obituário

Alexandre, o Grande

Lembranças de uma vida inimitável

João Moreira Salles
Alexandre Abreu Gontijo em pose natural: livro, mar e sol. Para chegar ao Paraíso, faltaria apenas acrescentar uma banca de jornal, um amigo, uma carona e uma bola de futebol
Alexandre Abreu Gontijo em pose natural: livro, mar e sol. Para chegar ao Paraíso, faltaria apenas acrescentar uma banca de jornal, um amigo, uma carona e uma bola de futebol FOTO_JOÃO GONDIM

Meu amigo Alexandre Abreu Gontijo, que morreu de enfarte aos 48 anos de idade no dia 14 de julho, não precisava de muitas coisas.

Do que ele não precisava: sapato, camisa social, calça elegante, comida cara, moradia luxuosa, emprego fixo, carro, bicicleta, relógio, telefone.

Do que ele precisava: (antes da internet) jornal, revista, dicionário (muitos), sacolinha de plástico, banca de jornal, livros, escritório para filar Coca-Cola, amigos, estádio de futebol; (depois da internet) iPad, assinaturas da imprensa nacional e internacional, escritório para filar computador, escritório para filar wi-fi, escritório para filar impressora, escritório para filar Coca-Cola, amigos, estádio de futebol.

Na redação da piauí, por exemplo, ele aparecia quase todo dia. Era alto, grande e desengonçado – “um elefante benigno”, como o descreveu um jornalista inglês –, e, de suas inúmeras e espantosas qualidades, não fazia parte o dom de passar despercebido. O que não o impedia de tentar, cautela que se explicava por receio de ser posto para fora por algum jornalista agoniado às voltas com um prazo fatal. A fim de inspecionar a área (soubemos disso outro dia mesmo), Gontijo telefonava (de um orelhão, se estivesse na rua) a um dos nossos jovens repórteres, Tiago Coelho, e perguntava: 1) Quem estava na redação; 2) Se a barra estava limpa. Coelho tem a voz ribombante de um barítono. Ao ouvi-lo declinar à moda de Rigoletto o terceiro nome dos presentes, Gontijo intervinha: “Seja mais discreto.” Convinha não fazer marola.

Mapeado o terreno, punha-se a caminho. Há uma meia parede entre a saída do elevador e a redação. Gontijo perfilava-se ali e vinha entrando aos poucos, como um transatlântico despontando no Arpoador. Achava que devagarinho chamava menos atenção. Avistávamos barriga, mais barriga, nariz e finalmente ele por inteiro, fazendo o V da vitória como Churchill. Nessa hora, reparei muitas vezes, quem estava com o nariz enfiado num texto, quem estava de pé ou no telefone, quem conversava e mesmo quem estava de costas, todos sorríamos. Era uma infecção. É que uma coisa essencialmente boa acabava de entrar no recinto.

 

Conheci Alexandre Gontijo no início da década de 90. Jogávamos uma pelada no alto da Gávea e um dia ele apareceu, trazido por um amigo. Carregava uma sacolinha de supermercado da qual brotavam jornais estrangeiros amassadíssimos. Fui informado de que ele escrevia para um jornal de surfe chamado Now, onde era responsável pela coluna de variedades “Nowvidades” (“Denilson, surfista do Arpoador, é o novo ponta esquerda do Bonsucesso”). Como eu não era do surfe, engatamos uma conversa sobre futebol. “Eu sou Vasco”, respondeu à minha pergunta, deixando claro que tinha críticas à administração do clube: “Se Eurico Miranda entrasse na minha casa para perguntar: ‘Jovem, que passos devo tomar para reconduzir o Vasco à grandeza?’, eu lhe diria…”

Já não lembro o que ele diria; o que ficou e ficará para sempre foi a prosódia de tribuno antigo, o tom solene do pronunciamento – aquilo era sério – e o fato de aquele grandalhão que mal completara 20 anos referir-se a si mesmo como “Jovem”. Ficamos todos mesmerizados. Como o encontro estava se convertendo numa noite memorável, sugeri que incluísse uma notinha sobre a pelada na “Nowvidades”. Ele se surpreendeu. “Culto à personalidade não, João!”, repreendeu-me, grave, duas horas depois de me conhecer. Matou no ato o Stálin que existia em mim.

Na noite daquela segunda-feira, algumas coisas ficaram claras: que ele era o pior jogador de futebol do mundo; que dali por diante nós da pelada o chamaríamos de Jovem; que ele seria nosso amigo para o resto da vida.

 

Até meados dos anos 90, o Brasil se comunicava mal com o resto do mundo. Livros importados eram caros, bancas de jornal praticamente só vendiam publicações nacionais. Nesse quadro, era quase impossível saciar o apetite por notícias de fora, quesito em que a fome de Gontijo era pantagruélica. Romário, por exemplo, tinha ido para a Holanda em 1988. Como estaria se saindo por lá? Como aferir o impacto que estaria exercendo sobre o futebol batavo, e o futebol batavo sobre ele? Para responder a essas e tantas outras perguntas, Gontijo, ainda adolescente, saía pela cidade com sua sacolinha para fazer o giro nas companhias aéreas internacionais: KLM, Air France, Alitalia, British Airways, TAP, Iberia. Voltava para casa com os jornais velhos deixados a bordo e, municiado de uma coleção de dicionários, atirava-se a eles.

Era conhecido nas bancas da Zona Sul como Toco e, às vezes, Bigorna. A gente perguntava: “Cadê o Toco?” “Já passou”, o jornaleiro respondia, “deve estar a duas ou três bancas daqui.” Isso valia especialmente para aquelas bancas novas, grandes, onde o cliente podia entrar. Com uma revista estrangeira na mão, ele se postava na entrada, atravessado como uma tora (erudita) na boca estreita de um rio. Se de dia, geralmente descalço; se de tarde/noite, horários mais cerimoniosos, fazendo a concessão de um chinelo. Tinha se acertado com os jornaleiros, que o autorizavam a ler praticamente a banca toda antes de colocarem a mercadoria à venda.

