esquina

Agora é tolerância total

Cesar Maia diz por que prefere as milícias aos traficantes

Marcos Sá Corrêa
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

A última do prefeito Cesar Maia não é que agora ele assina um “ex-blog“, ou um blog que virou newsletter. Nem que essa página, “solta e artesanal”, como ele diz, chegue regularmente, via internet, a mais de 19 mil assinantes. A última do prefeito é reconhecer, entre as pessoas que se inscreveram para receber seu boletim virtual, pelo menos 400 jornalistas. Nada mal para quem, seja por falta de paciência para falar com repórteres, ou de repórteres com paciência para ouvi-lo, assumiu há quinze anos um posto cativo no noticiário carioca como fonte oficial (e aparentemente inesgotável) de gestos gaiatos e declarações pândegas.

Quando o prefeito fala ao vivo, quase sempre é a reboque de um convite para almoçar em seu gabinete. Na sala de refeições, há pelo menos dois mandatos e meio, a comida resiste a mudanças. Mas a conversa varia até demais. Num almoço no mês passado, por exemplo, o papo passou pela Nicarágua, onde Cesar Maia foi ver de perto a eleição do sandinista Daniel Ortega à frente de uma coalizão na qual um aliado tem fama de pertencer à CIA e outro lhe foi apresentado como filho do cardeal Miguel Obando y Bravo.

O prefeito disserta à cabeceira de uma longa mesa, tendo por trás da cabeça um pôster do líder guerrilheiro Augusto Sandino e uma imagem de Nossa Senhora de Aparecida. Secretários e assessores se revezam na mesa de granito azulado. Entram sem se anunciar, e saem sem pedir licença. Cada um faz seu prato. E trata de abrir a boca só para entrar o garfo ou sair uma breve palavra, sempre de reiteração. Em mais de três horas, o telefone não toca. Nem aparecem secretárias trazendo bilhetinhos com recados.

Com mais de dez anos de experiência no cargo, Cesar Maia governa o Rio como se, lá fora, estivesse tudo mais ou menos encaminhado, se não resolvido. À sua frente, esfria o prato de espaguete, que ele fisga devagar, enquanto fala depressa. A sala sem janelas esconde a cidade, exceto pelo mosaico de fotografias aéreas, onde o verde dos morros aparece espremido no labirinto sem fim da malha urbana desordenada. É nesse ambiente vedado à realidade que o prefeito assume ares panglossianos.

Adianta administrar uma cidade tão complicada? Não é o mesmo que enxugar gelo? O prefeito responde que a cidade vem melhorando. A pressão demográfica vai amainando, exemplifica, inclusive entre os pobres. As favelas crescem menos do que antes, embora dêem a impressão de se espalhar sem controle. A vida da população melhorou. E, com ela, a escolaridade média. Hoje, analfabeto funcional com menos de 30 anos de idade pode morar na cidade, mas dificilmente é carioca. E o zelo dos pobres pelas escolas municipais chega a tal ponto que nem bandidos se metem com esse último reduto do serviço público – como pôde constatar, conta, a diretora que recebeu, em postas, o braço direito do assaltante que lhe roubara um aparelho de videocassete.

No primeiro mandato, Cesar Maia quis ser a versão local do prefeito Rudy Giuliani, trombeteiro-mór da tolerância zero em Nova York. Agora, convenceu-se de que, no Rio, esse é o tipo da política que quem promete não cumpre. É inútil bancar o intransigente numa cidade em cujo centro, mesmo nas ruas varridas três vezes por dia, há sempre lixo ao redor das cestas. A mudança de estilo não significa que o prefeito fez as pazes com o senso comum. Tanto que, no almoço, ele defende as milícias armadas que, durante sua jurisdição, ocuparam mais de 90 favelas.

Argumenta que, aos poucos, as favelas foram recebendo serviços públicos como escola e saúde, mas não polícia, Ministério Público ou Justiça. O que mais falta em favela é agente da segurança pública. Quando assumiu o cargo, proibiu que policiais se disfarçassem de funcionários da Prefeitura para investigar favelas. Com isso, garantiu a sua paz: os traficantes não molestam o prefeito e seus funcionários. “Na prática, então, o senhor fez um acordo com os bandidos?” “Não fiz”, responde Cesar Maia, “porque não é função da prefeitura botar policiais disfarçados nas áreas pobres.”

Moral da história: sem agentes de segurança pública, há o vácuo, que é sempre ocupado. Nos tempos românticos em que o morador da favela vivia pertinho do céu, o vazio estatal foi ocupado por malandros e capoeiras. Nos anos 80, vieram os traficantes. Eles policiavam, julgavam e puniam. Varavam, a tiro, as mãos de quem cometia crimes em seus territórios. Bancavam quadras de esportes. Apartavam briga de família. E convenceram o governador Leonel Brizola, em 1983, de que as favelas dispensavam repressão, por serem imunes à criminalidade que incubavam.

Cesar Maia chegou à política do Rio de Janeiro, como secretário de Fazenda, no governo Brizola. De lá para cá, o tráfico transformou os morros em praças de guerra. A tal ponto que os policiais civis e militares não podem mais morar lá dentro. Foram esses policiais ameaçados de despejo que, segundo o prefeito, originaram as milícias nas favelas, provando que as trincheiras do tráfico estavam longe de ser inexpugnáveis.

Assim como Brizola há vinte e tantos anos, mas por outro caminho, Cesar Maia convenceu-se que as milícias podem amainar o problema que a omissão do Estado impôs às favelas. “As milícias são melhores que o tráfico”, diz, encerrando o assunto. Só no fim do almoço, admitiu que fez uma aposta arriscada. Naquela manhã, um correligionário do prefeito estava nos jornais, como suspeito da execução do inspetor Félix dos Santos Tostes, chefe da milícia na favela do Rio das Pedras. Trata-se do vereador Nadinho, seu cabo eleitoral, produto político da segurança miliciana na favela. O prefeito considera Nadinho incapaz de se meter numa enrascada dessas, seria coisa de máfia pesada. “Caso contrário, errei feio”, conclui, garfando os últimos fios do macarrão, que esfriou no prato.

Marcos Sá Corrêa

Marcos Sá Corrêa é jornalista. Foi editor de piauí entre 2006 e 2011.

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