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Acarajé, suor e champanhe

Lícia Fábio organiza em Salvador um supercamarote com massagista, jazz e acesso a e-mails que faz a delícia de celebridades e aspirantes a celebridades

Daniela Pinheiro
A <i>promoter</i> costuma ser confundida com uma mãe-de-santo. Com 115 quilos, filha de Iansã e debochada à beça, ela perguntou ao roqueiro <i>“Ron Wood, qu’est-ce que vous pensez de me fudê?”</i>
A promoter costuma ser confundida com uma mãe-de-santo. Com 115 quilos, filha de Iansã e debochada à beça, ela perguntou ao roqueiro “Ron Wood, qu’est-ce que vous pensez de me fudê?” FOTO: CHRISTIAN CRAVO_2007

Quando se trata de Carnaval, não há meio termo. Ou se ama ou se detesta. A exceção é a Bahia. Ali, do ascensorista do elevador Lacerda ao executivo de multinacional, do flanelinha ao governador, todo mundo adora a barulheira de quinhentos alto-falantes tocando ao mesmo tempo, o calor de sauna finlandesa, a chuva de inundar o céu da boca, quitutes de rua capazes de desarranjar um busto de bronze. É a hora em que a Bahia acontece. O sururu colossal foi parar na lista dos recordes do Guinness: “A maior festa popular do planeta”. São 2 milhões de pessoas cantando na rua, bebendo, trocando cotoveladas, brigando, fazendo as pazes, gritando, se beijando, brigando de novo, sacolejando pelos nove quilômetros de avenidas percorridas pelos trios elétricos. Cinco dias da semana. Dez horas por dia. Sob um sol de deixar Gandhi histérico.

Mas há um outro carnaval baiano. Um carnaval mais ameno, mais fresco, talvez mais elegante e (como se diz em São Paulo) mais cool. Nele, há vista privilegiada da folia, comida passável e bebida de graça, direito a um encontrão na loira da propaganda de cerveja ou na atriz da novela da hora (OK, corre-se o risco de se passar a noite papeando com o filho do dono de uma rede de açougues de Feira de Santana, mas pagar mico é intrínseco ao Carnaval), retrato em coluna social e, o que é definitivo, muito ar-condicionado. É o que se passa nos 45 camarotes do circuito Barra-Ondina, o Champs Elysées de Salvador. Patrocinados por empresas de toda sorte, os convites para os camarotes são disputados quase a tapa. Os mais cobiçados são o do ministro da Cultura, Gilberto Gil, o Expresso 2222, e o da cantora Daniela Mercury. O cantor e a cantora são meras fachadas. Quem os organiza são duas patroas de um ramo de negócios que floresceu na última década. O ramo, que combina elementos da publicidade, tráfico de influência, corrupção da imprensa, outorga de jabás e utilização de super e subcelebridades, é o da promoção de eventos. Suas sumo sacerdotisas no Carnaval baiano são as empresárias e promoters (o termo está dicionarizado no Aurélio) Flora Gil, esposa do ministro, e a sergipana Lícia Fábio.

Segundo a matemática de ambas, os camarotes delas recebem pelo menos mil pessoas a cada noite. São deliciosos oásis de mordomia. Enquanto o axé come solto lá fora, quem está dentro pode ouvir jazz ou uma canja de última hora de algum convidado. Bebe-se a rodo, e o monopólio não é da cerveja. Tome-se o exemplo do camarote de Lícia Fábio. Segundo seus cálculos, a cada noite se derrubam 250 garrafas de uísque e quatrocentas de espumante. Também se come com fausto pantagruélico: couscous marroquino, sushi, bacalhau, pizza, patê. Só de acarajés são mais de 2 mil. Ali, as mais cansadinhas podem fazer massagem nos pés. Às vezes, as derrubadas têm à disposição os profissionais de uma rede de cosméticos para retocar a maquiagem. Os viciados em internet conseguem checar e-mails no meio da folia. E todos ganham uma montanha de brindes – de sandálias de dedo a porta-retratos. O ambiente lembra o de uma festa onde não se sabe exatamente o que está sendo comemorado.

