ficção

A travessia de Suez

Um romance mediúnico

Reinaldo Moraes
“Quando eu vivia não teríamos muito o que dizer um ao outro. Eu não batia bem com gente mística. Os crentes me cheiravam a batina suada ou, numa versão orientalista, a peido de arroz integral com broto de bambu marinado no shoyu”
“Quando eu vivia não teríamos muito o que dizer um ao outro. Eu não batia bem com gente mística. Os crentes me cheiravam a batina suada ou, numa versão orientalista, a peido de arroz integral com broto de bambu marinado no shoyu” ILUSTRAÇÃO: PEDRO FRANZ_2013

Quantos anos você tem?

Não precisa dizer. Eu nem ouviria daqui. Poderia saber, sem ouvir, nem ver, mas não quero.

Difícil imaginar o que se passa na sua cabeça agora. Quer dizer, não exatamente difícil, mas me distraio aventando o que se passa na cabeça de um médium mediano ao sacar que sua cachola foi invadida por uma voz insubstancial mas vívida a lhe instilar histórias estrambóticas na massa mole, porosa, dúctil da mente inconsútil, esse organismo tão curioso quanto conservador, em medidas muito diversas de pessoa a pessoa. Há médiuns que ainda não se descobriram enquanto tais e, nesse caso, uma tal invasão deve soprar como um ruído assustador, uma verdadeira assombração, não? Acho, porém, que esse não é seu caso. Como já devo ter-lhe dito, você me parece macaco velho em matéria de mediunidade. Sinto em você, de todo jeito, traços fortes de generosidade e curiosidade – na ordem inversa, talvez. E isso é essencial para mim neste momento: acolhimento, aconchego, por parte de um ser vivente. Sabe quando você quer ver o coração do outro te pegar no colo? Pois é como eu me sinto. Decidi que tinha que me sentir assim. Aqui, quem manda em mim sou eu, não é o inconsciente. Na Terra era a mesma coisa, por causa dos meus atributos divinos, como sei agora. L’inconscient c’est moi, sou o plenipotenciário sanfoneiro do mafuá, é o que eu me dizia e me digo sem precisar me dizer nada. As profundas do meu ser estavam, estão aqui, na ponta da língua.

Mas, voltando a você, que admirável a sua disposição de se comunicar com um espírito que alega ter sido uma encarnação de Deus na Terra. Mais admirável seria se você acreditasse nisso. Acho que vai acabar acreditando. Não tem como não acreditar. Não tem. Grato por me receber, pois. E por acreditar em mim, na realidade do meu não-ser explícito. E, se não acredita 100% agora, há de acreditar mais tarde, acredite.

Dada a sua fabulosa potência mediúnica, que eu posso sentir daqui, como se você estivesse ao meu lado, nesta mesma mesa do Coupole que ocupo agora, penso que nem seria muito arriscado apostar que você vive uma espiritualidade de fundo religioso, como é a regra entre psicógrafos e cógrafas. Sua fé num Regente Divino, seja lá de que religião for, se estou certo, já bastaria para me conferir existência e realidade – na sua mente, pelo menos, o que já não seria pouco. Mesmo equivocada, é sua provável crença terrena num ente superior e divino que gera essa intimidade instantânea entre nós. Quando eu vivia, porém, não teríamos muito o que dizer um ao outro. Eu não batia muito bem com gente mística. Os crentes me cheiravam a batina suada de padre, a incenso de igreja ou, numa versão orientalista, a peido de arroz integral com broto de bambu marinado no shoyu. Mas agora, depois de ter tido, por força das circunstâncias, meu espírito esclarecido à luz redentora desses espaços infinitos que habito, todo tipo de gente, crentes, agnósticos e ateus, vivos ou desencarnados, todos merecem o mesmo respeitoso sentimento de benevolente indiferença da minha parte. A turma evolui aqui, mesmo os broncos mais toscos que por alguma superioridade moral, ainda que não intelectual, mereceram em vida ganhar estas refinadas alturas depois de cruzar o derradeiro umbral desontologizante. (Caraca! Juro que nunca mais vou usar “umbral desontologizante” pela eternidade afora, inda mais para me referir a um fenômeno tão banal quanto a morte.)

