poesia_Nicolas Behr

À procura de uma cidade

Nicolas Behr
ILUSTRAÇÃO: OSCAR NIEMEYER_FUNDAÇÃO OSCAR NIEMEYER

não tente

gostar de brasília

tão rápido assim

blocos de verdade

sobrevoam

superquadras

imaginárias

superquadras

à procura

de uma cidade

*

anunciaram a utopia

mas foi brasília

que apareceu

*

o que mais

te fascina

em brasília?

a cidade ou o poder?

o céu

*

da próxima vez

que eu for

a brasília

não vou trazer

uma flor

do cerrado

pra você

vou depositá-la

no túmulo

do candango

desconhecido

*

o que não falei

sobre brasília

o tempo dirá por mim

*

todos os erros

de brasília

são meus

tolerar

outras brasílias

e explodir apenas

a cidade

onde a palavra

mágica é tabu

abracadabraxília

quero a dor

dessa cidade

pra mim

*

os candangos

foram então obrigados a morar

fora da cidade fortificada

já os brasilienses migraram

para a capital logo depois

encontrando a cidade pronta

mesmo após brasília

continuaremos desejando

viver em sociedade?

*

os candangos

pegavam na vida

sem luvas

a vida é um fio desencapado caído na rua

em noite de chuva

*

o traço do arquiteto

é superfície

pele, poste, poeta e papel

são superfícies

o subsolo da catedral

é superfície

o bloco soterrado, superfície

a solidão

da superquadra é superfície

onde nascem as raízes

é superfície

o céu de brasília,

superfície

o lago paranoá

mesmo seco é superfície

brasília é minha pele

ao avesso

profunda superfície

*

não descer do bloco

para não te cumprimentar

subir pelas escadas

pois você está no elevador

sair pela garagem

para não te ver no térreo

não levar o cachorro

pra passear

porque seu vizinho

também levou

ficar no apartamento

para não te encontrar

na padaria

*

cidade-fora-da-órbita

cidade-fora-da-cidade

cidade-fora-da-lei

muro invisível

espaço intransponível

*

já é brasília?

não

apenas

a sensação

Nicolas Behr

Nicolas Behr, poeta mato-grossense, é autor de Brasilíada, da editora Língua Geral.

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