Camarotes são isso. Uma salada de celebridades, políticos, mães-de-santo, jornalistas, modelos (com e sem aspas), novos-ricos, povo da moda e muitos, muitos paulistas. Ou, na prosaica definição do milionário Jorge Paulo Lemann, dono da AmBev, à colunista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo: “É para cliente, gostosa ou famosa”. As empresas ficam com metade dos convites. A outra metade vai para a cota de quem organiza a festa. Com agenda na mão, Lícia e Flora montam a lista buscando incluir o máximo possível de celebridades. Algumas celebridades são mais vips (o vocábulo consta do Houaiss) do que outras. Ter no camarote Chico Buarque (que nunca foi, mas é sempre convidado) é ouro. Um governador como Aécio Neves é prata. Uma atriz do quilate de Danielle Winits, mesmo na novela das oito, é bronze. Cantor sertanejo, expulso do Big Brother, ou aspirante-a-alguma-coisa vindo da novelinha Malhação é sola de sapato. “Eu convido puta, viado, artista, baiana de candomblé, tudo”, diz Flora. Lícia concorda: “Pode ter o cafona, o superelegante, o bêbado, mas tem que ser interessante”. Por interessante, leia-se “alguém”. O importante é ver, ser visto e, sobretudo, ser reconhecido.



O sucesso de um camarote, portanto, é medido pela presença de nomes que tenham o peso de marcas. É preciso que a presença dos nomes & marcas seja repetida pela imprensa milhares de vezes, como ocorreu no ano passado com Bono Vox, líder da banda irlandesa U2, que esteve no camarote de Flora. A cena de Bono cantando com o ministro, ambos suados e exultantes, foi estampada em dezenas de jornais e revistas mundo afora. É com essa publicidade que contam os patrocinadores, que de fato bancam a festa, na hora de investir seus milhões. Só o camarote do ministro, bancado por gigantes como Coca-Cola, Nestlé e Bradesco, custará 2,5 milhões de reais, em contratos confirmados com meses de antecedência. Foi divulgado que Robert de Niro aparecerá por lá. Flora não confirma. Já a presença de Oprah Winfrey, cogitada por colunistas, está definitivamente descartada. O camarote de Lícia custará outros 2 milhões de reais, que, a poucas semanas da festa, ainda não tinham sido integralmente captados.

Para Lícia Fábio, estar atrás de Flora Gil está longe de ser vexatório. Afinal, raciocina ela, a concorrente é casada com um artista de fama internacional que, ainda por cima, é ministro. O principal, para a promoter sergipana, é ter se projetado para além dos limites de Salvador. Diariamente, seu escritório recebe mais de cem ligações de todas as partes do país, informam as secretárias. É gente com dinheiro, começando a ter dinheiro, que já perdeu dinheiro. Gente em busca da fama, que já tem fama ou que foi famosa. Sua agenda tem 8 mil telefones. Os três celulares tocam a cada cinco minutos. A sala de espera está sempre lotada. O que todos querem com Lícia Fábio? Diz a própria: “Querem me dar um alô, saber sobre a Bahia, ver algo sobre evento, pedir alguma coisa, ou simplesmente falar nada”.

Num período de 45 minutos, numa tarde no mês passado, a nora do senador Antônio Carlos Magalhães ligou para combinar de jantarem juntas. A jogadora de vôlei Virna chamou para saber de uma estadia durante o Carnaval. Carlinhos, que se lançava na carreira de cantor na banda Mente Boa, queria ver o que ela achava de seu nome artístico “Carlinhos Mente Boa” (“Meu filho, troque isso”, escutou de volta. “Não funciona. Bote Carlinhos Brito e pronto. Não invente muito.”) A produtora de cinema Suzana Villas Boas telefonou para desejar Feliz Ano Novo. Patrícia, estrela ascendente de uma banda de axé chamada Tribahia, passou para deixar um anel de presente, e aproveitou para cantar à capela uma música de seu último CD. Alguém perguntava se era possível conseguir fotos de um coquetel feito por Lícia, em novembro, para a construtora Odebrecht. Um artista plástico carioca chamado Tuca e dois amigos pediam para ela os ajudar a ir a um terreiro. “Para tomar um passe, uma bênção, jogar uns búzios. A gente quer qualquer coisa. Acho lindo”, pediu Lica, que se apresentou como marchand do artista. A relações-públicas da vodca Absolut já havia ligado três vezes. A cantora Martin’alia tinha retornado a ligação. O pessoal da L’Oréal indagava se haveria salão de beleza no camarote. Um Paulinho, que ela chamou de “Little Paul”, ligou para contar um problema. O artista plástico Tati Moreno esperava a confirmação de uma reunião. A todos, Lícia respondia com delicadeza, puxava assunto, mostrava-se disponível. E desligava sempre com: “Deus lhe traga!”.