Na minha fase terrena, porém, não havia hipótese de algo ou alguém me levar à crença nesse mim-mesmo suprafodão que eu encarnava na mais santa ignorância. Eu era como um cego diante do espelho da minha própria alma. Mesmo se me fosse de alguma forma revelada a soberana substância que me animava, e eu me visse de repente alvejado pelo esclarecedor canhão de luz celestial, com serafins e querubins a esvoaçar à minha volta borrifando perfumes florais do Éden, nem assim eu seria capaz de acreditar numa enormidade dessas. Atribuiria tal euforia epifânica a um qualquer pifão de Steinhäger com cerveja, por exemplo, ou a um mero lampejo de loucura napoleônica, dos que soíam me acometer. Qualquer coisa, portanto, menos admitir a transcendente verdade de que eu era o Príncipe da Glória, o Monarca Supremo, o Arquiteto do Universo, o Rei dos Reis e dos Anjos, o Soberano incontrastável do Céu e da Terra. Isso, jamais.

 

Em outras palavras: nem eu me conhecia direito, afinal, apesar da minha acachapante autoconfiança. Mas quem é que pode jurar se conhecer por completo e em toda a profundidade? Além da fantasmagoria acoitada nos refolhos e grotões da alma humana, pesa ainda o fato de que mudam-se as vontades, muda-se o ser, e o mundo todo é feito de mudança, como no verso do Grão Caolho das lusíadas musas d’antanho. Vai daí que todo autoconhecimento é, na melhor das hipóteses, nada mais que um retrato fugaz, uma simples imagem congelada no passado passageiro.

E já que citei Camões, um dos grandes mestres da língua em que estou a lhe soprar esta parolagem, cito logo outro, o padre Vieira, que eu muito admirava e trazia de cor nos meus tempos encarnados, cada linha de cada sermão, embora nunca tenha lido, muito menos ouvido nenhum deles. Diz o sublime jesuíta no Sermão de Santo Inácio: “O melhor retrato de cada um é aquilo que escreve. O Corpo retrata-se com o pincel, a Alma com a pena.” Todo médium psicógrafo sabe disso pela intuição, acostumado que está a captar retratos verbais provindos do Além. Mesmo assim, nenhum retrato de um ser vivente ou desencarnado será jamais completo e, menos ainda, definitivo. O ser da pessoa, viva ou transubstanciada, é uma lagartixa arisca cruzando na vula o estreito campo de visão da consciência antes de se enfiar por qualquer frincha no rodapé da mente para se perder nas vastidões penumbrosas da inconsciência.

E, no entanto, você topa aí na Terra, o tempo todo, com lagartixas vaidosas declarando com segurança e naturalidade que eu sou assim ou assado, que se fosse eu, em talequale situação, faria tudo diferente, e que reagiria desta maneira, e jamais daqueloutra, e que seria incapaz disso ou daquilo, e assim por diante.

Tudo uns basbaques presunçosos tentando chamar de experiência os tombos e rasteiras e impactos que levam na e da vida, os quais teriam, por supuesto, algum miraculoso efeito autodidático. Quanto a mim, nesse particular, só levei um único tombo na vida, trombada, no caso, a única e definitiva rasteira do destino que eu tomei em seu devido tempo e inevitável lugar.

Por outro lado – se o meu lado, se o seu, você escolhe –, sei lá se, de qualquer maneira, um autoconhecimento aprofundado seria assim de tão grande valia para alguém na batucada da vida pré ou post-mortem. Ouça as palavras de alguém que desfrutava de um tal autoconhecimento: “… dentro de meia hora, irei outra vez, e definitivamente, incorporar aquela odiosa personalidade, e já antevejo como irei sentar tremendo e chorando em minha cadeira…”

É o que o doutor Jekyll lamenta na novela do Stevenson, dando a pala de que conhecer a si mesmo é fonte de interminável angústia. A certeza de que o pior está por vir, e com hora marcada, torna tudo mais angustiante. Você não acha? Certos mecanismos psíquicos – ou certos segredos do coração, se preferir uma fórmula mais açucarada –, é melhor você nem chegar muito perto deles com sua lupa analítica. Apenas cresça, apareça, padeça e esqueça. E, um belo dia, desapareça. A vida é curta e ninguém deixa de ser quem é, de um jeito ou de outro. Engula o fato de que não há paz possível n’almumana, bifronte e contraditória em sua essência, ponto de confluência conflitante entre o bem e a luz, de um lado, e o mal e as trevas, de outro, sendo que ambos os lados formam uma unidade antitética, o preto maculando o branco, o branco tentando diluir o preto, e os dois engalfinhados num antagonismo ancestral, tisnando de cinza o colorido da vida.

