figuras da tauromaquia

A volta do Ciclone

A vida acidentada e os dias de glória de Juan José Padilla, o toureiro-pirata

Ricardo Viel
No dia 7 de outubro de 2011, Juan José Padilha foi atingido por um outro. O chifre entrou pelo maxilar e lhe arrancou o olho esquerdo. Em março, ele voltou à arena. Fisicamente limitado, o pirata é a melhor imagem de um espetáculo em decadência, mas ainda muito arraigado na vida espanhola
No dia 7 de outubro de 2011, Juan José Padilha foi atingido por um outro. O chifre entrou pelo maxilar e lhe arrancou o olho esquerdo. Em março, ele voltou à arena. Fisicamente limitado, o pirata é a melhor imagem de um espetáculo em decadência, mas ainda muito arraigado na vida espanhola FOTO: CIUDAD DE ARLES_PATRICK MERCIER

No último dia 10 de agosto, uma sexta-feira, por volta do meio-dia, um homem esguio e com largas costeletas desenhadas no rosto entrou na praça de touros da cidade de Zaragoza, na Espanha. Não era dia de espetáculo, não havia uma única pessoa nas arquibancadas. Usando um tapa-olho, o solitário recorreu a arena toda em silêncio. Passou pelo portão dos toureiros e caminhou devagar até quase o centro do círculo. Com o bico do sapato vermelho, fez uma marca no chão de terra batida e ali permaneceu por alguns minutos. Era o lugar exato onde, dez meses antes, um touro o havia cegado da vista esquerda.

“Repeti o caminho que fiz naquela tarde, pisei de novo no lugar da chifrada. Eu me lembrava de absolutamente tudo. Desde o momento em que telefonei para minha família, instantes antes de entrar na arena, até quando fui sedado. Fui andando e repassando o que aconteceu, e depois fui até a enfermaria. Fiquei por quase duas horas ali e te digo: não foi uma sensação desagradável. Eu estava feliz e muito seguro”, relatou o toureiro Juan José Padilla.

No dia 7 de outubro de 2011, ele enfrentava um animal de mais de 500 quilos. Marqués já havia sido enganado diversas vezes pelo movimento da capa vermelha. Tinha fincadas no dorso negro quatro lanças adornadas de azul e branco. Sangrava e dava sinais de exaustão. Mas ainda impunha respeito. Apesar da larga experiência, Padilla havia falhado duas vezes na tentativa de lhe cravar o último par de hastes. O toureiro, a rigor, nem precisaria fazê-lo. Podia saltar aquela fase do rito e avançar para a seguinte: a execução do touro. Mas a arena naquela tarde recebia um bom público e a tourada era exibida ao vivo pela tevê a cabo. Queimar uma etapa seria interpretado como sinal de pouca valentia.

Vestido todo de rosa, com lantejoulas bordadas com fios de ouro e usando uma gravata negra, Padilla partiu para a tentativa derradeira. Estudou a posição de Marqués e decidiu atraí-lo correndo à sua frente numa linha perpendicular. O touro avançou e ele conseguiu lhe espetar as lanças, mas, na fuga, perdeu o equilíbrio e caiu de bruços no chão. Com uma das patas, Marqués pisou o pé do matador – deixando sua sapatilha preta perdida na arena. Quase ao mesmo tempo, abaixou a cabeça e cravou o chifre esquerdo na altura do maxilar de Padilla. Depois de rasgar a pele e romper músculos, nervos e ossos, o corno saiu pelo globo ocular do toureiro. A investida não durou mais de três segundos. Com o olho solto na palma da mão e o rosto ensanguentado, Padilla ficou de pé e logo foi socorrido pelos auxiliares. “Não vejo nada, não vejo nada”, gritava enquanto era carregado para a enfermaria.



A chifrada que cegou Padilla foi descrita como “escandalosa” pelo doutor Carlos Val-Carreres, o primeiro a atendê-lo. Além de lhe arrancar um olho, provocou traumatismo craniofacial e lesões no aparelho auditivo. “Por enquanto só posso dizer que o prognóstico é muito grave”, disse o médico enquanto o toureiro era transferido para o hospital. A rapidez do primeiro socorro, que consistiu em fazer com que o paciente voltasse a respirar e deixasse de perder tanto sangue, foi fundamental para que Padilla esteja vivo hoje.

 

Diego Robles, um senhor elegante e pequenino de 60 anos, é quem cuida da carreira do toureiro há mais de dez anos. No dia do acidente, acompanhou tudo de perto. “Fiquei das oito da noite às seis da manhã no hospital, sentado, esperando. Primeiro veio o plantonista e disse que tinha uma notícia boa e outra ruim. A boa era que tinham feito tomografia e o cérebro não havia sido afetado. A ruim: a lesão era mais grave do que imaginavam. O rosto estava estraçalhado. Parecia que ele tinha caído de moto com a cara no chão.” Com placas de titânio, os cirurgiões tentaram reconstruir o lado esquerdo da face do toureiro. “A cada um que saía eu pedia notícias, e a resposta era: minha parte saiu bem, mas ainda falta tal coisa.”

