cartas

Apocalípticos & integrados

SÉRGIO CABRAL

A propósito da reportagem de Daniela Pinheiro (“Na boca do povo”, piauí_85, outubro), a situação do governador do Rio me lembrou o escritor Afrânio Peixoto, que dizia, em 1945, ao falar sobre a Semana da Arte Moderna: “O moço irreverente, quando vencer, será o velho desse momento e não escapará ao furor iconoclasta dos jovens da hora seguinte. Assim é que o mundo avança. O incendiário vira bombeiro e muitas vezes um incêndio é o único meio de desatravancar o caminho ou a cidade de velhas construções obsoletas que devem desaparecer.”

MARCELO DUNLOP_RIO DE JANEIRO/RJ

Em seu perfil de Sérgio Cabral, a repórter errou de data quando disse que o governador elegeu em 2008, em primeiro turno, seu candidato a prefeito da capital, Eduardo Paes. Tal episódio se deu em 2012, porque, em 2008, até feriado ele teve que inventar para bater Fernando Gabeira em escassos 55 mil votos. No mais, parabéns a Daniela Pinheiro.

MARCUS VERAS_RIO DE JANEIRO/RJ

NOTA DA REDAÇÃO: O erro apontado ocorreu por culpa da edição, e não da repórter.

 

DENISE ABREU

Congratulo Consuelo Dieguez e Daniela Pinheiro pelas excelentes reportagens “O desastre” e “Na boca do povo”. Mais do que uma congratulação, que este singelo e-mail sirva de agradecimento. Agradeço a vocês duas por desempenharem excelente trabalho jornalístico neste universo editorial repleto de fechamentos de jornais, “notinhas” e pretensas “reportagens” de dois parágrafos que mais silenciam do que elucidam. Com a certeza de que este e-mail será lido pelas duas jornalistas e com o eterno receio de que um dia essa revista acabe, me despeço.

NOTA DE REDAÇÃO: Nem fale, Matheus. Partilhamos do mesmo receio, ainda mais agora que leitores argutos começam a descobrir o que realmente nos move. Veja a Maria Beatriz na página ao lado. Em relação às jornalistas, assim que elas regressarem de suas merecidas férias em suntuosos palácios do Rajastão – nos quais, em gentil e desprendido oferecimento da cia e do Instituto FHC, passam o dia tomando drinques com guarda-chuvinha à beira de piscinas azul-celeste –, nós lhes transmitiremos o recado.

MATHEUS MARQUES_INDAIATUBA/SP

O excelente texto da jornalista Consuelo Dieguez sob o título “O desastre”, reconstituindo como num thriller os antecedentes do acidente com o avião da TAM de 17.07.2007, em Congonhas, que provocou a morte dos 187 ocupantes, além de doze pessoas no solo, demonstra que essa terrível tragédia foi fruto de uma falha coletiva, não cabendo culpar alguns indivíduos sem que se venha a cometer injustiças. A Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) foi criada pela Lei 11.182, de 27.09.2005, mas passou a operar depois do Decreto 5.731, de 20.03.2006, subordinada à Secretaria de Aviação Civil da Presidência da República.  A ANAC, constituída de cinco diretores, substituiu o Departamento de Aviação Civil (DAC), que era composto em sua maioria por oficiais da aeronáutica.  Lula sempre torceu o nariz para as agências reguladoras em face da autonomia e independência dos seus membros, blindados das pressões políticas pelos mandatos de cinco anos. Esses nomes devem ser aprovados pelo Senado e nomeados pelo Presidente da República. Como se deduz claramente do relato, não houve uma preocupação do Executivo na escolha de profissionais devidamente habilitados para o cumprimento de uma tarefa das mais complexas. Assim como aconteceu na maioria das agências reguladoras existentes, cuja principal função seria defender a sociedade dos maus serviços prestados pelas empresas em seus respectivos setores, nosso presidencialismo imperial limitou-se a montar uma estrutura poderosa que foi entregue aos amigos do rei, com o aval de um Senado submisso.  O relato não deixa dúvidas quanto à incompetência da maioria dos membros da ANAC e os verdadeiros responsáveis pelo desastre anunciado.

DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ

A reportagem de Consuelo Dieguez vai além da informação. Agora cada brasileiro poderá refletir sobre a cruel realidade de sua segurança ao entrar num avião. Negligência governamental quanto à adoção de procedimentos básicos para a preservação de milhares de vidas, aparelhamento estatal, privilégios a apadrinhados políticos e ganância desmedida das empresas. É tudo perturbador.

FLÁVIO DE SOUSA_VOLTA REDONDA/RJ

O artigo “O desastre” (piauí_85, outubro), de Consuelo Dieguez, está sensacional. Concordo plenamente com a autora por não achar relevante incluir nele o episódio do gesto do assessor especial do então presidente Lula, Marco Aurélio “Top-top” Garcia, ao ver no noticiário noturno que a causa (como se esta fosse a única!) do acidente teria sido falha humana, culpa do piloto. O cartunista Henfil (homenageado nesta mesma edição) tornou famoso o top-top do seu personagem Fradim. Também por isso, o assessor será lembrado ad aeternum – irrelevante!

LUIS CARLOS HERINGER_MANHUMIRIM/MG

GETÚLIO VARGAS

Mario Sergio Conti desta vez nos traz a resenha de uma boa e importante biografia (“Verdade Vargas”,piauí_85, outubro). Autorizada ou não, pagando royalties para os herdeiros da personagem histórica ou não, fato é que Lira Neto fez uma obra profunda e de fôlego, ainda que o terço final não tenha sido rezado – ou melhor, ainda está por vir. Não entro na controvérsia sobre o Movimento de 32, levantado por Conti, que me é caro, mas a mudez de Vargas perante os afundamentos de navios na Segunda Guerra fala muito: as ditaduras se solidarizam e sentimos na pele agruras semelhantes menos de duas décadas depois, na mesma América Latina militarizada.

ADILSON ROBERTO GONÇALVES_LORENA/SP

 

Parabéns a Mario Sergio Conti pelo seu artigo “Verdade Vargas”, em que resenha a obra Getúlio, de Lira Neto. Em diversos pontos do artigo, Conti se refere a Vargas como um “ditador”.
É o que foi, num regime oligárquico e cruel (não precisaria lembrar aqui a extradição de Olga Benário) que contou com a colaboração de seu assecla Filinto Müller, o “gerente da prisão e da tortura de milhares de pessoas”. No entanto, há no artigo certo ranço preconceituoso. Ao se referir à Revolução de 1932, o autor a caracteriza como  movimento “[…] que quatrocentões cada vez mais decadentes, teimam em chamar de ‘Revolução Constitucionalista’”. A história nos diz que, se os paulistas perderam nas armas, ganharam, junto com todos os brasileiros, no ideal do movimento. Como resultado, tivemos a Assembleia Constituinte de 1933 e a Constituição de 1934. Que logo viria a ser rasgada pelo ditador. É bom sempre lembrar que esse levante oligárquico paulista contou com o apoio irrestrito de toda a população. Assim, além de quatrocentões decadentes, apoiaram o movimento os “portugueses burros”, os “judeus argentários”, os “franceses que não tomam banho”, os “argentinos arrogantes” etc. Haja preconceito!

NELSON PENTEADO DE CASTRO_SÃO PAULO/SP

FHC

É só impressão minha, ou o governador Alckmin está dando uma de Fradim do Henfil, fazendo o top-top-top na posse de FHC na ABL (“Fardas e fardões”, piauí_85, outubro)? O sorriso e o gesto [na foto] são tais e quais.

