anais da música

A alma do Soul

O tesouro oculto de Aretha Franklin

David Remnick
“Se eu fosse para uma ilha deserta e só pudesse levar dez discos, Aretha estaria entre eles. Porque ela me lembra de que sou humano”, escreveu Barack Obama
“Se eu fosse para uma ilha deserta e só pudesse levar dez discos, Aretha estaria entre eles. Porque ela me lembra de que sou humano”, escreveu Barack Obama FOTO_DON HUNSTEIN_1961_METRONOME_GETTY IMAGES

Esta reportagem foi publicada pela revista New Yorker em abril de 2016. Aretha Franklin morreu em 16 de agosto de 2018, aos 76 anos.

Tradução: Sergio Flaksman

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Tarde numa noite de inverno, Aretha Franklin estava sentada no camarim do Caesars Windsor Hotel and Casino, em Ontário. Não tinha cara de quem havia proporcionado um prazer imenso a alguns milhares de almas poucos minutos antes. “O que houve com o som?”, perguntava, entre perplexa e irritada. Ocorrera uma microfonia em My Funny Valentine, e antes de sentar-se ao piano para apresentar Inseparable, um tributo à recém-falecida Natalie Cole, ela franziu o cenho e pediu a um certo “sr. Lowery” que regulasse o som de uma vez por todas. Miss Franklin, como quase todos de seu círculo costumam se referir a ela, mostrava-se claramente contrariada, embora se contivesse. “Num determinado momento eu não consegui me escutar direito”, ela disse.

No aparador a sua frente, ao lado do espelho e da escova de cabelo, viam-se pequenas pilhas de notas de 100 dólares. Se não recebe adiantado, Aretha Franklin não canta. Guarda o dinheiro na bolsa, que deixa com seus seguranças ou leva consigo ao palco, onde a acomoda em cima do piano, à vista. “É por causa da época em que ela cresceu – e viu tanta gente, como Ray Charles e B.B. King, ser roubada”, disse um amigo próximo, o apresentador de tevê e escritor Tavis Smiley. “Ela tem a sensação de que as pessoas muitas vezes querem se aproveitar dela. E isso ela não admite. Ninguém pode lhe faltar com o respeito.”

Aretha ganhou dezoito prêmios Grammy, vendeu dezenas de milhões de discos e costuma ser reconhecida como a maior cantora da história da música americana do pós-guerra. James Brown, Sam Cooke, Etta James, Otis Redding, Ray Charles: nem mesmo eles se comparam a sua força, à vastidão do seu leque de gêneros, do gospel ao jazz, transitando pelo R&B e o pop. Em 1998, Luciano Pavarotti teve um problema de garganta e não pôde cantar na entrega do Grammy; Aretha, avisada apenas vinte minutos antes, cantou Nessun Dorma no lugar dele. O que caracteriza Aretha Franklin não é só a amplitude de seu repertório ou o instrumento poderoso de sua voz: é sua inteligência musical, sua maneira de cantar atrasando um pouco a divisão, acrescentando uma cascata de notas a uma única palavra ou sílaba, e construindo, camada por camada, o apelo emocional de uma canção de três minutos. Sua interpretação de Respect é um artefato de manufatura tão precisa quanto um vaso Ming.

“Existem cantoras que, além de despertar nossa imensa admiração por sua arte, têm o dom quase sobrenatural de nos inspirar amor”, escreveu Ralph Ellison num artigo de 1958 sobre Mahalia Jackson. “Se existe uma ideia de realeza que vai além da questão de classe, são as cantoras, sem dúvida, nossas rainhas naturais”, acrescentou o autor de Homem Invisível. Em 1967, no Regal Theater de Chicago, o apresentador e produtor de rádio Pervis Spann presidiu uma cerimônia em que coroou Aretha Franklin e a proclamou Rainha do Soul.

A Rainha não ensaia com o conjunto que a acompanha – pelo menos não para um espetáculo como aquele, num cassino do Canadá. Deixa a preparação a cargo de H.B. Barnum, seu diretor musical de muitos anos, um ex-ator infantil e cantor de doo-wop. Barnum, de 82 anos, combina a tradicional seção de ritmo e backing vocal a alguns músicos locais – recrutados nas redondezas de onde ocorrerá o show – para os metais e os instrumentos de cordas. Submete essa formação a três horas de ensaio, percorrendo tudo que Aretha pode vir a cantar: os sucessos do final dos anos 60 e início dos 70 – Chain of Fools, Spirit in the Dark, Think –, bem como gravações mais recentes.

Às vezes Aretha muda de ideia e resolve improvisar algum clássico de jazz – Cherokee ou Skylark –, mas isso é raro. Sua grande preocupação é dosar a voz e as energias durante o show. Se entra em cena vestindo um casaco de pele, é tanto para se manter aquecida e impedir que a voz trave, como para ecoar uma tradição das antigas estrelas do gospel, que ostentavam os casacos de vison que a arte lhes permitira adquirir. Mais ou menos na metade da apresentação, faz o que chama de “saída em falso” e foge para os bastidores, deixando a banda tocar sozinha enquanto descansa. “A luta é em quinze rounds, e ela precisa se cuidar”, diz Barnum. “Aretha não tem mais 30 anos.” Está com 74.