Quando acordou, depois de 48 horas – e ainda sob efeito dos sedativos –, Padilla viu Lídia, sua mulher, na beira da cama. “O que aconteceu com meu olho?”, perguntou. Em seguida, pediu que ela chamasse Diego Robles. Segurou a mão do empresário com uma força incomum para alguém que horas antes estava quase morto e ordenou que não cancelasse as touradas no Peru no final do mês. “Eu estava ainda com muito remédio no corpo e não sentia tanta dor. Só depois de sair da UTI tive consciência da gravidade do golpe e do tempo que levaria para me recuperar. Mas nunca duvidei que fosse voltar”, conta o toureiro.

No dia 19 de outubro, menos de duas semanas depois do acidente, Padilla recebeu alta do hospital. Saiu numa cadeira de rodas. Tinha a região do olho esquerdo muito inchada e falava com dificuldade por causa da paralisia de metade do rosto, visivelmente deformado. Ainda assim, quis conversar com os jornalistas que o aguardavam na saída. Agradeceu primeiro a Deus e à Virgem do Pilar, sua protetora e também de Zaragoza (a chifrada aconteceu justamente durante a Feira de Pilar). Em seguida, agradeceu aos médicos e aos fãs e amigos. Terminou a entrevista dizendo:“Não tenho nenhum rancor do touro, nem da minha profissão. O que aconteceu foi um acidente. Voltarei a me vestir de toureiro.” Dez dias mais tarde, após uma consulta no hospital, concedeu uma nova entrevista coletiva: “Peço que não sintam pena deste toureiro. Vou lutar o indizível para me recuperar e voltar.” Tentou prosseguir, mas não pôde. “Muito obrigado. A emoção não me deixa falar mais.”

O ataque de Marqués foi o mais grave, mas não o único que Padilla recebeu durante os dezenove anos de profissão. Aos 39 anos, ele guarda dezenas de cicatrizes no corpo, fruto de 38 cornadas. Diz que formam um mapa: cada uma tem o nome de um lugar. Até aquela tarde em Zaragoza, a pior havia sido na cidade de Pamplona, em 2001. Sureño, um touro de 670 quilos,acertou seu pescoço com o chifre, rompendo duas vértebras cervicais e passando muito perto da jugular. “Atravessou o pescoço, de lado a lado, com sua navalha”, escreveu um cronista. No chão, o toureiro ainda foi atingido no peito. “Chifrada na região cervical que disseca em sua totalidade em sentido transversal o pescoço. Apresenta fratura da segunda e terceira vértebras cervicais. Há também uma contusão no esôfago. Prognóstico muito grave”, dizia o boletim médico. Após duas semanas, Padilla estava novamente toureando. Levaria ainda no mesmo ano uma nova chifrada no pescoço, semelhante e quase tão grave quanto a primeira. Os jornalistas especializados já se sentiam mal em escrever que o “Ciclone de Jerez” (de la Frontera, sua terra natal) havia nascido de novo. Ainda teriam de repetir a máxima.

 

Juan José é o terceiro dos sete filhos do casal José Padilla e Ana Bernal. Os três varões se inclinaram para o mundo das touradas – seus dois irmãos são auxiliares de toureiro (um deles abandonou a profissão há quase um ano, logo depois da chifrada de Zaragoza). Na infância, Padilla ajudava o pai, ele próprio um toureiro frustrado, que trabalhava como padeiro. Conheceu Lídia, também natural de Jerez, no Sul da Espanha, quando começava a aprender os primeiros movimentos com a capa. O “padeirinho” ia diariamente à casa da futura mulher entregar os pães. Quando era ela quem abria a porta, deixava um ou dois a mais que o pedido. Agarre antes que vire toureiro e fique famoso, aconselharam as amigas. Começaram a namorar e seis anos depois se casaram – ela com 20 anos e ele, 23. O casal tem dois filhos – Paloma, de 8 anos, e Martín, de 6. “Meu tapa-olho virou brinquedo em casa. Eles adoram usar”, conta Padilla, tentando suavizar a dimensão da tragédia no ambiente doméstico.

O início de sua carreira foi complicado. Padilla não tinha um empresário influente e também não era apontado como grande promessa. Em 1994, aos 21 anos, recebeu sua alternativa, o que, no universo da tauromaquia, significa estrear oficialmente, ou passar de novilheiro – justiceiro de novilhos – a matador de touros. Foi construindo seu nome na base da força de vontade, valendo-se de recursos pouco ortodoxos. Em sua primeira temporada, que tem a duração de um semestre, participou de sessenta touradas. Em todas elas, recebeu os animais na arena de joelhos, em uma posição conhecida como “porta gaiola”. É extremamente arriscado, porque o touro sai do curral cheio de energia, assustado com as luzes e o barulho, e o toureiro ainda não teve tempo de estudar as reações do animal que terá pela frente.

