lá vêm as eleições

ACM de adereços fluorescentes

Apresentado como "inovador" e "diferenciado", além de "focado em resultados", o candidato do carlismo se beneficia da trégua entre os Magalhães para tentar reconquistar o poder em Salvador

Daniela Pinheiro
“Quando Lula deu continuidade às políticas neoliberais, acabou de vez a dicotomia de esquerda e direita”, acha ACM Neto. “Ter ex-governadores e políticos experientes comigo é bom romper qualquer desconfiança. Ainda não sou líder do grupo, mas vivemos a transição”
“Quando Lula deu continuidade às políticas neoliberais, acabou de vez a dicotomia de esquerda e direita”, acha ACM Neto. “Ter ex-governadores e políticos experientes comigo é bom romper qualquer desconfiança. Ainda não sou líder do grupo, mas vivemos a transição” FOTO: MÁRCIO COSTA E SILVA_DIVULGAÇÃO_2008

No cemitério do Campo Santo, em Salvador, há uma lápide branca na qual está escrito: “A Bahia sempre foi e será a razão da minha vida.” Uma foto antiga do morto está manchada de água de chuva e desbotada pelo sol. Vasos velhos com margaridas murchas e ressecadas são as únicas homenagens. Sacos plásticos e duas garrafas jogadas reforçam o abandono do túmulo do governador Antonio Carlos Magalhães, que morreu há um ano. “No começo ficava cheio, mas agora parece que esqueceram dele”, disse um funcionário do cemitério numa manhã de julho.

A 10 quilômetros dali, no estacionamento de um supermercado, duas camionetes aguardavam a comitiva do deputado Antonio Carlos Magalhães Neto, o candidato melhor situado nas pesquisas de intenção de voto nas eleições para a prefeitura de Salvador. O grupo seguiria para o cortejo de 2 de julho, que comemora o fim da guerra que, em 1823, expulsou os portugueses da Bahia. Para os políticos, o feriado serve de termômetro de popularidade. É a hora em que eles se misturam ao povo, são apalpados, agarrados, puxados, espremidos, aclamados — ou vaiados. Também é a boa hora para gravar cenas do programa eleitoral na televisão.

Antonio Carlos Magalhães Neto chegou de tênis branco com adereços fluorescentes. “Olha o tênis dele: igualzinho ao meu! Só que o dele fala inglês e o meu é pirata mesmo”, brincou o ex-governador César Borges, colando o pé direito ao esquerdo do candidato. De um carro saiu o senador Antonio Carlos Magalhães Júnior, o pai de Neto, que cumprimentou o filho com um beijo na cabeça.

Juntaram-se a eles o vice da chapa, o deputado Márcio Marinho, que é bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, o ex-governador Paulo Souto, três parlamentares federais, uma dezena de estaduais e uma chusma de vereadores e assessores. Ao todo, mais de vinte chefes e chefetes da direita baiana se preparavam para a caminhada de 8 quilômetros, sob a temperatura invernal de 33 graus.



Na concentração do cortejo, militantes do PT, o partido do governador Jaques Wagner, e do PMDB, do prefeito João Henrique, candidato à reeleição, haviam chegado mais cedo e já sacudiam suas bandeiras, cartazes e balões. Há uma regra velada, e nunca desobedecida, na organização do desfile: na frente sai o governador, seguido pelo prefeito, seguido pelos demais. Em quase duas décadas, era a segunda vez que o grupo do Democratas, o antigo PFL, amargava o fim da fila.

“Uuuuuuuuuuuu, sai daqui! ACM já morreu!”, gritou um homem para o grupo, da varanda de uma casa. ACM Neto instruiu seus guarda-costas: “Não quero segurança, já falei que não quero. Senão o povo não chega junto.” Apesar do pedido, em nenhum momento a entourage de leões-de-chácara deixou de cercá-lo.

 

Quando Jaques Wagner foi eleito governador da Bahia, encerrou-se o ciclo de dezesseis anos ininterruptos de carlismo no comando da política local. Durante quase cinco décadas, Antonio Carlos Magalhães encarnou o protótipo do cacique provinciano, que domina os meios de comunicação locais (a repetidora da Rede Globo, o maior jornal e rádios no interior), usa métodos intimidatórios, concede favores a uma clientela e apóia o poder federal, seja ele qual for, para obter verbas e nomeações.

À exceção de João Goulart e Itamar Franco, ACM se aproximou de todos os ditadores e presidentes dos últimos cinqüenta anos, de Juscelino Kubitschek a Lula. Em termos de idéias, o carlismo tem como divisa o vago “bem da Bahia”.