 

Aretha não viaja mais como antes. Nos últimos 34 anos tem se negado sistematicamente a entrar num avião, e por isso nunca pôde se apresentar em alguns dos locais mais quentes do final dos anos 60, como o Olympia de Paris ou o Concertgebouw de Amsterdã. Quando viaja, vai de ônibus. Embora não seja num ônibus interestadual comum, os percursos são exaustivos. Pouco tempo atrás, depois de se deslocar de sua casa, nos arredores de Detroit, a Los Angeles, decretou um basta. “Fiquei esgotada”, ela disse. “O ônibus é bom, mas foram dias de estrada!” A cantora tem frequentado sessões de terapia próprias para quem tem medo de voar, e está decidida a enfrentar aviões dentro de pouco tempo. “Estou pensando em pegar um voo de Detroit para Chicago”, ela diz. “Passinhos de formiga.”

O show no Windsor ficou muito aquém dos que a cantora costumava apresentar uma geração atrás, mas mesmo assim fomos contemplados com alguns momentos sublimes. É natural que o alcance de sua voz e a sua resistência tenham diminuído, mas ela ainda está muitos pontos acima de Sinatra em idade semelhante. E sobreviveu bem mais tempo do que qualquer um de seus contemporâneos. No cassino, retardou um pouco o ritmo antes de arrasar no blues Sweet Sixteen, de B.B. King. Em seguida, cantou Chain of Fools, réplica da canção gospel Pains of Life do reverendo Elijah Fair, com o mesmo brilho da gravação original, de 1967.

Antes do show, conversei com muita gente da plateia. Boa parte das pessoas disse que não via a cantora ao vivo havia alguns anos, tampouco vinha prestando muita atenção a seus últimos discos. Era um pessoal mais velho, mas que não estava na fase “recordar é viver”. O interesse deles fora despertado, ao que me disseram, por exatamente aquilo que me levara até ali: o vídeo, que viralizou, de Aretha cantando (You Make Me Feel Like) A Natural Woman na cerimônia de entrega dos prêmios do John F. Kennedy Center, em dezembro de 2015. Quem não viu, que assista: em menos de cinco minutos a vida melhora em pelo menos 47%.

Aretha chega ao palco como a mais elegante das frequentadoras de igreja de toda a cristandade: a boca pintada de um vermelho matador, um casaco de vison até os pés e um vestido de brocado ouro e rosa que Bessie Smith certamente teria envergado se vendesse dezenas de milhões de discos. Senta-se ao piano e ajusta o microfone. Dedilha uma série de acordes num compasso de 12/8, arrebatando qualquer um que tenha um pingo de sensibilidade. Atrás dela surge uma enorme orquestra, e quatro extraordinárias vozes de apoio atacam no tempo perfeito. Ela canta como há três ou quatro décadas.

Na primeira fila do balcão, ao lado do casal Obama, Carole King quase se atira no palco. É uma das homenageadas da noite, e escreveu A Natural Woman em parceria com seu primeiro marido, Gerry Goffin. No momento em que Aretha entoa os primeiros versos – Looking out on the morning rain,/I used to feel… so uninspired –, os olhos de King começam a girar e ela parece estar possuída. E logo ela vê Obama enxugando uma lágrima no canto do olho. (“O cara mais cool do mundo chorou!”, King me disse mais tarde. “Adorei o detalhe.”)

Fazia tempo que King não assistia a uma apresentação de Aretha, e da última vez ela não manifestara aquela intensidade toda. “Assim que a vi ao piano, minha satisfação galgou vários patamares”, disse King. E quando a Rainha se levanta do piano para terminar a canção – “É um gesto teatral, e ela é uma diva no melhor dos sentidos, e por isso, claro, ela fica em pé no momento perfeito” –, seu prazer aumentou mais ainda.

King relembra a origem da canção. Era 1967, e ela e Goffin estavam em Manhattan, caminhando pela Broadway, quando Jerry Wexler, da Atlantic Records, parou ao lado deles numa limusine, baixou o vidro e disse: “Estou procurando um sucesso para Aretha. Que tal vocês escreverem uma canção chamada A Natural Woman?” Fechou a janela e o carro seguiu. King e Goffin voltaram para casa. Naquela noite, depois de botar os filhos para dormir, eles escreveram a música e a letra. Na manhã seguinte, o sucesso estava pronto.

“Eu escuto essas coisas na minha cabeça, para onde as músicas podem ir, de que maneira podem soar”, diz King. “Mas não tenho condições de dar conta disso sozinha. Então, foi como estar ali e ver meu sonho se realizar na minha frente.”

Para além da música propriamente dita, o lance que todo mundo comentou depois da apresentação no Kennedy Center foi o momento em que, pouco antes da última estrofe, na construção de um crescendo a todo vapor, a cantora tira o casaco e o deixa cair no chão. Deixar cair o casaco de pele é um gesto tradicional do gospel, significa entrega total, passar dos limites. No velório de Mahalia Jackson, Clara Ward, uma das maiores influências de Aretha, jogou sua estola de vison no caixão aberto depois de cantar Beams of Heaven. O casaco de pele faz parte da encenação, da realeza da personagem. Quando foi ver Diahann Carroll no musical Sunset Boulevard – baseado no filme que no Brasil se chamou Crepúsculo dos Deuses –, em Toronto, Aretha ocupou dois assentos: um para si, outro para o casaco.