A prática, que exige mais coragem do que técnica, é vista com reservas pelos especialistas, mas costuma levantar o público nas arquibancadas. Pouco a pouco – e depois de diversas cornadas –, Padilla foi abandonando o artifício. Mas em 2007, na tradicional Feira de Sevilha, resolveu novamente receber o touro à “porta gaiola”. O responsável pela abertura do portão o alertou que o animal estava muito próximo, já no final do corredor, a escassos metros de distância. Padilla então se benzeu, bateu no peito e avançou, de joelhos, ficando ainda mais perto do perigo. Aberto o portão, o touro investiu contra o obstáculo à sua frente. Era um exemplar da tradicional família Miura – os mesmos criadores do animal que, em 1947, tirou a vida de Manuel Laureano Rodríguez Sánchez, o Manolete, lembrado como o maior de todos os toureiros. Na corrida, o animal quase atropelou Padilla, derrubando-o com uma das pernas. No chão, o toureiro sentiu o chifre lhe roçar a nuca e levar pelos ares sua montera (um chapéu estilo Mickey Mouse, mas de orelhas menores). Entregue, viu a fera se afastar, atraída pelos auxiliares. Foi erguido pelos braços e pelas pernas e pediu para ser colocado no chão. Agarrou a capa e começou a tourear. Foi ovacionado.

Cenas como essa levaram os críticos a dizer que o Ciclone é um valente, mas carente de arte e graça. Seus defensores alegam que ele não é um artista porque quase sempre precisou medir-se com touros ruins. Para efeitos da tourada, costuma-se distinguir dois grandes tipos de animais: os nobres e os duros. Um touro duro, destrambelhado, que ataque de qualquer maneira, não contribui muito para o espetáculo. Um touro nobre é aquele que não ataca sem avisar (para, empina a orelha, abaixa a cabeça), mas, ao mesmo tempo, não se cansa de investir. São poucos os toureiros que podem escolher as feiras onde se apresentam. Padilla fez sua carreira matando animais considerados pouco “nobres”. “Ele é um matador que se entrega muito. É muito arrojado e coloca o triunfo na arena acima da arte. Mas Padilla não é um toureiro plástico e está longe de ser um artista”, define Jaime Hita, empresário do ramo e comentarista de touradas. E qual seria a razão para ter atingido o status que tem hoje? “Em um mundo onde não há mais herói, ele é o que restou”, responde Hita, sem entusiasmo.

 

No dia 22 de novembro, semanas após a alta do hospital, Padilla foi submetido a uma nova cirurgia para tentar recuperar a movimentação de metade do rosto. Ficou na mesa de operação mais de onze horas. “Essa foi talvez pior do que a primeira, porque ele já estava muito fraco. A recuperação foi terrível. Dava pena. Ele precisava se escorar para caminhar. Fiquei impressionado de ver como uma pessoa tão forte definha em tão pouco tempo”, relatou Diego Robles. “Quando o vi daquele jeito, pensei: vai demorar para ele voltar.” O toureiro concorda que aquele foi o momento mais delicado. “Vi amigos entrarem em casa para me dar apoio e saírem derrotados.”

Se tudo corresse bem, previam os médicos, Padilla ficaria pelo menos um ano longe das arenas. O toureiro se esforçou muito para encurtar esse tempo. Criou uma rotina severa de exercícios, passou por centenas de sessões de fisioterapia e de fonoaudiologia (ainda hoje faz uma média de vinte horas semanais). Em janeiro já estava treinando no campo com animais menores.

O teste decisivo para sua volta foi em Cádiz, a poucos quilômetros de sua casa. Naquele dia, Padilla matou dois touros justamente na fazenda onde Marqués havia passado seus cinco anos de vida – os animais, naturalmente ferozes, são criados soltos, sem tratamento específico para atacar na arena. Lucas Carrasco Romero, o dono do lugar, recordou a cena: “Ele fez questão de vestir o mesmo traje do dia em que foi atingido em Zaragoza. Foi muito emocionante.” Padilla conta que fez isso para acabar com a superstição de pessoas próximas. “Você sabe que a grande maioria dos toureiros é supersticiosa. Diziam que a culpa era da roupa que eu usava naquele dia.” Ele já havia levado uma chifrada com o mesmo traje antes do incidente com Marqués. “Queria provar que não tinha nada a ver”, disse. Depois da exibição na fazenda, Romero estava certo de que, mesmo sem um olho, Juan José Padilla continuava sendo um matador de touros.

Após convencer os médicos e a família (os pais e um dos irmãos eram contra), o toureiro convocou uma entrevista para anunciar seu regresso. Era 20 de janeiro de 2012. “Já decidi data e lugar da minha volta. Será no dia 4 de março, em Olivenza. Sempre disse que o sofrimento é parte da glória. E agora começo a recebê-la. Voltarei a ser o Ciclone de Jerez.” Foi sua primeira aparição usando um tapa-olho. Era menos impressionante do que ver a cicatriz, mas a imagem era estranha. O adereço era muito grande e, somado às costeletas, o deixava com cara de vilão de peça infantil.