VASCO SOARES DA COSTA_NITERÓI/RJ

 

OLIMPÍADA DE MATEMÁTICA

O subtítulo do texto (“Por que uma cidadezinha mineira faz sucesso nas competições de matemática”) criava expectativas que, para mim, ficaram frustradas. Comecei lendo a Esquina (“Vilarejo olímpico”,piauí_85, outubro) com muito interesse, pois tenho dois filhos que participam regularmente desse tipo de competição. Contudo, quando o autor Rafael Cariello escreve sobre o invejável cotidiano da aluna Dávila (“Ele [o pai], a mulher e os dois filhos levam uma vida simples e confortável. Um gramado bem aparado cerca a casa térrea amarela, com portas e janelas de madeira. Na cozinha, dona Vilma, mãe de Dávila, serviu bolo, café e queijo minas. Pouco antes do meio-dia, o pai apareceu de barba feita e camisa lavada…”), pensei que vocês estavam transcrevendo o texto de alguma redação do Ensino Fundamental i: “Era uma vez uma família que vivia feliz em sua casinha amarela…” Precisava acrescentar esse tipo de detalhe bucólico?

VALERIA FONTANA_JUNDIAÍ/SP

ESPIONAGEM INTERNACIONAL

Eu já curtia The piauí Herald através do site da revista e me senti presenteado com a grata surpresa de ver publicado nas páginas da edição de aniversário o humor que é a cara daqueles que realmente têm um parafuso a mais (“The NSA Herald”, piauí_85, outubro). Continuem a nos brindar com outras matérias extraídas do delicioso The piauí Herald.

WILLIAM ALVES_RIO DE JANEIRO/RJ

NOTA DA REDAÇÃO: Como é de conhecimento público, The piauí Herald é uma organização planetária com correspondentes em pelo menos 150 nações. Sua influência junto aos grandes centros de poder, da Casa Branca ao Instituto Lula, só encontra rival na BBC e na CNN, e isso quando as duas empresas noticiosas estão em boa fase. Não temos, portanto, estatura para exigir outra coisa senão colaborações esporádicas deste colosso do jornalismo. Tais são as agruras de quem, como você, William, decidiu assinar a piauí, e não o New York Times.

ERA UMA VEZ UM HOTEL

A matéria é boa, mas nada tem a ver com o título (Despedida, “A ruína de Eike”, piauí_85, outubro). E foi o título que me chamou a atenção. Gostei do texto sobre o desmando da reforma do Hotel Glória – um absurdo. Mas gostaria de tocar no assunto da origem da bilionária fortuna desse Batista. Aliás, o pai, que foi presidente da Vale do Rio Doce por muito tempo e dentro do período militar, soube onde estavam as minas de vários metais…
Como foram parar nas mãos do filho? Conta essa história como contou a do Cabral.

MAURO PEIXOTO_MIGUEL PEREIRA/RJ

PIAUÍ_85

Muito boa a edição deste mês da piauí. Muito interessante essa inclusão de diários. Primeiro a compilação do Richard Burton. Agora do conde Kessler. Sugiro continuar nessa linha, se for possível. Todo mês trechos de diário de alguém interessante.

WILLIAN TARANTO_RIO DE JANEIRO/RJ

Volta e meia, me pego escrevendo praí, elogiando a revista. A culpa não é minha. Não sou puxa-saco, apenas vocês estão produzindo uma ótima revista. A do mês de outubro, então, foi, como diria minha avó, supimpa. Já começa por termos a oportunidade de rever o Henfil, brilhante sob todos os aspectos. Além disso, a matéria da Consuelo Dieguez, abordando o caso “TAM/Congonha/Denise Abreu”, foi ótima. A agonia “cabralina”, analisada pela Daniela Pinheiro, foi também excelente. Isso para não falarmos do Diário da Dilma e a sensacional matéria do Olegário, misterioso colaborador, enfocando o The NSA Herald. Recheado de cinismo ululante. Espero ter elevado a autoestima de vocês.

ANTONIO CARLOS DA FONSECA NETO_SALVADOR/BA

NOTA DA REDAÇÃO: Antonio Carlos, consultada, Paula Lavigne permitiu que você escreva a nossa biografia autorizada.

