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A tragédia e o cinema

Assassinato estimula o primeiro filme chinês rodado no Brasil

Adam Sun
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

Em fevereiro de 1999, o estudante chinês Edison Hsueh, 22 anos, morreu afogado durante um trote promovido por colegas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Em julho de 2005, o eletricista mineiro Jean Charles de Menezes, 27 anos, foi assassinado a tiros pela polícia de Londres numa estação de metrô. De cada lado do Atlântico, as comunidades chinesa e brasileira se mobilizaram para pedir justiça. Recentemente, os tribunais deram o veredicto sobre as duas mortes.

Em setembro de 2006, sete anos e meio depois do afogamento de Edison Hsueh – que não sabia nadar e mesmo assim foi jogado na piscina de águas turvas da Faculdade de Medicina da USP, para dela emergir morto – , o Superior Tribunal de Justiça trancou a ação penal contra os réus, Frederico Carlos Jaña Neto, Ari de Azevedo Marques Neto, Guilherme Novita Garcia e Luís Eduardo Passarelli Tirico, alunos presentes ao trote. A explicação do STJ: “Falta de justa causa a embasar a denúncia”.

Em novembro último, dois anos e quatro meses depois do assassinato de Jean Charles, confundido com um terrorista e executado à queima-roupa, a Justiça britânica considerou a polícia londrina culpada pela morte do brasileiro, pois “falhou em sua missão de proteger a população”, condenando a Scotland Yard a pagar uma multa equivalente a 635 mil reais, além de cerca de 1,4 milhão de reais pelas custas do processo. A sentença não trouxe alívio aos familiares e amigos de Jean Charles, que continuam a requerer reparação direta nos tribunais da Inglaterra.

No Brasil, os estudantes da Medicina da USP não receberam qualquer punição e nem 1 centavo de multa foi aplicado à universidade, que nada fez para coibir a prática do trote. A leniência da Justiça brasileira serviu de motivação para que o editor de um jornal em mandarim de São Paulo, Yuan Yiping, tivesse a idéia de transformar em cinema a vida e a morte de Edison Hsueh: “Será o primeiro filme realizado, dirigido e protagonizado por chineses radicados no Brasil”, diz.

Numa calorenta tarde de domingo do mês de dezembro, num centro cultural chinês da rua São Joaquim, na Liberdade, bairro paulistano onde se acha tudo quanto é produto oriental – até picolé de melão -, o cineasta Tony Lee, de 52 anos, comandava a segunda audição para selecionar candidatos ao papel principal do filme. Eles respondiam a um artigo do Jornal Chinês para a América do Sul que buscava “ator masculino, de 20-27 anos, fluente em chinês e português, de 1,70 a 1,78 metro de altura, que não seja nem gordo nem magro”. Havia outros dois papéis importantes a preencher: o da mãe do estudante (“idade de 45 a 55 anos, fluente em mandarim, com alguma noção de português do dia-a-dia, altura entre 1,58 e 1,75 metro, nem gorda nem magra”) e o do pai (os mesmos requisitos da mãe, salvo a altura: “entre 1,68 e 1,78”). Papéis menores também estavam em aberto.

“Já tenho alguns possíveis candidatos, mas a maioria nunca atuou na vida. Vão ter de ensaiar muito”, diz Tony Lee, um chinês nascido em Cingapura e formado pela Academia de Cinema de Pequim, com sete anos de Brasil. Antes de se juntar ao contingente de 200 mil patrícios, passou dez anos no Paraguai, onde deu aulas de inglês, ancorou um jornal numa emissora de TV de taiwaneses e fez documentários sobre turismo.

Atrás da câmara digital Sony, o diretor Tony pedia a um casal de não-atores – os “pais” – que tentasse agir com mais naturalidade. A cena era prosaica e, por isso mesmo, difícil de representar. O marido, sentado, lia um jornal chinês, enquanto a esposa passava uma camiseta amarela; os dois conversavam em mandarim sobre o filho, que havia conseguido entrar na USP. Pouco antes, Ana, de 34 anos, fizera o teste para a diretora da faculdade, e Fanny, de 32, se aventurara como a aluna que vinha pedir autorização para levar adiante o trote. A cena durou pouco mais de três minutos, com diálogos em português. Das duas, apenas Ana tinha alguma experiência em teatro amador. Foram à audição por curiosidade e uma ponta de esperança.

Até o fim da tarde, Tony testou e dirigiu 21 candidatos. Seu trabalho é voluntário. Acredita no filme e quer ajudar Yuan. Sua fonte de renda vem de aulas de dança de salão. Para deleite de qualquer apóstolo da antropofagia cultural, o desterrado de Cingapura, com passagem pelo Paraguai e apenas sete anos de Brasil, ensina samba de gafieira não só a chineses, mas também a brasileiros. “O ritmo quente do samba brasileiro me pegou na alma”, revela.

Sobre o filme, Yuan declara que “é apenas o começo”. Como a sabedoria chinesa tem máximas para toda e qualquer ocasião, invoquem-se as palavras de Laozi, filósofo do século VI a.C.: “Uma jornada de mil milhas inicia-se exatamente debaixo dos pés”. Os testes em vídeo são o pontapé inicial do primeiro projeto cinematográfico a ser produzido por chineses do Brasil, com um olho no mundo. Se os ventos forem a favor, o lançamento ocorrerá em 2009, no décimo aniversário da morte de Edison Hsueh. Quanto à tragédia de Jean Charles de Menezes, o início das filmagens está previsto para maio em Londres, numa produção do cineasta inglês Stephen Frears e com o mineiro Selton Mello no papel do eletricista.

Adam Sun

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