Foi por essa época que passou a alimentar jornalistas com informações que só ele possuía. O primeiro contemplado talvez tenha sido Oldemário Touguinhó, um dos mais importantes cronistas esportivos do país, que em suas colunas no Jornal do Brasil o citava como “pesquisador de futebol”. Era o início da prática de passar adiante o que sabia e acumulara, numa escala épica que se tornaria lendária.

 

Do jornalista português Cristóvão Marques, no dia da morte de Alexandre: “Gontijo, decidi escrever o meu ‘até sempre’ em resposta ao primeiro de muitos (cerca de 2 500) e-mails que enviaste nos últimos dois anos. Tentei, durante horas, encontrar uma analogia para te definir, daquelas que usas oportuna e brilhantemente…” Marques arrisca um “és a mistura de Pelé e Garrincha”, mas logo admite que o amálgama fracassa: “Gontijo, tu não és a mistura de nada… Tu partilhas, desinteressadamente, o que tens de mais precioso, conhecimento e informação… e distribuis pelo mundo, sem esperar nada mais em troca que um gentil agradecimento… e persistes, vezes sem conta, mesmo que o obrigado nunca chegue.”

De fato, Gontijo, que tinha tão pouco, não guardava nada. O que juntava, distribuía. Os destinatários de seus apanhados diários da imprensa mundial – gente espalhada pelos quatro cantos do mundo – se espantavam com a precisão do material que recebiam. Para a turma do direito, tudo sobre STF, STJ, MP, varas, tribunais, alvarás, Lava Jato etc. Para a turma do futebol, notícias dos campeonatos mais vistosos ou obscuros. A uma pessoa interessada em questões de gênero e preocupada com os descaminhos do Brasil, enviava links sobre feminismo e sobre como a imprensa internacional enxergava as coisas por aqui. Abastecia outra amiga com reportagens sobre questões lésbicas e crimes passionais, temas de interesse dela. Mandava um arrazoado de “questões do Brasil Central” para uma amiga com família em Campo Grande.

Nada sob o céu lhe era estranho. Em 1997, Arthur Fontes e eu dirigimos uma série sobre futebol. No terceiro episódio, o jogador Paulo Cezar Caju sentava-se num quiosque da praia de Ipanema para acompanhar uma partida de futevôlei. Um dos jogadores era dono de um buldogue chamado Pilantra e, por motivos que agora me escapam, Pilantra se tornou personagem do programa. Vinte anos depois, em 8 de julho de 2017, um grupo de Undisclosed recipients – quantos seriam? – recebeu de Gontijo uma fotografia:

Vinha acompanhada da seguinte mensagem: “Descendente de Pilantra, cachorro que fez história no Futebol, e que morreu tragicamente afogado em uma piscina. O dono não se deixou abater e continua fechado com o Bulldoguismo.”

Tudo nessa mensagem é maravilhoso: o insólito do tema, a seriedade do tratamento, o desvio tragicômico (o afogamento de Pilantra), o desfecho memorável (“continua fechado com o Bulldoguismo”). É uma destilação perfeita de Alexandre Gontijo.

 

Já quase no fim de 1994*, eu e um pequeno grupo de amigos, dentre os quais Gontijo, fomos a uma ilha de edição em Copacabana, assistir à versão definitiva do filme oficial sobre a Copa nos Estados Unidos. Produzido pela Fifa, o longa-metragem era dirigido por Murilo Salles, que agora, antes de bater o martelo, queria nossa opinião sobre o resultado.

Nós todos nos deliciávamos com a fita quando, lá pela metade, soou a voz de Gontijo: “Está errado.” Alguém apertou o pause. “O que está errado?”, um de nós perguntou. “A cartela que acabou de passar.” Voltaram a fita e pararam na tal cartela. A imagem mostrava um grupo de jogadores no vestiário da Holanda, cada qual identificado pelo nome. Apontando um sujeito no fundo do quadro, Gontijo proclamou: “Esse aqui está errado.” Não era nenhum protagonista da equipe – Bergkamp, Overmars –, mas um tipo obscuro, o reserva do reserva.

Na época ninguém dispunha do luxo de poder ir à rede e conferir se um rosto na tela era mesmo o de fulano. Ainda assim, Gontijo não tinha absolutamente nenhuma dúvida de que ali havia um erro de identificação. Aquele era beltrano, não fulano. E era, de fato, como se verificou a tempo. O filme da Copa não causou vexame nos Países Baixos.

 

 

Homem-Areia era outro apelido de juventude, esse do surfe, do tempo em que corria as praias atrás de notas para a “Nowvidades” (como sua coordenação motora era, digamos, sofrível, que eu saiba nunca aprendeu a nadar). Morava no Leblon, bairro que percorria “incrivelmente descalço”, como um índio ou um ser “meio Samoa”, nas palavras de amigos, perfeitamente indiferente aos protocolos da Zona Sul elegante.

Gostava de crianças e animais. Podia contar com a reciprocidade das primeiras – a meninada adorava sua mansidão de gigante – e não sempre com a dos segundos. Tive vários cachorros e nem todos quiseram travar amizade com ele. Gontijo não se melindrava. Certa vez, viajamos de carro para passar a Páscoa numa casa à beira-mar. Além das crianças, fazia parte do grupo um akita chamado Batata. Na ida, os dois até que se entenderam, com Batata olhando fixo para Gontijo durante quase todo o trajeto.