O senador preparou seu filho mais novo, o deputado federal Luís Eduardo Magalhães, para sucedê-lo na capitania do clã. Em 1998, porém, o herdeiro morreu de infarto, aos 43 anos, e Antonio Carlos perdeu o rumo. Teve que renunciar ao cargo para evitar a cassação depois de violar o segredo de votações do Senado, exibiu uma amante várias décadas mais moça, viu seu grupo político se autodevorar e sofreu uma melancólica derrota nas urnas. Meses antes de morrer, fez um discurso no plenário do Senado antevendo a “volta triunfal do carlismo”, depois do “desastre que será o governo” petista. A candidatura de Antonio Carlos Magalhães Neto é a primeira tentativa de a família voltar ao poder.

Cerca de 100 mil pessoas se espremiam pelas vielas íngremes ao longo do trajeto e o candidato fazia o de praxe: posava para fotos, abraçava baianas vestidas a caráter, carregava criancinhas e apertava a mão de quem a oferecesse. Um travesti, de minivestido preto e verde, maquiagem pesada que não disfarçava os fios de barba, deu-lhe um beijo estalado na bochecha. “Ei, Neto! Te adoroooo! Você não trouxe o Lula para mim não, é?”, perguntou. “Chamei, mas ele não pôde vir”, respondeu o candidato com um sorriso desconcertado. Sua equipe de filmagem registrou tudo.

Seis cansativas horas depois, ACM Neto entrou na camionete com o cabelo salpicado de confete. “Valeu mais do que qualquer comício”, comentou um assessor. “É, foi muito bom”, respondeu, lacônico. Quando o carro deixou para trás a confusão, ele pediu para o motorista parar. Iria trocar de automóvel, passar em casa para mudar de roupa e embarcar para São Paulo. No dia seguinte, seguiria para Brasília.

Até o final de maio, Antonio Carlos Magalhães Neto aparecia em terceiro lugar na disputa, atrás do radialista Raimundo Varela e do ex-prefeito tucano Antônio Imbassahy. Inesperadamente, Varela desistiu de concorrer e passou a apoiá-lo, levando-o à liderança, deixando para trás Imbassahy, o prefeito João Henrique e o candidato petista, Walter Pinheiro. Notas cifradas na imprensa sugeriram que o radialista teria recebido 5 milhões de reais para sair do pleito e apoiar ACM Neto. “Não teve isso”, disse-me o deputado. “Foi um acordo político. Um valor desses numa eleição municipal não existe”, afirmou.

Em julho, a equipe estava concentrada em burilar a imagem do candidato. Pesquisas encomendadas pelo partido mostraram que os eleitores o vêem como um político “competente”, “inteligente” e “obstinado”. A característica negativa mais citada é genealógica: ser neto de Antonio Carlos provocava rejeição em quase 24% do eleitorado. Também foi considerado “autoritário” e “muito intenso”, o que melindra os eleitores. “É uma coisa meio Ciro Gomes, como se o próprio Neto fosse o pior inimigo de si mesmo”, comentou um assessor. “Foi quando começamos um processo de suavização de imagem”, explicou ACM Neto.

Para atenuar o ranço familiar, deu-se destaque, em broches, cartazes e pichações, ao nome NETO, deixando ACM em letras bem miudinhas. Em Brasília, ele baixou o tom dos discursos, que eram agressivos e gritados. Há dois anos, quando desconfiou que seus telefonemas estavam sendo gravados pelo governo, subiu ao palanque da Câmara e ameaçou dar uma “surra” no “presidente da República”.

 

Os capas pretas e marqueteiros da campanha preocupavam-se também com o imbróglio da família Magalhães: a briga pública pelo espólio do avô, que inclui emissoras de rádio e televisão, jornal, gráfica, imóveis, obras de arte, antiguidades, ações e investimentos financeiros. Em março, policiais armados invadiram a casa da viúva do patriarca, Arlette, à procura de quadros, esculturas e objetos valiosos. A ação foi autorizada pela Justiça depois que Tereza Magalhães Mata Pires, filha de ACM e mulher de César Mata Pires, dono da empreiteira OAS, acusou os irmãos de sumirem com parte da fortuna. O choque não foi pior porque o filho de Luís Eduardo Magalhães, o empresário Luís Eduardo Filho, conhecido como Duquinho, de 26 anos, soube da batida dois dias antes e tirou a avó de casa.