DIÁRIO DA DILMA

Lendo o diário da Dilma Rousseff na revista, no dia 12 (piauí_85, outubro), me fiz uma pergunta: o repórter Renato Terra estava em São Gonçalo para descrever detalhes reais como os acontecidos naquele evento em que a presidente esteve? Pois realmente aconteceu como ele narra no diário. Os dois, Cabral e Pezão, foram vaiados por todos os presentes. Como estava trabalhando, também tive que me conter na comemoração.

TOMAZ SILVA_RIO DE JANEIRO/RJ

NOTA DA PRESIDENTA: Meu querido: quem é esse Renato Terra? Começo a me convencer que quem está certa é Maria Beatriz, aí ao lado: vocês todos não passam de tucanos que tentam atribuir a terceiros a autoria de minhas realizações.

PIAUÍ PARA ADOLESCENTES

Sou um adolescente e recebemos mensalmente a revista piauí aqui em casa. Vejo que meus pais gostam de ler esta revista e sempre tenho curiosidade de saber o que está nela, mas quando a folheio a linguagem não me desperta um grande interesse. Acho que deveria ter uma seção para adolescentes que queiram ler e conhecer a revista. Para vocês, seria um público a mais de jovens interessados.

GUNTER DE ALMEIDA KANDLER_SÃO PAULO/SP

NOTA DA REDAÇÃO: O mundo dos adultos é meio chato mesmo, Gunter. Nós mesmos passamos boa parte do tempo bocejando quando lemos os textos uns dos outros. Obrigado pelo toque, a gente vai se esforçar mais um pouquinho na torcida para que você nos dê mais uma chance. (Sugestão: comece pelas Esquinas, leia o diário de nossa presidenta e, quando houver quadrinhos, dê uma espiada; quem sabe, com o tempo, a coisa não engrena?)

 

CRÍTICA

É com um sentimento ruim, de decepção, de pessimismo diante da imprensa nacional, que peço para cancelarem minha assinatura da piauí. Quando fiz a opção por assinar, não sabia que era da Abril. Quando soube, quase desisti. A mesma editora que publica Veja não poderia ser impassiva e verdadeira quando tratasse de assuntos políticos do nosso país. Arrisquei, pelo lado cultural que conhecia. Mas não dá mais. Acho que a aproximação de mais uma eleição mostra a verdadeira face de nossa imprensa, praticamente unânime em suas falsas verdades e moralidades. O artigo de César Benjamin (“O longo prazo chegou”, piauí_83, agosto) foi só a gota d’água. Ainda fico curiosa em pensar como seria a reação de vocês se a espionagem feita por americanos no nosso país fosse alguma coisa ligada a Cuba, Bolívia, Argentina, Venezuela. Imagino o estardalhaço! Me enoja tudo isso, me decepciona, me irrita. O número 85 está aqui ao lado e, ao ver FHC como destaque, desisti de ler qualquer coisa. Já estou entrando em contato com o cartão para o cancelamento. Gostaria que enviassem todos os números já pagos. Vou ler e guardar as poesias.

MARIA BEATRIZ TEIXEIRA_BELO HORIZONTE/MG

NOTA DA REDAÇÃO: Mas logo agora, Maria Beatriz, que acertamos encartar o Diário Oficial da União na revista? Aqui vai uma informação que certamente te surpreenderá: tomamos essa decisão sem nem mesmo consultar a Abril! É que somos uma revista independente, veja só você. Em essência, mantemos com a Editora Abril uma relação de prestação de serviço. Eles imprimem a nossa revista, distribuem-na pelo país e operam a nossa carteira de assinantes. Acertos e erros editoriais são de nossa inteira responsabilidade. Por vezes, bem que gostaríamos de transferir para terceiros a autoria de nossas asneiras. Estamos sempre atrás de uma boa teoria conspiratória sob a qual nos escudar. Enquanto testamos a tua, prometemos que, caso você reconsidere a decisão, em 2014 passaremos a publicar pelo menos um poema de Michel Temer a cada número da revista. Dois até, em mês de eleição.

 



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