundo afora. Ainda assim, o saldo é esquálido: dos 193 fragmentos distribuídos após o retorno da missão inaugural, apenas 42 têm paradeiro certo. E dos 185 trazidos pela missão de despedida, 61 têm endereço fixo e regulamentar.

No mês passado, houve o que festejar. Um dedicado arquivista de Little Rock, que revirava caixas de documentos e memorabilia de Bill Clinton como governador de Arkansas, deu de cara com uma das amostras, sumida há mais de 35 anos. Ela fora presenteada ao então governador David Pryor pelo presidente Gerald Ford, em 1976. E, agora em outubro, o Centro de Pesquisas da Natureza de Raleigh, capital da Carolina do Norte, deverá expor pela primeira vez a pedra pertencente ao Estado. O fragmento morou décadas, esquecido, numa gaveta do Departamento do Comércio local. E mesmo depois de localizado ainda viveu longos anos longe do público, sob custódia de um professor universitário.

No momento, a pedra que mais agita os guardiães lunáticos é a do Alasca, oferecida pelo presidente Richard Nixon ao governador em 1969. Transferida para Anchorage, para ser exposta no Museu dos Transportes, ela foi dada como perdida num incêndio que destruiu o prédio por completo, em 1973. Na época, pesquisadores e museólogos vasculharam o local interditado para recuperar o que era salvável, mas encerradas as buscas os escombros restantes foram declarados lixo.

Arthur Anderson, então um garoto de 17 anos e enteado do curador do museu incendiado, sustenta ter se juntado às equipes de remoção dos destroços para ver se encontrava algo interessante. Achou “bacana”, como disse, uma placa coberta de materiais fundidos e a levou para casa. Ao restaurar a peça, teria descoberto pela placa tratar-se de um pedaço da Lua.

Na época, não teria atribuído nenhum valor material à descoberta por imaginar que a Lua se tornaria rapidamente um popular destino de excursões em massa. Agora com 55 anos de idade, e a Lua com o acesso a humanos interrompido, Anderson achou oportuno exigir na Justiça o direito de ser declarado proprietário legítimo e único da peça. Caso não ganhe o processo, quer pelo menos receber uma compensação financeira pela entrega da pedra ao Estado.

Não há cotação em Bolsa para fragmentos lunares. “São tão poucos que não é possível estabelecer um preço de mercado”, sustenta o americano Robert Pearlman, fundador do site CollectSpace. Mas há sugestões de interesse. Um conjunto de quatro pequenas amostras presenteadas ao governo de Honduras, por exemplo, foi vendido em 1995, contrabandeado para os Estados Unidos, negociado por 5 milhões de dólares e resgatado graças à ação de agentes federais.

Confiscado em 1998, o kit foi devolvido a Honduras e hoje pode ser visto num centro educativo de Tegucigalpa. Seu valor, estimado pelo professor Gutheinz no ano passado, poderia chegar a 10 milhões de dólares.

Não chega a ser surpreendente, portanto, que o exemplar oferecido à Romênia, nos anos 70, não tenha saído das mãos do ditador Nicolae Ceausescu até sua deposição e execução, em 1989. Leiloada junto com outros mimos do tirano, a pedra de bandeira romena continua sumida.

 

Que não se imagine, porém, que o destino de cada pedra lunar espalhada pelo mundo poderia ser previsto por um Herculano Quintanilha qualquer. Os fragmentos oferecidos aos governos de Ruanda e Iugoslávia, por exemplo, tiveram trajetória de Primeiro Mundo: um continua no Museu de História Natural, em Kigali, o outro no Museu de História Iugoslava, em Belgrado. Já na Espanha, a peça só conseguiu chegar ao Museu Naval de Madri após ser recuperada de mãos privadas, em 2007.

Vários governadores dos Estados Unidos também garfaram as amostras que receberam. John Vanderhoof, que em 1974 chefiava o Executivo do Colorado, mantinha a raridade na parede da sala – até os universitários da equipe de Gutheinz baterem à sua porta. Aos 89 anos, não achou imprópria a privatização.

É bem verdade que a própria carta assinada por Richard Nixon em 1969 e anexada às pedras distribuídas aos chefes de Estado continha uma mentirinha. “Esta bandeira do seu país foi levada até a Lua e trazida de volta pela Apollo 11, e este fragmento da superfície lunar foi recolhido pela equipe que primeiro pisou ali.” Para todos os efeitos, portanto, as próprias bandeiras faziam parte da epopeia. Só que uma delas, a da Venezuela, não fez a viagem espacial apesar de compor o kit lunar entregue a Caracas. Coisas do “Tricky Dick”. As pedras, contudo, são autênticas.

Em 1972, nova fornada. Três meses após o retorno à Terra da última missão Apollo, Nixon atendeu ao pedido feito pelos astronautas Eugene Cernan e Harrison Schmitt de compartilhar com o mundo mais uma rocha. Desta vez uma recolhida no vale lunar de Taurus-Littrow. A imensa amostra, batizada de 70017, foi fragmentada e cada uma das peças resultantes recebeu acondicionamento num protetor de acrílico. Depois foi montada numa placa de madeira contendo, novamente, a bandeira de um país recipiente.

Coube ao general Emílio Garrastazu Médici ser o receptor de uma dessas, por ocupar na ocasião o cargo de 28º presidente do Brasil. Filho de Bagé, Médici homenageou o berço natal exilando a peça no Museu Dom Diogo de Souza, fundado em 1955 na garbosa cidade gaúcha. A doação foi feita sem fanfarra ou cerimônia, quase na clandestinidade, considerando-se a dimensão da entrega. Devido ao prolongado sumiço do artefato das vistas públicas – foi exposto pela primeira vez em 1997 –, o site CollectSpace acreditou que ele tivesse sido colocado à venda. “Houve esse boato nos anos 90”, confirmou Carmem Barros, assessora de imprensa do Dom Diogo de Souza.

O brasileiro que quiser ver um pedaço da Lua sem sair do país poderá fazê-lo em março do próximo ano. Só então o artefato terá direito a exposição na Sala Médici do museu de Bagé. A cidade de menos de 120 mil habitantes não fica exatamente no roteiro do turismo nacional. Mas ainda assim é um pouco mais próxima do que a Lua.

Dorrit Harazim

Dorrit Harazim é jornalista. Foi editora de piauí de 2006 a 2012

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