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A última mesa

Os dias finais da Casa Villarino, palco da bossa nova

Fernanda da Escóssia
ANDRÉS SANDOVAL_2020

Severino Ramos de Oliveira é um senhor baixinho, de rosto redondo, cabelos brancos cortados rentes e sotaque levemente nordestino. Desde que chegou ao Rio de Janeiro, vindo de Pernambuco, aos 18 anos, trabalhou em ofícios variados. Para se diferenciar do pai, de quem herdou o nome, e de muitos conhecidos no comércio do Centro do Rio, é chamado pelo primeiro sobrenome. Aos 64 anos, Ramos era o garçom mais antigo da Casa Villarino, bar e restaurante que se celebrizou como um dos principais cenários da história da bossa nova.

O Villarino abriu as portas em junho de 1953, cinco anos antes das primeiras batidas de violão da bossa nova. Por quase sete décadas serviu de porto a uma miríade de escritores (o Petit Trianon, sede da Academia Brasileira de Letras, fica em frente), diplomatas (os consulados dos Estados Unidos, da França e da Alemanha estão a uma quadra) e jornalistas (durante mais de vinte anos a sucursal da Folha de S.Paulo funcionou a cinquenta passos dali). Atraiu empresários, políticos, artistas, funcionários públicos, gente que parava para almoçar ou passava no fim do expediente para o uísque, a cerveja, o vinho do Porto. Mais que bar, restaurante e bistrô, o Villarino era um cais da inteligência carioca.

“Se todas as grandes ideias que se tem ao redor de uma garrafa de uísque chegassem vivas à última gota, a Casa Villarino, na esquina das avenidas Calógeras e Presidente Wilson, no Centro do Rio, deveria ser tombada como um patrimônio nacional”, escreveu Ruy Castro no livro Chega de Saudade. “Ali, nos anos 1950, uma valente matilha de boêmios planejou os maiores programas de rádio, os poemas definitivos, as peças que fariam a posteridade babar, os mais arrasadores sambas-canção, a deposição de alguns presidentes e, com ou sem motivo justo, a destruição das mais ilibadas reputações.”

 

A contadora maranhense Rita Nava trabalhava perto do restaurante quando conheceu o espanhol Antonio Vazquez, em 1968. Namoraram e se casaram. Ex-copeiro e ex-garçom do Villarino, ele passara a integrar o grupo de funcionários que se tornara sócio da casa, fundada por espanhóis. Villarino é o sobrenome de um dos pioneiros – a pronúncia correta, diz a proprietária, é Villarino mesmo, não Villariño (Villarinho), como muita gente pensa.

Em 1995, Nava, já aposentada, passou a ajudar o marido no restaurante. Veio dela a ideia de fazer um painel fotográfico retratando clientes ilustres, como Vinicius de Moraes e Tom Jobim – foi durante um encontro no restaurante que o poetinha convidou o jovem pianista para compor com ele as canções da peça Orfeu da Conceição. A rede Villarino chegou a ter sete estabelecimentos.

Ramos trabalhou como garçom na extinta filial da Rua Santa Luzia, mas foi na matriz que se notabilizou por conjugar gaiatice e eficiência, desfilando empertigado e sorridente com sua bandeja, como se carregasse a tocha olímpica. Havia quem o chamasse de Marlon Brando, com quem um cliente o achou parecido. Ou de Niterói, onde ele mora. Em 2013, com 81 mil votos, Ramos foi eleito num concurso do jornal O Globo o melhor garçom do Centro do Rio. Ele acobertava romances clandestinos, comandava o deixa-disso diante de ânimos exaltados, acalmava lágrimas dizendo que, como cantava o homem da foto na parede, era melhor ser alegre que ser triste. “Volte sempre”, despedia-se, e a freguesia voltava.

Até a pandemia.

 

O decreto que determinou o fechamento do comércio a partir de 24 de março de 2020 representou, para muitos estabelecimentos, o princípio do fim. A reabertura em julho não foi como se imaginava. Se os restaurantes dos bairros sobreviveram com as entregas, na região central da cidade o esvaziamento dos escritórios fez minguar o fluxo de comensais e beberrões. Segundo o Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro (SindRio), de março a agosto de 2020 o setor liquidou 18 130 postos de trabalho no município e 29 320 no estado. Dos 1,2 mil bares e restaurantes do Centro, 40% (ou 480) naufragaram. O Villarino foi um deles.

O presidente do SindRio, Fernando Blower, diz que a quebradeira teve a ver com motivos mundiais (a Covid-19), nacionais (a crise econômica) e locais (a insegurança na redondeza e a liberação da venda de quentinhas na rua). “No início, a pandemia foi ruim para todos. Os restaurantes foram se adaptando e usaram a entrega para atender o home office. Mas no Centro não foi possível. Virou um deserto”, lamenta Blower.

No deserto do Centro, Rita Nava, viúva de Antonio Vazquez, viu os clientes sumirem. O ano de 2020 levou até mesmo o escritor Luiz Alfredo Garcia-Roza, vítima de um acidente vascular-cerebral. Ele almoçava lá dia sim, outro também. Nava contou que a irmã dela, Stela Imai, responsável pela administração, criou pratos novos, sempre com nomes de clientes, tradição da casa. “Era uma tortura. A gente se preparava para a chegada dos clientes e, na hora, nada, ninguém.” O restaurante também tentou o delivery, mas os serviços de aplicativo exigem que a entrega seja num raio de 6 km, e a região se tornou território de poucas almas. “É como uma cidade fantasma”, diz Nava.

Aos 79 anos, Nava percebeu que a operação do Villarino não compensava mais e optou por uma paralisação temporária, sem previsão de retorno. Conta que não há dívidas, e o imóvel é próprio. Sua filha toca o único Villarino remanescente – o bistrô na Avenida Rio Branco. “A gente queria buscar um investidor, alguém que desse continuidade a essa história tão bonita. Acredito que possa acontecer um dia, mesmo que não com a gente”, diz. Nava agora cogita alugar para eventos o espaço de 141 m2 e com capacidade para 66 pessoas apertadinhas. “Foi o tal do home office que fez isso”, queixa-se Ramos, que guardou o dinheiro da rescisão, a lembrança dos amigos e do prato preferido, isca de frango. Ele planeja ser porteiro e estudar direito.

Em 16 de novembro, segunda-feira, o Villarino abriu pela última vez. Houve um único cliente para o almoço. Nem Nava nem Ramos sabem seu nome, mas lembram o que ele pediu: frango à milanesa, arroz e caldinho de feijão. Depois, Nava chamou os nove funcionários e disse que o restaurante não tinha como continuar. Ela chorou e muitos garçons também, confirmando os versos do poeta da foto, de que para fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza. Às quatro da tarde, o Villarino fechou as portas. Ramos subiu no ônibus 2100 e rumou para Niterói.

Fernanda da Escóssia

Editora da piauí. Foi repórter da Folha de S.Paulo e editora de política do Globo

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