O escritório de Lícia Fábio fica numa marina, ao lado de galerias de arte, joalherias e de um dos restaurantes mais badalados de Salvador. Quem entra dá de cara com um painel, de uns 6 metros quadrados, com fotos suas ao lado de gente como Luciano Huck, Ana Hickmann, Amaury Júnior, Raí e Gisele Bündchen.

Para quem está acostumado a ver nas colunas sociais promoters com nomes terminados em “inha”, como Fernandinha Barbosa, ex-modelo, ou Alicinha Cavalcante, sarada de academia, Lícia Fábio é uma surpresa. Aos 58 anos, com menos de 1,60cm de altura, e nenhum problema em comentar o excesso de peso, ela tem 115 quilos. “Já tive 130”, diz. Ela se locomove devagar, arrastando os pés a passos curtos. “São os joelhos que me doem muito”, diz. “Meu médico já me pediu para perder uns quilos, mas não tenho vergonha na cara.” Mesmo que ela esteja calma, sua fisionomia parece eternamente enfezada. Ela diz que raramente perde a cabeça. Fala com sotaque ainda mais carregado e mole do que o de Caetano Veloso. É curiosa a maneira como olha: sempre de esguelha. Quando ri, e ela parece rir a maior parte do tempo, o corpo todo balança. Quando gargalha, sempre chora. Ela ri muito.

Suas roupas são sempre parecidas: calças de elástico na cintura, com camisões que batem nos joelhos, ou vestidos soltos usados com calça comprida. Ela tem um guarda-roupa abarrotado deles. É dada a pequenos luxos, como os óculos Prada e uma coleção de vestidos assinados especialmente para ela pelo estilista Fause Haten, seu amigo. E há os inseparáveis colares de contas coloridas, comprados em lojas de candomblé ou em viagens de amigos pela Europa, cada um simbolizando um orixá. Às vezes, ela usa oito ao mesmo tempo. Sua marca registrada são os charutos. “Sempre os baianos”, diz.

A imagem de uma mulher gorda, vestida com roupas largas, charuto à mão e colares abundantes faz com que ela seja confundida, com freqüência, com uma mãe-de-santo. Ela não gosta. E gosta muito menos quando a chamam de ACM de saias, apesar de votar no senador Antônio Carlos Magalhães (votou também em Lula). O apelido se deve mais à visibilidade alcançada na Bahia do que a seu modus operandi. Poucos já a viram brigar ou falar mal de alguém. Ao contrário. Mesmo às pessoas mais nefandas, ela reserva o adjetivo que mais usa: bacana. “Fulano é bacana”, “Ele faz uma coisa muito bacana” e “Ele tem uma vida bacana demais” são frases que ela usa quando não quer dizer o que realmente pensa de alguém.

Quanto é para falar de si, Lícia é modesta. Já os seus amigos, que a adoram, relatam às gargalhadas histórias nas quais sobressai o seu jeito de ser irreverente e cheio de verve. É o caso da vez que ela ciceroneou Ron Wood, dos Rolling Stones, em Salvador. Sem falar patavina em inglês, depois de um silêncio na hora de serem apresentados, virou-se para o sujeito e mandou: “Ron Wood, fuck you!“. O roqueiro adorou. Quando não tinha o que dizer, ou queria saber aonde ele gostaria de ir, apelava para o francês e lhe perguntava: “Ron Wood, qu’est-ce que vous pensez de me fudê?“. E todos rolavam de rir, mesmo quando a piada era repetida pela zilionésima vez. Ou quando, participando de uma reunião de negócios, na qual seus interlocutores insistiam em dar palpites descabidos, ela soltou: “Vocês estão a fim de me comer, né?” Diante do espantado silêncio que se seguiu, ela emendou: “Não é isso? Então, me deixem falar, pô!”. E ainda a maneira com a qual costuma atender a chamada de uma amiga: “Ei, Lulu, vai tomar no cu”. É o seu “alô”.

Já seus inimigos dizem que Lícia Fábio costuma fechar a mão em concha na orelha, enquanto conversa, para ouvir melhor os orixás (ela nega). Garantem que sua relação com Nizan Guanaes, amigo de vida inteira, ficou estremecida porque ela teria recebido Raquel Silveira, ex-mulher do publicitário, e o marido dela, o ex-RPM Paulo Ricardo, em seu camarote (sim, Nizan não se dá com a ex-mulher, mas desmente a história e diz ser um “súdito” de Lícia). Falam ainda que, se ela antipatiza com uma pessoa, evita encará-la (faz sentido: ela não me olhou nos olhos nenhuma vez), ou que, quando fica com raiva de alguém, corta a pessoa imediatamente de sua poderosa agenda (pode ser: a maioria dos entrevistados pediu anonimato). Há quem diga, por fim, que, em rodas fechadas, ela arrisca adivinhar os orixás das pessoas (é duvidoso: ela garante que religião é assunto seriíssimo).