Chegando lá, Gontijo gostou do que viu e, de si para si, comentou que “a sede marítima do clube tem estrutura”. Passou parte do sábado encarapitado no topo de um rochedo que brotava do mar, numa versão cabocla da Pequena Sereia de Copenhague.

Veio o domingo e, com ele, a caça aos ovos. Ambos, Gontijo e Batata, entenderam que o sistema era meritocrático: criança, cachorro, convidado, o chocolate seria de quem achasse primeiro. Gontijo avisou Batata e as crianças: “Isso aqui não é amistoso.” Batata era rápido; ele, apenas forte. Às tantas, cachorro e amigo sumiram num arbusto. Batata logo reapareceu traçando uma parábola no ar. Foi a melhor Páscoa das crianças, ainda que não a de Batata.

 

Joel Santana treinou os quatro grandes clubes cariocas. Costumava chegar quando o time ia mal e, sem fazer grandes mudanças, reerguia o moral da equipe e abocanhava o campeonato estadual, que venceu com cada um deles. Chamavam-no então para dirigir clubes mais ricos, geralmente em São Paulo, mas, sendo melhor na escassez do que na opulência, a mágica não se repetia. Era um fenômeno intrigante à espera de decifração. Certa noite, voltávamos depois de uma partida em que um Botafogo limitadíssimo jogara particularmente bem, quando Gontijo disse: “Joel Santana é o Sebastião Salgado do futebol brasileiro.” “Como?”, perguntamos todos no carro. “Ninguém fotografa melhor a pobreza”, explicou, como se fosse óbvio. Era, claro, mas precisava que alguém tivesse pensado.

Gontijo tinha o dom de esclarecer a confusão com uma única frase luminosa. Era como um clarão. Confiados ao papel, seus aforismos e imagens fariam dele um desses personagens lendários da crônica carioca. Infelizmente, Gontijo era tão informal quanto o Rio de Janeiro e falar para a posteridade não passava pela cabeça dele. Seus ditos tinham existência apenas oral, nasciam e morriam nos estádios, nos botequins, nos carros, na casa da gente. Ele falava assim, sem esforço ou consciência de si. Cada um de nós tem a sua antologia pessoal de gontijismos.

Toda vez que eu saía para escrever uma crônica sobre o Botafogo – foram várias – cuidava de levá-lo comigo. Era garantia de aspas memoráveis, e tantas que eu as distribuía entre vários personagens, com Gontijo se desdobrando em “um torcedor a meu lado”, “outro torcedor”, “um torcedor mais lírico” etc.

O árbitro marcava uma falta inexistente na boca da nossa área e Gontijo soltava de bate-pronto: “Esse juiz recebeu procuração do Lobo Mau.” O árbitro não marcava uma falta na boca da área deles e Gontijo concluía: “Ele só legislará a favor do Botafogo no dia em que o sargento Garcia der voz de prisão para o Zorro.” Leandrão, atacante precaríssimo, recebia uma falta, ia ao chão e lá ficava, inerte. Na crônica correspondente, escrevi: “Um torcedor faz seus cálculos: ‘Morreu.’ Outro: ‘O Misericordioso se lembrou dele na hora do ofício.’ E Alexandre Gontijo: ‘O que é Bob Kennedy no chão comparado a Leandrão no gramado?’” (A segunda frase também era dele.)

Sobre Jonílson, cabeça de área cuja dedicação ao esporte só não era maior do que sua inabilidade para praticá-lo, Gontijo explicava: “Jonílson não tem um bom relacionamento com o elemento esférico.” Jonílson jogava no time de 2005, uma equipe de pouca técnica, mas com disposição comovente para correr o tempo todo. Contemplando aquele espetáculo de suor e dedicação, Gontijo sentenciou: “O jogador do Botafogo é antes de tudo um membro da população economicamente ativa do Brasil.” Numa só partida daquele ano, seu quadro de referências foi do marxismo – “A mais-valia do Botafogo são onze leões famintos” (máxima que atribuí a “um conhecido com simpatias marxistas”, o que era falso) – a Max Weber – “O Botafogo não quer luxos, é o futebol como lógica protestante”.

Havia também citações históricas. Quando, ainda em 2005, em substituição ao Caio Martins – nosso pequeno estádio em Niterói –, o Botafogo jogou pela primeira vez na Arena Petrobras, sua nova casa na Ilha do Governador, perguntei a Gontijo como era. “Grande”, suspirou enquanto nos aproximávamos de lá. “Há problemas graves de comunicação. No Caio Martins, em caso de incompetência gritante a torcida pode olhar no olho do treinador e dizer o que pensa. E com o bandeirinha, se necessário, faz-se um Francisco Ferdinando.” Referia-se ao arquiduque da Áustria e seu triste fim em Sarajevo. Como fiquei meio pra baixo, Gontijo deu uma guinada bíblica: “Mas, olha, a Ilha pode não ser a manjedoura, mas no mínimo é o rio Nilo.” Imediatamente sorri. É que, para nós, botafoguenses, se Cristo era Garrincha, Moisés era Nilton Santos – e, na época, Moisés ainda era vivo e morava na Ilha.

