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Apologia do vinagre

O ácido acético entra para a pauta da política nacional

Vanessa Barbara
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

“Galera, por favor, esta é uma manifestação pacífica”, alertou no Facebook o jornalista Gilberto Americo da Silva. “Não deem motivos para discriminar o movimento: por favor, não consumam vinagre durante o trajeto; evitem as saladas”, pediu.

No rastro das manifestações populares que tomaram o país nas últimas semanas, um único tema conseguiu aglutinar a indignação de todos os setores da sociedade: a injusta criminalização do vinagre.

Tudo começou em 13 de junho, quando o jornalista Piero Locatelli foi preso por porte ilegal do produto enquanto cobria os protestos contra o aumento da passagem, no Centro de São Paulo. Assim como muitos manifestantes, ele trouxera uma garrafa de ácido acético a fim de neutralizar os efeitos do gás lacrimogêneo.

Num primeiro momento, a polícia alegou que o ingrediente poderia ser utilizado para fazer uma bomba caseira, misturado com bicarbonato de sódio. Depois argumentou que eram prisões preventivas, efetuadas apenas para averiguar a natureza do líquido. “Não tenho condições de pegar uma garrafa e saber que é vinagre. Só quem vai dizer com certeza é o Instituto de Criminalística”, declarou o tenente-coronel Ben-Hur Junqueira, comandante da operação.



Locatelli e outros suspeitos foram liberados algumas horas depois. Mas era tarde demais: àquela altura, a legalização do vinagre já tinha se convertido em bandeira popular na internet, onde se disseminaram memes como a expressão “V de Vinagre”, em referência aos quadrinhos V de Vingança. Em questão de horas organizou-se no Facebook uma Marcha pela Legalização do Vinagre, que uniu virtualmente 52 816 pessoas em franca apologia ao ácido.

Detalhe: a despeito do barulho, a ciência nunca comprovou a eficácia do vinagre para minimizar os efeitos do gás lacrimogêneo. Especula-se que o efeito seja apenas psicológico; alguns toxicologistas defendem que o uso do ácido acético pode até piorar a irritação das mucosas.

 

Do latim vinum (vinho) + acer (azedo), o condimento consiste numa mistura de água e ácido acético, proveniente da fermentação do etanol. O vinagre existe há milhares de anos e é comumente servido como molho para saladas, embora possua uma infinidade de usos domésticos, industriais e médicos. Aplicado nos cabelos, serve para combater piolhos. Também é útil para remover manchas, eliminar pragas, curar soluços, tratar infecções causadas por fungos, cozer ovos, fortalecer plantas, desentupir pias, aliviar hematomas, lustrar dentaduras e prevenir o refluxo gástrico.

No evento do Facebook, a indignação era vistosa. Preocupado, o assessor de comunicação Rodrigo Pereira alertou: “Vinagre com repolho é uma receita de bomba usada há muito tempo pelos terroristas da Alemanha. Conhecida também como chucrute, a reação química ocorre no próprio corpo do terrorista, que se converte em uma arma química imprevisível de gases venenosos. O efeito é devastador em ambientes fechados como elevadores. É incontável o número de vítimas do chucrute.”

Foram postadas fotomontagens com a apresentadora Palmirinha Onofre sendo presa por porte ilegal do tempero, além de vídeos de microexplosões provocadas por vinagre e bicarbonato de sódio. Alguns manifestantes pediram seriedade. Em resposta, criou-se novo slogan: “Faça salada, não faça guerra.”

“O verdadeiro foco da nossa luta deveria ser combater os pontos de venda dessas substâncias”, reivindicou César Dias. “Aqui perto de casa, na Zona Leste, ele é vendido livremente, de forma organizada, num ponto de vendas chamado supermercado.”

O estudante Lucio Daleiro Ayala discordou: “Acredito que a legalização do vinagre para uso recreativo irá ajudar a combater o tráfico que ocorre há anos em nossa sociedade”, declarou, amparado pela maioria.

Nesses primeiros dias de luta, uma das grandes preocupações era estipular o volume (em litros) que diferenciaria o usuário do traficante, e se para os dependentes caberia internação compulsória. Na opinião do militante Kadu Vido, o vinagre é uma droga de entrada: “A pessoa começa por ele e, quando vai ver, já está cheirando gás lacrimogêneo e vendendo o corpo para pagar a passagem de ônibus.” Uma visitante, incrédula, concluiu que ele só podia estar sob o efeito de vinagre branco.

 

Segundo enquete efetuada nos dias que se seguiram à proibição, 32% dos membros da comunidade virtual defendiam que se injetasse vinagre na veia. Outros 30% preferiam diluir a substância no Eno Guaraná, enquanto 22% o cheiravam. “Não uso entorpecentes tão poderosos”, foi a resposta de míseros 8%, e o restante se dividiu entre baforar, fazer chá e ingerir o produto com gás lacrimogêneo.

Como previsto, o movimento descambou para a clandestinidade: “Tenho vinagre do bão aqui. Dá pra cheirar, fumar, injetar, fazer bomba; filma, fotografa e reproduz MP3”, anunciou uma mulher. Firme, o líder João Alves pediu que não se perdesse o foco: “Temos de pensar na segurança e integridade da militante Palmirinha, uma das principais perseguidas políticas desta revolta.”

Tamanha controvérsia incentivou a empresa Flux Game Studio a desenvolver o jogo para Facebook V de Vinagre, em que o protagonista comanda um manifestante mascarado fugindo da polícia. Ao fim do jogo, após ser preso e levar uma surra, o herói recebe um rótulo de acordo com a quantidade de vinagre apreendida: desocupado, vagabundo, meliante e, no pior dos casos, comunista.

Em 16 de junho, finalmente, o secretário de Segurança de São Paulo, Fernando Grella, liberou o uso do produto para propósitos revolucionários e gastronômicos. Ainda assim, no Facebook, alguns militantes interpretaram a manobra como uma armadilha.

Quem deu a palavra final foi a engenheira de computação Cássila Kirst, que, experiente, sugeriu que os manifestantes fossem cautelosos e contrabandeassem vinagre dentro de armas de fogo.

Vanessa Barbara

Escritora e jornalista, é colaboradora do New York Times

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