Há vinte anos, Lícia foi levada por uma amiga ao Gantois, o terreiro de Mãe Menininha. Descobriu que seu orixá era Iansã. Desde então, só veste branco às sextas-feiras. É filha-de-santo de Mãe Carmem, filha caçula de Mãe Menininha, herdeira do terreiro há quatro anos. Mãe Carmem é quem ouve as agruras de gente como Maria Bethânia, Zélia Gattai e Antônio Carlos Magalhães. Ela é bem diferente da imagem estereotipada de uma macumbeira. Vai a desfiles de moda, aos camarotes de Carnaval (no de Lícia e no de Flora) e gosta de tomar espumante. Num jantar recente, no bufê de um hotel a 60 quilômetros de Salvador, numa noite abafada e úmida, ela usava um conjunto de crepe e voil em degradê de rosa com amarelo – e nenhum colar de candomblé. Estavam também as filhas Ângela e Nelly (também do Gantois), o genro e a corretora de imóveis mais famosa da Bahia, Josinha Pacheco. Mãe Carmem tomou algumas tacinhas de espumante Miolo, servido em uma temperatura bem acima da recomendada. No jantar, conversou-se sobre cirurgia plástica, novelas, adultério, álcool. Mãe Carmem quase não comeu. Mas quis sobremesa: “Tem coisa mais perfeita do que combinar pudim com champanhe?”, perguntou. Ao falar de Lícia, abriu um sorriso: “É minha filha, uma batalhadora”.

Para romper a redoma que costuma isolar quem atua fora do eixo Rio-São Paulo, Lícia Fábio contou com a mão amiga de dois nomes de ponta da publicidade: Washington Olivetto e Nizan Guanaes. O primeiro a conheceu há mais de trinta anos. Lícia é colega de infância de sua primeira mulher, Luiza. Quando Lícia trabalhava no almoxarifado de um hospital, nos anos 80, Olivetto já a aconselhava a trabalhar com o público. (Antes, ela vendia enciclopédias Delta Larousse para pagar a faculdade de contabilidade). “Ela sempre teve um jeito especial para lidar com as pessoas, era rápida, eficiente, resolvia tudo o que aparecia em sua frente. Além de conhecer tudo e todo mundo”, diz ele. Aos amigos que visitavam a Bahia, Olivetto sempre recomendava procurar Lícia Fábio: “uma pessoa que sabe de tudo sobre Salvador”. Ela ciceroneava de gringos a industriais a pedido do amigo paulista. Fez isso inúmeras vezes.

Por meio de Olivetto, foi apresentada a Nizan Guanaes, que debutava na carreira. A empatia foi imediata. “Foi ela quem me levou ao candomblé”, conta ele. “Lícia faz qualquer um se sentir completamente à vontade. Eu ia visitá-la e ela me dava quiabo para descascar, ou me mandava ajudá-la no serviço doméstico. Ela é um deboche.” A essa altura, ela já havia largado a profissão de vendedora, trabalhara como auxiliar de almoxarifado, e havia sido escolhida como promoter da churrascaria Esplanada Grill, em Salvador. Um dos sócios era o empresário Bob Coutinho, também amigo dos Olivetto. Por ali, circulavam a nata da sociedade baiana, turistas, empresários em viagens de negócios. Lícia recebia a todos na porta, os acomodava em boas mesas, lembrava o nome de cada cliente e até o ponto preferido de carne de cada um. Sua agenda telefônica inchava.

Resolveu abrir seu próprio negócio, uma agência de promoção de eventos. Seu primeiro serviço foi para apenas duas pessoas: um espanhol queria impressionar uma brasileira com um jantar na areia da praia. Lícia providenciou tudo, da iluminação à comida. A prova de fogo em sua carreira se deu quando outro promoter, o paulista José Victor Oliva, a chamou para organizar a festa de uma cervejaria. “Quebramos os paradigmas de Salvador”, lembra ela. “A festa foi num museu, o público tinha muitos jovens, a comida era especial; era um tipo de festa paulista que os baianos desconheciam.” O sucesso foi retumbante.

