esquina

Arde, tomate

Um editor de genomas em Viçosa

Bernardo Esteves
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

Numa manhã recente, o geneticista Agustín Zsögön mostrou à piauí experimentos que fez com seus alunos na Universidade Federal de Viçosa, a UFV. Dezenas de vasos se espalhavam pelas grandes bancadas da estufa, com destaque para pimenteiras vistosas e tomateiros de aspectos variados. Logo na entrada crescia um tomate do tamanho de uma bola de pingue-pongue, roxo como uma uva – mesma cor do caule e das folhas. Seus genes haviam sido manipulados em laboratório para produzir em abundância os pigmentos que lhe davam a aparência incomum. O pesquisador suspeita que o pigmento torna aquela variedade de tomate mais resistente ao sol e à seca, e fez o experimento para testar a hipótese.

Zsögön tem 38 anos, a testa ampla e a barba curta. Descendente de húngaros, nasceu em Buenos Aires e desde 2015 mora em Viçosa, no sudeste de Minas Gerais, após passar num concurso na UFV. É especializado na engenharia genética de plantas, particularmente do tomateiro. “Essa espécie é ao mesmo tempo um dos cultivos mais importantes do mundo e um modelo genético prático para trabalhar no laboratório”, explicou.

Se os planos do geneticista derem certo, num futuro próximo a estufa experimental da UFV pode abrigar vasos com tomates modificados para produzir a mesma substância responsável pelo gosto picante da pimenta. Proposta em janeiro num artigo na revista Trends in Plant Science, a ideia de desenvolver tomates ardidos chamou a atenção da imprensa mundial.

Originários da América do Sul, tomateiro e pimenteira são parentes próximos e pertencem à família das solanáceas, que inclui ainda batata, tabaco e berinjela. Quando o genoma da pimenteira foi decifrado, em 2014, os cientistas notaram que o tomateiro conservava, inativos, os genes necessários para sintetizar as substâncias que deixam a pimenta picante, os capsaicinoides (o nome dos compostos e do gênero da planta, Capsicum, vem de kapto, “picar”, “morder” em grego). “A matéria-prima está lá, a questão é ativar os genes no lugar correto e na dose adequada para desencadear o processo”, disse Zsögön.

A ideia surgiu em conversas que o argentino teve com Adriano Nunes-Nesi e Wagner Araújo, seus colegas de departamento, e Lázaro Peres, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, unidade da usp em Piracicaba. O geneticista lembrou que, além do interesse culinário, os capsaicinoides são capazes de combater certos tipos de câncer, inibir o apetite e atuar como analgésico, anti-inflamatório e antioxidante. Como os tomateiros são muito mais produtivos e fáceis de cultivar que as pimenteiras, raciocinou, poderiam servir como uma biofábrica para a obtenção desses compostos em grande quantidade.

 

O tomate ardido da UFV será produzido com as novas ferramentas que revolucionaram a engenharia genética de uns anos para cá ao permitirem a manipulação de sequências de genes com alta precisão – a mais badalada delas atende pela sigla CRISPR-Cas9. Entre outros exemplos, essas técnicas permitiram produzir cogumelos que não ficam marrons em contato com o ar, e vêm sendo usadas na busca por criar morangos mais doces e bananas resistentes a fungos.

Ao contrário da tecnologia empregada na primeira geração de organismos geneticamente modificados, as novas ferramentas de edição genética são acessíveis. “Temos a estrutura para fazer esse trabalho inteiramente aqui”, disse Zsögön, sentado diante de uma bancada do Laboratório de Fisiologia Molecular de Plantas da UFV. “Qualquer grupo de pesquisa com um mínimo de recursos pode, a princípio, produzir um cultivo novo ou melhorado com essas técnicas.”

Zsögön e seus colaboradores já estão se mexendo. O geneticista explicou que o trabalho começa no computador, com uma análise do genoma do tomateiro e a determinação das sequências a serem alteradas. Depois disso os pesquisadores conduzem a manipulação genética propriamente dita e cultivam as primeiras plantas em vasinhos numa bancada do laboratório para observar o efeito da intervenção. “Com sorte, seria factível realizar esses testes no curto prazo, não sei se este ano ainda”, afirmou.

 

O argentino não cozinha e não foi motivado pela curiosidade culinária, mas vê com interesse as possibilidades abertas pelo tomate picante. “Ele juntaria dois sabores que combinam naturalmente”, afirmou Zsögön, que adoraria provar um guacamole ardido e servir aos amigos – sem avisar – uma pizza marguerita com rodelas do tomate modificado, para pregar-lhes uma peça.

O trabalho tampouco foi movido pelo desejo de conseguir uma patente ou de alguma forma lucrar com a eventual comercialização do tomate picante. Tanto que o grupo publicou a proposta do experimento antes de mostrar que ele é mesmo viável. Com isso, se arriscam a ter a ideia executada num laboratório com mais recursos. A hipótese não tira o sono do pesquisador. “Quem tiver motivação, tempo e dinheiro pode ir atrás”, afirmou. “Se alguém chegar lá antes, paciência, é um risco que corremos.”

Para Zsögön, o aspecto mais estimulante do estudo não é obter o tomate picante propriamente dito, mas mostrar que a ideia funciona. Se o grupo assegurar que é possível produzi-lo em laboratório, estarão abertas as portas para que, no futuro, o tomateiro e outras plantas sejam usadas como plataformas para sintetizar compostos de interesse médico ou industrial. “As possibilidades são infinitas”, afirmou.

A proposta dos pesquisadores chega 36 anos depois do “boimate”, como ficou conhecido o suposto organismo híbrido obtido a partir da fusão de células de um boi e de um tomate. A história – uma pegadinha de 1º de abril da revista inglesa New Scientist – foi publicada em 1983 pela Veja, como verídica, num exemplo muito lembrado nas antologias de erros da imprensa brasileira. A revista tratou de batizar a criatura e elaborar um infográfico para ilustrar o feito. Zsögön não conhecia a história, mas, na dúvida, preferiu não propor um nome para a planta que vai combinar tomate com pimenta.

Bernardo Esteves

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo é dia de ciência, da Azougue Editorial

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