Foi nessa época que conheceu a jornalista colombiana Adriana Eslava. Em 1987, quando tinha 23 anos, ela perdeu uma das vistas por causa de um tiro. Filha de um toureiro com uma miss colombiana, Adriana é uma mulher que até hoje chama atenção pela beleza. Desde o acidente, começou a confeccionar seus próprios tapa-olhos para adaptá-los a seu gosto. Um amigo em comum a colocou em contato com Padilla. Da Colômbia, começou a desenhar modelos para ele. Faziam conferências por computador e iam testando, com a ajuda da mulher do toureiro, réplicas feitas em papel e enviadas por fax. Meses depois, eles se conheceram pessoalmente, na Feira de Sevilha. Padilla lhe “ofereceu” um dos touros que matou. “É um ser humano extraordinário, de uma calidez e força interior tremendas. Um homem amoroso, valente e de princípios”, afirmou Adriana.

“Meu pai debutou na Espanha naquela praça. Foi o primeiro toureiro colombiano a se apresentar em Sevilha. Eu nunca tinha estado ali. Foi tudo muito forte.” O pai de Adriana foi morto por um touro, o que não lhe tirou o gosto pelas touradas. “Continuo sendo defensora. Tenho verdadeira paixão.”

 

No dia 4 de março, Padilla voltou à arena na Feira Taurina de Olivenza. Cada vez mais raro no mundo das touradas, o cartaz anunciando “Não há entradas” estava pendurado na bilheteria. O toureiro deixou a praça nos ombros de seus auxiliares e fãs – o que se chama “sair pela porta grande” – depois de ser agraciado com duas orelhas (as cartilagens são extirpadas do animal morto e entregues como prêmio, a critério do presidente da tourada, após uma boa exibição). Descontado o desmaio do pai de Padilla quando o primeiro touro entrou na arena, tudo o mais saiu perfeito em seu retorno. De lá para cá, o toureiro tem acumulado vitórias. Até o final da temporada deve superar a marca de setenta exibições (média de uma a cada três dias) e já assinou contrato para, no outono e inverno espanhol (quando não há festas), se apresentar nas Américas – México, Colômbia, Venezuela e Peru estão confirmados.

Em 2012, o Ciclone cortou orelhas como nunca na vida. “Ele nunca ganhou tanto dinheiro como agora. Mas a questão não é só essa, pela primeira vez pode se medir com os melhores, figurar nos cartazes das grandes feiras. O que buscou durante toda a carreira chegou agora”, diz o comentarista Jaime Hita. Não é raro que fãs usem tapa-olhos durante as corridas e levem bandeiras com uma caveira. Padilla agora também é chamado de “Pirata”.

Numa quinta-feira de setembro, em Valladolid (noroeste do país), havia corrida de touros com três dos principais nomes da atualidade. Um deles era Padilla. Os ingressos variavam entre 16 e 131 euros (de 40 a quase 300 reais).

São quatro da tarde e a movimentação na arena ainda é pequena. Pouco a pouco os bares começam a encher. A maior parte do público é de pessoas que parecem ter passado dos 50 anos, mas também há muitos jovens.

Num dos bares da arena há um jornal com uma entrevista de Padilla. Traz a seguinte manchete: “Não imaginam o que vejo só com um olho, e muito mais claro que antes.” Tento puxar assunto com um homem que já parece ter mais de 60 anos e ele, seco e direto, me corta: “Se você veio ver o Padilla não vamos nos entender.” Estava lá por José María Manzanares. “Como esse nascem dois ou três a cada cinquenta anos”, diz, em tom professoral. Sobre o Ciclone, sentencia: “Acho louvável a sua recuperação. É um lutador. Mas, se não aprendeu até agora, não vai ser com um olho só que vai aprender.”

 

A Praça de Touros de Valladolid é uma construção circular de tijolo à vista com capacidade para 10 500 espectadores. Foi inaugurada em 1890 e é considerada uma das mais importantes do país, embora não esteja no nível das de Madri, Sevilha, Bilbao e da agora fechada praça de Barcelona (uma lei aprovada pelo Parlamento catalão aboliu as touradas na comunidade autônoma a partir do dia 1º de janeiro deste ano).

Faltando meia hora para o início da corrida, um grupo de militantes contra as touradas chega à arena – cena que se tornou habitual na Espanha. Estão em dez. Quatro deles têm os corpos pintados de negro com algumas manchas em vermelho e chifres de papel na cabeça. Pertencem ao Dignidade Animal e exibem cartazes dizendo “Tauromáfia, não com meus impostos” e “Bom trato ao animal = progresso”. Nos últimos anos, o movimento contra as touradas vem ganhando força. O fechamento da praça na Catalunha teve origem numa iniciativa popular que recolheu assinaturas para apresentar um projeto de lei. Em 2003 foi fundado o Pacma, Partido Animalista Contra o Maltrato Animal, que tem como principal bandeira o fim das touradas. Por enquanto, é uma legenda pequena, sem representantes no Parlamento.

Os manifestantes mostram aos policiais a autorização concedida para que protestem. “Essa é a nossa casa e eles vêm aqui colocar o dedo no nosso olho”, diz, exaltado, Jesus Pedroso, 66 anos, membro da Federação Taurina de Valladolid. “Querem acabar com tudo o que seja Espanha. São os mesmos que defendem o aborto. Preferem que matem uma criança a um animal”, esbraveja.