E ainda há quem pretenda conhecer um tal saco de gatos anímico! Melhor acreditar que as aparições do Mr. Hyde são apenas pontos fora da curva, como se diz por aí agora para designar os antigos acidentes de percurso. E também que o superior comando das operações mentais se encontra nas mãos do pacífico e civilizado dr. Jekyll, risível inverdade. Não há paz possível na barafunda da consciência. Acontece com todo mundo: você se distrai um minuto e lá vem punhalada pelas costas desfechada por um inimigo saído de suas próprias entranhas, emporcalhado de merda e ódio gorduroso, ávido por sugar até a última gota do mesmo sangue que corre nas veias dos dois, Jekyll e Hyde, até que um e outro tombem exangues.

 

É assim, pois, que caminha a humanidade, com as pessoas fazendo um monte de merda à revelia de si mesmas, merda essa que já estava dentro delas o tempo todo, de nascença, talvez. Eu via tanta gente se afogando na própria merda irracional! Eu saltava fora, nem tentava interferir, mesmo tendo meios para isso. Só uma vez, menino ainda, conjurei as forças sobrenaturais que eu abrigava para sanar as terríveis chagas da carne e do espírito de uma pessoa querida, uma linda freirinha, vê se pode. A irmã chamou aquilo de milagre, mas de santo, não de Deus. A partir daí ela passou a ver em mim um tipo muito bizarro e precoce de santidade. Nunca mais repeti a proeza com ninguém. Essa freirinha vive até hoje. Nem é muito velha. E reza todas as noites pela minha alma, que eu sei. Nem precisava. Já estou onde ela nunca poderia imaginar que eu viesse parar depois de morto. Ninguém, aliás, imaginaria, muito menos eu.

Da humanidade eu só queria a pecúnia, que me vinha das apostas que o povo fazia em 25 bichos e suas muitas combinações, da avestruz à vaca, passando pela borboleta, único inseto a reivindicar o status de “bicho” ao lado de répteis, aves e mamíferos quadrúpedes de todo porte. O povo era o 26º bicho, o que apostava nos outros 25. E perdia, 83% das vezes. Mas o populacho não punha tento em estatísticas e eu só me entupia de grana viva. Banqueiro do bicho, eis o nome técnico da função que eu exercia na sociedade. Pagava direitinho os pichulés dos ganhadores, cobria todas as tentativas de quebrar minha banca (quem tentava é que saía quebrado, e, muitas vezes, não só nas finanças), honrava as percentagens dos meus cambistas e gerentes, e ainda embolsava 60% das apostas. Mais ou menos metade dessa grana servia para azeitar a corrupa geral e irrestrita que garantia o chão pro meu negócio. Era uma dinheirama fabulosa da qual muita gente se beneficiava, dentro de um sistema de vassalagem que, no geral, dava muito certo. Os 30% de lucro extralíquido que iam pro meu bolso eram suficientes para me dar assento no rol dos 100 caras mais ricos do mundo.

