esquina

Alforria equina

A escolha dos petropolitanos

Roberto Kaz
ANDRÉS SANDOVAL_2018

O destino dos cavalos Ventania, Tigrão e Inédito foi selado no dia da votação do primeiro turno da eleição presidencial. É que em Petrópolis – a cidade da serra fluminense que servia de repouso para a família imperial –, os 243 mil eleitores precisaram fazer um voto extra, além de escolherem deputados, senadores, governador e presidente. “Você é a favor ou contra o uso de tração animal nos passeios turísticos realizados pelas charretes no município de Petrópolis?”, perguntava a urna eletrônica, antes de dar o escrutínio por encerrado. Quem fosse a favor apertava 1; quem fosse contra digitava 2. A segunda opção – a da alforria equina – venceu com 68,5% dos votos válidos.

“A pergunta estava mal formulada”, reclamou o vereador pelo PTB Wanderley Taboada, que defende a permanência da tração animal. “As pessoas acabavam anulando ou votando errado.” Taboada reclamou da data escolhida – “Não podia ter acontecido junto com a eleição, são assuntos diferentes” – e da estratégia adotada pela chapa adversária: “Mostraram fotos de cavalos feridos que nem eram da cidade. Pode ver em frente ao Museu Imperial, não tem animal sangrando.” Disse que o resultado prejudicaria o turismo. “A charrete é o segundo cartão-postal depois do museu. O que defendo é a história da minha cidade. Dom Pedro chegou aqui no lombo de um cavalo.”

Para pilotar uma charrete em Petrópolis, o condutor é obrigado a seguir uma série de regras determinadas pela prefeitura. Em primeiro lugar, precisa obter uma autorização da Companhia Petropolitana de Trânsito e Transportes. Depois, tem de se comprometer a seguir os trajetos e a cobrar os valores estipulados pela Fundação de Cultura e Turismo da cidade (o passeio custa entre 60 e 80 reais). Quanto aos cavalos, devem ser microchipados, dormir em abrigo com área de lazer, passar por exames veterinários e tomar vacinas periodicamente. Precisam também ser do sexo masculino, castrados, pesar no mínimo 200 quilos e comer ao menos três vezes ao dia. Toda charrete deve ser puxada por dois animais e ter espaço para quatro passageiros; todo condutor deve ter um cavalo suplente – algo como o terceiro piloto das escuderias de Fórmula 1.

 

A vereadora Gilda Beatriz, do MDB, contou que a contestação às charretes ganhou corpo de cinco anos para cá, quando do desmaio, em via pública, de um cavalo chamado Falcão (o animal estava raquítico devido a uma lesão renal). “Nem me elegi pela causa dos animais”, explicou a parlamentar, “mas fiquei atenta a esse tema, que gerou comoção.” O charreteiro responsável teve a licença cassada e foi condenado, em primeira instância, a oito meses de prisão em regime semiaberto.

Dois anos atrás, a vereadora apresentou um projeto de lei pedindo a extinção da atividade. O texto foi reprovado, mas serviu de semente para que outro vereador, Reinaldo Meirelles, do PP, aprovasse a convocação de um plebiscito. “Foi uma forma de a Câmara jogar a decisão para a população e não se desgastar”, contou a ativista Ana Cristina de Carvalho Ribeiro, de 62 anos, que preside uma ONG, a AnimaVida, responsável por dar assistência veterinária aos cavalos.

Com a ideia do plebiscito lançada, o ativista Domingos Galante Neto, de 53 anos, intensificou as postagens em seu grupo no Facebook, o Petrópolis SEM Charretes, cujo mote diz: “Os cavalos não merecem ser escravos, principalmente na cidade da princesa Isabel, que assinou a Lei Áurea.” Veio então uma leva de fotos de cavalos estrebuchados no chão ou com os dentes cheios de sangue, em função do uso errado da embocadura (as imagens não eram necessariamente de animais petropolitanos, mas ajudavam a causa). Galante Neto conseguiu ainda apoio da Ordem dos Advogados do Brasil e da maior rede brasileira de militância pelos direitos dos bichos, o Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal. A duas semanas do pleito, publicou vídeos em que a ativista Luisa Mell e várias atrizes globais apoiavam sua chapa – que recebeu no plebiscito 117 mil votos, mais que o dobro das 53 mil pessoas que defenderam a permanência da tradição.

 

A vontade expressa nas urnas ainda não levou à interrupção do serviço de charretes, que depende de um rito jurídico demorado: o resultado precisa ser homologado pelo Tribunal Regional Eleitoral, para depois ser transformado em decreto legislativo na Câmara e sancionado pelo prefeito. Como o seguro morreu de velho, Domingos Galante Neto mantém a verve nas redes sociais. Cinco dias após o pleito, publicou uma montagem tosca, em que o vereador Wanderley Taboada – defensor da tração animal – aparece vestido como um soldado nazista. “Taboada Hitler tenta mais um golpe contra a democracia e a população de Petrópolis”, diz o texto, que anuncia um suposto plano do parlamentar para colocar emendas no projeto antes de enviá-lo para a sanção do alcaide.

“O radicalismo que o Brasil vem atravessando na política foi transferido para essa disputa”, avaliou Ana Cristina Ribeiro, da AnimaVida, que defende a permanência dos cavalos. “Essa chapa usou muito bem as redes sociais, e as pessoas embarcaram como uma manada.” Ribeiro admite que os animais são explorados, mas lembrou que o mesmo vale para os cavalos de corrida e de salto. “Em Petrópolis tem vários haras, e não vejo ninguém questionando o que acontece ali”, afirmou. “Falta coerência, estão focando só num grupo de classe baixa.”

Quando o projeto for sancionado, os 39 cavalos que servem às treze charretes da cidade serão aposentados. Os proprietários decidirão então se vão mantê-los ou enviá-los a um santuário oferecido pelo Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal (a ONG alega motivos de segurança para não dizer onde ele fica).

Charreteiro há quinze anos, Roni da Silva contou que o plebiscito já surtiu efeito, diminuindo sua renda média de 1 300 reais por mês. “Estamos sendo muito xingados na rua, porque as pessoas acham que a votação tem resultado imediato.” Disse que até pode se desfazer dos seus três cavalos, Ventania, Tigrão e Inédito, desde que tenha livre acesso a eles no santuário, e a garantia de que serão bem cuidados. Enfatizou, porém, sua insatisfação com a decisão. “Tenho certo amor por eles. Estamos há anos juntos nessa rotina.”

Roberto Kaz

Roberto Kaz

Roberto Kaz, repórter da piauí, é autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras

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