Nos bastidores do cassino, quando conversei com ela sobre aquela noite em Washington, seus olhos brilharam. “Foi uma das três ou quatro melhores noites da minha vida”, disse.

 

O cara mais cool do mundo chorou, e King ficou maravilhada. Mandei um e-mail ao presidente Obama perguntando sobre aquela apresentação de Aretha Franklin, e sua resposta não foi nada reticente. “Ninguém representa mais cabalmente a conexão entre o spiritual afro-americano, o blues, o rhythm and blues e o rock‘n’roll – a transformação das provações e da dor numa coisa plena de beleza, vitalidade e esperança”, ele respondeu, por meio da assessoria de imprensa. “A história americana transborda quando Aretha canta. É por isso que, quando ela senta ao piano e ataca A Natural Woman, ela me leva às lágrimas – do mesmo jeito que a versão de Ray Charles de America the Beautiful sempre há de ser, na minha opinião, a mais patriótica de todos os tempos –, porque capta a totalidade da experiência americana, a visão de baixo para cima e do alto, do que é bom e do que é mau, e a possibilidade de síntese, de reconciliação, de transcendência.”

Grande parte dessa história – a transfiguração das provações e do sofrimento, a elevação espiritual depois de uma dor ilimitada, o gospel depois do blues – é herança da igreja negra. Em As Almas da Gente Negra, o sociólogo e ativista W.E.B. Du Bois escreve que, “apesar das caricaturas e da adulteração”, a música da igreja negra “continua a ser a expressão mais bela e original da vida e das aspirações humanas que surgiram em solo americano”. Desde os tempos da escravidão, a igreja negra era um refúgio, um santuário de comunhão, fé e expressão, e com o passar das décadas a música das manhãs de domingo se associou cada vez mais à da noite da véspera. Thomas A. Dorsey, o pai da canção gospel moderna, era pianista de bordel e diretor musical da Igreja Batista Peregrina, em Chicago. Suas canções foram tocadas em festas pagas e no funeral de Martin Luther King. Tanto sua produção gospel quanto seus blues muito ritmados e sugestivos – tanto Precious Lord, Take My Hand quanto It’s Tight Like That, tanto Peace in the Valley quanto Big Fat Mama – nascem, em suas palavras, “do mesmo sentimento, de uma busca do coração”.

O pai de Aretha, Clarence LaVaughn Franklin, foi o pregador negro mais famoso de seu tempo, e de longe a maior influência da filha. Nasceu em 1915 e cresceu no condado de Sunflower, no delta do Mississippi – a mesma paisagem que deu origem a Robert Johnson, Son House, Howlin’ Wolf, Muddy Waters e Fannie Lou Hamer. B.B. King, outro vizinho do delta, descreve em suas memórias esse território comum: a Ku Klux Klan e as cruzes em chamas; a fúria contida em cada criança que se deparava com um linchamento – o “estranho fruto” pendendo de uma árvore próxima ao tribunal. “Sinto asco e desespero e raiva, e todas as emoções que me fazem chorar sem lágrimas e gritar sem som”, escreve King.

Por volta dos 15 anos, C.L. Franklin teve uma visão – uma das tábuas da parede de sua casa estava em chamas. “Uma voz me falou de trás da tábua”, ele contou ao etnomusicólogo Jeff Todd Titon, “e disse alguma coisa como ‘Vá pregar o Evangelho a todos os povos’.” Quando completou 18 anos, já era um pregador itinerante, que viajava de carona de igreja em igreja.

Finalmente conquistou um púlpito próprio em Memphis, onde brilhava como “o rei dos jovens whoopers” – o whoop é um estilo de pregação que começa com uma exposição relativamente comedida de um trecho das Escrituras e depois segue num crescendo de êxtase, marcado pelo ritmo acelerado e uma entoação quase cantada, numa troca de perguntas e respostas com a audiência do tipo que se tornou, por exemplo, uma das marcas da música de James Brown.

C.L. Franklin deixou Memphis em 1944 e, depois de uma residência de dois anos numa igreja de Buffalo, estabeleceu-se em Detroit, na Igreja Batista Nova Betel. Ali consolidou sua reputação, adquirindo um epíteto depois do outro – Príncipe Negro, Pregador do Ritmo, Pregador da Voz de Ouro. Naqueles dias, a Nova Betel ficava na rua Hastings, a espinha dorsal do Paradise Valley, o centro da comunidade negra da cidade. Detroit crescera com os migrantes negros do Sul, e aquela rua reunia uma densa aglomeração de igrejas, salões de beleza e barbearias, além de funerárias, todas servindo a comunidade negra; depois da esquina da Nova Betel ficavam o Flame Show Bar e o Lee’s Sensation. Franklin sempre andava, nas palavras de um dos membros de sua congregação, “podre de elegante”. Dirigia um Cadillac e costumava usar ternos bem cortados e sapatos de couro de crocodilo.

Franklin, sua mulher, Barbara Siggers, e os quatro filhos – Erma, Cecil, Carolyn e Aretha – viviam numa residência paroquial no East Boston Boulevard, em meio a empresários e profissionais liberais negros. A casa tinha seis quartos e uma sala, com cortinas de seda e um piano de cauda. Ainda assim, ao mesmo tempo que vivia à larga, Franklin pregava uma espécie de teologia da libertação negra – batista, mas às vezes temperada pelas inflexões mais convulsivas da igreja pentecostal, ou “santificada”. Como escreve seu escrupuloso biógrafo Nick Salvatore, ele “se destacava entre os demais ministros por acolher todos os residentes da rua – fossem prostitutas, traficantes e proxenetas, fossem empresários, profissionais liberais e operários”.