Durante o governo do Partido Socialista Operário Espanhol, que foi de 2004 e 2011,as corridas deixaram de ser transmitidas pela tevê pública – agora, seis anos depois da proibição, o governo do Partido Popular as trouxe de volta, o que gerou muita polêmica. Não é à toa que em regiões onde há um forte movimento separatista – como a Catalunha e o País Basco –, as touradas tenham sido abolidas. Uma pesquisa encomendada pelo jornal El País em 2010 apontou que 60% dos espanhóis diziam não gostar das touradas, enquanto 37% afirmavam segui-las. No entanto, 57% eram contrários à sua proibição.

Os representantes do Dignidade Animal leem uma carta escrita por “um toureiro arrependido” enquanto escutam provocações. “É sempre assim. E nos povoados, quando não há polícia, chegam a nos agredir”, diz Alexander Rol, 21 anos, fantasiado de touro. Estudante universitário, ele integra o grupo de Valladolid desde o ano passado. Quando começa a bater boca com um homem mais velho que passa ofendendo os manifestantes, um amigo também fantasiado o contém: “Não se desgaste à toa, não vale a pena.”

 

Dois terços da arena estão ocupados. Meu assento é uma estrutura de metal que foi aquecida pelo sol durante o dia todo. Entendo o motivo pelo qual alugam almofadas por 1,50 euro na entrada. O espaço destinado a cada espectador é apertado. Ao esticar as pernas, chuto sem querer o casal à minha frente. Uma mulher toca constantemente minhas costas com o joelho. Do meu lado, cotovelo com cotovelo, está Óscar Sánchez, 36 anos, segurança de carro-forte. Durante a corrida ele me oferece vinho em uma bota – uma espécie de bolsa térmica que, quando apertada, ejeta o líquido – e se preocupa em fazer comentários didáticos sobre o espetáculo. Como num estádio de futebol, fala-se o tempo todo na plateia.

Quando o relógio marca seis em ponto soam os clarins e entram dois cavaleiros vestidos de negro. Cruzam os 50 metros de diâmetro da arena até chegarem à tribuna. O presidente da cerimônia lhes entrega a chave do curral para que o portão seja aberto. Entram os toureiros, acompanhados de seus auxiliares, dos picadores (cavaleiros que sangram o touro) e dos responsáveis pela limpeza. É um desfile, conhecido como paseíllo, em que os matadores são apresentados ao público.

Desde 1796, quando o toureiro Pepe-Hillo escreveu o primeiro tratado sobre a tauromaquia, pouquíssima coisa mudou nas regras e rituais do espetáculo. Ele é dividido em três partes. Ao longo delas, onde os aficionados veem uma exibição de coragem e destreza, os críticos enxergam uma escalada de crueldades. No primeiro terço, o toureiro e seus auxiliares enfrentam o animal com grandes capas de dupla face – uma amarela e outra grená. É o momento em que o toureiro estuda o touro e ensaia os primeiros passos e fintas. Em seguida entram os picadores, que são cavaleiros armados de lanças pontiagudas. Eles chamam o touro. Ao atacar o cavalo – protegido por uma capa grossa e acolchoada, que pesa cerca de 30 quilos –, vai sendo sangrado pelo homem. O objetivo é tirar a força e testar a bravura do touro (o ideal é que, espetado, ele não fuja e continue tentando ferir o cavalo). Assim termina a primeira parte.

Vem, então, o momento das banderillas, quando são cravados no dorso do animal três pares de hastes de cerca de meio metro de comprimento. Foi nessa etapa que Marqués cegou Padilla (diferentemente da maioria dos matadores, que transfere a tarefa aos auxiliares, é ele quem coloca as lanças no animal). Com o touro já bastante ferido e as energias exauridas, chega-se à parte derradeira. O toureiro vai, enfim, tourear com a muleta (capa menor que a do primeiro terço e de cor vermelha) e a espada. Com a muleta em uma das mãos, incita o animal, tenta dominá-lo, fazer com que lhe obedeça. Com a espada na outra, irá desferir o golpe de misericórdia.

 

Padilla é quem abre os festejos. Nem o toureiro nem o touro – com 532 quilos, cor de caramelo – brilham. Mesmo cravando com perfeição as três hastes, o matador não empolga o público, que ainda parece meio disperso. No terço final, o touro dobra os joelhos em uma das investidas – sinal de que não tem mais força. A banda começa a tocar o passo doble, música típica das touradas, mas nem isso levanta as arquibancadas.

Chega a hora da sorte final. É quando a maioria das chifradas costuma acontecer. Com a mão que segura a capa, o toureiro tem que atrair a atenção do animal, fazê-lo abaixar a cabeça, enquanto, com a outra, deve dar a estocada certeira. Padilla empunha a espada e penetra o corpo do touro. A lâmina deveria entrar pelo dorso e atingir o coração, mas o movimento não foi perfeitamente executado e o touro não morre de imediato. Um auxiliar se aproxima e, com um pequeno punhal, “descabela” o animal, matando-o com um golpe na nuca. A primeira morte da tarde, ocorrida depois de vinte minutos de espetáculo, provoca apenas aplausos chochos do público – e o corpo do touro é arrastado da arena com as duas orelhas intactas.

