esquina

A altiva de Rio Claro

A maior palmeira-imperial do mundo

Mônica Manir
ILUSTRAÇÃO_ANDRÉS SANDOVAL_2018

Que nossa terra tem palmeiras, Vincent Fehr já sabia. O biogeógrafo suíço não imaginava que, em seu exílio acadêmico no Brasil, encontraria uma tão magistralmente ímpar. Em outubro do ano passado, enquanto fazia um trabalho de campo em Rio Claro, no interior de São Paulo, apontou seu medidor a laser para uma população de palmeiras-imperiais. Uma delas ostentava sua coroa a 42 metros de altura – quatro metros a mais que o Cristo Redentor, somado o pedestal da estátua. Aquilo lhe pareceu um recorde. E era. Fehr havia encontrado a maior palmeira-imperial viva do mundo.

O indivíduo, como Fehr chama seu achado, está postado em frente ao Solar Navarro de Andrade. A construção de dois pavimentos, erguida no século XIX, era a antiga sede da Fazenda Santo Antônio, de propriedade de Raphael Tobias Paes de Barros, o segundo Barão de Piracicaba. “Essa palmeira e suas vizinhas devem ter sido plantadas entre 120 e 150 anos atrás”, disse Mauro Galetti, professor do Departamento de Ecologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Rio Claro. “O interessante é que uma singela palmeira que já vivenciou o país com escravos, barões do café, monarquia, república, golpes e mais golpes continua ali, impávida.”

Em 1916, a Santo Antônio foi vendida para a Companhia Paulista de Estradas de Ferro, que agregou os 1,5 mil hectares da fazenda a uma gleba de terra que já funcionava como horto florestal desde 1909. A missão do horto era basicamente suprir a necessidade de madeira para os dormentes e de carvão para as locomotivas. No solar, fincou residência o engenheiro agrônomo Edmundo Navarro de Andrade, contratado pela companhia para pesquisar qual espécie florestal atenderia melhor à demanda da contratante – ele acabou apontando o eucalipto, oriundo da Austrália. Da coleção de 144 espécies por ele semeadas no local, restaram 37, entre as 1 660 árvores que formam hoje a Floresta Estadual Edmundo Navarro de Andrade, com 2 230 hectares.

No local há doze palmeiras-imperiais, que, como o próprio nome diz, assentam suas raízes em tempos aristocráticos. “Os barões do café usaram essas palmeiras para adornar os jardins das fazendas, elas eram símbolo de status”, disse Galetti. O primeiro exemplar de Roystonea oleracea foi plantado no Brasil por dom João VI em 1809, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Era regalo de um viajante que a extraiu clandestinamente de um jardim nas ilhas Maurício. Essa palma mater, palmeira-mãe, tinha 38,7 metros quando um raio a ceifou, em 1972. Dela descendem todas as demais no Brasil, incluindo as da floresta de Rio Claro.

O suíço de 30 anos explicou que, além da altivez, o que distingue as palmeiras-imperiais são o caule robusto e as folhas ascendentes e bem penteadas da coroa. A palmeira-real-de-cuba (Roystonea regia), que leigos às vezes confundem com a imperial, tem o cume mais globoso. Ambas são Roystoneas, em homenagem a Roy Stone, engenheiro do Exército americano. O epíteto oleracea da imperial significa “da natureza dos legumes” e é usado na botânica para plantas comestíveis. De fato, podem servir de alimento tanto o broto quanto o amido que se extrai da medula do caule. “Mas essa extração mata a árvore”, alertou Fehr.

 

Aos 13 anos de idade, Fehr se descobriu fascinado por paisagens tropicais. Como seus pais não pareciam dispostos a botar os pés fora da Suíça, o adolescente passou a comprar sementes de palmeiras e a plantá-las em vasos e no jardim de casa. Sua coleção particular chega a 120 espécies – uma galeria discreta comparada às cerca de 2 600 conhecidas, mas que acabou por direcioná-lo ao doutorado em um centro renomado no estudo das palmeiras, na Universidade de Aarhus, na Dinamarca. “A minha grande questão no doutorado é saber como palmeiras não nativas, ou seja, aquelas que crescem fora do seu ambiente original, impactam o ecossistema.” Fehr estava atrás da centena de palmeiras-reais australianas (Archontophoenix alexandrae) para entender como elas afetam o ecossistema da floresta de Rio Claro, quando cruzou com a imperial de catorze andares.

Em dezembro, ele voltou a Schaffhausen, sua cidade natal, ao norte de Zurique. No roteiro da sua pesquisa estão previstas viagens à Califórnia, ao México e ao Havaí. Mas Fehr não deixará passar em branco o que mediu com seu clinômetro digital no Brasil. Em parceria com Galetti, o suíço esguio de cabeleira loira deve concluir um artigo sobre a altiva do interior de São Paulo e submetê-lo à Palms, revista da International Palm Society.

No texto, vai contestar uma classificação das palmeiras mais altas do mundo publicada em 2018, na mesma revista. Segundo pesquisadores colombianos, em 1838 foi identificada em Trinidad uma palmeira-imperial com 57 metros de altura. Seria a mais alta já registrada, seguida por outras duas, de 40,8 metros e 40 metros. “Não se sabe como foi feita a medição da palmeira de Trinidad, que já não existe mais. Na época, não foi usado nenhum instrumento de precisão”, disse Fehr. Ele entende que, se existisse outra mais longilínea que a de Rio Claro, provavelmente já haveria sobre ela algum registro nos anais científicos ou mesmo em algum site. “Palmeiras como essa costumam crescer em parques especiais como jardins botânicos, onde estão protegidas, e a instituição mencionaria isso pelo menos em seu site.”

Na base da palmeira-imperial foi colocada uma placa anunciando o recorde, mas a maioria dos visitantes do horto de Rio Claro costuma atravessar desatenta a sombra comprida. O local abre diariamente, das 7 às 18 horas, e o dia de maior movimento é domingo, quando recebe em média mil frequentadores, entre caminhantes, ciclistas, praticantes de meditação e visitantes do Museu do Eucalipto. “Se essa palmeira estivesse nos Estados Unidos, tenho certeza de que já haveria uma legião de turistas tirando fotos dela”, afirmou Galetti. A preocupação de Fehr, porém, é outra. Para ele, a maior ameaça à árvore gigantesca e esguia não é o ostracismo: são os raios. Qualquer descuido com os para-raios pode deixar a palmeira-filha tão vulnerável quanto esteve um dia a grande mãe, no Jardim Botânico do Rio.

Mônica Manir

Jornalista com mestrado e doutorado em bioética

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