portfólio

Armas de lucro em massa

Enquanto o Congresso americano discute como tirar as tropas do Iraque, empresas continuam a faturar com a guerra

Christopher Griffith

Os números provocam choque e espanto. Segundo o Serviço de Pesquisa do Congresso americano, o custo da guerra do Iraque (Operação Liberdade Iraquiana, no jargão do Pentágono) e das suas congêneres, a Operação Liberdade Duradoura, no Afeganistão, e a Guerra Global ao Terror, podem facilmente ultrapassar, neste ano, a marca de 600 bilhões de dólares. Por mais que o número pareça assombroso, Joseph Stiglitz, ganhador do prêmio Nobel de Economia, e Linda Bilmes, economista de Harvard, calcularam que o custo real já excede 2 trilhões de dólares. O montante que o Congresso destina todos os anos para as guerras ─ o valor médio de 127 bilhões de dólares ─ é maior do que os mercados globais de sabão, heroína ou jogos de azar. Nas contas do Departamento de Defesa, as guerras no Iraque e no Afeganistão custaram, no ano passado, 6,8 bilhões de dólares por mês. No momento, essa cifra está próxima dos 8 bilhões de dólares por mês.

Se fizesse gastos com essa velocidade, em três anos e meio a General Electric não valeria mais coisa alguma, a fortuna pessoal de Bill Gates se evaporaria em sete meses e a Ford, que vem atravessando dificuldades, deixaria de existir em questão de semanas. Se essas guerras fossem bancadas por um cartão de crédito sem limite, o pagamento da fatura demandaria dinheiro equivalente ao PIB de três Irlandas ou onze Kuwaits, ou ao da Holanda ─ e ainda levaria, de quebra, o Sri Lanka.

Entre os maiores fornecedores do governo estão os nomes de sempre. Como a Boeing, que fornece helicópteros Apache ao preço de 32,7 milhões de dólares cada, em contratos que, no ano passado, totalizaram 20,3 bilhões de dólares. Mas o Pentágono também decidiu alistar as pastilhas M&M’s no complexo industrial-militar, destinando, em 2005, 55 milhões de dólares para a fábrica de chocolate Mars. A Monadnock Lifetime Products, pequena indústria de Fitzwilliam, em New Hampshire, que fornece algemas descartáveis de plástico a 1 dólar cada, teve, no ano passado, uma receita de 1,3 milhão de dólares somente com o que vendeu às forças armadas.

Em vários casos, o Departamento de Defesa tem dificuldade para especificar o que comprou de certos fornecedores. Perguntado sobre um pagamento de 321 milhões de dólares à Altria/Kraft, um porta-voz precisou de duas semanas para explicar que era por “alimentos diversos”. A Altria/Kraft foi incapaz de ser mais específica. Um porta-voz do exército repassou os pedidos de informação sobre compras feitas da Tyson Foods e da Dell a um funcionário de relações públicas da Halliburton, explicando que a última era a melhor fonte para a informação.

 

É surpreendente que uma aventura global desse porte, com custos sem precedentes, tenha provocado estragos tão pequenos na economia dos Estados Unidos. Uma das explicações é que, em vez de fazer desembolsos à medida que os gastos são realizados, grande parte da guerra está sendo financiada por meio de endividamento. E a dívida está nas mãos dos grandes protagonistas da economia global: o Japão, a Europa, a Arábia Saudita e a China.

Até alguma coisa mudar, os campos de batalha no Afeganistão e no Iraque representam uma bizarra vitrine e balcão de negócios para vastos setores da economia global. Como o armário dos sonhos de um adolescente rico, repleto de guitarras elétricas reluzentes, os artigos militares deste portfólio são provas cara,s tangíveis e exóticas do que dá para comprar com 2 bilhões de dólares por semana. Os Estados Unidos terão imensos estoques dessas mercadorias por muito tempo, mesmo depois que o conflito se encerrar. Embora muitos possam se opor à atuação dos EUA no Iraque, boa parte do globo também tem interesse em minimizar o impacto dessa política na economia norte-americana. Com tal nível de dispêndio, a noção de vitória ou derrota militar nem vem ao caso. Em algum ponto além dos 600 bilhões de dólares, é a economia global que, tanto quanto a cidade de Bagdá, pode vir a precisar da proteção de uma zona verde.

Christopher Griffith

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