Outros meliantes, como dizem os homens da lei, também chegaram lá, e até em posição bem mais alta que a minha. Pablo Escobar, por exemplo, no auge do seu Cartel de Medellín, chegou ao sétimo lugar. Mas vendia droga e teve que enfrentar a tiro e bomba o poder constituído, e não só com propinas. Acabou caçado a tiros num telhado por onde tentava escapar ao cerco da polícia feito um gato fujão. Já eu nunca pisei numa cadeia, nunca matei policial, juiz, ministro, político nem jornalista, como don Pablo fez tantas vezes. Com ele era plata o plomo. Grana ou chumbo. Comigo era sempre, ou quase sempre, na cordial e irrecusável cooptação. Plata o más plata, podia ser o meu lema. Dei condições para hierarquias inteiras de autoridades constituídas da nação comprarem carrões, iates, helicópteros, jatinhos, apartamentos em Miami, além de sustentarem amantes dispendiosas de olhar sequioso, alma vácua e corpo desfrutável, como soem ser as amantes dos altos potentados. Em troca, me abriam portas secretas, tiravam meu cu da reta quando minhas tretas e mutretas eram pilhadas pela Justiça, facilitavam a santa paz do “movimento”, que é como nós os bicheiros chamamos a nossa atividade, termo açambarcado também pelos traficantes de drogas. Mas não fiz a cama só pros bacanas da nação. Também conquistei fidelidades caninas na patuleia dando emprego, comida e dentadura pra muito neguinho famélico que catava o de comer no lixo das bocas antes de se integrar ao meu exército.

Um dos meus segredos era não me meter com droga. Uma coisa é o bicho, a chamada contravenção, campo em que conquistei esplêndida hegemonia, que outros preferiam chamar de monopólio mafioso. Outra coisa é a produção e o tráfico de veneno pro corpo e pra alma, campo conflagrado, guerra de todos contra todos, onde, em longo prazo, todo mundo sai perdendo, traficante e consumidores. Nada a ver comigo, um pacifista nato. Apesar de não terem faltado legiões de promotores, delegados, juízes e políticos tentando quebrar minhas pernas – o que nunca aconteceu, aliás. Vivi bem a me equilibrar sobre elas até o fim.

Claro que o mero fato de eu existir e atuar no mundo interferia na vida de muita gente, mas só na medida das necessidades geradas pelos meus interesses. Eu procurava não bulir com o destino de ninguém à toa, só pelo gosto de influir, exceção feita ao buliçoso amor sexual, como ocorre, aliás, com tutti quanti. Aí eu bulia e influía legal. Mesmo sem ter sido um grande filantropo – na verdade só dava grana de mão beijada para o convento das flutulinas, onde me criei –, acho que, no cômputo geral da minha existência, dá para dizer que fui um cara do bem. Se alguém se estrepou depois de entrar em atrito comigo, foi por causa da sina pessoal lá dele ou dela. Nada a ver pessoalmente comigo.

 

E assim fui tocando a minha vida, do mesmo jeito que você toca a sua, e o vizinho a dele. Não sei se a sua vida é uma valsa ou um rockão pesado. A minha parecia um tango rodopiante, brusco e passional, alternando pequenos passos calculados com grandes arroubos insensatos. Bom, talvez a sua vida tenda mais ao esquemático comedido que ao performático estrepitoso. Uma vida saudável, modesta, tributável e cumpridora. Mas, mesmo tendo que me haver com meu caráter mercurial, posso dizer que todos os meus dias foram felizes, mesmo os marcados por grandes tragédias. E olha que eu nunca sequer cheguei a pensar na palavra felicidade. Tem gente que pensa: “Tenho que ser feliz de qualquer maneira, ou não aguento viver.” E sai desenfreado atrás da felicidade, para cedo ou tarde se ver embrenhado num novelo de rotinas, desejos embargados, fidelidades automáticas e necessidades cruas renascidas a cada manhã, vindo a terminar seus dias maldizendo a busca daquela felicidade de merda que nunca veio conforme a encomenda.

Lembrei agora de um poema que trata justamente desse assunto, entre milhares que também tratam, e que eu sei de cor, aqueles e os outros todos, sem nunca ter lido nenhum. Mas acabo de lembrar também que voltarei a falar nesse poema em algum momento desta nossa comunicação mediúnica, de modo que deixa pra lá. (Aqui, você já vê, é possível a pessoa se lembrar do futuro.)

Enfim, vivi satisfeito comigo mesmo, com a minha posição no mundo, com meu cetro ereto e meu trono fofo, e com minhas rainhas lindíssimas e meus herdeiros, príncipes e princesas por mim gerados em leito de amor e sacanagem, e com meus amigos e minhas amantes. E meus bilhões, é claro. Tudo na base do e + e + e + e: só adição e multiplicação. Vidão feliz e prolífico, foi esse que eu tive aí na Terra.