O segundo toureiro é o sevilhano Morante de la Puebla, motivo pelo qual meu vizinho Óscar veio à praça. A tourada começa e o matador parece ausente. Deixa cair duas vezes a capa no chão. O público se impacienta. Pouco a pouco se recupera e ganha os primeiros olés. No momento final, no entanto, sua execução é desastrosa. A espada não só não penetra como acaba no solo. Na segunda tentativa acontece o mesmo. Na terceira, a espada entra só até a metade no corpo do animal. O público vaia quando o touro, finalmente, é morto.

Chega a vez de José María Manzanares, que levanta o público. A música soa mais alto, os gritos de “olé” se repetem e o toureiro engata uma sequência de “muletaços” (movimentos com a capa menor) que inflamam a arena. O touro está entregue, demonstra cansaço, respira com dificuldade. O matador se sente confiante, faz o animal passar a milímetros de seu corpo, chega a tocá-lo. Surgem os primeiros gritos de “Toureiro! Toureiro!”. Mais aplausos e o momento da verdade. “Ele não costuma falhar”, diz uma senhora. E Óscar completa: “De 100 vezes, 98 ele mata bem.” Era o dia do improvável. A espada entrou só até a metade. “Uma pena, uma pena”, se escuta. O animal baba, muge, se contorce, mas não cai. É preciso tentar matá-lo de novo. E novamente o toureiro falha. O público, benévolo, continua a aplaudir. Mas a paciência não resiste à quarta tentativa. “Foi uma carnificina”, comenta alguém da fila de cima. O touro está morto, mas o trabalho foi perdido. O matador se despede sem nenhuma orelha, sob vaias discretas.

Terminadas as três primeiras apresentações, a arena é limpa, varrida, e os dois círculos que contornam o centro são novamente pintados. Na abertura da segunda rodada, Padilla já no primeiro terço se esmera para agradar. Coloca-se de joelhos, faz a capa girar sobre a cabeça, exagera nos movimentos. Seu estilo provoca reações díspares. Mas, no momento das banderillas, o público se rende, e o toureiro chega à parte final confiante. Tem o touro nas mãos. Para muito próximo e o instiga; a seguir lhe dá as costas, desafiando-o, e toureia olhando para as arquibancadas. “Bien, bien”, exulta Óscar. Os gritos de “olé” reaparecem. Quando o público e a música silenciam, é possível escutar o som das patas do animal escorregando na terra batida. Escuta-se também a voz de Padilla chamando-o: “Toro! Toro!”.

O Ciclone crava a espada no animal, que agoniza, demora a cair e, numa demonstração de força, termina chifrando a cerca de madeira no ato final. “Esse era bravo”, diz o vizinho de Óscar, visivelmente satisfeito.

O público aplaude e sacode o que tem nas mãos à espera de que o presidente conceda uma orelha. Ela é concedida – do balcão, o chefe da festa exibe um lenço branco. Os aplausos, agora em menor número, continuam. Mas o presidente não concede mais prêmios. “Não era lida para duas orelhas”, diz, resignada, Fuencisla Miguel, uma senhora de 50 anos que justamente pedia mais uma. Ela tem esperanças de que Morante, pressionado, agora brilhe. Mas acontece o contrário. Burocrático, o toureiro encurta a prática e mata rapidamente o animal. É vaiado. “Ele é assim, tem dias que está com vontade e faz coisas tremendas, e tem dias que faz isso”, me diz Fuencisla, que viajou de Segóvia – a uma hora de carro – só para ver o espetáculo.

A última tourada, com Manzanares, é a que mais excita o público. “É para duas orelhas”, diz Óscar. “Se matar bem”, completa. Manzanares agarra a espada, para, estuda e estoca. O animal salta e deixa a plateia em dúvida: o golpe foi bem desferido ou não? Aparentemente, sim. Mas o touro agoniza durante mais de três minutos. Solta sangue pela boca, balança a cabeça, sofre, mas resiste a cair. Até que encurta as patas de trás, as aproxima das posteriores – quase numa posição fetal – e se dobra. O público vibra, e o toureiro vai ao centro da arena receber as graças. Mas de repente o touro se levanta. Fuencisla diz no meu ouvido: “Olha como ele está agonizando. Não gosto de ver isso.” São minutos intermináveis de luta contra a morte, numa peleja inútil. O público aplaude. Quem? O touro, me explicam. E também o toureiro, pela estocada de morte lenta. Por fim, depois que o aviso já soou duas vezes (sinal de que se passaram mais de quinze minutos do início do último terço), o bicho se rende: cai de barriga para cima, com as patas enrijecidas. Como demorou demais para morrer, os aplausos são pouco entusiasmados. E assim Manzanares vai para casa com uma só orelha, como Padilla. Ninguém sai pela porta grande. “Valeu a pena?”, pergunto a Fuencisla. “Sim, sim, foi bom”, diz. Os toureiros desfilam rumo à porta pequena. Padilla e Manzanares saem aplaudidos. Morante é fortemente vaiado e algumas almofadas são atiradas em sua direção. Duas horas e meia depois e com seis touros mortos (sem nenhuma cornada), a corrida estava encerrada.