No centro da disputa está o controle da TV Bahia, afiliada da Rede Globo, que alcança todos os municípios baianos e tem uma audiência média de 70%. César Mata Pires pleiteia o controle da emissora, da qual ele e a mulher detêm 33% das cotas. As restantes pertencem a ACM Júnior e Duquinho. Para obter a simpatia do candidato, Mata Pires ofereceu uma mesada fixa e todo o financiamento da campanha. Diante da negativa, contra-atacou: teria incentivado a batida policial, abastecido de informações revistas que publicaram detalhes da querela e se ocupado na fabricação de dossiês. O outro lado dos Magalhães também organizou dossiês contra o empreiteiro.

A briga da família chegou à Globo. Um representante da rede organizou e presidiu uma reunião, no Rio, entre herdeiros de ACM e um diretor da OAS. Disse que o melhor para todos era que chegassem a um acordo e encerrassem a disputa. Mas não deixou dúvidas de que, se a briga continuasse, se alinharia com a ala majoritária dos Magalhães. Sibilinamente, a OAS foi informada de que a Globo teria facilidade em apurar e difundir reportagens sobre a empreiteira.

Em maio, foi lavrado em cartório um documento preparado pelo escritório de advocacia Barbosa, Müssnich & Aragão. Ele estabelece uma trégua de noventa dias, prorrogáveis por até um ano, entre os Magalhães e Mata Pires. No documento, foram estabelecidas cláusulas sobre o que a família deve responder ao ser indagada sobre o assunto pela imprensa, penalidades se algum detalhe do processo se tornar público e a suspensão de qualquer ação judicial sobre o caso que já esteja tramitando.

A paz favoreceu ACM Neto, que parou de ter que dar explicações sobre o assunto, mas não o tranqüilizou. Sua eleição é um pesadelo para a OAS, responsável por diversas obras de peso na cidade e maior doadora para a campanha do governador Jaques Wagner. Mesmo com isso, uma pessoa próxima à querela informou que o empreiteiro, cada vez mais recluso, está propenso a vender a parte da sua mulher na TV Bahia para a ala majoritária dos Magalhães.

Aos 29 anos, ACM Neto tem feições adolescentes. Diz pesar 60 quilos e medir “entre 1,67 e 1,68 de altura”, mas parece mais baixo. Tem muito cabelo, mantido impecável por um creme da marca Keune, e não por gel. Quando gargalha e se agita, os dentes pequenos e os braços finos lhe acentuam o ar de garoto. A voz é segura e a dicção, professoral. “Ele mesmo sempre diz que o que Deus lhe tirou no tamanho, deu-lhe em força na impostação de voz”, comentou o coordenador de campanha, Luiz Carreira.

O deputado se define como metódico, obstinado, reflexivo e disciplinado — a ponto de, desde o nascimento da filha, de 1 ano e meio, instituir exatos quarenta minutos por dia para ficar com a menina. Gosta de vinho e charuto, mas só nos fins de semana. Toma cerca de 25 xícaras de café por dia.

“Agora ele quer posar de Obaminha”, disse o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, em um começo de manhã, em seu gabinete com vista para a Esplanada dos Ministérios. Ele se referia ao slogan de campanha de ACM Neto (“É possível fazer diferente”), que, para o ministro, alude ao mote do candidato democrata à presidência americana, Barack Obama (Change — we can believe in). “Eu quero é saber como é que ele vai fazer diferente”, prosseguiu Geddel Lima, peemedebista lulista. “Porque ele é o príncipe herdeiro do carlismo: está no DNA dele, no fenótipo, no genótipo.”

O ministro acredita em um segundo turno entre ACM Neto e seu candidato, o prefeito João Henrique. Quando soube que Geddel Lima espalhava o apelido de “Obaminha” em Brasília, ACM Neto foi irônico: “Para quem me chamava de Grampinho, me chamar de Obaminha já é um elogio e tanto”, afirmou. (Grampinho é uma referência às gravações telefônicas dos adversários feitas por Antonio Carlos Magalhães.)

 

Num final de tarde, a mãe do candidato, Rosário Magalhães, comandava o treinamento de 100 cabos eleitorais que trabalhariam no seu comitê de campanha. A exposição começou com a exibição dos preparativos de um show do cantor inglês Peter Gabriel. “Vejam como o trabalho de quem atua nos bastidores é importante, é fundamental para que o resultado final dê certo”, disse ela pelo microfone.

Rosário explicou que a campanha de ACM Neto será “inovadora” e “diferenciada”, palavra repetida à náusea entre os auxiliares dele. Uma das principais bandeiras do candidato, ela afirmou, será o “Big Brother Bairros” — a instalação de câmeras nas áreas de maior criminalidade de Salvador. Durante o intervalo, enquanto comia um bolinho e tomava café, Rosário falou sobre a herança política do sogro: “ACM é um nome que nos orgulha. Na campanha, vamos reforçar os pontos positivos dele, as virtudes, como a capacidade de trabalho e o amor pela Bahia, que o Neto herdou.”