De todos os seus símiles, o que mais admirei, pela precisão, rapidez de raciocínio e consequências morais, foi o enunciado em 1998, numa tarde de sol no Caio Martins. O jogador Bebeto driblou meia defesa adversária e chutou para o gol, com o goleiro já batido. A bola saiu fraquinha, mas na direção certa. Quando estava prestes a entrar, Túlio, ídolo botafoguense e sobretudo espertalhão, apareceu não se sabe de onde, encostou o pé na bola, empurrou-a para o fundo da rede e, ato contínuo, erguendo os braços, veio comemorar a façanha perto do alambrado, com a torcida histérica. Era demais, Gontijo não se conteve. Atirou-se na cerca e, possesso, berrou a um palmo do nariz de Túlio: “Farsante! Você comemorar esse gol é como o filho do Rockefeller sair por aí gritando ‘Eu fiz a América! Eu fiz a América!’” Houve um silêncio. A imagem era complexa e precisava de tempo para ser assimilada. Túlio olhava para os lados, meio confuso, querendo saber se estava direito prosseguir na comemoração. O ídolo ainda tinha o dedinho espetado no ar quando, aos poucos, um burburinho foi brotando da arquibancada, inchando cada vez mais, até explodir numa das vaias mais estrepitosas da história de Niterói.

Gontijo também sabia como dói uma derrota. Era solidário e punha a amizade acima do Vasco. Em 2008, o Fluminense perdeu no Maracanã a final da Libertadores para um time equatoriano. Vendo o desamparo do amigo Gustavo Albuquerque, Gontijo se aproximou. Albuquerque escreveu: “Sofreu como eu sofri e quando percebeu que suas metáforas não funcionariam, ao menos ali, naquele momento, disse-me uma frase que até hoje me atormenta: ‘O Fluminense é maior que essa morte.’”

 

Em meados da década de 90, meu amigo João Gondim e eu decidimos convidar Gontijo para uma viagem aos Estados Unidos. Seria a segunda vez que ele deixaria o país. Na primeira, em 1993, partira sozinho, numa espécie de peregrinação aos grandes estádios de futebol da Inglaterra. Até onde sei, não assistiu a nenhuma partida – os ingressos eram caros –, o que não chegava a ser problema. Fundamental mesmo era pisar a grama em que o esporte nascera. Voltou iluminado, dizendo que poucas coisas o haviam comovido tanto quanto entrar em Wembley.

Os Estados Unidos não eram propriamente um destino dos sonhos. Com exceção do surfe, Gontijo não via muita graça nos esportes praticados por lá, mas era o que estava à mão e ele abraçou a oportunidade com o entusiasmo de um Borba Gato às vésperas de uma bandeira (imagem dele, não minha). Ia com dois de seus melhores amigos e, além do mais, era de graça.

Alertamos que a imigração poderia ser meio tensa. Tinha muito brasileiro jovem, solteiro e sem emprego fixo entrando com visto de turista para ficar. Fizemos um rápido treinamento de como ele deveria se comportar diante do guarda de fronteira, pedimos que tivesse à mão a passagem de volta e contas de luz e gás em seu nome. Como medida adicional, atochamos na sua carteira um maço de travellers checks, a ser exibido caso desconfiassem da capacidade dele de se manter no país pela duração da nossa breve estadia.

Gontijo, impecável, foi liberado mais rápido do que Gondim e eu. Nós o encontramos na esteira de bagagem. “Como foi?”, perguntei. “Como Pelé diante de um zagueiro da Lusa.” Foi necessário o hiato habitual para decodificar. Ah, sim, tinha passado liso.

Vieram as malas. A minha, a de Gondim e, por fim, a dele, inconfundível em seu estado terminal. Entramos no táxi e pedimos para o motorista tocar para Manhattan. Foi quando Gontijo me passou um pacotinho. “Que pacotinho é esse?”, perguntei. “É teu, caiu quando a gente pegou as malas.” E explicou: ao tirar a mala da esteira, percebeu aquilo no chão, viu o que tinha dentro e concluiu que era meu. Como eu tinha ido ao banheiro, estava devolvendo agora.

Abri o pacotinho. Eram cinco maços de reais, mil reais em cada maço, cada maço envolto numa cinta do Unibanco, instituição fundada por meu pai. “Não é meu, Gontijo, nunca vi isso.” Os olhos dele brilharam. Gaguejando, virou-se para Gondim e sussurrou: “Era tudo verdade. Isso aqui é mesmo a terra das oportunidades. Cheguei faz menos de meia hora e já fiz a América!”

Em tempos de paridade entre o real e o dólar, ele agora tinha em mãos mais dinheiro do que jamais dispusera de uma só vez na vida. No táxi mesmo explicamos que ele não podia ficar com o dinheiro. Ou, pelo menos, não por enquanto. Abraçado ao pacotinho, Gontijo ainda ensaiou uns gaguejos e só se comoveu quando levantamos a hipótese, absurda mas eficaz, de que aquele valor talvez se destinasse a custear o transplante de medula de uma criança. Então combinamos que avisaríamos o Achados e Perdidos do aeroporto, mas não revelaríamos nem o valor nem a moeda; se não aparecesse ninguém para reclamar os 5 mil reais, Gontijo embolsaria o tesouro.

Foi com evidente ansiedade que, durante os dias seguintes, por insistência nossa, ele se resignou a acionar o viva-voz e discar o número do aeroporto. Com olhos suplicantes, tentava desligar depois de dois ou três toques: “Não tem ninguém…” Nós não deixávamos. Falou com o atendente um dia, dois, três. No quarto, 24 de dezembro, a pessoa do outro lado da linha deu um basta: “Se não apareceu ninguém até agora, não vai aparecer mais. É Natal, meu filho, fique com o dinheiro.” “Obrigado”, agradeceu em português mesmo, comovidíssimo.

Os dias que se seguiram foram dedicados a conhecer as bancas de Nova York. Com dinheiro no bolso, Gontijo visitou o maior número delas e fez amigos em todas. Saía cedo com sua sacolinha vazia e voltava na hora do almoço com pilhas de jornais e revistas. Nada muito diferente da rotina dele no Rio. Quem o visse em Nova York reconheceria “aquela figura imponente e dócil, quase um Obelix moreno, carregando livros, jornais e revistas no lugar do menir”, na descrição de Julio Adler, amigo dos tempos do surfe.

