esquina

Área indígena

Street art pela causa guarani

João Perassolo
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

Munido de um balde de cola de 5 litros, uma vassoura, adesivos e cartazes, o artista plástico Dione Martins da Luz, mais conhecido como “Xadalu”, deixa sua casa-ateliê e segue de Uber “para a área de maior conflito entre brancos e indígenas em Porto Alegre”, como ele diz. É a região nos arredores do Mercado Público e da praça da Alfândega, no Centro, onde os guaranis costumam expor colares, pulseiras e outras peças de artesanato.

Xadalu começa a aplicar seus trabalhos nos muros. Os adesivos trazem a figura de um índio com uma pena verde na cabeça – uma imagem sintética e pop que parece saída de um desenho animado. Os cartazes são compostos por grafismos e fotos de indígenas (também feitas por ele), ou imitam placas de sinalização de trânsito, mas com os dizeres: “Atenção: Área indígena.”

Dois dias antes, 11 de janeiro, uma comunidade indígena em Ponta do Arado, na Zona Sul, tinha sido atacada a tiros por homens encapuzados. Agressões também costumam ocorrer naquela região de comércio onde Xadalu resolveu intervir. Ele conta que pessoas chegam a chutar as peças artesanais dos índios dispostas nas calçadas.

Os ataques ocorrem em um contexto político bastante desfavorável para a população indígena – 900 mil pessoas em todo o país, sendo 32 989 no Rio Grande do Sul e 3 308 em Porto Alegre, segundo o Censo de 2010. “No que depender de mim, não tem mais demarcação de terra indígena”, disse Jair Bolsonaro, em novembro de 2018, logo depois das eleições. Após ser empossado presidente, retirou da Funai a responsabilidade pela demarcação de terras indígenas, passando a tarefa para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, chefiado agora por uma líder ruralista, Tereza Cristina Corrêa da Costa Dias. “Essa nova política quer impor algo que vai contra a lei da natureza”, opina o artista. “O momento agora é de colar peças de resistência.”



Gaúcho de Alegrete, Xadalu tem sangue indígena: sua trisavó materna era guarani. Como o pai se negou a reconhecê-lo como filho, em sua certidão de nascimento – ele conta – “está só o nome da minha mãe”. Com ela, a avó e a irmã, Xadalu mudou-se para Porto Alegre quando tinha 12 anos. Foram viver na comunidade da Vila Funil e ganhavam a vida como catadores de lixo. “Eu tinha uma carroça que ia puxando pela rua, minha mãe ficava numa calçada e minha avó na outra, as duas revirando o lixo.”

Na adolescência descobriu a pichação, atividade que achava “muito louca”, pois permitia escrever tudo o que pensava nos muros e paredes da cidade. Em suas andanças, acabou conhecendo índios que pediam dinheiro nas ruas. A identificação foi imediata: tanto por causa da ascendência indígena quanto por achar que, como eles, vivia à margem da sociedade.

Foi também apresentado à sticker art, movimento de espalhar adesivos pelas ruas nascido junto com o grafite. Em 2003, desenhou no computador, com a ajuda de um amigo, o indiozinho que se tornaria sua marca registrada. Em 31 de dezembro daquele ano, começou a imprimir os adesivos. Virou a madrugada cuidando da tarefa. Nas primeiras horas de 2004, saiu às ruas e espalhou 10 mil carinhas em Porto Alegre. “Teve uma baita repercussão”, disse.

Ao indiozinho, deu o nome de Xadalu – a partir de Shadaloo, uma organização criminosa do videogame Street Fighter que pretende “dominar o mundo para proteger a natureza”, segundo o artista. Ele acabou adotando para si o nome do personagem, que também traz tatuado no antebraço esquerdo. Pouco a pouco, a imagem se espalhou mundo afora – sua difusão internacional é tema de um documentário de curta-metragem lançado em 2015, Sticker Connection, do diretor Tiago Bortolini.

Xadalu, 33 anos, é agora parte da cena artística de Porto Alegre. Além de stickers e cartazes, cria serigrafias, colagens, fotografias e pinturas. Há pouco tempo, fez uma badalada exposição individual (Fauna Guarani) na galeria Bolsa de Arte e participou da coletiva O Poder da Multiplicação, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul, ao lado de Carlos Vergara e Regina Silveira, entre outros artistas do Brasil e da Alemanha. A mesma exposição está sendo mostrada em Leipzig, até o dia 23 deste mês. Em abril, será lançado um documentário de longa-metragem sobre a sua vida e seu trabalho, dirigido por Bortolini e Ariel Ortega, Xadalu e o Jaguaretê (palavra que significa “onça-pintada” em guarani). “A arte de Xadalu não vai mudar o mundo, mas pode alterar nosso olhar sobre as coisas”, escreveu o crítico Paulo Herkenhoff no catálogo de uma exposição.

Xadalu vive principalmente dos trabalhos comissionados para exposições, das aulas de serigrafia que oferece e de serviços que faz para uma gráfica de Porto Alegre. Mora nos fundos do próprio ateliê na Floresta, bairro que a avenida Farrapos praticamente divide em dois – uma região mais rica e uma região mais pobre, próxima do rio Jacuí e do Centro, onde ele mora.

Perto de uma escadaria da avenida Borges de Medeiros, uma das mais movimentadas da capital gaúcha, Xadalu estirou um de seus cartazes com imagens de indígenas e começou a colá-lo com cuidado. Com 3 metros de altura por 2 metros de largura, o cartaz estampava a foto preto e branco de uma índia de olhar firme, vestida com uma camiseta branca com o desenho de um sol. Emoldurando a foto, ele colocou a frase “Resistência Mbya-Guarani”.

A índia guarani do cartaz chama-se Laurinda, tem 90 anos e é uma líder espiritual. Na foto, ela segura um bastão de madeira, o takuapu, instrumento que dá acesso à casa de reza de sua aldeia, a Pindó Mirim, na região metropolitana de Porto Alegre. “É uma sábia da aldeia, uma figura central na luta dos índios”, disse o artista, enquanto limpava a cola que escorria das cerdas da vassoura usada para pregar o cartaz.

Naquele domingo, 13 de janeiro, Xadalu contou que nunca prega adesivos e cartazes em prédios históricos. “Já tem arte aí”, justificou. E disse que também evita sobrepor seus trabalhos a algum cartaz ou escrito de protesto. “Se é contra o Bolsonaro não dá para colar nada em cima, tá ligado?”

João Perassolo

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