Com a conexão aberta pelos amigos de São Paulo, Lícia ficou íntima de quatrocentões, emergentes e de quem conhece tudo e todos, como o arquiteto Roberto Bratke e a banqueteira Andrea Fasano. Ao mesmo tempo, freqüentava a família do ex-governador Mário Covas; sua mulher, Lila, Lícia chama de “tia”. Sua lista de amigos inclui muitos colunistas como José Simão e Joyce Pascowitch. Em alguns meios paulistanos, ela é considerada uma espécie de relações-públicas da Bahia. Diz Flora Gil: “Ela gosta de promover. Eu não tenho saco nem tempo. Quem chega na Bahia, vai logo procurá-la. Se quer andar de barco, Lícia Fábio providencia. Se quer ir ao Gantois, ela dá um jeito. Se quer comer em um restaurante badalado, ela faz a reserva. É assim que é”.

De origem modesta, Lícia nasceu em Laranjeiras, interior de Sergipe. Aos 11 anos, perdeu o pai e foi morar com as duas irmãs mais velhas e a mãe com outras duas senhoras: Nô e Bila. “Duas negras maravilhosas”, diz. Mudou-se aos 19 anos para Salvador. Quem a conheceu na juventude garante que ela virava a cabeça dos rapazes. “Ela era a mulata mais gostosa da escola”, lembra Luiza Olivetto. Engordou depois do nascimento do filho, fruto de um romance passageiro com um amigo. “Foi uma paixão”, diz. Nunca se casou. Hoje com 30 anos, o filho, o publicitário Igor Leonardo Fábio, lembra da peculiar rotina de viver cercado por cinco mulheres. “Uma me tirava do castigo, a outra me colocava. Mas o mais difícil era aceitarem uma namorada. Se não era uma, outra colocava defeito.” Discretíssima sobre sua vida pessoal, Lícia evita tocar no assunto que a leva às lágrimas automaticamente: a mãe, que aos 88 anos vive de maneira semivegetativa.

Na hora de se divertir, Lícia prefere estar em volta de uma mesa. Os jantares animados são sempre na companhia de amigas e da companheira Yami Araújo (ex-namorada do colunista Arnaldo Jabor), com quem vive num apartamento de 110 metros quadrados. É seu único imóvel. Não há um centímetro de parede sem quadros coloridos. Há estátuas enormes de São Jorge e Santa Bárbara ao lado das poltronas, e um aparador abarrotado de porta-retratos. A mesa do finlandês Eero Saarinen fica coberta com uma toalha de renda. “Eu faço a festa de inauguração de um restaurante e o povo acha que eu sou a dona”, diz Lícia. “Ninguém fica rica fazendo festa para os outros: vivo bem, sou classe média”, diz.

Fora do Carnaval, ela organiza casamentos, batizados, aniversários e até festinhas privadas. No início do mês, estava às voltas com uma noiva que encasquetou em ter um carrinho de pipoca na festa. Para quem já resolveu o caso do aniversariante que quis entrar a cavalo no salão, carrinho de pipoca é moleza. Noutra ocasião, convenceu palhaços em pernas de pau, contratados para a festa, a permanecer horas com as costas arqueadas para não baterem a cabeça no teto. Seus clientes são, em geral, emergentes ou submergentes, de Salvador. Nas palavras do senador Antônio Carlos Magalhães, “gente da sociedade baiana, já meio decadente, apesar da aparência”. Não é uma crítica, é constatação. ACM diz gostar muito de Lícia. “Ela é desse tamanho (e faz uma circunferência em frente ao corpo usando os dois braços), a aparência não ajuda, e, mesmo assim, venceu, impôs seu nome e seu trabalho. Seu segredo é o tratamento que dá aos outros. É muito profissional, sem ser subserviente”, diz.

Já os que têm fortunas um pouco mais velhas (famílias como Suarez, Calmon de Sá ou os Magalhães) contratam promoters como Milton Martinelli e a dupla de arquitetas Sonja e Núbia por serem considerados mais chiques. Quem a critica diz que ela joga com o preço de seus serviços. “Se Milton cobra 30 mil reais, ela diz que faz por 15 mil para ficar com o negócio”, conta uma ex-cliente. Ela se recusa a rebater. “Isso é energia ruim, meu pai”, diz.

Daniela Pinheiro

Daniela Pinheiro foi jornalista da piauí entre 2007 e 2017

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