Fomos de carro até Cambridge, onde ele se deslumbrou com o prédio da Faculdade de Direito de Harvard. No campo jurídico, outra paixão avassaladora, aquilo era Wembley, comparação que ele estabeleceu ali mesmo com uma nota de emoção na voz. Como julgava as cidades pela qualidade das bancas, considerou Cambridge bastante superior a Nova York, abaixo apenas de Ipanema.

Na véspera de voltarmos para o Brasil, meio por falta do que fazer, fomos ver um filme da franquia Senhor dos Anéis. Como não conhecíamos os anteriores, não dava para entender bem a história. Lembro-me apenas do comentário de Gontijo quando já estávamos de saco cheio daquele idílio rural na tal aldeia dos Hobbits: “Eles vão ver o que é bom quando o MST chegar na região.” (Se não me engano, também observou que o pé dos Hobbits era parecido com o dele.)

 

Do que vivia Gontijo? Até os 20 e tantos anos, seria fácil explicar: das notas que publicava no jornal de surfe e, sobretudo, da mesada modesta que recebia dos pais, pequenos proprietários no interior de Minas. Além disso, querido de tanta gente, tinha boa parte da vida social – bar, restaurante, cinema, estádio – bancada pelos amigos. (Mais tarde, creio, pagava as contas com a renda de uma pequena herança.)

Formou-se em direito. Chegou a trabalhar no escritório de um amigo meu, que lhe pagava um salário com a condição de que não assumisse nenhuma grande responsabilidade. Gontijo era estruturalmente incapaz de não perder petições, não amassar processos, não manchar documentos ou não perder injunções. Aparecia lá todos os dias, deixava meu amigo feliz e pronto, era o suficiente.

Anos depois, quando o escritório se expandira e meu amigo já não era o único sócio, um administrador mais zeloso levou a questão do salário ao conselho, que cortou o provento. Gontijo não ligou e, como era de seu feitio, continuou a frequentar o escritório. Entrava, abria a geladeira e pegava o que estava à mão – Coca, mate, uma banana. Quando o administrador foi reclamar com meu amigo, ouviu de volta: “Admito o corte do salário, mas vamos deixar bem claro: ele vai continuar, sim, a frequentar o escritório, a tomar o meu mate e a comer a minha fruta. E quem mexer com ele vai ter que se haver comigo.”

Por essa mesma época, em outro ponto da cidade, o escritório de advocacia de Sergio Bermudes, um dos maiores do país, reuniu o conselho para deliberar, entre outros tópicos, se Gontijo podia continuar a usar o telefone para fazer ligações internacionais e a imprimir as coisas dele lá. Decidiram que sim.

 

Gustavo Albuquerque, o amigo tricolor, escreveu que “Alexandre Gontijo já foi visto ao mesmo tempo, mais de uma vez, em lugares diferentes por pessoas distintas”. Sim. Para muitos cariocas, Ipanema e Leblon se caracterizavam menos pelos clichês habituais – berço da bossa nova, orla deslumbrante, boemia – e mais simplesmente por ser o lugar onde a gente esbarrava com o Gontijo.

Apesar de corriqueira, a experiência nunca deixou de ser misteriosa. A gente ia no BB Lanches e ele aparecia. Passava em frente ao bar Jobi e ele aparecia. Entrava numa banca e ele estava lá. Dobrava uma esquina e dava com ele. Num texto afetuoso na Folha de S.Paulo, Ruy Castro contou que de manhã vivia topando com ele no calçadão, “ou, a qualquer hora, perto de uma livraria ou uma banca de jornais”.

Nessas ocasiões, costumava engatar a conversa pelo meio, do ponto em que estava seu raciocínio. Gontijo não tinha lide. Minha mulher, Branca, caminhava um dia pelo Leblon quando o viu se aproximar na direção contrária. A dois passos dela, ele perguntou: “Time Aniston ou time Jolie?” Respeitado o tempo regulamentar para cair a ficha, Branca respondeu e Gontijo seguiu adiante. Foi a soma total da interação deles naquele dia.

Gontijo também se materializava nos estádios de futebol. A gente o via antes das partidas, quando saía do setor da imprensa para vir conversar conosco. Ou então depois, no intervalo. E se não no intervalo, então nos últimos minutos da partida. E se não nos últimos minutos, então na saída do estádio, quando aparecia do nada atrás de uma carona.

Comemorei meus 40 anos indo com ele a Fortaleza para assistir a uma partida da Seleção Brasileira e perdi a conta das vezes em que fomos juntos ver o Botafogo jogar. Embora ele fosse Vasco, qualquer jogo era jogo e qualquer programa, programa. “Eu sou a favor do espetáculo”, dizia. Vimos no Pacaembu a final do Campeonato Brasileiro de 1995. Em Caxias do Sul, assistimos à primeira partida da final da Copa do Brasil de 1999. Fomos à Argentina para um jogo trágico contra o River Plate. Ele foi o meu mais fiel companheiro de Caio Martins durante a campanha da série B em 2003.

Em muitas dessas ocasiões, nossos amigos e eu marcávamos com ele um ponto de encontro na Zona Sul, para dali seguirmos juntos até o estádio. Quando passávamos para pegá-lo, ele não estava. Desistíamos de esperar, íamos adiante e vinte quadras à frente, na mais improvável das esquinas, lá estava ele, sereno feito um coala, de sacolinha na mão e nariz enfiado na biografia de um jogador turco, como se aquele fosse o ponto combinado. Dava certo invariavelmente, o que era outro enigma.