Agora, veja, se você e seus colegas soubessem o que hoje eu sei a meu próprio respeito, não teriam me perdoado por largar o mundo entregue à própria sorte. Ou falta dela. Me parariam na rua a todo instante exigindo providências para as merdas que vivem acontecendo entre a enquizilada gente humana. Desastres. Guerras. Cataclismos. Doenças. Injustiças. Crueldades. Tristezas. Angústia, luto, dor e morte. Morte, sobretudo. Quantas pessoas caíssem doentes no mundo, tantas eu teria que curar à base de passes e algum latinório. Quantas morressem, tantas eu seria instado a ressuscitar. Grande bosta que ia ser a minha vida. Um São Salvador em regime integral, é o que eu seria compelido a ser.

Ainda bem que eu não sabia quem Eu verdadeiramente era. Apenas segui vivendo a bordo do meu próprio euzinho sem metafísica, como o velho e bom Esteves da tabacaria.

Ora et labora, preconiza São Bento. Nunca orei de verdade. No orfanato balbuciava as rezas para as freiras verem que eu rezava. Mas não acreditava numa palavra daqueles padre-nossos, ave-marias e salve-rainhas. Agora, laborar eu laborava. Pra caralho. E confiava 100% no meu taco. Cada boa tacada me valia uma fortuna, que eu adorava esbanjar sem comedimento. Eu achava muito natural ser o beneficiário dessa inacreditável boa estrela. Mas daí a achar que eu era uma encarnação terrena de quem agora eu sei que fui – “fui-o outrora agora”, como disse o poeta – vai muito chão. Meu ego não chegava a tanto. Aprendi a domesticar o danado e a encenar desde criança uma estratégica modéstia que me nivelasse no mesmo patamar do comum dos mortais, ou o mais próximo disso. Ao mesmo tempo, ao me dar por gente, comecei a perceber que eu era mesmo o grão fodão da espécie. Não tinha como me enganar a respeito. Mesmo assim, nunca me ocorreu, ao me olhar no espelho, que eu me achava frente a frente com a versão humana da suprema e única divindade de todos os monoteísmos. Não chegava a esse ponto, nem nos eventuais surtos de onipotência que me acometiam de vez em quando. Mas louco varrido a ponto de me achar Deus, isso nunca.

 

***

 

Sei que estou entrando meio de sola na sua frequência, falando de mim sem parar. Mas sei também que você está me ouvindo porque quer, certo? Há um consenso tácito aqui. Ninguém te obriga a nada. A menos que você trabalhe numa editora de livros psicografados e seja obrigado, por dever de ofício, a dar baixa em qualquer narrativa provinda do Além, engolindo a impaciência, o desprezo, a irritação e até mesmo o ódio diante de uma escrita opaca ou pretensiosa cujo único trunfo é ter sido soprada por um espírito tagarela.

Isto posto, te pergunto: Bola pra frente, amizade?

Se você está dando crédito à história que estou a lhe contar, talvez ache difícil de acreditar que, mesmo com esse papo de eu ter sido Deus em vida e tal, e agora estar instalado na vastidão infinita do empíreo, com vista privilegiada para a história completa do planeta, começo, meio e fim, nem por isso me é dado saber se você é homem ou mulher. Pois acredite: não sei quem é você.

Mas, e se eu quisesse saber? Saberia? Essa é a pergunta que deve estar se formando na boca do seu espírito.

Talvez, seria a resposta, se eu estivesse interessado em dar respostas a perguntas e questões e inquietações alheias. E não é que eu não esteja. Veja, é que… não importa.

O fato é que, para mim, tanto faz se você é homem, mulher ou qualquer das combinações que isso dá.