 

Uma semana depois da corrida de Valladolid, Padilla está em um hotel em Salamanca, algumas horas antes de uma nova tourada. No dia anterior, saíra pela porta grande da Praça de Baza, uma cidadezinha perto de Granada, no outro extremo da Espanha. E uma semana antes disso o triunfo fora em Melilha (cidade autônoma espanhola que está no norte da África) onde, além de três orelhas, cortou um rabo – prêmio máximo e raramente concedido. Havia chegado ao hotel às quatro da manhã, após cruzar meio país no furgão. Ao meio-dia já havia tomado seu café e feito uma hora de exercícios em frente ao espelho para recuperar a musculatura do rosto e da língua. Enquanto espero para entrar no quarto, um de seus auxiliares pergunta se há muitos aficionados no Brasil. Que eu conheça, só João Cabral de Melo Neto, e já morreu há um tempo, penso. Digo apenas que não, que não há nenhuma tradição de touradas no Brasil. Ele me olha com certa comiseração, como se dissesse: deve ser terrível morar num país sem touros.

Além do tapa-olho e das cicatrizes espalhadas pelo pescoço e pelo rosto, Padilla impressiona pela magreza. “Perdi 18 quilos, mas já recuperei bastante. Estou com 64 quilos e me sinto bem”, conta o toureiro, de 1,80 metro. Vestindo camisa jeans e calça escura bem justa, comenta que não se sente cansado com a maratona de viagens. “Não imaginava que seria assim. Foram aparecendo convites e, como me sentia bem, fui aceitando. É um novo momento da minha vida, novas sensações, estou sentido uma felicidade enorme.”

Os toureiros costumam usar a expressão “chifrada de espelho” para designar o momento em que se miram pela primeira vez, após uma exibição traumática. Padilla não precisa do espelho. Ao acordar, antes de abrir o olho, ouve o zumbido contínuo no ouvido esquerdo. Os médicos ainda não sabem como eliminar o ruído provocado pela cornada. Apesar disso, ele diz não ter traumas daquele dia. “É página virada. Sou consciente de que foi um acidente – acidente trágico –, mas com um final feliz. Tenho sorte de ter voltado.” A seguir, comenta: “Imagina que quase não fiz essa corrida porque tinha outro convite. Há tantas circunstâncias… Imagina quantas pessoas estavam nos trens do 11M e por algum motivo poderiam não estar ali [no dia 11 de março de 2004, uma série de atentados nos trens de Madri provocaram 191 mortes]. E nas Torres Gêmeas? Não se pode viver pensando nisso.” Faz uma pausa e continua: “Sobretudo nós, toureiros, que vivemos um risco constante, não podemos pensar no que teria se passado se… Não deveria ter ido a essa corrida, não deveria ter matado daquele jeito! Assim não se vive.”

Pergunto a Padilla se não sente pena ao matar um touro. “Há corridas em que o touro nos presenteia com momentos gloriosos, de arte e emoção. É penoso matar um touro que te ofereceu essa oportunidade. Sim, dá muita pena de matar um touro que merecia ser indultado, que colaborou com você.” Faz uma pausa e prossegue: “Mas há vezes em que a única coisa que você pensa é em dar uma boa estocada e sair vitorioso.”

 

As mãos de Padilla parecem excessivamente grandes, desproporcionais em relação ao corpo. No pulso, ele carrega meia dúzia de escapulários e, no pescoço, imagens católicas. Enquanto era levado para a enfermaria da Praça de Touros de Zaragoza, Padilla foi perdendo o ar e sentiu como se estivesse apagando. Achou que ia morrer, pensou nos filhos e na mulher, e sentiu revolta contra Deus: “Ele, que havia me dado tanto, de repente ia me tirar tudo.” Quando estava sendo operado, diz ter visto “cinco anjinhos descerem do céu”.

O golpe de Marqués deslocou seu maxilar em centímetros, o que lhe dificulta a mastigação. Como não sente a língua, ele a morde com frequência. Deve passar em breve por uma nova cirurgia para implantar uma prótese dentária.

Padilla levanta a barra da calça e mostra, um pouco acima do mocassim sem meia, o lugar de onde foi tirado o nervo enxertado na face. Toca o tapa-olho, o que permite notar um osso saltado, perto da bochecha, e um buraco um pouco acima, na têmpora. Não sabe ainda se colocará uma prótese no lugar da vista perdida. A sobrancelha esquerda está morta, não se move, e médicos dos Estados Unidos devem avaliar em novembro o que fazer. É possível que Padilla siga com o presente de Adriana Eslava.

E foi difícil se adaptar com um olho só? “A minha adaptação foi milagrosamente rápida. Os médicos dizem que leva cerca de um ano para se adaptar à profundidade, à velocidade, mas eu vi que ia muito rápido, dirigindo, jogando paddle. Não teria saído a tourear se sentisse que não estava completamente preparado.”