O reverendo Franklin adquiriu fama nacional quando começou a gravar seus sermões. Os discos vendiam às centenas de milhares. Nas noites de domingo, ele podia ser ouvido na WLAC, uma estação de rádio com base em Nashville que cobria metade do país. John Lewis, na época líder estudantil e, a partir de 1987, membro do Congresso americano, lembra de, quando jovem, escutar Franklin no rádio, no condado de Pike, no Alabama. “Seus sermões eram coisa de mestre; ele controlava o ritmo da fala, construía um argumento de cada vez, subia degrau a degrau até atingir um clímax e finalmente chegar à conclusão certa para o sermão”, escreveu Lewis em suas memórias. “Ninguém terminava um sermão como o reverendo Franklin.”

 

Ainda menina, Aretha absorvia tudo: as manhãs de domingo e as noites de sábado. Mergulhava totalmente na vida da igreja e na vida cultural da sala de casa, que às vezes parecia reunir o epicentro e toda a genealogia da música afro-americana. Sentada nas escadas, ela viu Art Tatum e Nat Cole ao piano. Oscar Peterson, Duke Ellington, Della Reese, Ella Fitzgerald, Billy Eckstine e Lionel Hampton frequentavam sua casa. Dinah Washington dava conselhos às meninas sobre como cantar. O reverendo James Cleveland, um dos pilares do mundo evangélico, ensinou a Aretha os acordes do gospel. Entre as crianças da vizinhança, Diana Ross, Smokey Robinson e boa parte do elenco do que mais tarde viria a ser a Motown, a lendária gravadora de soul.

À medida que crescia a fama de C.L. Franklin, conta Salvatore, aumentava sua queda pela bebida, pela conquista de mulheres e coisas piores. Em 1940, teve um filho com uma menina de 12 anos, e não se mostrou arrependido. E também podia ser violento com as mulheres da família. Em 1948, quando Aretha tinha 6 anos, sua mãe deixou Detroit e foi morar em Buffalo. Os filhos a viam de vez em quando, a casa vivia mergulhada em profunda tristeza. “A família toda carecia de amor”, disse Mahalia Jackson, amiga próxima dos Franklin. A avó paterna ajudava a cuidar das crianças, além de uma penca de amigas, secretárias e amantes, entre elas Clara Ward, das Ward Singers, uma das maiores vocalistas do gospel de seu tempo. Barbara Siggers morreu em 1952.

Em meados da década de 50, Franklin criou a C.L. Franklin Gospel Caravan, e pôs-se a percorrer o país em turnês que duravam semanas, pregando seus sermões mais famosos: “A águia se agita em seu ninho”, “Ossos secos no vale”, “O homem à beira do poço”. Little Sammie Bryant, uma anã com um talento gigantesco para o canto, muitas vezes abria o espetáculo e se apresentava ao lado de estrelas do gospel como os Dixie Hummingbirds, Sister Rosetta Tharpe e os Soul Stirrers, cujo solista era Sam Cooke. Aretha seguia a trupe, tocando piano e cantando. A voz – retumbante, poderosa, cheia de sentimento – e o talento musical já se manifestavam desde o início. Ela era capaz de improvisos, com glissandos que pareciam saídos do braço de uma guitarra; tinha um alcance fantástico e dominava todos os efeitos, do melisma a uma divisão particular. Essas técnicas seriam usadas em sua carreira no R&B e no soul, além das canções pop, mas era “tudo fundamentalmente gospel”, nas palavras do estudioso Anthony Heilbut.

Quando fez 14 anos, Aretha gravou várias canções gospel, entre elas Never Grow Old e While the Blood Runs Warm. Também experimentou de tudo, inclusive da atmosfera libertina que rondava aquele mundo. Na época em que gravou essas primeiras canções, já estava grávida do segundo filho. Largou a escola e caiu na estrada, numa turnê de apresentações que se prolongaria por, digamos, o resto de sua vida.

Aretha não é a herdeira de um legado puramente religioso e musical. A família Franklin também se envolvia na política. Pelos padrões do Paradise Valley, ela era uma jovem de boa posição, cercada de privilégios, mas quando viajava pelo Sul ou se aventurava pelas áreas brancas de Detroit, sofria as mesmas humilhações que qualquer mulher negra. Depois do assassinato de Emmett Till,[1] em 1955, C.L. Franklin abriu a Nova Betel para o movimento e, do púlpito, atacava a segregação e a supremacia branca. Quando Martin Luther King ia a Detroit, hospedava-se na casa dos Franklin.