Havendo um almoço ou jantar, Gontijo também aparecia, mesmo se a combinação tivesse sido feita meia hora antes, na ausência dele. Um dia, éramos quatro no Bar Lagoa quando alguém se lembrou de chamá-lo. Um de nós já ia sacando o telefone quando Gontijo despontou na calçada. Batemos palmas.

Talvez só o Misericordioso – outra expressão dele – dominasse tão bem o dom da ubiquidade. O médico José Kezen levantou a hipótese de que ele tinha hologramas espalhados pela cidade, os da rua Dias Ferreira e do Maracanã sendo permanentes: “Você estava na praia junto à areia… ele aparecia, no calçadão… ele aparecia, em algum hospital… ele aparecia, em Copacabana… aparecia também, no Centro… sempre.” De um amigo que tentava levantar o ânimo da tropa desconsolada, Kezen ouviu esta pérola: “Calma, gente, morreu um Gontijo só, os outros cinco ainda estão por aí, já, já, vamos encontrar um deles!”

 

Flora Thomson-DeVeaux, jovem brasilianista que o conheceu logo depois de chegar no Brasil, em 2011, achou 2 mil e-mails que recebeu dele, um dos quais “com o assunto ‘Minha vida no NYT’, mostrando zero resultados para ‘Alexandre Gontijo’” – nota típica do humor autodepreciativo dele. E ela escreve: “Só agora descubro o hábito dele de contribuir com perguntas durante entrevistas digitais em língua espanhola.”

Gontijo foi mesmo um assíduo participante de entrevistas virtuais. Fazia perguntas a quem estivesse disposto a respondê-las. Para Vargas Llosa: “¿Está de acuerdo en que un gran libro no es una buena película?” Para o técnico do Atlético de Madri: “¿Ha visto Underground, te gusta Emil Kustrica e lo cine yuguslavo?” (o homem era daquela parte do mundo). Para a secretária-geral da união dos estudantes da Espanha: “¿Hay mucha trampa en la politica estudantil??????”

Fonte de centenas de jornalistas daqui e do exterior, deixou rastros pela internet inteira. “Tite doesn’t do self-regard”, declara a um jornal americano, sem que se saiba bem o que está querendo dizer; como se trata de um elogio, não cabe supor que Tite “não tem amor-próprio”; mais provável é que falta de vaidade seja o assunto, interpretação sustentada pelo arremate: “He doesn’t think like Louis Quatorze.”[1] Rio pós-Olimpíadas: “It’s Sarajevo.” O estado do futebol jogado por aqui: “Brazilian football is living a film noir of Ingmar Bergman.”[2] Dunga: “‘Dat is typisch voor Dunga, die egelstelling en die mentaliteit van een vechtjas,’ zegt Alexandre Gontijo, een Braziliaanse voetbalexpert van Globo” – o que, se o Google tradutor tem alguma serventia, significa que Gontijo compara Dunga a um ouriço.

Num blog dedicado a notícias sobre o clube inglês Arsenal, Gontijo afirma que Adriano “is RoboCop”, que a Austrália “is Mickey Mouse” (puro enigma) e que o ex-jogador do Fluminense Lenny Coelho “is Imelda Marcos”, o que até hoje deve deixar perplexos os leitores do Arsenal News, os admiradores de Lenny e os familiares de Imelda (fui checar e, não, Lenny não tinha uma coleção extravagante de chuteiras).

 

Algumas das matérias que mencionei foram assinadas pelo jornalista indiano-belga (Gontijo diria “indo-batavo”) Samindra Kunti. No dia 14 de julho, Kunti estava em Moscou cobrindo o jogo Bélgica versus Inglaterra, penúltima partida da Copa. Como tantos outros jornalistas, recebera de Alexandre naquela manhã, madrugada aqui, uma mensagem com um apanhado do que a imprensa internacional dizia sobre a partida. Mais tarde, escreveria que essas mensagens vinham apinhadas de sabedoria e que, ao longo de quatro anos, havia recebido mais de 4 mil delas. “Mas Alexandre era mais do que isso”, disse, observando que Gontijo não se definia apenas pelo “conhecimento enciclopédico ou pelo desejo insaciável de ler e compartilhar seus gentis ensinamentos sobre futebol”. Sua virtude maior, escreveu, era uma capacidade infinita de nos fazer gostar dele. “Ele era gloriosamente adorável.”

Pelo Facebook, Kunti soube que Gontijo vinha de morrer. Tentou vir para o Brasil no mesmo dia. Não conseguiu. Tomou então quatro voos e, depois de várias escalas, chegou ao Rio a tempo para a missa de sétimo dia. No trajeto, passou a informação adiante. Um dos primeiros a responder foi Zico: “Sam, não sabia. Estou em Chicago e só volto dia 24. Que merda. Senti falta das mensagens dele no final da Copa, mas nunca poderia imaginar uma notícia dessas.” “Ser humano incrível”, escreveu Dunga, “sou grato a tudo que fez por mim e muito mais pela sua amizade.” Num grupo de treinadores no WhatsApp, Parreira louvou o “querido amigo”: “Não havia ninguém tão bem informado e generoso.”

Eu nunca soube que Gontijo era amigo dessa gente toda. Muitas de suas fontes eram cultivadas por ele desde cedo. Estava lá, presente, no início de carreiras que só mais tarde se revelariam fulgurantes. “Ninguém fica amigo do rei no dia da coroação”, disse uma vez, no Maracanã, ao jornalista Pedro Motta Gueiros, que se espantara com a disposição dele em esperar até depois da meia-noite para puxar conversa com o técnico pouco celebrado do time visitante.