O paradoxo político de ACM Neto é ter que lidar com o fato de dever a carreira ultra-rápida ao avô, e precisar se descolar velozmente da imagem dele para obter votos. É o que o governador Jaques Wagner chamou de “escolha de Sofia”: “Ele quer navegar na tradição, mas precisa apontar o novo para crescer.” Em um início de tarde, no seu gabinete no Palácio de Ondina, Wagner falou sobre a família Magalhães: “Eu não acredito mais em carlismo. O mundo mudou, o contexto político é outro, não há mais clima para o carlismo. Mas a ACM Neto interessa reacender o mito.”

Rabiscando números em uma folha, o governador se disse convicto que ACM Neto não ultrapassará os 30% dos votos, pois esse é o percen-tual histórico dos carlistas na capital. Jaques Wagner também crê que um dos seus candidatos (ele apóia três) estará no segundo turno.

É com cautela que ACM Neto toma distância do avô. Acha que o estilo de Antonio Carlos não pode nem deve ser imitado, por ter envelhecido. E discorda da maneira “bipolar” com a qual o avô construía suas relações: “Era com ele ou sem ele, havia pouca conciliação, pouca pluralidade.” Para ilustrar o que o separa e o aproxima da herança política familiar, citou o colunista Jorge Bastos Moreno, de O Globo. “O Moreno diz que o meu avô era o mais de esquerda, o meu tio o mais da direita e eu sou o do meio”, contou. “Meu avô tinha essa coisa do assistencialismo político, de distribuição universal. Já meu tio era o defensor radical do estado mínimo, do neoliberalismo. Da minha parte, defendo políticas sociais, mas sou totalmente contrário ao desperdício na máquina pública, ao estado inchado.”

Era uma noite de sábado e ACM Neto estava de chinelos e bermuda em seu apartamento, no bairro de Ondina, onde vive com a filha, Lívia, e a mulher, a dermatologista Lídia. Avaliado em 900 mil reais, o apartamento tem móveis grandes e largos em vime, piso de granito creme, amplas janelas e peças de artistas plásticos como Francisco Brennand e Carybé. Seu patrimônio, declarado ao Tribunal Regional Eleitoral, é de 1,6 milhão de reais.

“Eu sempre soube que teria uma carreira política antes e outra depois de ACM”, continuou, “e o melhor estou fazendo depois: ter virado líder da bancada do DEM na Câmara e a campanha pela prefeitura. Desculpe, mas ninguém vira líder aos 29 anos porque é neto de alguém ou vira destaque em CPI sem ter mérito.”

Quis saber qual era a sua maior virtude e ele disse três: coragem, capacidade de trabalho e “reagir bem na adversidade”. Como exemplo dessa última, disse ter obtido “sozinho o respeito de meu avô”. Quem conviveu com Antonio Carlos Magalhães sabe que sua aposta na segunda geração da família era Duquinho, o filho de Luís Eduardo, e não ACM Neto. Duquinho, porém, costuma dizer aos amigos, brincando, que “até poderia ser político em Paris, mas aqui jamais”.

“É natural que meu avô esperasse que o filho do filho político, e não o do filho empresário, fosse seguir a sua vocação”, contemporizou o candidato. Ele acredita que provou sua capacidade ao avô quando organizou um encontro da Juventude Pefelista da Bahia, com a presença do presidente Fernando Henrique Cardoso. “Fiz tudo sozinho, meu avô não sabia nenhum detalhe”, contou. “Prometi que ia levar 2 mil jovens ao evento, trabalhei para levar 10 mil e acabaram indo 5 mil”, disse.

Aquela foi também a primeira vez que ACM Neto discursou em um palanque. Passara a noite em claro preparando a peça oratória, uma ode aos moços e ao seu denodo na construção do futuro radioso da pátria. Terminou sob aplausos e elogios de Fernando Henrique. Lágrimas escorreram pelo rosto do avô. O neto tem a impressão de que foi a primeira vez que Antonio Carlos prestou atenção nele.