Ela aderiu ao movimento. Ao mesmo tempo, ansiava por palcos maiores. Acompanhou a transição de Sam Cooke do gospel para o rhythm and blues, realizada como se fosse a mais natural das passagens. Em 1960, aos 18 anos, mudou-se para Nova York e assinou com a gravadora Columbia; foi o início de um extenso aprendizado sob o comando de John Hammond, que já administrara as carreiras de Billie Holiday e de Count Basie. Hammond estava convencido de que Aretha seria a próxima grande cantora americana de jazz, muito embora o gênero já não estivesse no ápice. Somente em 1966, quando foi trabalhar com Jerry Wexler e Ahmet Ertegun, na Atlantic Records, ela registrou seus primeiros sucessos de R&B. Mas foi na Columbia, mesmo cantando standards como Skylark e How Deep Is the Ocean, que ela surgiu para o mundo laico. A despeito de contar com o apoio do pai e seguir o exemplo de Cooke, sentiu-se obrigada a publicar um artigo, em 1961, no New York Amsterdam News, dizendo: “Não acho que tenha prestado um desserviço ao Senhor quando decidi, dois anos atrás, mudar de gênero.” E prosseguia: “Afinal, o blues é uma música nascida do sofrimento do meu povo no tempo da escravidão.”

Em 23 de junho de 1963, C.L. Franklin ajudou Martin Luther King a organizar a Marcha pela Liberdade, uma passeata de mais de 100 mil pessoas pelas ruas de Detroit. No centro de convenções Cobo Hall, King, mencionando “meu bom amigo” C.L. Franklin, fez um discurso com vários trechos que viria a reciclar na Marcha sobre Washington, dois meses mais tarde. “Hoje à tarde eu tive um sonho”, ele disse à multidão reunida. “Um sonho” de que “crianças brancas e crianças negras” serão “julgadas pelo conteúdo de seu caráter, e não pela cor da pele.”

King mais tarde confidenciou a C.L. Franklin: “Frank, nunca vou chegar aos 40 anos.” Em seu funeral, em abril de 1968, pediram a Aretha que cantasse Precious Lord, de Thomas Dorsey. Àquela altura, ela era uma voz central tanto na comunidade negra, eclipsando seu pai, quanto no mundo musical. Cruzara as fronteiras.

 

As canções de seus primeiros discos para a Atlantic – Do Right Woman, Do Right Man, Respect, Dr. Feelgood, (You Make Me Feel Like) A Natural Woman, Think, Chain of Fools – foram a prova final de seu aprendizado. Abandonando por um momento a canção tradicional americana e encontrando o equilíbrio perfeito de igreja e blues, era celebrada como a maior voz da música popular americana. Respect e Think transformaram-se em hinos do feminismo e do poder negro, e se alinham ao lado de Mississippi Goddam, Busted, e A Change Is Gonna Come. “Papai pregou o orgulho negro décadas a fio”, ela disse ao escritor David Ritz, “e a nossa gente redescobriu como o negro era realmente lindo e começamos a ecoar [as palavras de James Brown]: Say it loud, I’m black and I’m proud (Diga em voz alta, sou negro e sinto orgulho disso).”

Ao mesmo tempo, Aretha descobriu que as pressões da vida de estrela, mãe e filha de um pai tempestuoso podiam ser insuportáveis. Ted White, seu primeiro marido – casaram-se em 1961 e divorciaram-se oito anos depois – era um vigarista que se dava ares de importância e costumava maltratá-la. Em 1969, quando o pai dela autorizou uma organização radical chamada República da Nova África a se reunir na Nova Betel, a noite terminou com um tiroteio sangrento entre o grupo e a polícia de Detroit. No ano seguinte, Aretha subiu ao palco, em Saint Louis, e começou a cantar Respect, mas foi incapaz de continuar e precisou sair de cena. O produtor do espetáculo anunciou que ela havia sofrido “um esgotamento nervoso devido a graves problemas pessoais”. Em pouco tempo ela se recuperou e voltou a se apresentar, mas só parecia à vontade no estúdio e no palco.

“Para mim, Aretha é Nossa Senhora das Dores Misteriosas”, escreveu Wexler em suas memórias. “Seus olhos são incríveis, uns olhos luminosos que encobrem uma dor inexplicável. Suas depressões podem ser tão profundas quanto as águas escuras do oceano. Não pretendo conhecer as fontes da sua angústia, mas Aretha certamente vive cercada de uma angústia tão grande quanto sua gloriosa aura musical.”

A vulnerabilidade de Aretha Franklin vem de par com uma necessidade de controle tão intensa que muitas vezes resulta numa angústia ainda maior. Quando chegou o momento de publicar uma autobiografia, ela contratou Ritz, um biógrafo e ghost-writer experiente, autor de ótimos livros com Ray Charles, Etta James, Bettye LaVette e Smokey Robinson. Mas Ritz encontrou em Aretha uma resistência particularmente inquebrantável. Ela fez questão de extirpar do relato qualquer detalhe mais duro ou sombrio. Publicada em 1999, a autobiografia lembra um imenso press release. “A negação é a estratégia que ela sempre usou para sobreviver emocionalmente”, Ritz me disse. É só ao microfone, em sua música, que Aretha se sente no comando das ações. Há indícios de que tenha lutado com um câncer nos últimos anos, mas seus amigos dizem que ela jamais admitiria um fato como esse, “nem no leito de morte”.

Quinze anos depois que saiu a autobiografia, um fracasso de vendas, Ritz publicou uma biografia não autorizada com o material que acumulara ao longo do tempo, a partir de fontes pessoais e profissionais próximas a Aretha. A mulher que emerge do livro é um gênio musical e uma figura central na história do movimento pela liberdade negra; é também uma pessoa que sofreu inúmeras perdas, foi maltratada de muitas maneiras e, às vezes, tem reações que exigem muito da paciência de seus companheiros de trabalho, de credores, familiares e amigos. A biografada não gostou do que leu: “Mentiras e mais mentiras!” Mas nenhuma fonte, nem mesmo as mais próximas a ela, desmentiu o que havia declarado.