Caríssimo medium meum – é como passo a chamá-lo, Medium Meum, com a vossa devida vênia. Você é meu “meio de vida”, medium vitae meum, por assim dizer, se é que o meu latim está correto. Tê-lo a postos aí na Terra a psicografar minhas ruminações sempre é uma forma de voltar à vida, ainda que apenas em símbolos gráficos. Claro que um espírito capaz de operar uma linguagem humana, como eu, aqui & agora, é um espírito vivo. Por isso você me ouvirá muitas vezes mencionar aspectos da “vida” que eu levo aqui. É e não é uma vida. Enfim, vamos tentar manter aqui o respeito a uma regra arcaica da necromancia: o canal está aberto entre os vivos e os mortos, mas os interlocutores devem permanecer anônimos entre si, sem tentar a transfiguradora passagem pelo umbral, seja de ida ou de volta. Nossa comunicação não tem nada a ver com mesa branca, pajelança, candomblé, encruzilhada à meia-noite, eparrê zinfio, nada disso. Pense que é como numa sala de chat dessa internet aí de vocês. Seu nick: Medium Meum. O meu: Suez. Olímpio Suez, que é, na verdade, meu nome verdadeiro em vida. Quer dizer, você, um ser real e natural, atende aqui por um “nome de pluma”, como dizem os franceses dos pseudônimos. Comigo é o contrário: ser supranatural que me tornei, dou-lhe ciência da minha vera identidade terrena. Morre o homem, fica o nome. Esse continua vivo por aí, pois não?

Se não posso te ver, seja porque não posso mesmo, seja porque não me interessa te ver, já disse e repito: tanto faz. Confesso, porém, que não consigo me esquivar das salientes emanações da sua aura mediúnica, que, no entanto, nada me informam sobre seu sexo, idade e identidade. E muito menos sobre sua raça, condição socioeconômica e nacionalidade. Não obstante, posso ver que você domina à perfeição o português do Brasil, ainda que isso não seja essencial à nossa interação, visto que nesse tipo de contato opera um sistema automático de tradução simultânea de qualquer língua para todas as outras, mortas e vivas. Destarte (adoro advérbios antiquados), se eu tivesse que apostar, e com o que apostar – refiro-me a ter um corpo humano vivo e apostante, e não ao dinheiro –, apostaria que você é brasileiro ou passou muito tempo no Brasil. Isso significa que estamos ambos dispensando esse tradutor simultâneo instalado na faixa interdimensional que ora compartilhamos. Melhor assim, já que até o melhor tradutor, automático ou manual, terreno ou sobrenatural, comete suas traições, algumas delas capazes de alterar, mutilar ou mesmo inverter o sentido original de um texto. Como você já percebeu, procuro não crivar esta minha fala de muita gíria, idiomatismos e demais mumunhas informais do português brasílico, algo que já não costumava fazer também quando vivo. Um bom tradutor não teria aqui, de qualquer maneira, muitos pepinos e abacaxis idiomáticos para descascar.

 

Me ocorre agora que você, plugado em nosso canal mediúnico, poderia se perguntar: mas será que não estarei ouvindo aqui uma dos trilhões de vozes do Tinhoso, notório ventríloquo, capaz de falar pela boca de quem ele quiser, até de Deus – será? Ou, quem sabe, continuará a se indagar você, se essa voz não lhe vem de algum fantasma entocado nos cafundós úmidos da sua própria mente e do ser que nela mantém residência, chamado em geral de alma ou espírito? Apertando a tecla mitoparanoica no seu painel de conjecturas, é possível ainda que lhe salte aos peitos, feito galinha viva, a hipótese bizarra de algum vampiro psicopata tentando colonizar sua cabeça, sua vontade, sua lucidez, antes de cravar os caninos sugadores na sua carótida e te alistar nas hostes dos demônios despencados do Paraíso antes do início dos tempos, e ainda por cima fazendo de ti seu porta-voz psicográfico. Holy shit! Será???

Reza o protocolo que rege a vida penumbrosa dos vampiros, como você sabe, que eles sejam imediatamente torrados e pulverizados quando atingidos pela luz do sol. É o que um hierarca das trevas mais teme: a vida às claras. “A luz é uma merda, a inveja é divina”, esse é dístico do sticker que a vampirada bota no vidro fumê de suas limusines fúnebres. Junkies hematófagos, tão temidos quanto admirados pelos humanos, esses demônios midiáticos fazem ligação direta com a caixa-preta que abriga o bestiário da mente humana. Mas nem avente a hipótese de eu ser um insinuante dentuço a te insuflar palavras hipnóticas e mistificadoras. Odeio vampiros. Que vão todos pros quintos dos infernos, que apodreçam para sempre no fundo do lodo excremental da mais pútrida latrina do universo!