Foi o coroamento de uma relação que começou com a pergunta “Quer dizer que o senhor quer mesmo entrar na política?”, feita por ACM em um almoço familiar de domingo. “Sim, quero, meu avô”, ele respondeu. “Então vá se articulando para ser deputado estadual”, disse. Empregou-se como assessor do secretário de Educação, “para começar de baixo”. Passava os fins de semana visitando cidades do interior com correligionários. Foram os políticos desses municípios que começaram a elogiá-lo para o patriarca. “O senhor acha que pode sair deputado federal?”, perguntou ACM ao neto semanas depois. “Acho”, ele respondeu. Em 2002, foi eleito com 400 mil votos: a máquina eleitoral do avô trabalhara com força total a serviço do rapaz.

Três anos depois, quando da Comissão Parlamentar de Inquérito dos Correios, ele se tornou conhecido fora da Bahia. Era sub-relator e aparecia na televisão quase diariamente, deblaterando contra os mensaleiros. Ganhou o título de Parlamentar mais Sexy da CPI em uma votação de um site gay. Foi reeleito e, no ano passado, tornou-se líder da bancada do DEM.

 

“Quando ganhei a primeira eleição, eu pensei: “Eu não vou ser mais um. O que eu posso fazer para me destacar? Decidi que iria para a comissão mais importante, a de constituição e justiça, e para a mais difícil, a da reforma tributária”, disse. “Quando a reforma da previdência chegou à comissão, eu não sabia nada, nada, nada de Previdência Social, mas resolvi aprender tudo sobre o assunto. Anotava os pontos que não entendia, perguntava para os técnicos, comprava um monte de livros e ficava lendo de madrugada.”

Dois meses antes de tomar posse, passou a estudar o regimento interno da Câmara três horas por dia, todas as manhãs. “Quantos deputados você acha que fazem isso?”, perguntou-me, sem esperar resposta. “Quando cheguei lá, eu já sabia mais de regimento do que muita gente que estava no Congresso há anos.” A filha começou a chorar no quarto. Sua mulher viajara e ele estava só com a babá. Pediu licença e foi ver a criança.

 

ACM Neto gostaria de estar se dedicando totalmente à campanha. Mas teve que ficar em Brasília até a véspera das férias em função do relatório da Polícia Federal sobre o banqueiro Daniel Dantas, no qual o senador Heráclito Fortes, cacique do partido, era citado como lobista do Opportunity.

No gabinete da liderança do DEM, uma copeira entrou com pães de queijo, refrigerantes e bombons, nos quais ele não tocou. A conversa era sobre como ele se definia politicamente. “Minha geração não é de esquerda nem de direita”, afirmou. “Com 16 anos, eu acompanhava o governo de Fernando Henrique. Eu e meus amigos não vivemos a Guerra Fria, o Muro de Berlim. Minha geração é mais pragmática, menos utópica, menos impregnada pelos idealismos ideológicos, o que é bom. É uma geração que está focada em resultados. No caso, em pessoas eficientes para se fazer um bom governo.”

Um parlamentar entrou e se desculpou pela ausência na missa de um ano da morte de ACM, a ser celebrada dali a alguns dias. “Não se preocupe, cuide da família e da política”, respondeu ACM Neto. Em seguida, retomou o raciocínio: “Quando o Lula assumiu o governo e deu continuidade às políticas neoliberais, acabou de vez essa dicotomia esquerda e direita.”

Indagado sobre seu futuro, ele disse que, quando tinha 19 anos e se considerava “absolutamente verde”, foi entrevistado pela Folha de S. Paulo. “Acabaram dando o título ‘Quero ser presidente da República’. Nunca mais vou falar uma coisa dessas”, afirmou. “Porque isso não depende de mim, não é uma vontade, uma missão, um capricho pessoal. Talvez esse tenha sido o sonho de meu avô, que ele nunca conseguiu realizar. Mas isso fez dele um político menor? Não.”

Ele considera que a carreira política parece com as da iniciativa privada, na qual o gerente quer se tornar diretor e o diretor quer virar o presidente. “Não serei deputado o resto da vida, quero evoluir, mas não sou carreirista”, disse. “Com 29 anos, não tenho que estar preo-cupado em competir com César Borges, com Paulo Souto, com Jaques Wagner. Eles vão ter mais oito, mais dez anos de política. Eu vou ter mais quantos, vinte, mais trinta? Tenho tempo.”

Perguntei como ele se imaginava inovador e diferenciado, como prega, se está permanentemente rodeado por políticos criados por Antonio Carlos Magalhães. “Minha turma, meus assessores são todos jovens. Ter ex-governadores e políticos experientes comigo é bom para romper qualquer desconfiança de que sou muito jovem”, disse. E completou: “Ainda não sou o líder do grupo, mas estamos vivendo a transição.”

Daniela Pinheiro

Daniela Pinheiro foi jornalista da piauí entre 2007 e 2017

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