Até Beyoncé teve a experiência de desagradar Aretha Franklin. Em 2008, durante a entrega do Grammy, Beyoncé, ao ler num teleprompter um texto que provavelmente nem foi escrito por ela, apresentou Tina Turner como “a Rainha”. Com o devido respeito a Tina Turner, esse título pertence a Aretha (além de Elizabeth II), e ela, que se magoa com facilidade, respondeu com uma declaração candente: “Foi um golpe baixo.”

 

Uma consequência dramática de sua sede de controle é que seu público foi privado de um dos maiores tesouros que ela já produziu. Não muito tempo atrás, Ahmir Khalib Thompson, o baterista e bandleader mais conhecido como Questlove, postou o seguinte no Instagram: “De todos os ‘rumores internos’ da indústria da música que chegaram a mim, NADA doeu mais em minha alma do que saber que um dos MAIORES momentos da história do gospel está condenado a ficar na prateleira, juntando pó.”

Questlove se referia ao Santo Graal da obra de Aretha Franklin – uma versão filmada, jamais vista em público, de Amazing Grace, dois concertos gospel que ela apresentou em janeiro de 1972 numa igreja em Los Angeles. A música pop há tempos aflige os fãs colecionadores com rumores de “filmagens raras”: já houve Eat the Document, com uma cena em que John Lennon, muito drogado, entrevista um Bob Dylan ainda mais drogado (“Você sofre de ardência nos olhos, sulcos na testa ou cabelos encaracolados?”); e houve Cocksucker Blues, a colaboração de Robert Frank com os Rolling Stones, em que Mick Jagger aparece cheirando pó. Os dois filmes são hoje bem fáceis de achar – e nenhum deles é propriamente essencial.

Amazing Grace é outra história. Em 1972 a Atlantic lançou um lp duplo com os dois concertos – talvez o disco mais acachapante e indispensável da cantora – que acabou conquistando um duplo disco de platina: com 2 milhões de cópias vendidas, bateu um recorde no gênero gospel. “Eu nunca deixei a igreja”, ela sempre repetiu. A igreja negra estava, e está, em tudo que ela canta, da ofegante My Country, Tis of Thee na primeira posse de Obama à recriação estupenda de Rolling in the Deep, de Adele, em 2014, no programa de David Letterman.

Em 1971, no auge, com um punhado de sucessos e prêmios Grammy, Aretha também preparava sua volta ao gospel. Em março, apresentou-se no Fillmore West, em São Francisco, reduto da cultura hippie. O filme desse show pode ser encontrado no YouTube, e qualquer um pode ouvi-la cantar seus maiores sucessos, acompanhada pela estupenda banda de King Curtis, os Kingpins. Ela conquista um público mais acostumado aos improvisos do Grateful Dead. E seu dueto surpresa com Ray Charles em Spirit in the Dark está longe de ser o ponto mais alto do espetáculo.

Depois de algumas canções, Aretha toca num teclado Fender Rhodes a abertura de Bridge Over Troubled Water, de Paul Simon, e hipnóticas frases gospel de seu backing vocal se harmonizam com os acordes do órgão Hammond B-3 de Billy Preston, figura imensa do cenário gospel, mas que o público branco conhece mais como o “quinto Beatle” por ele ter tocado no disco Let It Be. Assim como Otis Redding nunca mais cantou Respect depois de ouvir a versão de Aretha (“A partir de agora, a canção pertence a ela”), Simon e Garfunkel teriam de rivalizar para sempre com a memória dessa apresentação. Simon, que escrevera a canção um ano antes, tinha se inspirado num gospel, a versão de Claude Jeter e o Swan Silvertones para Mary, Don’t You Weep. Jeter incluiu um verso improvisado – I’ll be your bridge over deep water if you trust my name (Serei sua ponte sobre águas profundas se você confiar em mim) – e Simon foi tão claramente influenciado que mais adiante acabou transferindo parte de seus direitos a Jeter. Daphne Brooks, que leciona estudos afro-americanos em Yale, descreve com muita propriedade a interpretação do Fillmore West como uma “ponte” para os concertos do álbum Amazing Grace que ocorreriam dali a alguns meses.

Aretha convocou seu mentor de Detroit, o reverendo James Cleveland, para cantar e tocar piano, e o pastor Alexander Hamilton para reger o Coro Comunitário do Sul da Califórnia. O concerto gospel em Los Angeles abre com Mary, Don’t You Weep, um spiritual baseado em narrativas bíblicas de libertação e ressurreição, gravado em 1915 pelos Fisk Jubilee Singers. É provavelmente a canção mais emocionante do álbum. Inúmeros outros intérpretes a gravaram – os Soul Stirrers, Inez Andrews, Burl Ives, James Brown, Bruce Springsteen –, mas Aretha, cuja voz nunca esteve melhor, parece possuída e apresenta uma versão pulsante, poderosa, com voos de improviso lírico em que ergue nota após nota a partir de sílabas soltas. Em sua leitura, o blues sempre reside no gospel, e de algum modo é esta a sua versão de graça divina.