 

Assisti a cinco copas na companhia de Gontijo, quase todas na minha casa, começando pela de 94, nos Estados Unidos. Circunstâncias de trabalho me impediram de repetir a dose na Copa da Rússia, mas fizemos uma coisa quase melhor: gravamos um podcast[3]. Com outros dois amigos – Flora, a brasilianista, e o jovem repórter João Brizzi –, nos reunimos para falar das seleções menos festejadas do Mundial. É o melhor registro (e um dos únicos) da prosódia e do raciocínio singular de Gontijo. O que mais admiro não é a graça das suas tiradas, mas a candura do seu sentimento. Quando, no primeiro programa, ele afirma que só deseja que o Panamá não tome três goleadas de 5 a 0 porque “o povo panamenho merece ser feliz e alegre durante a Copa do Mundo”, a frase, em princípio ingênua, é tocante por não conter um pingo de ironia. Era exatamente o que ele desejava, de coração. Na Copa das Confederações realizada aqui no Brasil, em 2013, ele foi se solidarizar com a equipe do Taiti – que sofreu 24 gols em três jogos – e comemorou com eles, como se não houvesse amanhã, o único gol que fizeram contra a Nigéria.

Na imprensa britânica é possível encontrar pelo menos dois artigos que registram com perplexidade a existência de um brasileiro que professa amor incondicional pelo futebol brucutu daquelas paragens. No escocês Scotsman, depois de receber do nada uma mensagem com loas aos clubes de lá, um repórter quis saber se “Alexandre Gontijo was for real”[4]. Por que alguém nascido no país tetracampeão (o artigo é de 2001) dedicaria tempo ao Dundee e ao Aberdeen? Na resposta, Gontijo informa que acabara de almoçar – típico detalhe à margem do tema, o que desorienta ainda mais o jornalista – e então justifica: “Your football is crazy, boring but lovely, yes?”[5]

Essa não distinção entre grandes e pequenos era um dos traços mais encantadores da personalidade dele. Ao lado de Eduardo Coutinho, Gontijo foi a pessoa mais democrática que conheci. Jonílson e Cristiano Ronaldo tinham para ele o mesmo interesse. Por isso o podcast funcionou. Quando ele falava da “adorável Viviane, a grande viúva do futebol africano” (ouçam, quarto episódio) ou “desse magistral profissional da mente” (o psicólogo da equipe saudita), era sincero. Seleções do Marrocos, Tunísia, Costa Rica, Senegal, Irã, Panamá, Islândia – Gontijo encontrava boas razões para admirar cada uma delas.

Na vida era igual. Conhecia gente muito bem-sucedida e gente que se deu mal. Foi amigo de gente careta e de adictos. De gente bem-comportada e de devassos. De ricos e pobres, famosos e anônimos. Nunca o vi mudar de atitude diante de uns e de outros. Tinha amigos na cadeia que, presos por porte de drogas, visitava na maior discrição para que a notícia não se espalhasse (quando perguntávamos onde estava fulano ou beltrano, não abria a boca). No dia do velório me contaram que, ao saber que Gontijo mandava lembranças, um preso da Lava Jato chorou feito criança.

Não julgava. Tempos atrás, um amigo comum desfez o casamento sólido de anos e se casou de novo. Recebeu de Gontijo uma tábua de cortar carne com um pequeno relógio analógico embutido e a imagem de um singelo cachorrinho. O cartão, em vez de evitar a expressão “segundo casamento”, como fizeram os demais, celebrava abertamente as suas maravilhas. Falava em segunda chance, agora vai – tudo o que nosso amigo precisava ouvir. Gontijo encerrava com votos de sucesso no “lazer íntimo” durante a lua de mel.

Em 15 de julho, alguém chamado Denílson Guerra Santos escreveu no Facebook dele: “Valeu gontijo obrigado pela sua companhia dia 8 no meu táxi Falamos de futebol/levei você até o Leblon você vai fazer Muita falta: descanse em paz.”

 

Tuíte de Tim Vickery, jornalista inglês baseado no Rio de Janeiro, no dia do velório: “Tantos minutos de silêncio antes dos jogos. Hoje, em São Janu deveria ter uma hora de silêncio (com aplausos e festas permitidas) para comemorar a vida nada medíocre de Alexandre Abreu Gontijo.” E depois: “Ou que tal uma inversão? Um minuto de jogo e 90 minutos para comemorar Gontijo?”

 

Embora se dissesse um liberal – foi dos primeiros a ler as 1 476 páginas de Lanterna na Popa, a autobiografia do ex-ministro Roberto Campos –, Gontijo não tinha uma concepção funcional de propriedade. Se a Coca e a banana dos outros também eram dele, as informações que colhia eram de todos. Distribuía-as como dádivas, vivendo não propriamente numa economia de mercado, mas numa economia de doação. Se aqui e ali se apropriava dos nossos víveres – miudezas sempre, nunca nada de valor, e sempre à vista de todos –, contrapunha a isso a compulsão por dar, ainda que tendo apenas coisas imateriais a oferecer. Iam dos gestos mais tocantes de amizade – dormiu dias ao lado de um amigo que passava por uma barra-pesada para impedir que cometesse besteira – à compilação diária de notícias distribuídas urbi et orbi, à alegria fulgurante de seus aforismos. Passava tudo adiante sem promessa ou expectativa de retribuição, ainda que certamente tenha sido rechaçado mais de uma vez por gente que desconfiou dele ou se assustou com seu jeitão extravagante.

Era mesmo difícil explicá-lo. Num texto em inglês publicado no site da Associação Internacional de Imprensa Esportiva, Tim Vickery conta que, numa visita de seu irmão ao Rio, apresentou-o a Gontijo. Estranhando a figura, o irmão lhe perguntaria depois: “O que ele faz mesmo?” Vickery respondeu que a pergunta errava o alvo: “Gontijo não fazia. Ele era. Sua vida era uma performance, o espetáculo de uma excentricidade gloriosamente espontânea, proveniente da mais gentil das almas.”