Aiou, Silver!

(Eu tô que tô, hein?)

Agora, sério, Medium Meum. Nada tenho a ver com esses freaks bolorentos, demônios, vampiros, fantasmas e zumbis em geral. Uma mulher que não conheci, e sigo sem conhecer, desconhecendo também em que mundo ela se encontra, essa ignota mulher me deu à luz em 1943, nove meses depois de ter mantido um acalorado interlúdio sexual com um homem tão humano quanto ela. Desde então, sempre mantive com a luz jubiloso convívio até a hora da minha morte, por sinal noturna, sob o neon tétrico da prefeitura. Morri sem poder rever a luz do sol. Bom, tinha me esbaldado ao sol horas antes lá no sítio, folgando com minhas três hetairas particulares na piscina nudista. Mas não era a mesma coisa. Eu queria ter olhado o sol enquanto expirava. Esse foi, talvez, o único desejo que não vi realizado em vida: morrer à luz plena do sol. Fui-me, então, sem ver o sol uma última vez. Sinto falta aqui do velho sistema solar. Sei lá, acho que sinto. Trazer pro Paraíso um rabo de saudade da Terra é sintoma típico de alumbrados novatos que se dissipa tão logo a gente se encharque da estupefaciente luz divina, embriagados de felicidade edênica, do tipo que não conhece limites e que seria insuportável para o psiquismo de um vivente mediano. Mas, por divina que seja esta luz celestial que me inunda, ela nem remotamente ombreia com a luz do sol que brilhava todos os dias na minha vida terrena. Os jornais me chamavam de “rei do submundo”, chavão que nada dizia sobre mim, e muito menos sobre o Big Mim que havia em mim e que eu, tolo e cego, confundia comigo mesmo. Minha vida terrena nada tinha de sub: era um solarium perpétuo na superfície dos dias. Só o que corria por baixo do pano era a grana. Muita grana, como você sabe.

Ainda especulando sobre a sua pessoa, Medium Meum, eu diria que você é um adulto, maduro, moderno. Pode ser apenas pensamento desejante, esse meu, mas é o que estou achando neste momento. E uma pessoa ambiciosa também, no sentido de alguém que anseia por grandes coisas na vida. Alguém que trabalha duro para que isso aconteça. Digo, as grandes coisas da vida. Alguém que tem as armas e as ferramentas do santo, como eles dizem no candomblé, de uma pessoa aparelhada pelas altas entidades para arrostar os obstáculos que a vida costuma interpor em nossa caminhada pela crosta terrestre em busca dos nossos objetivos. Esse é o meu palpite sobre a sua personalidade, à qual acrescento mais um atributo: inteligência acima da média. Quanto mais inteligente é o médium, melhor é a qualidade do sinal mediúnico, como você mesmo deve intuir.

Pois é.

 

Bem divertida, estou achando, essa minha cegueira estratégica acerca de quem está na outra ponta desse fio espiritual que nos une. Me estimula a raiz do espírito, eu diria, se é que espírito tem raiz. No momento que fiz contato com você, só queria encontrar algum espírito encarnado capaz de captar essa minha arenga descarnada. Acho que fui feliz ao cruzar minha onda com a sua, Medium Meum.

Você não acha?

Eu acho.

Definitivamente, decidir que não te conheço me reanima a imaginação, nome pelo qual é mais conhecida a raiz do espírito que eu acabei de mencionar. Fora isso, há outro fator a considerar aqui. É que a minha onisciência já não é mais a mesma, sendo que nunca foi lá essas coisas quando eu era vivo e dentro de mim morava a divindade suprema, vulnerável que sempre foi às perturbações causadas pela erupção de sentimentos acima de um certo grau de intensidade. Eis a mais comezinha verdade: sentimentos fortes desbussolavam minha onisciência, da mesma forma que acontece com você e com mais 7 bilhões de almas que vivem hoje no saudoso planeta que tive de abandonar muitíssimo contra a minha vontade.