Chuck Rainey, seu contrabaixista no início dos anos 70, disse que a voz dela tinha uma potência emocional que chegava a desconcentrar os membros de sua banda. “Um dia ela veio falar comigo, segurou minha mão e disse: ‘Chuck, não me escute com tanta intensidade. Eu sei o que eu provoco nas pessoas. Mas é preciso que o contrabaixo não pare para eu poder cantar.’” Bernard “Pretty” Purdie, o baterista das sessões de Amazing Grace, contou que, como ela cantara por muito tempo com o reverendo Cleveland na igreja Nova Betel e na sala da casa dela, Aretha estava absolutamente segura de si. “Não precisava se preocupar com o que pensar ou o que cantar”, diz ele. “Ela sabia o que estava fazendo desde o primeiro momento.”

Não há como discordar. Em Los Angeles, Aretha apresentou canções que vinha cantando e gravando desde menina, entre elas Never Grow Old e Precious Lord. Há uma versão de Amazing Grace que dura dez minutos, parte canto, parte sermão, que só pode ter sido gerada por uma pessoa profundamente impregnada da tradição do estilo whoop dos sermões de seu pai.

 

Um disco é uma obra duradoura, mas o evento em si, como Woodstock, era algo que também merecia ser visto. Sydney Pollack, que tinha dirigido Jane Fonda em A Noite dos Desesperados e fora indicado ao Oscar, resolveu realizar o filme. Ele e sua equipe registraram as duas noites. O material de 16 milímetros em cor foi filmado da maneira mais direta possível, mas houve um problema: Pollack não tinha experiência de documentarista, e ele e sua equipe não usaram claquetes para sincronizar o som com as imagens. Depois de um esforço de vários meses para solucionar o problema, a Warner Brothers acabou engavetando o projeto. Pollack foi filmar Nosso Amor de Ontem, Três Dias do Condor e Entre Dois Amores. Perdeu o interesse por Amazing Grace. O filme ficou guardado por quase quarenta anos.

Em 2007, Alan Elliott, um produtor de discos, abordou Pollack para falar do filme, cujos direitos a Warner Brothers lhe vendera. Pollack concordou em trabalhar com ele, porém, já com câncer, morreu no ano seguinte. Elliott conseguiu sincronizar o material, mas não convenceu a estrela e tema do filme. Há anos ele e Aretha vêm brigando em torno de permissões, direitos e contratos. O Festival de Cinema de Telluride programou uma exibição de Amazing Grace em setembro de 2015, mas os advogados dela entraram com uma ação para impedi-la. O juiz John Kane, da corte distrital dos Estados Unidos no Colorado, praticamente improvisou uma audiência de 71 minutos na tarde anterior à projeção. Aretha depôs por telefone.

“Seria terrível eles exibirem esse filme”, e Elliott chega a “me ignorar completamente, totalmente, e de maneira descarada, num caso em que meu nome e minha reputação estão em jogo”, disse ela. “Tenho 55 anos de carreira, e ele é de uma imprudência quase absoluta.”

Elliott queria apenas exibir o filme para poucas centenas de pessoas no festival, durante o qual contava encontrar um distribuidor. Ele me revelou que propôs pagar a ela bem mais – 1 milhão de dólares e metade da renda – do que lhe fora prometido inicialmente. Durante as negociações, Elliott e seus representantes também precisaram enfrentar o caos que muitas vezes cerca os negócios de Aretha. Advogados e agentes se sucedem em alta rotatividade. Ela, sempre desconfiada, adiava e se esquivava, ainda que alguns de seus amigos mais próximos a aconselhassem a fechar um acordo e aproveitar a inevitável atenção que o filme despertaria.

“Aretha se ofende quando pensa que você pensa que está levando a melhor”, Tavis Smiley me disse. “É difícil saber por que, de tempos em tempos, fica confusa a linha entre impor respeito e sabotar a si mesma. Mas nunca subestime o poder da esfera pessoal. Para Aretha, Respect não é só uma canção. É o mantra de sua vida.”

“Ela vive numa realidade própria, e às vezes é difícil conciliar essa realidade com a realidade propriamente dita”, ele continua. “Todo mundo faz isso uma vez ou outra, mas ela faz sempre, o que pode ser perigoso. Podemos sabotar nossos próprios interesses quando tentamos controlar tudo até o limite.”

Em Denver, o juiz Kane optou por proteger Aretha e decidiu contra a exibição do filme em Telluride. Em sua sentença, citou Otelo: “Mas quem de mim arranca meu bom nome/Não enriquece com o que me tirou,/Mas a mim deixa pobre, realmente.” Elliott e Aretha, enquanto isso, avançaram um pouco na direção de um acordo. Quando pintou a esperança de que Amazing Grace pudesse ser mostrado no Festival de Cinema de Tribeca em abril de 2016, Robert De Niro, fundador do festival, ligou para Aretha e implorou que ela permitisse a exibição do filme.[2]

Ver Aretha Franklin cantando do púlpito e sentada ao piano de algum modo intensifica tudo que se pode ouvir no disco. É quase coisa demais para absorver quando se assiste ao filme uma ou duas vezes. Já vi meia dúzia de vezes, e ele nunca deixa de me provocar lágrimas. O momento mais tocante chega quando James Cleveland faz um aceno para C.L. Franklin, que está sentado na primeira fila, ao lado de Clara Ward. O reverendo não consegue resistir, e sobe orgulhoso ao púlpito.