 

Gontijo era um amigo sem fins lucrativos. Ele não servia para avançar a carreira. Claro, era possível fazer uso profissional das informações que ele fornecia, mas eram tantas e tão variadas, e boa parte delas tão esplendidamente absurdas – “‘Por que aceitei fazer uma cena de nu frontal’, conta a atriz de O Lobo de Wall Street”, essa de 2014, do inglês Daily Mail –, que o mais natural era nos perdermos nelas. O trabalho ficava em suspenso enquanto éramos abduzidos pelas tangentes do seu pensamento. E, quando ele aparecia onde a gente batia ponto, o fluxo se interrompia. Antes que a palavra virasse moda, Gontijo já era disruptivo. Perdia-se tempo com ele, o que significa que os pragmáticos não o sacavam. Tenho a convicção de que muito do que o tornava uma pessoa tão maravilhosa era esse elemento do desperdício, como se ele introduzisse uma cunha nas engrenagens da vida vivida à base de cálculo e estratégia. Nunca conheci ninguém tão despreparado para a vida prática e tão pouco útil para fazer o mundo girar. Mas exatamente por isso, por não servir à produção, ele nos retirava dos deveres da eficiência, e nesse hiato entrávamos em outro registro – menos valorizado mas tão humano quanto o do trabalho – que na falta de palavra melhor vou chamar de gozo.  O gozo da conversa fiada, da amizade, do intangível. Gozo de quem esbanja o tempo. No fim das contas, ele era um homem livre e derramava um pouco da sua liberdade sobre nós.

Gontijo cruzava com um conhecido na rua e mudava de direção para poder acompanhá-lo até o destino. Um jovem repórter da revista, recém-transplantado de São Paulo para o Rio, me contou que muitas vezes, no fim do expediente, noite já caída, Gontijo o levou até a porta de casa apenas para que não fosse sozinho. Levava sempre outra repórter até o carro estacionado na Lagoa, para conversar e protegê-la.

Difícil exagerar como isso era importante. O cara passou boa parte da vida sem um trabalho formal e ainda assim era essencial para meio Rio de Janeiro. Mereceu obituário no Globo e menção ao vivo, lá da Rússia, na principal mesa-redonda do SporTV. O velório reuniu gente do futebol, do surfe, do jornalismo, do direito. O conjunto de advogados presentes constituía um catálogo dos maiores da profissão. No final, quando o levaram embora, alguns se abraçaram e, nos braços uns dos outros, soluçaram feito criança. Horas mais tarde seriam chamados a advogar para ministros, empresários imensos, financistas hegemônicos.

Vendo aquilo, pensei que tem muita gente bacana por aí. Não só porque gostar de Gontijo era gostar desinteressadamente, o que não deixa de ser um bom traço de caráter, mas também porque era sinal de amor aos excêntricos do mundo. Gontijo deve ter sofrido muito bullying. O tipo físico, a dislexia motora, a gagueira, o raciocínio original, nada disso deve ter facilitado a vida para ele. Não é um despropósito imaginar que quem gostava dele pertencia à turma daqueles que, mais jovens, o teriam protegido dos valentões idiotas (cumprimentos à turma do surfe, que o acolheu quando ainda era menino). Nesse sentido, ele ajudava a identificar a turma legal. Um tanto narcisicamente, nos sentíamos bem por fazer parte dela. Nos dias posteriores à sua morte, descobrimos que existia pelo mundo uma ordem tão secreta que nem nós, seus integrantes, tínhamos nos dado conta. Pertencíamos todos à Ordem dos Alexandrinos, e foi bom saber disso.

Os alexandrinos se reuniram uma última vez para a missa de sétimo dia. Éramos apenas nós, os amigos das várias tribos, pois a família havia retornado a Minas Gerais. No final, diante daquela desolação, um de nós comentou: “Nunca tinha ido a uma missa de sétimo dia em que todo mundo é destinatário de abraços e consolo.”

Gontijo não viu a final da Copa. Morreu um dia antes. Duas horas depois de cair no chão do pronto-socorro fulminado pelo ataque cardíaco, Bélgica e Inglaterra entraram em campo para disputar o terceiro e quarto lugares. Quando já vencia por 2 a 0, no final do segundo tempo, a Bélgica produziu um espanto. Em catorze segundos e apenas oito passes, dois deles de calcanhar, Vertonghen, Hazard, De Bruyne, Mertens e Meunier levaram a bola da própria defesa até a área adversária, onde Mertens desferiu um chute de voleio contra o arco inglês. Foi o mais bonito contra-ataque de toda a Copa, um prodígio de velocidade e destreza, mas não resultou em gol, porque o goleiro Pickford, operando um milagre (mais um nessa jogada), barrou a entrada da bola. À noite, assistindo ao replay depois de voltar do hospital, achei que era a mais justa homenagem ao Gontijo. Pura beleza, gratuita, sem lucros.

No final do terceiro episódio do podcast, Gontijo, falando ainda no microfone, se despediu assim de seus três amigos de estúdio: “Estar em companhia tão maravilhosa e qualificada em momentos como esse justifica a gente estar vivo.”

E como.


* Trecho incluído somente na versão digital.

[1] Ele não pensa como Luís XIV.

[2] O futebol brasileiro está vivendo um film noir de Ingmar Bergman.

[3] Programa da Rádio Piauí, Tudo o que você não quer e não precisa saber sobre a Copa.

[4] Se “Alexandre Gontijo existia mesmo”.

[5] “O futebol de vocês é maluco, tedioso mas adorável, não?”

João Moreira Salles

João Moreira Salles é documentarista e editor da piauí. Dirigiu Santiago, Entreatos e Nelson Freire, entre outros

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