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Absolvicão portátil

Um mar de católicos é esperado no Rio para a Jornada Mundial da Juventude, em 2013. É bom começar a rezar desde já

Dorrit Harazim
No Parque Retiro, em Madri, jovens católicos foram presenteados com confessionários de linhas arrojadas especialmente criados para o evento
No Parque Retiro, em Madri, jovens católicos foram presenteados com confessionários de linhas arrojadas especialmente criados para o evento FOTO: MARTA RAMONEDA_THE NEW YORK TIMES

O prefeito Eduardo Paes é insaciável quando se trata de abocanhar eventos grandiosos para a cidade do Rio de Janeiro. Não bastasse ele ser o anfitrião da partida mais nobre da Copa do Mundo, além dos Jogos Olímpicos de 2016, a agenda do burgomestre agora inclui, também, a 28ª Jornada Mundial da Juventude, a JMJ, marcada para daqui a dois anos.

É coisa grande. A julgar pelos 2 milhões de católicos de 193 países que afluíram a Madri no mês passado para se reunir com o papa Bento XVI, a Jornada carioca poderá atrair mais gente do que a final da Copa no Maracanã. Não é pouca coisa, mas Paes cobiça algo ainda maior: roubar da capital das Filipinas, Manila, o recorde de 4 milhões de fiéis que João Paulo II conseguiu atrair para a edição de 1995.

Sendo assim, é bom começar a pensar grande também nas instalações específicas que o megaevento demanda: fileiras e mais fileiras de confessionários portáteis. Em Madri, onde algumas avenidas da cidade ficaram fechadas ao trânsito durante seis dias para dar vazão ao fluxo de peregrinos, os pecadores foram bem contemplados.

Somente numa alameda do Parque Retiro, área que se estende por 118 hectares da capital espanhola, foram instalados 200 exemplares criados pelo arquiteto e designer Ignacio Vicens e executados pela centenária Carpintería Ebanistería Emilio Úbeda, da cidade de Ávila. O modelo fabricado em melanina e revestido de PVC alvíssimo é de montagem rápida e fácil, mas obviamente não prevê privacidade ao penitente.

Nem precisa. Nos dias de hoje, já é muito a Igreja Católica ainda exigir a presença de um padre para que o rito sagrado se consuma. Todas as outras etapas do sacramento da confissão – que se destina a curar a alma e recuperar a graça divina perdida no pecado – já podem ser percorridas on-line.

Foram-se os tempos em que a contrição (ato de se arrepender), a revelação (ato de narrar o pecado) e a penitência (ato de expiar) de pecadilhos veniais ou pecadões mortais eram feitas de joelhos, em confessionários claustrofóbicos e intimidantes. À época, a figura do padre do outro lado da divisória, só sugerida, jamais revelada durante a confissão, adquiria as formas propostas pela imaginação aflita do pecador.

Com o surgimento da internet, os sites voltados para confissões on-line se alastraram como erva daninha. Eram todos evangélicos. E continuam a ser, pois a confissão católica on-line não configura um sacramento – é apenas treino, a espera de um sacerdote de carne e osso que a transforme em jogo jogado. A Santa Sé, através do Conselho Pontifício para as Comunicações Sociais, deu seu veredito oficial sobre o assunto dez anos atrás: a web é um instrumento poderoso e útil para o diálogo religioso e a evangelização, mas não é um substituto para o sacramento da confissão. “O contato pessoal continua sendo indispensável e esse sacramento exige a presença física do padre e do penitente”, esclareceu à época o presidente do Conselho, o arcebispo John Foley. “Ademais”, acrescentou premonitoriamente, “não há privacidade garantida na internet.”

Os números que medem o acesso a sites confessionais dão razão ao arcebispo. Enquanto pouco mais de 6 mil fiéis da igreja evangélica Universal Life Church postaram suas confissões, mais de 1 milhão de curiosos acessaram o site apenas para lê-las. Outra obscura vertente evangélica com sede nos Estados Unidos, que lançou o site ivescrewedup.com (cuja tradução livre está entre “meferrei.com”e “fizmerda.com”), teve sucesso imediato com admissões de luxúria, pornografia e transgressões sexuais.

Passada uma década desde a posição oficial do Vaticano sobre o uso da web, a Santa Sé encontrou um caminho seguro para trazer seu rebanho jovem para mais perto da Igreja sem abrir demais a guarda. Foi em fevereiro deste ano que se deu a comunhão parcial entre Steve Jobs e o papa, com o lançamento, pela Apple, de um aplicativo a ser baixado por 1,99 dólar. Ele atende pelo nome de Confession: A Roman Catholic App e pode ser usado como um roteiro do sacramento da confissão: aprende-se ali a identificar os pecados, a falar deles, a penitenciar-se, de modo que, na hora da confissão propriamente dita, o pecador esteja nos trinques.

O texto do aplicativo foi desenvolvido em colaboração com o Secretariado para a Doutrina e Práticas Pastorais da Conferência dos Bispos dos Estados Unidos e representa o primeiro imprimátur da Igreja Católica dado para um programa de iPhone ou iPad. Trata-se de um passo a passo para o sacramento da reconciliação, com perguntas variadas e adequadas para cada faixa etária treinar a listagem de seus pecados. A ferramenta é protegida por uma senha individual do usuário, mas, como já dizia monsenhor Foley dez anos atrás, “não há privacidade garantida na internet”.

Por enquanto, e até nova ordem que pode não vir jamais, o fato é que, para os católicos,  confissão e absolvição ainda exigem a presença de um padre. Daí a necessidade de se começar a pensar em confessionários portáteis para o JMJ carioca de 2013.

Um estudo recente do economista Marcelo Côrtes Neri, com dados do IBGE, revela que o estado do Rio de Janeiro tem a segunda menor taxa brasileira de população que se declara católica (49,8%). Menos do que isso, só em Roraima. O rebanho de católicos no país inteiro, por sinal, encolheu de 74% para 68% em seis anos.

Talvez seja justamente por isso que Bento XVI escolheu uma cidade brasileira para o próximo encontro com jovens do mundo inteiro. Também na Espanha, onde foi realizada a edição deste ano, a população que se declara católica despencou de 82% em 2001 para os atuais 71,7% – e destes, apenas 13% frequentam a igreja aos domingos, com alguma chance de se confessar.

O evento madrileno custou 72 milhões de dólares, pagos em parte pela iniciativa privada (23 milhões) e pelos próprios peregrinos. Mas reacendeu a intermitente onda de protestos da juventude espanhola, cujo desemprego beira os 40%. O desconto de 80% no uso do transporte público concedido pelo governo aos participantes da Jornada ocorreu pouco depois de as tarifas do metrô terem sofrido aumento de 50%.

Mas sendo Deus brasileiro, Eduardo Paes já pode baixar o App do Vaticano para testar suas chances de absolvição.

Dorrit Harazim

Dorrit Harazim é jornalista. Foi editora de piauí de 2006 a 2012

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