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Aflições de uma diretora

Um colégio no bairro com maior número de mortes por Covid-19 em Maceió

Luiza Ferraz
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

Faz muitos anos que o relógio biológico de Elisete Martins Oliveira funciona pontualmente. Todos os dias, ela acorda às 4h30, sem ajuda de despertador. O passo seguinte, desde que ficou viúva há nove anos, é ligar a tevê no quarto, apenas para ouvir a voz de alguém. Até três meses atrás, ela não prestava muita atenção nos programas. Preferia ficar observando, da cama, o amanhecer e seu jogo de luzes na janela.

O ritual diário de Oliveira perdeu totalmente a leveza quando ela se deu conta, na terceira semana de março, de que precisaria fechar as portas do Colégio Fantástico, escola privada em Maceió da qual é fundadora e diretora. Desde então, já não consegue se atentar ao nascer do dia. Seus pensamentos estão todos voltados para o destino da escola e de seus mais de quinhentos alunos. “Sabe aquilo que você só entende quando acontece com você?”, disse. “Todo mundo falava do novo coronavírus. Achamos que ia ser coisa rápida, mas não foi.”

O Colégio Fantástico fica em Benedito Bentes, o bairro mais populoso (cerca de 110 mil habitantes) e um dos mais violentos da capital alagoana. Com o avanço da Covid-19, tornou-se também o local de Maceió com o maior número de mortes causadas pelo vírus – 43 óbitos, até 25 de junho. Em toda a cidade, na mesma data, haviam morrido 556 pessoas, e no estado de Alagoas, 938.

A diretora e seu marido, João Batista Oliveira, abriram a escola em 1988. O colégio começou pequeno, com 200 m2 de área útil. Hoje, tem duas unidades no bairro, uma com 1 600 m2 e outra com 400 m2, com cursos que vão da educação infantil até o ensino médio. A escola maior dispõe de piscina, quadras esportivas, um pequeno auditório, laboratórios de ciências e informática, além de salas para a prática de balé e judô. As mensalidades vão de 346 reais a 562 reais. Foi no colégio que estudaram os três filhos do casal e agora estudam os seus sete netos.



 

Oliveira, 61 anos, buscou agir com rapidez no início da quarentena escolar, ouvindo os conselhos de um de seus filhos, o matemático Krerley Irraciel Martins Oliveira. Professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), ele coordena o Dashboard Covid, grupo interestadual de pesquisadores criado para analisar o avanço do novo coronavírus e planejar soluções para a gestão hospitalar. “Krerley já estava fazendo pesquisas sobre o que iria acontecer durante a pandemia e me disse que seria melhor tomar logo providências enérgicas para o que estava por vir”, contou a diretora. Em 24 de março, um dia depois de começar a valer o decreto do governo estadual de fechamento das escolas, os alunos do Colégio Fantástico começaram a testar a principal mudança, os cursos online, que foram adotados a partir de 6 de abril. Segundo Oliveira, foi preciso que sua equipe fizesse campanha para fornecer serviço de internet a três estudantes e emprestar computadores a outros dois, que não dispunham sequer de celulares. A adaptação para as aulas online não impediu que 128 estudantes cancelassem a matrícula entre abril e junho – neste mês a escola passou a ter 544 alunos.

Outras medidas foram tomadas para garantir a sobrevivência do Colégio Fantástico: Oliveira fechou a creche e demitiu 28 dos 119 funcionários – entre eles, 11 dos 77 professores. Também suspendeu, por dois meses, o contrato de trabalho de alguns funcionários, aderindo ao Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda. Como cerca de 30% dos alunos estão inadimplentes, a diretora precisou recorrer a quatro empréstimos bancários para manter a folha de pagamento em dia. A escola fechou o mês de maio com um prejuízo de cerca de 90 mil reais.

 

Em meados do último mês, Oliveira pediu à sua equipe que formulasse ideias de adaptações a serem feitas na escola depois da reabertura. “Nós estamos localizados numa comunidade periférica, onde as pessoas não respeitam as determinações de isolamento e uso dos equipamentos de proteção necessários. Isso me preocupa bastante”, disse. Ela também se aflige com o impacto que a pandemia está causando na vida psicológica das crianças e dos jovens. “Eles vão voltar amedrontados, com a estrutura emocional abalada, e vai ser bem trabalhoso, mas não podemos desistir.”

É possível que o número de alunos em cada sala tenha que ser reduzido e os horários das aulas, remanejados, mas Oliveira aguarda as decisões do governo para tomar as suas próprias. Certo é que haverá higienização de todos os espaços e desinfecção das salas a cada turno. Também serão instaladas pias nos portões de entrada e saída e distribuídos frascos de álcool em gel por toda a escola. “Claro que ainda haverá risco, mas vamos fazer o que for possível. Eu me preocupo muito nesse momento, porque, com certeza, seremos muito cobrados pelos pais e responsáveis.”

Outro plano da diretora é adotar o uso obrigatório de escudos faciais de plástico. Isso vai ser possível porque o professor Krerley Oliveira e sua equipe estão utilizando um espaço cedido pela escola para confeccionarem, com seis impressoras 3D, o equipamento para hospitais, corpos de bombeiros e outras entidades. As mesmas máquinas vão produzir os escudos para os alunos e funcionários.

Oliveira prevê que o retorno às atividades não será fácil em regiões periféricas, como Benedito Bentes. “Eu não sei, por exemplo, se teremos condições de manter o número atual de funcionários, por causa da redução de receita e do aumento da inadimplência, que pode piorar com o desemprego”, afirmou. Essa visão pessimista se choca, em sua mente, com a imagem mais feliz do dia em que o Colégio Fantástico reabrir as portas. “Ver cada criança e jovem chegar e recebê-los na escola é algo que não tem preço.” É nisso que ela tenta pensar agora, toda vez que acorda, pontualmente, às 4h30.

Luiza Ferraz

Estagiária de jornalismo na piauí

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