esquina

Abraço, carinho, saudade

Dedicatórias para Saramago

Ricardo Viel
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

Rubem Braga mandou um abraço num exemplar da Traição da Elegantes, autografado em 1983. O poeta Lêdo Ivo manifestou saudades ao presenteá-lo com A Morte do Brasil. Caetano Veloso, pelo sim e pelo não, anunciou um retrato “distorcido, mas sincero” de sua geração em Verdade Tropical. O econômico Chico Buarque manifestou apenas “carinho” na folha de rosto de Budapeste. José Sarney foi quem mais se derramou. “Ao Saramago, mestre da língua e da ficção, esta história de pescadores do Maranhão, onde não faltam marinheiros das Descobertas, que vagam por todos os mares com as lendas e os encantos do mundo português”, demorou-se em O Dono do Mar.

O visitante curioso – e bairrista – encontra as dedicatórias na seção brasileira da biblioteca que José Saramago, o único Nobel de Literatura da língua portuguesa, mandou construir na ilha espanhola de Lanzarote, onde morou de 1993 até morrer, em 2010. Se Jorge Luis Borges tinha razão e o paraíso for mesmo uma espécie de biblioteca, o ateu Saramago pôde em vida se gabar de ter erguido um aconchegante Éden com vista para o mar.

Levantado no terreno ao lado de sua casa, o edifício pintado de branco tem 100 metros quadrados e a altura de um prédio de dois andares. É cercado por um muro de pedras vulcânicas e enfeitado com uma oliveira portuguesa. Aqui estão guardados 15 mil livros de Saramago, parte da biblioteca que juntou ao longo da vida (milhares de outros volumes foram doados à fundação lisboeta que cuida de seu legado). Um grande feito para quem, como ele, é neto de camponeses analfabetos e só conseguiu comprar seu primeiro livro aos 18 anos.

A construção da biblioteca era um desejo antigo, que se tornou factível depois do Nobel de 985 mil dólares, em 1998. Antes, os livros do português e de sua mulher, a jornalista espanhola Pilar del Río, estiveram por décadas encaixotados no porão da casa. Quando precisavam fazer uma consulta, era mais fácil correr à livraria do que tentar encontrar o título desejado.

Embora houvesse dinheiro, terreno e disposição, a biblioteca demorou a ficar pronta por causa do boom imobiliário na Espanha no começo deste século. Era impossível conseguir pedreiros na ilha do arquipélago das Canárias, a cerca de 130 quilômetros da costa da África e a mil da Península Ibérica. Só em 2006 o prédio ficou pronto.

O processo de catalogação do acervo durou dois anos mais. Os livros estão organizados a partir de critérios definidos por Saramago e Pilar. Ensaio, filosofia, religião, história, jornalismo, política e fotografia têm suas próprias seções. Romance, poesia e conto estão separados por países ou região. Por imposição de Pilar, escritoras ganharam suas próprias estantes para não dividirem espaço com aqueles que não as consideravam suas iguais. “Contra a vontade do Saramago, nesta biblioteca as mulheres estão separadas: são únicas, admiráveis, levadas em conta e queridas”, decretou.

No paraíso do autor do Evangelho Segundo Jesus Cristo e do Ensaio Sobre a Cegueira, há muitos livros sobre religião e ensaios. “Ele comprava muito mais ensaio que romance”, contou Norberto Ruiz Gallego, o livreiro local do escritor. Gallego, o primeiro a abrir uma livraria na ilha de 140 mil habitantes, virou personagem dos Cadernos de Lanzarote, os diários de Saramago. “Finalmente uma livraria em Lanzarote. O livreiro é um homem novo que fala do seu trabalho com entusiasmo”, comemorou o português em 23 de abril de 1994.

“Lembro-me perfeitamente do dia em que ele veio aqui pela primeira vez. Estava com o Pepe, o cachorro, e de cabeça levantada entrou olhando tudo, como se quisesse se assegurar que isso aqui era mesmo uma livraria, não mais um desses lugares que fazem fotocópias, vendem cadernos, canetas e algum ou outro livro”, relatou Gallego. Saramago fez sessões de autógrafo na livraria El Puente, e, sem querer, virou garoto-propaganda do lugar. Logo depois do Nobel, foi fotografado na porta do estabelecimento falando em um pré-histórico telefone celular.

 

Na biblioteca de Saramago não há exemplares valiosos nem muito antigos. Em frente à mesa onde trabalhava, ficam três sofás de couro que usava para cochilos reparadores. Nas paredes, há retratos de referências literárias (Camões, Drummond e Fernando Pessoa). Sobre os móveis, fotos com amigos e parentes, bonequinhos de Pessoa e Jorge Amado, e uma coleção de miniaturas de elefantes – protagonista de A Viagem do Elefante.

Embora privada, a biblioteca é aberta ao público das dez da manhã às duas da tarde, exceto aos domingos. Com tempo e paciência, encontram-se nas estantes peças de um relicário afetivo. Afora um ou outro item incongruente que melhor caberia na coleção de um Ionesco – exemplo: um exame de sangue de Pilar do ano de 1998 (colesterol e açúcar controlados) –, das primeiras páginas dos livros o que salta mesmo à vista são as dezenas de dedicatórias.

Na seção feminina, mandaram suas saudações Nélida Piñon, Lya Luft e uma animada Bruna Lombardi (“pelo privilégio do encontro”). Os latino-americanos incluem Carlos Fuentes (“arquipélago de amizade”), Mario Vargas Llosa (“sem a pretensão de ensinar nada”), Ernesto Sabato (“com o amor de um irmão”), o nicaraguense Sergio Ramírez (“que tanto quer a José”) e Gabriel García Márquez (que se identifica como “outro que também escreve”). Numa página do romance De Amor e de Sombras, de Isabel Allende, ficou preservada uma declaração de amor de Pilar, em que ela celebra os 24 anos de “amizade e compreensão” entre os dois.

Na seção dos livros escritos por Saramago ou sobre ele, um exemplar em espanhol de Caim, seu último romance, aparece “cordialmente” firmado pelo autor em março de 2010. Era um agrado à família Barede Ramírez, que deixou o livro para ser autografado e nunca passou para recuperá-lo. Foi uma das últimas dedicatórias que Saramago escreveu.



Ricardo Viel

Ricardo Viel é jornalista brasileiro radicado em Salamanca.

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