esquina

Antropofagia VS. boemia

Os herdeiros de Oswald de Andrade e Nelson Gonçalves estão às turras

Natasha Felizi
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

A rua Canuto do Val, em São Paulo, é alvo de uma discórdia urbanística que, por vias indiretas, fez do escritor Oswald de Andrade um desafeto do cantor Nelson Gonçalves, e vice-versa. Um uspiano inspirado diria que, naquele logradouro, a repulsa às escleroses urbanas do primeiro chamou para a briga a boemia do segundo.

O ringue em questão é um conjunto de bares e restaurantes que a empresária Lilian Gonçalves, de 62 anos, filha do intérprete de A Volta da Boêmia e A Deusa da Minha Rua, vem erguendo há trinta anos naquela rua do bairro de Santa Cecília. As tais escleroses contra as quais Oswald bradava no “Manifesto Antropófago” de 1928 se materializaram com o barulho dos bares, à noite, e das britadeiras, de dia.

Os vizinhos reclamaram. Um deles, neto do escritor, Rudá K. Andrade, de 34 anos, na melhor tradição da família, produziu um manifesto – no caso, contra a “calçada da lama”, apelido áspero dado ao projeto de calçada da fama que Lilian defende e promove na frente de seus estabelecimentos.

“Eu escrevi de raiva: o negócio está acontecendo aqui no meu nariz”, disse Rudá, que é cineasta e codirigiu o documentário Somos Todos Sacys. “Eu já não dormia de noite com o barulho dos bares, aí chegava de manhãzinha e tá-tá-tá-tá. Foi mais de um mês de britadeira. É insano.”

Como todo manifesto, o de Rudá prefere as labaredas da hipérbole à tranquilidade da ponderação. O texto convoca os vizinhos a se organizarem contra “um verdadeiro pesadelo”, uma trincheira “mais barulhenta que as da Primeira Guerra Mundial”. A fúria retórica se concentra na malsinada calçada, que comerá à rua 1,50 metro de largura, além de todas as vagas de estacionamento. É o espaço vital para que se possa prestar homenagem a “Roberto Carlos, Jô Soares, Hebe Camargo e Silvio Santos, entre tantos merecedores desta honra”, como explica o site da Rede Biroska, nome do complexo comercial de Lilian.

A assinatura de um legítimo Andrade deu um peso modernista ao movimento e às reivindicações da associação de moradores do bairro. Não que Lilian tenha atinado para esse detalhe histórico. Indômita, ela continuou avançando com suas estrelas sobre a Canuto do Val como quem ergue uma capital no meio do cerrado. A imagem não é gratuita. Sua mãe era amiga de Oscar Niemeyer e Juscelino Kubitschek – o arquiteto, um rematado boêmio, e o presidente, pé de valsa contumaz.

Como a filha de Nelson Gonçalves diz que passou parte da infância com JK, desconfia-se que tenha aprendido com ele lições meio tortas sobre como construir coisas. Se um presidente pôde espalhar asfalto e concreto por cima de pequis, por que não deveria uma rainha da noite alargar a calçada à lá Orestes Barbosa, pisar nos astros distraída?

Segundo Lilian, a calçada não é um projeto seu, embora se desenrole diante dos cinco bares e restaurantes que lhe pertencem na Canuto. (São eles: Bar do Nelson, Siga la Vaca, Frango com Tudo, Espetinho e Biroska, que dá nome à rede. Nas suas paredes estão penduradas 4 500 fotos mostando Lilian.) “A obra é do Kassab”, diz a empresária, jogando o mico no colo da prefeitura. De fato, não poderia haver obra mais municipal: a calçada da fama virou lei depois da aprovação de um projeto legislativo do vereador Paulo Frange, do PTB, um dos cassados no fim do ano passado por captação ilícita de recursos junto à Associação Imobiliária Brasileira (em maio, a Justiça Eleitoral paulista anulou a cassação).

A prefeitura ficou responsável pelo alargamento da calçada e a alteração de meios-fios e sarjetas, a um custo de aproximadamente 70 mil reais. A Lilian caberá arcar com os cerca de 4 milhões do acabamento e da pavimentação do passeio, essencial para receber o chão de estrelas que celebra os “nossos ídolos”, nas palavras da empresária. Para que não restassem dúvidas quanto ao pedigree oficial da obra, as primeiras estrelas da calçada foram dedicadas ao então governador de São Paulo, José Serra, e ao ex-governador, Geraldo Alckmin.

Os paulistanos, ao que parece, levarão algum tempo antes de pisar nas estrelas. A calçada começou a ser quebrada em setembro passado, abocanhou uma das faixas da rua de mão única, mas no momento encontra-se retalhada à espera de uma decisão judicial. A obra foi embargada pelo Ministério Público um mês depois de seu início, a partir de uma ação de comerciantes do entorno. A Rede Biroska entrou com um recurso, que foi negado em segunda instância. Agora, novo recurso, só na capital federal – aquela de JK.

 

Lilian diz que não tem interesse em dar entrevista. “Não neste momento. Até a Hebe me chamou e eu não vou lá”, explicou. Deixa apenas escapar que o embargo é uma “bobeira” e que “já, já passa e nós ganhamos”.

Tendo vencido os primeiros rounds, o neto de Oswald de Andrade e Pagu invoca o avô para dar substância intelectual a seu movimento. Oswald dizia-se “contra todos os importadores de consciência enlatada”, e Rudá assina embaixo. “Essa coisa da ‘fama’, tentando imitar Hollywood e ficar homenageando os já consagrados é o brega que tem no Brasil. Não é cultura popular, é o brega-chique. Os únicos homenageados ali eram o Serra, o Pelé, a Xuxa, o Roberto Carlos, o Sérgio Reis. E ela defendia o negócio como um projeto cultural, tentando entrar num esquema de revitalizar o Centro.” Segundo o neto, o escritor teria grandes decepções com esta São Paulo que, felizmente, não conheceu. “Estaria puto com mil outras coisas. Ele morreu em 1954, e estaria perdido aqui”, diz Rudá.

Mas quem pode saber o que se passa na cabeça dos poetas, principalmente os mortos? Afinal, o escritor é autor dos versos

Não permita Deus que eu morra

Sem que eu volte pra São Paulo

Sem que veja a rua 15

E o progresso de São Paulo

Lilian não conhece o poema, mas poderia invocá-lo, ao reagir com espanto à informação sobre a genealogia de Rudá: “E como é que ele, sendo neto do Osvaldo de Andrade” – ela disse Osvaldo mesmo, usando a pronúncia correta – “sabendo da falta de memória desse país, vai contra uma calçada da fama brasileira?”

Rudá não quer o fim dos bares, só da bagunça. “Queremos organizar”, diz. A ruazinha modesta é uma paisagem de festa, mas o bom negro e o bom branco da nação brasileira, aqueles do poema de Oswald, parecem estar dizendo: Deixa disso, Lilian/ Me dá um descanso.

Natasha Felizi

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