Aqui os sentimentos até existem, se você assim determinar, mas não vigoram por si mesmos. E não interferem na onisciência nem em coisa alguma, se você quiser que não interfiram. A questão, porém, é que não há neste mundo de luz e paz em que vivo agora o menor motivo para um alumbrado acionar sua onisciência, ou qualquer outra função superior do espírito. Pois não há mais nada que ele ou ela se interesse em saber acerca dos terráqueos e sua Terra.

A vida na eternidade edênica, feita da duração estagnada de uma inexcedível e infinita felicidade, prescinde por completo de emoções, sentimentos, sensações, percepções, intuições, impressões, pressentimentos, conceitos, cálculos, conclusões de toda espécie acerca de seja lá o que for, e quaisquer outras manifestações da alma, em conluio com a inteligência e a memória. Aqui, um caráter sanguíneo-ferrari em vida se dilui numa personalidade azul-palmolive tendendo ao branco-vaselina. Meu caso, aliás. Você logo se conforma com a perda desse fardo mental e afetivo que a gente carrega em vida. Ao chegar aqui, você é instado – forçado, eu diria – a deixar para trás os fiapos de saudade do tempo em que seu coração pulsava sobre o braseiro emocional de uma vida humana. Você nem sabe bem por que, nem como, mas, ao dar por si, tá cá você livre de qualquer fiapo de nostalgia. Sei lá. Algum fiapo até pode sobreviver, revelando-se às vezes num piscar de olhos. Ou de um único cílio. Essa piscadela, efêmera para os padrões edênicos, pode durar o tempo terreno de várias gerações, a depender do quão resistente for aquele fiapo, e é um fenômeno comum nos espíritos que desencarnaram esperneando de vontade de permanecer na Terra. Mas, ao fim e ao cabo, não há fiapo nem fibra de saudade e nostalgia que resistam à voragem da perfeição extática em que transcorre a existência do alumbrado.

Tentando encerrar este assunto um tanto paulificante, reafirmo apenas que não saber quem você é não me aflige em absoluto. Seja você quem for, continue sendo quem é, Medium Meum, em toda a sua contraditória e sempre surpreendente personalidade. Para mim dá no mesmo. Moisés, a quem contei outro dia que andava ditando minhas memórias a um psicógrafo terreno, não perdeu a deixa de comentar, com fartas pitadas de sua costumeira jactância bíblica, que o primeiro médium psicógrafo da Terra tinha sido ele mesmo. E não é que o macróbio tem lá sua razão? Deus, na época do Moisés, vivia entocado nos refolhos abscônditos do Além, de onde ditou-lhe os Dez Mandamentos, nada menos. Moisés só teve o trabalho de cinzelar as palavras divinas naquelas tábuas de pedra, como faria qualquer psicógrafo de Bic ou teclado de computador à mão. Ou seja, ao contrário da versão popularizada pela Bíblia, as tais tábuas não lhe foram entregues já talhadas por Deus. E mais: como uma espécie de prêmio por ter sido o primeiro psicógrafo da palavra divina, Deus teria dado uma encarnadinha nele, de leve, algo em que só ele acredita por estas bandas, embora ninguém se arrisque a contrariá-lo. Desde o dia lá dos mandamentos, cada vez que tomava um epifânico pifão de vinho importado da Terra Prometida, onde, por sinal, nunca pôde pôr os pés, Moisés se sentia possuído pela divindade suprema, algo que não comentava com ninguém. Diz ele que achava pouco adequado sair pelos desertos e oásis norte-africanos alardeando que ele era Deus e que Deus era ele. No máximo, ao topar consigo mesmo em alguma superfície reflexiva, outorgava-se uma piscadinha, exclamando em voz alta ou muda, conforme estivesse ou não sozinho: “Oi, Deus!” E assim foi vivendo e fazendo filhos até morrer de velho. Parece que nos últimos anos, já transposto seu centenário, acabou esquecendo que se achava Deus. Uma hora a gente acaba se esquecendo de tudo mesmo.

Reinaldo Moraes

Reinaldo Moraes, escritor, roteirista e tradutor, é autor do romance Pornopopéia, da Objetiva

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Vítimas de Mariana cobram R$ 25 bi de mineradora BHP na Inglaterra

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Passarinho vira radar de poluição

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Foro de Teresina #68: Censura na Bienal, segredos da Lava Jato e um retrato da violência brasileira

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