esquina

Apagão sonoro

Entre o presidente e dom Cappio há um rio e uma rádio

Roberto Kaz
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2009

Na quarta-feira, 14 de outubro, o professor de geografia Aphonsus de Figueiredo Souza, de 38 anos, tentou sintonizar o aparelho de som na frequência de 87,9 megahertz — e se deparou com um chiado constante. Logo percebeu: a Rádio Grande Rio FM, de Barra, no interior da Bahia, estava fora do ar. Para o morador de uma cidade grande, uma rádio ausente poderia significar um pequeno revés na rotina. Para Souza e os 50 mil moradores de Barra, significava o completo isolamento sonoro — fora a Grande Rio, nenhuma outra frequência abastece a cidade.

Embora inédito, o silêncio radiofônico não pegara a população de surpresa: sob a justificativa de uma manutenção preventiva, havia sido anunciado um dia antes pelo presidente da emissora, o bispo dom Luiz Flávio Cappio. Dom Cappio, personalidade mais famosa de Barra, é um contestador ativo das obras de transposição do rio São Francisco, estimadas em 4,5 bilhões de reais pelo governo federal. Por coincidência, no dia em que a Grande Rio FM saiu do ar, a cidade recebeu a visita do presidente Lula, justamente para a inauguração de obras no São Francisco. (Assim como a rádio, dom Cappio também desapareceu, alegando um compromisso da diocese em Barreiras, município no caminho entre Barra e Brasília.)

“Foi ditatorial a atitude do bispo. A rádio é comunitária. E ele a fechou em função de uma ideia pessoal”, reclamou o professor Souza, que leciona no Colégio Municipal Senhor do Bonfim e no Colégio Modelo Luís Eduardo Magalhães, na cidade vizinha de Xique-Xique. Assim como centenas de moradores de Barra, Souza acordara cedo para ver a chegada de Lula no aeroporto, agendada para a uma hora da tarde. “Estou aqui desde nove da manhã, comendo água e esperando. Já faz mais de quinze anos que ele veio pela última vez.” Em 1994, Lula, em campanha, visitara Barra no dia da partida entre Brasil e Holanda pela Copa do Mundo. “Ele falou rápido: sabia que todo mundo queria ver o jogo”, disse Souza, que à uma e meia da tarde desistiu de esperar para almoçar com a filha. (Seus amigos Givaldo Barreto de Souza e Manuel Borges de Souza, que estavam diante do aeroporto desde sete e meia da manhã, continuaram esperando.)

 

Perto deles, embaixo de duas faixas com as frases “Obrigado presidente Lula e ministro Geddel pela revitalização do rio” e “Presidente Lula, a Barra lhe agradece o PAC, pela execução do esgotamento sanitário”, a agricultora Deusina dos Santos Ferreira, de 49 anos, buscava uma sombra para se esconder do sol. Ela saíra de Mansidão, município a 146 quilômetros de Barra, no dia anterior. “Acordei hoje às cinco da manhã e só tomei um café puro. Estou com fome, mas meu sonho na vida é ver o Lula. Mesmo que seja só um cantinho dele, passando assim de longe.” O sonho era dividido por cerca de 500 outras pessoas que aguardavam, com sol a pino, a chegada do presidente.



Pouco depois das duas da tarde, os helicópteros da comitiva apareceram no céu. Duas crianças subiram em uma árvore. Em alvoroço, a multidão começou a gritar: “Olha o Lula, olha o Lula.” Os helicópteros aterrissaram, ficaram quinze minutos na pista, até que Lula se aproximou do público. Dona Deusina correu em direção à grade que protegia a comitiva. Avançou entre dezenas de homens e conseguiu ser abraçada. “Filho de Jesus, filho de Jesus”, falou, enquanto recebia um afago presidencial. Depois, começou a chorar. “Passei a mão no Lula. Não vou dormir de noite. Meu coração tá assim: tu-tu-tu-tu”, berrava, aos prantos.

A cena foi acompanhada de longe pelo locutor Givaldo Oliveira, responsável pelo programa Manhã de Bem com a Vida na rádio do bispo dom Cappio. “Só vim trazer um padrinho meu, que mora em São Paulo. Se não fosse por ele, não teria vindo”, justificou, com desdém. No dia seguinte, a Grande Rio FM voltou ao funcionamento normal.

Roberto Kaz

Roberto Kaz

Repórter da piauí, é autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras

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