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A redenção dos cinco

Um filme sobre os rapazes presos por um estupro que não cometeram

Tania Menai
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

Na noite de 16 de abril, a hashtag #CP5 ocupou o primeiro lugar entre os marcadores de assunto mais usados no Twitter nos Estados Unidos. Referia-se a The Central Park Five [Os Cinco do Central Park], documentário que estreava na PBS, a tevê pública americana. Dirigido pelo cineasta Ken Burns, sua filha Sarah Burns e o marido dela, David McMahon, o filme conta a história de cinco rapazes presos por um crime que não cometeram.

As cenas remeteram os telespectadores para a Nova York dos anos 80, imersa numa epidemia de crack e assombrada por gangues. Na madrugada de 19 de abril de 1989, uma loira de 28 anos foi achada inconsciente entre arbustos do Central Park. Vestia nada além de um sutiã de ginástica. Perdera 75% do sangue do corpo. Tinha duas fraturas cranianas, hipotermia e restos de sêmen no corpo. Desfigurada, só pôde ser reconhecida por um anel. Soube-se depois que a jovem trabalhava no mercado financeiro. “A corredora do Central Park”, como ficou conhecida, sobreviveu. Quando recobrou a consciência, duas semanas depois, não se lembrava de nada.

Na mesma madrugada, véspera de um feriado escolar, dezenas de adolescentes negros e latinos do East Harlem, bairro de baixa renda que beira o Central Park, passaram algumas horas no parque fazendo baderna. Apedrejavam ciclistas, batiam em corredores e roubavam comida de mendigos. Cinco deles, com idade entre 14 e 16 anos, foram detidos. Quando estavam prestes a ser liberados, um detetive mandou retê-los. A corredora tinha sido encontrada nas imediações dos incidentes.

Kevin Richardson, Yusef Salaam, Raymond Santana, Antron McCray e Korey Wise foram interrogados separadamente por quase trinta horas, sem direito a comer, beber ou dormir. Os adultos lhes disseram que, se colaborassem, poderiam ir para casa. Exaustos, confessaram o crime. O documentário mostra trechos do interrogatório, filmados quando os meninos já estavam grogues, respondendo com balbuciantes “sim” e “não” às perguntas dos investigadores. Nenhum deles soube descrever a vítima ou dizer onde havia sido o estupro.



Em 1990, foram julgados e encarcerados por sete anos – Wise, que já tinha 16 anos, pegou pena de adulto. Os jornais os trataram por termos como “matilha de lobos”. O neologismo wilding, derivado do adjetivo wild (selvagem), foi usado depois do caso para designar atos de violência grupal. O bilionário Donald Trump pagou anúncios de página inteira em quatro jornais pedindo a volta da pena de morte no estado de Nova York.

 

O ex-prefeito Ed Koch, morto em fevereiro, lamentou que o crime tivesse ocorrido num ponto turístico de Nova York. “Em qualquer outro lugar teria sido ruim”, disse ele no documentário. “Mas no Central Park foi pior. Foi o crime do século.” Que a vítima fosse branca e os supostos estupradores negros e mulatos só fez reavivar a tensão racial latente na cidade.

Numa palestra na sede do New York Times, no dia seguinte à estreia do filme na tevê, Ken Burns situou na escravidão a raiz do mal-estar. “Essa história soa contemporânea, mas é tão antiga quanto os Estados Unidos”, disse o documentarista, que já fez filmes sobre o jazz e a Guerra Civil Americana.

Análises mostraram que o cabelo e sêmen encontrados no corpo da vítima pertenciam a um só homem. O teste de DNA deu negativo para os cinco detidos. Ainda assim, a Justiça os manteve presos, supondo que houvesse um sexto criminoso em liberdade. Ninguém se lembrou de associar o episódio a uma série de estupros que aterrorizava o norte de Manhattan na época – investigados pelos mesmos detetives encarregados do caso da corredora.

Ainda em 1989, Matias Reyes, autor da série de estupros, foi preso. Não ocorreu à polícia comparar seu DNA com o material biológico encontrado no corpo da corredora. Em 2002, treze anos depois, Reyes confessou o crime. Agira sozinho. Só então Wise, que ainda estava preso, foi solto. No ano seguinte, a vítima escreveu um livro e revelou seu nome: Trisha Meili.

 

Sarah Burns tinha seis anos em 1989. Só ouviu falar do caso na faculdade, quando cursou estudos americanos em Yale. Intrigada pela história, mergulhou em bibliotecas e microfilmes em 2003. “Interessei-me pelo contexto do uso da linguagem animal, pelo simbolismo das imagens e pela expressão criminal black man”, disse Sarah à piauí, referindo-se a um termo que associa as minorias raciais ao crime. Ela também queria investigar “as origens do medo de brancos serem estuprados por negros”.

Ao longo de dois anos, ela ganhou a confiança dos cinco homens e relatou a história deles num livro. Em seguida, juntou-se ao pai e ao marido para produzir o documentário. Lançado em Cannes em 2012, o filme já foi exibido mais de 100 vezes em festivais nos Estados Unidos. “O público se aproxima para lhes pedir desculpas”, contou Sarah. “Dividir suas histórias tem sido um processo difícil para eles, mas também terapêutico.”

Quando recuperaram a liberdade, os cinco do Central Park tinham sintomas de estresse pós-traumático. Um deles mudou de nome e cidade para recomeçar a vida. Em 2003, processaram a cidade de Nova York, os policiais e os promotores envolvidos. O caso ainda está aberto.

Na palestra após a exibição do filme na tevê, os cinco estavam presentes ao lado dos diretores. Kevin Richardson estava emocionado. “A Sarah nos deu voz. Somos humanos, temos filhos, temos coração”, disse ele, contendo o choro. Yusef Salaam era o mais articulado. “Até então, nossas vidas foram contadas pelo tribunal, pela imprensa e pelo Donald Trump”, disse, sereno. “Ainda estamos brincando de correr atrás do tempo perdido.”

Tania Menai

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