Seu empresário, porém, aponta diferenças entre o toureiro antes e depois de Marqués. “Preste atenção: quando o touro passa pelo lado esquerdo dele, há um ponto cego, às vezes dá para perceber que ele está procurando, até se assusta quando acha o bicho. A questão é que ele também não escuta desse lado. Se escutasse, ajudaria. Mas acho que ele mudou para melhor, está mais centrado, mais moderado. Era meio louco, muito impulsivo”, diz Diego Robles. Ele conta que o toureiro diz aos amigos que, se soubesse que depois da chifrada as coisas sairiam tão bem, a teria tomado dez anos antes. Na história há casos de toureiros que perderam a vista e voltaram – nenhum, no entanto, chegou perto do triunfo de Padilla.

Pergunto a Padilla o que aconteceria caso fosse obrigado a se aposentar. Ele escuta e sorri um sorriso meio torto. Algumas palavras saem de sua boca com um leve assobio: “Quando os doutores me disseram que seria longa a recuperação, porque não era só física, mas psicológica também, percebi que teria que me agarrar à minha profissão. Estava obrigado a lutar para voltar a tourear. Não conseguiria ir cuidar do jardim, levar as crianças ao colégio, sair para fazer mercado com minha senhora. Isso não seria vida para mim. Tenho um amor-próprio enorme. No meu caso, o toureiro salvou o homem.”

 

Há quem diga que Padilla está agora nas principais feiras justamente pelo que não tem, que está sendo ajudado pelos toureiros de maior calibre. É a opinião do ex-matador Ángel Pascual Mezquita, de 64 anos, que ainda vai a campo treinar pelo menos duas vezes por semana. “Não tenho nada contra ele e acho incrível seu esforço. Mas não o vejo como um toureiro”, diz. “Os toureiros sempre foram vistos pela sociedade como super-homens. São seres modelares. Foram retratados por pintores, escultores, homenageados com poesias e canções. Um toureiro é sempre mais, nunca menos. Não pode ser um homem diminuído, e Juan José Padilla hoje é um homem diminuído”, finaliza.

Diminuída está, também, a fiesta nacional. Assim como o país, o universo das touradas enfrenta uma grave crise. Segundo estimativas, nos últimos dois anos caiu em 40% o número de festejos – cerca de 500 eventos a menos. O governo central e as prefeituras costumavam subvencionar os espetáculos, mas agora esses recursos encolheram ou foram cortados, enquanto o imposto subiu. A audiência nas praças de touros caiu significativamente e muita gente associa isso à presença crescente de torcedores nos estádios de futebol. A fim de conquistar o público mais jovem, alguns toureiros chegam a abrir mão de parte de seus ganhos para subsidiar metade do ingresso dos menores de 30 anos.

Mas, apesar de toda a crise, este ainda é um universo gigantesco: gera cerca de 200 mil trabalhos diretos e movimenta o equivalente a 1,5% do PIB da Espanha (seis vezes mais que a indústria do cinema no país), além de atrair anualmente 10 milhões de espectadores. Existem mais de mil criadores de touros e cerca de 700 toureiros – a profissão é reconhecida por lei e eles contribuem para a previdência social. Desses, menos de 100 estão em atividade regular e menos de dez conseguem alcançar a fama e fazer fortuna. “Nos sentimos muito atacados nos últimos tempos”, diz Padilla. “Porque, além da Catalunha, agora é o País Basco. Claro que me preocupa e sofro com isso. Imagina que triste: na arena monumental de Barcelona não teve uma corrida este ano.”

Junto com o declínio das touradas vem uma escassez de toureiros fora de série. O mais reputado, capaz de causar frisson por onde passa, é José Tomás. Rompido com a televisão, ele proíbe que suas apresentações sejam transmitidas. Nunca concede entrevistas e é ateu (algo muito incomum no universo das touradas). Em 2010, sofreu um grave acidente no México, quando um touro lhe chifrou a coxa, atingindo a artéria femoral. Na atual temporada, Tomás fez apenas três aparições. Duas em praças pequenas e a última na França, quando enfrentou, sozinho, seis touros: cortou onze orelhas, um rabo e teve um touro indultado, coisa raríssima – o indulto aos touros cabe ao presidente da corrida. A Praça de Las Ventas, em Madri, por exemplo, foi palco de apenas um indulto em sua história.

Como Tomás é avis rara, depois de seu acidente Padilla se tornou a grande atração das touradas na Espanha. Sua figura – que chega ao apogeu exatamente por ter sido diminuída – é, talvez, a que melhor retrate a situação atual desse espetáculo em declínio e cada vez menos tolerado, mas ainda profundamente arraigado na cultura espanhola.

Neste mês de outubro, às seis da tarde do dia 10, um ano e três dias depois que Marqués lhe deixou cego de um olho, Juan José Padilla voltará a enfrentar um touro na Praça de Zaragoza.

Ricardo Viel

Ricardo Viel é jornalista brasileiro radicado em Salamanca.

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