“Isso me levou de volta à sala da minha casa, quando Aretha tinha 6 ou 7 anos, e depois mais ou menos 11, quando começou a viajar comigo nas turnês e cantar gospel”, diz ele. “Todo mundo chorava, emocionado, e eu estava quase rebentando de orgulho. Não podia estar mais comovido, não só porque Aretha é minha filha… Aretha canta demais.”

Então Aretha senta ao piano e ataca Never Grow Old. Enquanto ela transpira sob os refletores, seu pai se aproxima dela e, carinhosamente, enxuga sua testa com um lenço.

 

“Percebe-se a influência de Aretha em todo o panorama da música americana, seja qual for o gênero”, escreveu-me Obama. “Que outro artista teve um impacto comparável? Dylan. Talvez Stevie, Ray Charles. Os Beatles e os Stones – mas esses, é claro, são importados. Os gigantes do jazz, como Armstrong. Mas a lista é pequena. Se eu fosse ficar isolado numa ilha deserta e só pudesse levar dez discos, ela estaria entre eles. Porque ela me lembra de que sou humano. Do que é essencial em cada um de nós. E canta tão bem. E vou lhe dar uma dica: quando for fazer a trilha sonora de alguma festa, não deixe de começar com Rock Steady.”

Com a dimensão da influência de Aretha, as homenagens musicais são frequentes. Ela é adorada pelos gigantes do hip-hop. Mos Def sampleou One Step Ahead em Ms. Fat Booty. Kanye West sampleou Spirit in the Dark, em School Spirit. Alicia Keys sampleou A Natural Woman, e Dr. Dre e Outkast, seguindo a sábia sugestão presidencial, samplearam Rock Steady. The Fugees, Public Enemy, Slum Village – Aretha está em toda parte. Formation, de Beyoncé, não existiria sem Respect. Uma rainha sucede à outra.

Beyoncé pode ter dado um passo em falso numa ocasião, mas no geral sempre soube o que fazer. Uma cantora como ela, impregnada tanto do sagrado quanto do profano, capaz de produzir versões impecáveis tanto de Precious Lord quanto de Bootylicious, entende a multiplicidade de suas raízes e a especificidade do que deve a artistas anteriores. “O soul vem do gospel”, ela já disse. “Vem de Aretha, que escutou tudo, que cantava na igreja.”

Na manhã seguinte ao show no Windsor, fui ao serviço de domingo na antiga igreja dos Franklin, a Nova Betel. Cheguei meia hora adiantado e encontrei o sucessor de C.L. Franklin, o pastor Robert Smith Jr., um homem corpulento de cabelos grisalhos, de terno e colete.

O pastor me acompanhou até a “sala histórica”, repleta de fotografias e lembranças dos Franklin. A igreja comporta até 2 mil fiéis, mas o número de frequentadores que chegava era modesto. Os dias lotados, do Paradise Valley e de Black Bottom, são coisa do passado. Os operários da Ford e da General Motors foram para o Sul. Restaram poucos paroquianos de classe média na Nova Betel. “Meu apelo é principalmente para os sofridos”, disse o pastor Smith. “Gente que sai da prisão, que está nas drogas. Meu estilo de pregação não tem apelo para os profissionais liberais. Muitos deles preferem ir para as megaigrejas.”

Já faz tempo que a Nova Betel não ressoa com sermões como “A águia agita seu ninho”. Num dia de 1979, de manhã bem cedo, seis assaltantes invadiram a casa de C.L. Franklin. O pastor tinha uma arma no quarto e disparou dois tiros a esmo. Um dos assaltantes respondeu com fogo, atingindo Franklin no joelho e na virilha e rompendo sua artéria femoral. Ele morreu, depois de cinco anos em coma. Seu funeral foi um dos maiores da história de Detroit.

Como tantos outros, o pastor Smith teve seus momentos difíceis com Aretha Franklin ao longo dos anos, e pisa em ovos para não ofendê-la. Aretha colabora com a Nova Betel – manda dinheiro e alimentos, organiza um ou outro espetáculo gospel –, e as relações entre eles, diz o pastor, “são melhores hoje do que já foram, mas é sempre um dia depois do outro”. A importância de Aretha Franklin, ele deixa claro, é o “sentido do sublime” que sua música inspira. O resto não conta. Sua genialidade, sua posição central na música e no espírito americanos são inegáveis.

“Estou pouco ligando para o que dizem de Aretha”, declarou certa vez o músico Billy Preston, que morreu em 2006. “Ela pode passar anos sem sair de casa, em Detroit. Pode passar décadas sem entrar num avião e ir à Europa. Pode cancelar metade dos shows que marcou e emputecer todos os produtores e empresários do país. Pode gravar a canção que quiser, até aquelas bem mais ou menos. Pode fazer a diva e ignorar o mundo. Mas numa noite qualquer, quando essa senhora resolve sentar ao piano e se entregar de corpo e alma a uma canção escolhida a dedo, chega a dar medo. E aí você sabe – você é capaz de jurar – que ela ainda é a melhor cantora que a porra desse país já produziu.”


[1] Emmett Louis Till foi um jovem negro torturado e assassinado no Mississippi em 1955, aos 14 anos, depois de ter sido acusado de assobiar para uma mulher branca, balconista de uma loja.

[2] Aretha não permitiu.

David Remnick

David Remnick é diretor de redação da revista The New Yorker e autor de O Túmulo de Lênin, da Companhia das Letras

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