esquina

Anonimato público

Os ghost-writers da Câmara

Bruno Moreschi
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2008

Edmílson Caminha aproveitou o período eleitoral, sinônimo de calmaria em Brasília, para passar férias em Paris. No mês passado, reassumiu o posto estratégico que lhe compete na Câmara dos Deputados. Há dezessete anos, ele organiza prós e contras acerca de assuntos variados, sempre em Times New Roman, tamanho 16, entrelinha dupla. Letras garrafais se justificam; o conteúdo produzido por Caminha e outros quinze redatores é dito em plenário no vozeirão de pelo menos metade dos 513 deputados federais, nada receosos com a apropriação.

À diferença do lero-lero exclamativo que compõe diariamente, o cearense Caminha é um homem pacato, de 56 anos, que avisa com modéstia que escreve o que mandam, com a cautela de apagar qualquer vestígio autoral. As paredes do seu gabinete são decoradas com fotos de Machu Picchu e Fernando de Noronha, de autoria própria, e a tela do seu computador, com a imagem de um panda a comer brotos de bambu, sugestão das filhas. “Elas dizem que nos finais de semana pareço com o urso, pois fico horas parado na mesma posição, deitado na rede, escutando jazz”, explica o redator parlamentar.

Além de dominar o português, posto à prova no concurso público de 1991, em que 8 mil candidatos concorreram a 160 vagas, Caminha é um especialista em tudo. Em uma única semana, escreve -sobre assuntos díspares, que vão da crise financeira norte-americana, campeã de pedidos no último mês, até a defesa de 1% das águas nacionais para uso dos -marisqueiros, defendida por Flávio Bezerra, do PMDB cearense, um dos únicos deputados a admitir a autoria alheia dos textos. Na quinta-feira, quase sempre o último dia de plenário, a retórica é mais amena: versa em torno de homenagens póstumas e festas regionais. Estudos específicos, como os projetos de lei, vão para os 164 técnicos especializados, que completam o quadro da consultoria legislativa.

 

Mesmo faltando três meses para o fim do ano, já é recorrente entre os redatores o consenso de que a placidez reinou nos mais de 900 discursos produzidos em 2008. A tendência começou com a eleição de Lula, quando o PT, sempre irado no palanque, se acalmou na situação, e foi agravada este ano pelas inúmeras lembranças ao centenário da imigração japonesa e aos 200 anos da vinda de dom João VI ao Brasil. “Sinto falta de um Artur da Távola”, lamenta Caminha, aludindo ao dia 27 de abril de 1992, quando o falecido deputado do PSDB carioca transformou a saudação à Espanha, escrita pelo redator, num discurso inflamado. “O caráter latino, a opulência verbal, o conceitismo barroco e a prevalência da emoção sobre a razão, admiravelmente representada na figura do Quixote, são marcas dessa cultura com que nos identificamos fortemente”, disse o deputado pausadamente e em bom-tom. “Ele apontava o indicador para o céu enquanto falava”, lembra, nostálgico, o redator.



Para manter a produção média de 100 discursos por ano, Caminha evita escrever antes de saber se o texto será lido no pequeno ou no grande expediente da sessão. O primeiro reserva míseros cinco minutos aos deputados e não lhes permite firulas. “Poucos homens conheceram tanto e tão profundamente o Brasil quanto Luís da Câmara Cascudo”, iniciou Caminha para um parlamentar paulistano, evitando a peroração e partindo logo para uma biografia sucinta do intelectual.

O discurso é outro quando proferido no grande expediente: são vinte minutos à disposição do político, com direito a aparte vindo dos colegas. “Penso que todo brasileiro deveria ter a oportuni-dade de conhecer a Amazônia, para só então poder dizer que conhece o Brasil”, digitou Caminha, para depois se deliciar descrevendo algumas árvores da floresta equatorial, como a andiroba, o mogno e o pau-rosa. Acertou em cheio: o preciosismo agradou ao deputado paraense.

Outra preocupação é saber para quem se escreve. No computador de Caminha, o currículo de Clodovil Hernandes, do PTC paulista, por exemplo, define-o como professor, comunicador, estilista, apresentador e cantor. Apesar do perfil multimídia, o redator conclui sem nenhuma maldade aparente: “Fica evidente que não dá para construir um discurso rebuscado para ele.”

Dilemas ideológicos não o perturbaram. Caminha perdeu a conta de quantos discursos produziu em favor do aborto, apesar de ser contrário à prática na maior parte dos casos. Semanas antes da destituição de Collor, mostrava-se habilidoso tanto para defender o ex-presidente quanto para criticar sua “ignominiosa conduta pública”. Se um deputado lhe pede um discurso ofensivo, até tenta acalmá-lo, mas, em caso de insistência, escreve sem temer a Justiça. Legalmente, o direito autoral recai sobre aquele que diz a peça oratória.

Para contrapor a falta de autoria, o ghost-writer público escreve suas próprias obras no silêncio de casa, como já fez em oito publicações. Leitor voraz (neste ano foram 39 livros, dentre os quais História Social do Jazz, de Eric Hobsbawn, e A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis, de Lilia Schwarz), Caminha gosta de se corresponder com escritores de renome. Da troca de missivas com Carlos Drummond de Andrade, na década de 1980, nasceu o livro Drummond: a Lição do Poeta, orgulhosamente assinado pelo redator.

Cético, Caminha se define como uma sombra do meio-dia, expressão retirada da obra ficcional do diplomata Sérgio Danese, que relata a amizade entre um senador e seu preparador de textos. Ainda assim, o anonimato não parece incomodá-lo. Mesmo quando o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, entoa um texto seu em plenário, ele se mostra resignado. “Sou apenas a mão que redige.”

Bruno Moreschi

Bruno Moreschi, jornalista e artista plástico, é coautor de 501 Grandes Artistas, da Sextante.

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